Campos dos Goytacazes,  14/12/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Guilherme Carvalhal — Gratidão

 

 

 

No seu ateliê, aqueles quadros sem nenhuma expressão. Paisagens urbanas em tons de cinza, naturezas mortas. Clara se frustrava com sua própria inexpressividade. Pensava em construir um estilo próprio, em encontrar a singularidade dos próprios traços, de criar sua identidade. Isso tudo em vão. Desdobrava diante de si uma carreira medíocre, de poucos quadros vendidos, todos a baixo preço. Procurar o concurso público como os pais exigiam se tornaria a solução.

Descendo de lá, o caminho até o ponto de ônibus passava por um beco escuro. Diariamente cruzava por essa área, sempre reticente quanto aos ratos pulando de dentro dos bueiros. E nesse beco que um homem a agarrou e a estuprou.

Os socorristas a atenderam. No hospital, realizaram toda profilaxia necessária e cuidaram de seus ferimentos. Também foi atendida por uma psicóloga. O bandido foi preso e condenado a doze anos de cadeia.

Após algumas semanas de reabilitação, retornou ao seu estúdio. Parou perante a uma tela branca e lascou uma furiosa pincelada com a tinta vermelha. Deixou fluir a incomensurável raiva e ao final considerou bom o resultado. Assim então se dedicou em ritmo frenético, produzindo dez quadros nos quais ela finalmente demonstrou a qualidade desejada desde quando aprendeu e desenhar.

Convidou um conhecido ligado a uma galeria de artes e esse se impressionou com o resultado. Ele organizou uma exposição de Clara e a mesma foi um sucesso, vendendo todos os quadros e recebendo críticas positivas da imprensa especializada. Um renomado colecionador comentou que sua obra retratava os sentimentos da mulher do século XXI e todo seu conflito social, confrontando a opressão do mundo e toda sua violência.

Esse foi o primeiro degrau de sua prestigiosa carreira. Sua produção de quadros se aprimorou, refletindo uma ferida interna que se recusava a estancar. Ela simbolizava a dor que lhe consumia sem nunca conseguir superá-la e com isso alimentava um renome que se convertia em dinheiro. Ao longos dos anos suas obras conquistaram o mercado internacional e ela realizou exposições pelos Estados Unidos e pela Europa. Ela estava entre um dos maiores nomes das artes plásticas brasileiras e conseguia em um único exemplar atingir valores que chegavam a mais de cem mil dólares.

Por todo esse tempo, acompanhou o processo em torno de seu violador. Marcou o tempo que faltava para esse sair da cadeia com um pensamento constante, o do quanto sua passagem breve e doloroso por sua vida lhe causou uma enorme mudança. Avaliava seus prêmios, sua fortuna, seu sucesso e sabia que por trás disso tudo reinava aquele dia fatídico. Caso houvesse uma linha do tempo alternativa onde aquele homem não existisse, estaria condenada à mediocridade de uma vida carimbando papéis em uma repartição.

Justamente por isso, no dia da saída dele na cadeia, ela o aguardou em frente ao presídio. Em suas mãos, um embrulho de presente, singela mostra de retribuição pelo diferencial que proporcionou para ela. Amarrou a fita lilás com esmero, querendo demonstrar toda a importância dele.

Logo ao vê-lo atravessar o enorme portão do presídio, ela acenou sorridente. Frente a frente, ele logo se lembrou da sua efígie com surpresa. Aquela noite mudou os cursos do futuro de ambos e agora, após tanto tempo preso, revê-la consistiu em inesperada situação: jamais diria que seria a primeira pessoa com quem encontraria fora das grades, ainda mais com esse pacote de presente na mão, que lhe oferecia.

Antes que ele pegasse o pacote, ela pediu que esperasse. Clara mesma se encarregou de desembrulhar e de dentro sacou um revólver. O ex-prisioneiro deu um passo atrás, assustado, implorando perdão diante da arma apontada.

Pela cabeça dela percorreram muitas dúvidas, se valeria a pena abdicar de tudo que construiu em prol de uma estranha lei do retorno. Havia um dilema reinante nela, do quanto devia sua carreira ao crime que sofreu, e precisava de alguma forma resolvê-lo. Então apertou o gatilho e descarregou o tambor naquele homem que agonizou e faleceu nas portas da penitenciária sob os olhares silenciosos dos vigilantes.

 

Lula: “Não quero saber quem quebrou o Rio, mas quem vai recuperar”

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Ninguém com senso histórico negará: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é o político mais popular do Brasil desde Getúlio Vargas (1882/1954). Como nenhum dos eleitores que o fazem favorito em todas as pesquisas, na corrida ao Palácio do Planalto de 2018, pode ignorar sua rejeição. Campos testemunhou essas faces de amor e ódio irmanadas na fogueira das paixões, separadas por um cordão de isolamento da PM na noite da última terça (05), durante o comício da praça do Liceu que reuniu cerca de 1,5 mil simpatizantes de Lula, além de 150 militantes do também presidenciável Jair Bolsonaro (PTC). Na tarde de ontem (06), no IFF, onde o ex-presidente cumpriu agenda, a polarização chegou às vias de fato.

Pela manhã, Lula deu uma entrevista exclusiva ao Grupo Folha, transmitida ao vivo na Rádio Continental e em lives no Folha 1 e no perfil do líder petista no Facebook. Neste, até às 22h20 de ontem, o vídeo da entrevista havia gerado 217 mil visualizações, 12,9 mil comentários, 7,4 mil curtidas e 3 mil compartilhamentos. E viralizou também na mídia nacional, onde foi repercutida por Estadão, Folha de São Paulo, UOL, Carta Capital e Brasil 247, entre outros. Lula falou da necessidade de paz, de Previdência Social e da recuperação econômica do Estado do Rio e Brasil. Também nomeou detratores: a Rede Globo, o mercado financeiro, o presidente Michel Temer (PMDB), o juiz federal Sérgio Moro e o TRF-4, cujo julgamento, previsto até abril, ameaça sua pré-candidatura pela Lei do Ficha Limpa. Antes ou depois, “eles têm um metalúrgico que foi presidente, que não tem diploma universitário, que está disposto a recuperar este país”.

 

(Foto: Diomarcelo Peçanha)

 

 

Folha — Presidente, a pesquisa mais recente do Data Folha, feita em 29 e 30 de novembro e divulgada agora, no dia 2, com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos, colocou o senhor à frente, em vários cenários, de primeiro turno, com 34% a 37%, variando os cenários. É mais do que o dobro do segundo colocado, que é Bolsonaro, que varia de 17% a 18%. O senhor também vence nas três simulações de segundo turno: com Marina, em menor vantagem, 48% a 35%; Bolsonaro, 51% a 33%; e Alckmin, 32% a 30%. A que o senhor atribui essa vantagem tão grande nas pesquisas?

Lula — Primeiro, Aluysio, queria cumprimentar os ouvintes da rádio Continental, do programa Panorama Continental, e dizer aos nossos ouvintes que as pesquisas feitas com um ano de antecedência das eleições, elas apenas servem como amostragem, mas não têm valor muito forte porque muitas coisas podem mudar até outubro de 2018. Eu penso que as pesquisas me dão vantagem pelo reconhecimento que o povo tem, das lembranças que ele tem do nosso governo. Efetivamente, o povo tem consciência de que o Brasil viveu, no meu período de presidente da República, um dos melhores momentos da sua história. O país cresceu, se desenvolveu, fez inclusão social. O Brasil gerou empregos, aumentou salário, fez o programa “Minha Casa, Minha Vida”. O programa fez investimento de infraestrutura. Eu posso dizer para você, sem medo de errar, que o Estado do Rio de Janeiro nunca recebeu a quantidade de investimentos, desde a sua criação, como no meu governo. Nunca. Nenhum presidente colocou, no Rio de Janeiro, a quantidade de dinheiro que eu coloquei para fazer as obras que o Rio de Janeiro precisava. Investimento em pesquisa para que a Petrobras se transformasse na segunda empresa de petróleo do mundo, que eles estão destruindo. Pesquisas para que a gente descobrisse o pré-sal. A recuperação da indústria naval carioca, os investimentos nas universidades e nas escolas técnicas. Então, tudo isso, na verdade, o povo começa a se lembrar. E quanto mais for chegando a data da disputa, o povo começa a lembrar. É como futebol. Quando o Flamengo está disputando alguma coisa na final, o pessoal começa a lembrar: “em 81, ele foi campeão da Libertadores; em 81, ele foi campeão do mundo”. E o povo vai começar a lembrar que, no nosso tempo, andava de cabeça erguida aqui no Rio de Janeiro, que era mais feliz. Que, em Campos, tinha mais emprego. Que, em Campos, tinha mais aumento de salário. Não havia a desordem, o baixo astral e a desesperança que têm hoje. Então, é isso que me dá essa vantagem. E, ao mesmo tempo, o povo começa a perceber que, quando eu cheguei ao governo, em 2002, do ponto de vista da inflação e do desemprego, os níveis eram iguais ou piores do que são hoje. Eles diziam que eu não ia conseguir governar o Brasil, que o Brasil estava quebrado, que o Brasil estava devendo ao FMI, que o (ex-ministro da Fazenda, Pedro) Malan ia todo final de ano aos Estados Unidos buscar dinheiro para fechar o caixa. Isso acabou. Nós resolvemos o problema. O Brasil deixou de ser devedor do FMI e passou a ter quase US$ 400 bilhões  de reserva. O Brasil passou a ser protagonista internacional. Isso, o povo vai lembrando. E olha que não é por falta de o Lula apanhar. Porque, se tem um cara que toma chibatada da imprensa brasileira, das 5h à 0h, sou eu. Abre todos os jornais de todas as rádios e de todas as televisões, todas as revistas. E eu estou muito tranquilo. Porque quem tem a consciência tranquila sabe que, quando um cachorro late para ele, não pode ficar latindo para o cachorro. Passa e vai continuar a sua vida tranquilo. Aliás, eu queria aproveitar, Aluysio, e dizer que está comigo, aqui, o senador Lindbergh e o nosso querido Zé Maria, petroleiro e nosso presidente da FUP.

 

Folha — O senhor então compara o período em que foi presidente, para o brasileiro, como foi, para o flamenguista, o Flamengo de Zico de 81. É mais ou menos isso?

Lula — Eu acho que foi o melhor momento do povo brasileiro. Vamos relembrar que, quando eu deixei a presidência, a economia estava crescendo a 7% ao ano (PIB  de 7,5% em 2010). Vamos lembrar que o comércio varejista estava crescendo a 12% ao ano. Vamos lembrar que o povo tinha acesso a crédito consignado a juro muito barato. Nós saímos, Aluysio, para você ter ideia do número, de R$ 368 bilhões que o Brasil tinha disponibilizados para crédito, entre bancos públicos e privados, para R$ 2,7 trilhões. Mas só para você ter ideia de que nós aumentamos, em mais de cinco vezes, o número de dinheiro disponibilizado para emprestar para as pessoas. Nós fizemos um milagre de ter uma microeconomia ligada ao pequeno empreendedor individual, ligada ao trabalhador, que aumentava o salário. O salário mínimo aumentou em 74%. As pessoas passaram a ser cidadãs de primeira categoria.

 

Folha — Ascenderam socialmente.

Lula — Isso. Fez com que o pessoal ascendesse um degrau na escala social desse país. O povo começou a comer melhor, a comer carne de primeira, a ir a shopping, onde só ia gente chique antigamente. O povo começou a viajar de avião, a fazer uma sala, um banheiro, um puxadinho a mais na sua casa. O povo começou a ter sonho de comprar casa. No Nordeste, o povo trocou o jumento por uma motocicleta. Essas coisas mexeram com a alma do nosso povo. Eles sabem que é possível fazer isso. E eles sabem que só é possível se tiver um presidente que conheça a alma desse povo. Que conheça profundamente. Veja uma coisa que aconteceu agora, Aluysio. Você sabe que eu fiquei oito anos na presidência e não aumentei o gás de cozinha uma única vez. O Temer, em sete meses, já aumentou em 68 %. O gás de cozinha é um produto da cesta básica para quase 29 milhões de famílias neste país. Portanto, ele não pode ser aumentado do jeito que está aumentando. Tem lugar do país em que o botijão de gás de 13 litros está custando R$ 105. Tem lugar neste país em  que custa R$ 94. O mais barato está a R$ 75. É quase 10% do salário mínimo.

 

Folha — O senhor falou isso no comício ontem…

Lula — É uma vergonha. Primeiro, você manda um medida provisória para o Congresso, que não sei se foi aprovada ontem, que o Temer mandou, inventando de pagamento de imposto tudo que é derivado de royalties de gás e de petróleo que você importa. Você inventou imposto zero para as empresas multinacionais que vieram para cá explorar o nosso pré-sal, comprar sonda, plataforma e navio. É tudo imposto zero. E aumenta em 68% o gás de cozinha. Ou seja, é, mais uma vez, o povo trabalhador, o povo pobre deste país pagando a conta, para dar e garantir privilégios à parte mais rica deste país. O Temer faz discurso de que é preciso conter gasto, conter gasto, conter gasto. Vocês, da imprensa, disseram, há um mês, que duas votações que a Câmara fez para manter o Temer no poder custou R$ 30 bilhões aos cofres públicos.

 

Folha — De emendas (parlamentares).

Lula — E quem foi o beneficiário? A elite brasileira e a bancada ruralista. Enquanto isso, o povo tem aumento de gás, aumento da gasolina, aumento do óleo diesel. Aumentou pouco a gasolina? Aumentou 20%? E quanto aumentou o salário? Pergunte para um petroleiro quanto ele teve de aumento este ano. Pergunte quanto foi feito de investimento na educação neste país. E você vai perceber que eles estão voltando à velha prática de tudo para quem tem e nada para quem não tem.

 

Folha — Crescer o bolo para depois dividir.

Lula — Não. Eles vão comer, não vão dividir. Eu, na década de 80, contava a seguinte ideia, Aluysio: o Delfim Neto dizia que era preciso o bolo crescer para, depois, dividir.

 

Folha — O “Milagre Econômico”.

Lula — E o bolo cresceu, cresceu, cresceu, e eles comeram. Para o povo, sobrou aquelas bolinhas de chumbo que eles colocavam.

 

Folha — Além do gás de cozinha, no comício de ontem da praça do Liceu, o senhor bateu, também, na grande mídia, em Jair Bolsonaro (PTC) e em Sérgio Moro. O senhor chegou a falar que queria que…

Lula — Eu não bati em ninguém.

 

Folha — O senhor criticou.

Lula — Eu citei coisas. Apenas disse que desafiava o juiz Moro…

 

Folha — A provar alguma coisa?

Lula — O Ministério Público e a Polícia Federal a mostrarem ao povo brasileiro um dólar, um real que não seja do resultado do meu trabalho, da minha vida. Porque, até agora, já provei minha inocência e, ainda assim, eles, sem provas, me condenaram. Isso está virando uma coisa assim: quem tem que provar sua inocência é o acusado. Quem acusou não precisa provar nada. Então, tenho desafiado Moro nisso. A segunda coisa que tenho dito é que, se eles não querem que eu volte a ser presidente da República, eles que disputem as eleições. Tem tanto partido. Eles podem criar mais um e disputar as eleições.

 

Folha — O senhor fala isso em relação a Moro?

Lula — Em relação a todo mundo. Porque não é só o Moro que não quer. O Moro é um instrumento. Eles não querem que eu dispute as eleições. Porque este país não aceita que pobre tenha ascensão social. Este país não aceita que empregada doméstica tenha filha na universidade. Este país não aceita que pedreiro tenha filho estudando engenharia. Este país não aceita que cortador de cana possa virar advogado ou diplomata. O fato de eles não gostarem da ascensão dos mais pobres é uma burrice porque, quanto mais os mais pobres ascenderem, mais eles também ganham dinheiro. Eu tenho dito o seguinte: se não querem que eu seja candidato à presidência da República, disputem as eleições. Eu já perdi três eleições: para o Collor.

 

Folha — Para o Fernando Henrique. 

Lula — Duas para o Fernando Henrique Cardoso. Eu votei tranquilo para casa, não xinguei ninguém, não fiz passeata, não fiz protesto. Não tentei, como Aécio, anular as eleições, como ele tentou anular as eleições da Dilma. Não plantei ódio neste país. Eu voltei e me preparei. Depois de três derrotas, fui eleito. Com muita paciência. Agora, se eles não querem, é só disputar. Se, na urna, eu for derrotado, vou voltar para casa. Como diria nosso querido e saudoso Brizola: vou lamber minhas feridas. Mas disputem.

 

(Foto: Diomarcelo Peçanha)

 

Folha — No comício da praça do Liceu, o senhor também fez analogias críticas com Bolsonaro. Disse que, enquanto alguns candidatos prometem mais cadeias, o senhor quer fazer mais escolas.

Lula — Não sei se foi ele que falou isso. Mas é que eu tenho ouvido muito. Eu sei que tem violência no Rio de Janeiro, mas não é só no Rio de Janeiro. A violência está espalhada Brasil afora. E, quanto mais pobreza tiver, quanto mais desemprego tiver, quanto mais o salário for arrochado, mais vai aumentar a violência. Se você gera emprego, gera salário. Se gera salário, gera consumidor. Se gera consumidor, gera mais um emprego, mais um salário, mais um consumidor. O que vai acontecer? Um jovem que está trabalhando, recebe um salário e pode comprar um celular bonito, ele não tem por que assaltar uma pessoa para roubar um celular. Não tem por que assaltar uma pessoa para roubar um tênis, uma blusa. Então, eu tenho dito que o trabalho e a educação são 50% do desmonte da violência que está espraiada neste país. Se um adolescente levanta com esperança, com sonho; se ele vê que o pai e a mãe dele estão trabalhando e que, em casa, tem comida e que ele está na escola, ele não vai roubar. Há mais de 20 anos, eu tinha um filho que, quando a gente comprava tênis para ele ir para a escola, que é em frente à minha casa, ele raspava o tênis calçada para ficar velho.

 

Folha — Para não ser assaltado.

Lula — Para não ser assaltado. Olha, se você dá condições de essas pessoas trabalharem e ganharem um salário, essas pessoas não vão precisar assaltar do jeito que estão fazendo hoje. Outra coisa, ouvi um cidadão dizer, que eu não vou citar o nome, em uma reunião com fazendeiro: “vou dar fuzil para vocês, vou dar armas para vocês”.

 

Folha — No comício de ontem, presidente, o senhor citou isso e falou que preferia dar terra a quem não tinha.

Lula — Meu Deus do céu! Como você vai encontrar a paz se está estimulando a violência, o ódio, estimulando a disseminação do preconceito? Eu penso, Aluysio, o que eu sonho, na verdade, é que a gente possa restabelecer a tranquilidade neste país. As pessoas têm que aprender que a gente pode ter divergências, pode não concordar; que um  vascaíno pode assistir a um jogo sentado ao lado de um flamenguista e cada um gritar “gol” na hora que sair o gol e ir para casa tomar cerveja juntos, sem precisar brigar. Eu sou do tempo em que a gente ia para o estádio, todo mundo junto.

 

Folha — Tempo da geral.

Lula — Cada um com a camisa do seu clube. Aí, inventaram torcida organizada. Os times começaram a estimular, a dar ingresso gratuito. A quem interessa essa briga? Porque aquele cara que é da torcida organizada do Flamengo mora na mesma rua do cara da torcida organizada do Vasco. As famílias se conhecem. Então, ficam disseminando ódio e, depois, não sabem como tratar. A minha tese é a seguinte: quem planta vento colhe tempestade. E eu quero plantar tranquilidade, uma brisa. Este país tem um povo alegre, um povo feliz. Como é que eu posso aceitar a crise do Rio de Janeiro? Um estado com que eu assumi um compromisso, em 2006, no primeiro comício que fiz aqui, de que eu iria ser o presidente da República que mais iria colocar dinheiro para investimento em infraestrutura no Rio de Janeiro. E fiz isso. Você não sabe o orgulho que eu tenho, Aluysio, de ver aquelas pessoas das favelas serem contratadas para trabalhar no PAC. Mulheres, homens e adolescentes trabalhando vestidos com a camisa do PAC, ganhando seu dinheiro honesta e dignamente, porque é isso que dá tranquilidade. Você não sabe a alegria que eu tenho da recuperação da indústria naval brasileira. A indústria naval brasileira, quando eu disputei as eleições em 2002, só tinha dois mil trabalhadores. Os metalúrgicos de Angra dos Reis vendiam cerveja no isopor, na praia, porque não tinham emprego. Nós recuperamos a indústria naval. Ela chegou a ter, no ano passado, 82 mil trabalhadores. Já caiu para 38 mil. Eles querem acabar. Eles querem que a gente compre navio da China, da Coreia. Que a gente compre sonda da Petrobras da China, da Coreia, de Cingapura, sem pagar imposto, emprego e conhecimento tecnológico. Este país nunca será um país independente. Nunca será um país soberano porque a elite brasileira tem complexo de vira-lata. Ela acha que é pequena, que não pode. Tudo tem que depender dos Estados Unidos, da Alemanha. Não. Nós temos que depender de nós. Temos que ter orgulho, amor próprio. Temos que fazer as coisas corretamente neste país. E eu provei que é possível fazer isso. É por isso que o povo começa a perceber que, se quiser consertar este país, tem um metalúrgico que foi presidente, que não tem diploma universitário e está disposto a recuperar este país.

 

Folha — Além da questão política e eleitoral, há a questão jurídica. Inicialmente o TRF-4 tinha previsão para julgar até agosto seu recurso à condenação de Moro. No domingo (03), o Lauro Jardim noticiou em O Globo que o prazo foi abreviado para março ou abril. Ontem (05), saiu a notícia de que o relator do caso, João Pedro Gebran Neto, já teria encaminhado o voto sobre o seu recurso  ao revisor. Como o senhor enxerga isso? Qual é a sua expectativa?

Lula — Aluysio, na verdade, prefiro nem enxergar. Desde que começou essa bandidagem comigo, essa cretinice…

 

Folha — Quando o senhor fala em bandidagem, se refere a quê?

Lula — Eles inventaram uma mentira. O procurador (da República, Deltan) Dallagnol inventou uma mentira. Ele construiu a tese do power point. E, com base na tese do power point, ele fica procurando coisas para tentar jogar dentro do balaio. E obriga os empresários a dizerem que todo o dinheiro que utilizou em campanha é propina. Que as contas que os empresários têm na Suíça não são evasão fiscal; são propina. E, até agora, o máximo que eles conseguiram foi o cara dizer “o Lula sabia, o Lula sabia”. Ora, eu estou muito tranquilo porque estou desafiando eles a provarem alguma coisa. Não venham com essa de que “Lula sabia”. Porque, aqui mesmo, em Campos, no Rio de Janeiro, e em São Bernardo do Campo, deve ter muita gente falando em meu nome. Quando você fica famoso, todo mundo vira seu amigo, todo mundo fala em seu nome, todo mundo vende uma coisa no seu nome. Então, eu tenho a consciência muito tranquila. Por que eu não me preocupo? Porque, desde que começou esse processo, os caras falam que eu tenho que ser condenado. A peça do Moro me condenando é, segundo todos os advogados que leram, simplesmente ridícula. Ela não tem sustentação jurídica em nenhum lugar. Ela tem sustentação nos pares do Moro. Então, quando cai na mão desse juiz Gebran, eu estou lendo todo dia que eu já estou condenado. Se eu ficar preocupado com isso, não durmo. Então, prefiro deixar ele fazer o serviço dele. Ele tem responsabilidade, tem mais de 30 anos de idade. Ele estudou direito, fez um concurso, virou juiz.

 

Folha — O Moro?

Lula — Eu não sei o que ele é também. Mas deve ser a mesma coisa. Então, deixa ele julgar. Não vou ficar batendo boca. Quem bate boca são os meus advogados. Eu vou continuar trabalhando. O que quero dizer para você é o seguinte: se o PT quiser, eu estarei candidato a presidente da República. E quero dizer para eles: querem disputar as eleições comigo? Se filiem. Participem de um partido político. Vamos disputar ideias. Eu fico indignado, meu caro. Esses caras invadiram a minha casa, levantaram o colchão da minha cama. Esses caras estavam com máquinas de fotografia penduradas no peito, achando que iam encontrar barra de ouro, dólar, euro, real. Eles não encontraram nada e tiveram a desfaçatez de não pedir desculpas ao povo brasileiro. Como eu posso respeitá-los se eles não me respeitaram? Então, é o seguinte: eu estou na disputa. Estava até tranquilo. Você está me vendo aqui. Parece que eu tenho 30 anos. Eu tenho 72. A minha energia é de 10, agora. A única coisa que posso fazer é defender a minha honra e dizer ao povo brasileiro que este país tem solução no dia em que ele tiver um presidente que tenha credibilidade. Anote bem: ninguém governará este país se não tiver credibilidade junto à sociedade. E credibilidade você adquire com o seu comportamento. Primeiro, sendo presidente eleito democraticamente pelo povo. Segundo, não atender a interesses menores. Alguém tem que governar para todos. E governar para todos significa que, dentro desses todos, o povo trabalhador e o povo pobre são os mais necessitados. É para esses que temos que governar de forma privilegiada. É para esses que temos que fazer isenção de impostos, aumento de salário. É para esses que a gente tem que abrir vagas nas universidades e nas escolas técnicas. É por isso que eu quero governar. Acho que o Brasil pode virar uma grande potência se a gente investir em educação. Aluysio, eu vim aqui, em Campos, por causa do símbolo. Você já me ouviu falar, muitas vezes, “porque foi o presidente Nilo Peçanha que, em 1909, abriu a primeira escola técnica da cidade de Campos dos Goytacazes”. Pois bem. Em 100 anos, eles construíram 140. Nós, em 12 anos, construímos 500. Por quê? Porque nós, em 12 anos, colocamos mais jovens na universidade do que eles em 100 anos. E porque não existe nenhuma possibilidade de o Brasil virar uma grande potência econômica se não investir em educação. Não é exportando soja e minério de ferro que a gente vai ser uma grande potência. A gente vai ser uma grande potência quando a gente exportar conhecimento, inteligência; quando a gente estiver transformando a nossa inteligência em um produto que tenha valor agregado. E isso tem que ter muita educação, porque tem que ter competitividade nos preços, na qualidade. Isso só vem com a educação. É por isso que eu, embora tenha sido o presidente brasileiro que não teve diploma universitário, sou o presidente que mais fez universidades na história deste país. E tem que fazer muito mais. É preciso abolir a palavra “gasto” quando se fala em educação. Educação é investimento. E investimento para sempre. Uma empresa que você financia pode quebrar, pode pedir falência, mas o cidadão que tem diploma de engenheiro nunca vai esquecer o que aprendeu, e, portanto, o Brasil terá um técnico para sempre.

 

Folha — O senhor falou que está defendendo a sua honra. Mas qual é o seu principal objetivo ao tentar voltar para a presidência?

Lula — Eu acho que o PT tem clareza de que a minha volta à presidência pode fazer com que o trabalhador deste país volte a sonhar. O que a gente não pode mais assistir, por exemplo, é alguém achar que o problema do Brasil é a Previdência Social e, sobretudo, a parte mais pobre do povo brasileiro. Se você conversar com a professora Laura Conceição, você vai ouvir dela o seguinte dado: de 2004 a 2014, quando a gente gerou 20 milhões de empregos, formalizou 6 milhões de pequenos empreendedores individuais e aumentou, todo ano, o salário das categorias acima da inflação e o salário mínimo, a Previdência Social foi superavitária. Quando eles falam que a dívida pública cresceu em relação ao PIB, só tem um jeito de a dívida pública diminuir: aumentar o PIB. Tem que ter investimento. E, para ter investimento, o Estado tem que ser indutor. Os bancos públicos têm um papel importante. Na crise de 2008, quando eu falei que era marolinha, o que eu fiz?

 

Folha — Usou BNDES e Caixa para expandir o crédito.

Lula — BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica. O banco Votorantim era o que mais financiava a carteira de carro usado. Porque o pobre, para comprar um carro novo, ele vende o carro usado. Ele vende o dele para comprar outro novo. O que nós fizemos? Compramos 50% do banco Votorantim para que a gente pudesse financiar carro. Financiamos até motocicleta. Você incentiva a empresa a vir para cá para produzir. Depois, você não garante que o povo tenha dinheiro para comprar, para que vai produzir? Se não tem quem compre. Então, tem que financiar para o povo comprar.

 

 

(Foto: Diomarcelo Peçanha)

 

 

Folha — Como presidente, o senhor passou a usar os bancos públicos para estimular o crédito e o consumo, numa forma de enfrentar a grave crise econômica internacional de 2008. Mas acha que a solução ainda é por aí? Não teria que ser uma medida específica ao período de crise?

Lula — Deixa eu te dizer uma coisa. De vez em quando, eu ouço alguns discursos de que “a política econômica do Lula foi baseada em consumo. É preciso fazer uma política baseada no desenvolvimento industrial”. Agora, veja, você acha que alguém irá implantar uma fábrica em Campos se não tiver consumo para o produto que vai ele vai fabricar? Por que ele iria fazer uma fábrica aqui? Para fazer estoque? Não. As duas coisas caminham juntas. Eu só produzo se tiver consumo. E eu só consumo se tiver produção. Qual é o agravante? É que você pode importar a coisa mais barata. Então, na OMC (Organização Mundial do Comércio), nós fizemos um acordo que, quando queremos dificultar o produto a entrar no Brasil, você tem a possibilidade de aumentar em até 35% o imposto daquele produto. Tem gente que fala que é preciso fechar as importações da a China. Tudo bem. Só que é uma política de duas mãos. Quem é que compra mais do Brasil?

 

Folha — A soja para a China.

Lula — É a China. Então, se a gente quiser proibir a China de exportar para a gente, a China vai criar problema com as nossas exportações.

 

Folha — A China é o nosso maior parceiro comercial.

Lula — Então, tudo se resolve em uma mesa de negociação. Tudo se resolve se o Brasil tiver competência de estabelecer parcerias estratégicas, e a gente estimular o consumo. O Brasil tem um mercado de 207 milhões. Têm pessoas ansiosas para comprar e não têm dinheiro. Tem gente que fala: “vamos, então, exportar”. Exportar não depende do Brasil. Depende da nossa capacidade de produção, de produzir com qualidade, de competitividade, de preço no mercado internacional e depende de você querer comprar aquilo que eu quero te vender. O mercado interno, não. O mercado interno é a única garantia que você tem. Se tiver produtos a preços compatíveis, as pessoas vão comprar. As pessoas vão entrar no shopping, vão comprar carne de qualidade, produtos de qualidade, vão trocar de carro, televisão, computador, roupa. Esse é o teu mercado interno. Para vender, você tem que ir lá e convencer as pessoas de que teu produto é melhor, é mais barato. Todo mundo quer vender e pouca gente quer comprar. Então, o problema do desafio do Brasil é a gente acreditar em nós mesmos. Por isso que estamos investindo na educação. Por isso que essa região recebeu muitos institutos federais. Porque, para nós, a educação é a base fundamental. Não pode, em um país, dizer que o governo empresta R$ 1 bilhão para empresário e é investimento e o governo financia uma bolsa de estudo de R$ 2 mil e é gasto. Que história é essa? Quem é que disse que é gasto fazer investimento em bolsa para estudante estudar? Esse jovem, quando se formar, ele vai retribuir ao Brasil muitas alegrias e muita qualidade naquilo que a gente faz. Então, eu acho que nossa volta à presidência deste país é a possibilidade que a gente tem de ser feliz outra vez, de acreditar no Brasil. De saber que os poços de Campos não vão ser fechados porque estão produzindo menos. Você investe mais! No mundo inteiro, é assim. Agora, por conta do pré-sal, você começa a abaixar a produção aqui. Porque, quando nós descobrimos o pré-sal, sabe o que eles diziam para nós, Aluysio? Que o pré-sal era impraticável porque estava muito fundo e era muito caro. Sabe a quanto que a gente, hoje, tira o barril de petróleo, de seis mil metros de profundidade? A U$ 8,5 dólares. Sabe a quanto que se tira o barril de petróleo na Arábia Saudita, que é quase à flor da terra? A US$ 6,5. O tal do gás do xisto americano, do petróleo americano, da gasolina americana que ia sair do gás do xisto, ou seja, que ia ser o mais barato do mundo, é três, quatro vezes mais caro do que o nosso pré-sal. Então, toda essa bagunça que está no Brasil, todo esse comportamento. Veja, eu tenho indignação com o comportamento da Lava Jato. Porque a Lava Jato poderia estar prendendo a pessoa jurídica, poderia estar prendendo o empresário que roubou.

 

Folha — Mas ela não prendeu?

Lula — Mas ela não poderia prender a empresa. Porque quem está pagando o pato na indústria naval são os trabalhadores. Já tem mais de 50 mil sendo mandados embora. Quando você quebra as empresas brasileiras, quem ganha com isso? Prendam o dono, prendam a pessoa física e libertem a pessoa jurídica para continuar fornecendo emprego e salário. Coloquem uma comissão para julgar a concorrência daquelas empresas, mas você não pode matar quem gera emprego. Você não pode matar a indústria naval, a indústria de óleo e gás, de engenharia. A troco do quê? Quem é que assume a responsabilidade pela quantidade de milhões de pais de família, que nunca souberam que o patrão deles estava roubando e, de repente, são mandados embora porque o patrão roubou?

 

Folha — O senhor não colocou isso para o Moro em audiência?

Lula — Eu coloquei. Eu acho que o Moro é surdo. Eu acho que ele não ouve nada que eu falo. Nem ouve as testemunhas. Eu levei 83 testemunhas. Nem as testemunhas deles me acusaram. Mas eles ficaram subordinados à Rede Globo de Televisão. Essa é a verdade e esse é o grande erro da Lava Jato: se subordinar aos meios de comunicação. Primeiro, eu condeno com a manchete. Depois, vamos ver o que a gente faz.

 

Folha — O Estadão andou muito à frente na Lava Jato. Acho que até mais do que a Globo.

Lula — Muito. O grande problema é que o Estadão tem pouca repercussão. O problema é que a Globo tem mais repercussão. Alguns jornalistas privilegiados recebem as informações antes dos advogados.

 

Folha — O Fausto Macedo.

Lula — O Fausto e outros. O que acontece é que você não precisa de prova. Eu desconfio que o Aluysio está cometendo alguma improbidade na rádio em que ele trabalha. Ora, aquilo vira manchete: “Aluysio cometeu improbidade”. Aí, você vai ter que passar a vida provando que não cometeu, meu caro.

 

Folha — Falamos de Moro, um pouco e Bolsonaro e há outros candidatos na corrida. Eu queria saber quem o senhor encara como seu maior adversário e seu maior aliado nesta tentativa de voltar à presidência em 2018?

Lula — Quem está sendo, neste instante, o meu maior adversário é a Globo, que tentou até lançar o Luciano Huck. Quem sabe ele conseguisse fazer a Míriam Leitão ser a ministra da Fazenda e o William Waack, ministro da Igualdade Racial? Aquele (Carlos Alberto) Sardenberg iria ser presidente do Banco Central. Ele era o sonho da Globo. E tudo que eu queria era enfrentar um candidato com o logotipo da Globo. Não sei se eles vão ter um candidato, mas eles vão ter. E outro é o tal do mercado. Todo dia, eu ouço dizerem: “o mercado não quer o Lula”, “o mercado não sei das quantas”, “o mercado está preocupado”. Eu é que estou preocupado com o mercado, não é ele que está comigo. Eu estou preocupado porque estão mentindo neste país. E, muitas vezes, fazem matéria de jornal, de primeira página, para poder viver de especulação. E eu aproveito aqui, na tua rádio, para dizer: o mercado precisa viver do resultado do trabalho da nação, e não do resultado da especulação. Porque os banqueiros ganharam dinheiro no meu governo, os empresários ganharam dinheiro no meu governo, a classe média ganhou dinheiro no meu governo, o trabalhador ganhou dinheiro no meu governo. E isso vai continuar acontecendo. Eu vou ser presidente de todos. Agora, todo mundo tem que saber que as pessoas mais pobres serão tratadas com o carinho de que precisam. E vou te dizer mais uma coisa: o Rio de Janeiro vai voltar a receber investimentos. Eu não quero saber quem é que quebrou o Rio de Janeiro. Eu quero saber quem vai recuperar o Rio de Janeiro. Porque, se a gente ficar discutindo quem deu o tiro e não for levar a pessoa para o hospital para parar o sangue, ela vai morrer. Então, o Rio de Janeiro não merece estar passando pelo que está passando. Nem a cidade de Campos, nem a cidade do Rio de Janeiro, nem o Estado do Rio de Janeiro. E o governo federal tem que assumir a responsabilidade de sentar com o governo do Estado, seja ele quem for, e discutir um plano de recuperação do Rio de Janeiro. E tudo isso começa com geração de empregos. Dê emprego a esse povo que você vai perceber que o povo vai voltar a sorrir.

 

Folha — O povo é o seu maior aliado?

Lula — Eu acho que o povo é aliado de todas as pessoas. Porque você sabe que eu tenho como concepção de governança que eu não sou o dono do Brasil. Por isso, quando eu era presidente, fiz 74 conferências nacionais para que o povo decidisse as políticas públicas que eu tinha que colocar em prática. Eu fiz conferência de comunicação, de segurança, de portador de deficiência física, de hansenianos, de negros, de índios, de LGBT, da saúde. Porque eu queria ouvir da sociedade aquilo que ela entendia que era importante a gente fazer para o Brasil. O problema é o seguinte, meu caro, você não pode ter um presidente da República governando para meia dúzia de pessoas. Vou te dizer uma coisa: nenhum presidente da República eleito democraticamente, que tivesse tido 99% dos votos neste país, teria a desfaçatez de desmontar o Brasil como o Temer está desmontando. O Temer está fazendo isso porque ele é um presidente que não tem um pingo de respeitabilidade moral. Na pesquisa, ele aparece com 1% de intenção de voto. Tem 97% de rejeição. Este cidadão está fazendo o que está fazendo porque ele se prestou a ser presidente como resultado de um golpe para vender este país. Então, tem que vender a Petrobras, acabar com a lei de partilha, isentar os ricos para fazer um monte de coisas, enquanto os pobres voltam a comer o pão que o Diabo amassou. E é com isso que nós vamos acabar. As pessoas mais pobres deste país têm o direito de, no final de semana, comer um churrasco, com picanha, com alcatra, com filé, e tomar uma cervejinha gelada. É um direito que ele tem. Quem bebe, obviamente. Quem não bebe, pode fazer outra coisa. Este povo tem o direito de pegar sua família e ir ao shopping, a uma praça de alimentação. Este cidadão tem o direito de pegar sua família e ir para o aeroporto, para a classe média alta ficar dizendo que o aeroporto parece uma rodoviária. Olha, se não quer ir ao aeroporto-rodoviária, vai para a rodoviária e pega um ônibus. Ah, não quer andar na rua porque está cansado e tem muito carro. Lá em São Paulo, às vezes, eu era xingado: “esse Lula é um desgraçado  porque pobre tem carro e entupiu a rua de São Paulo”. Deixa a rua para os pobres e vai pegar um ônibus. Será que as pessoas que trabalham não têm direito neste país? Então, é isso, Aluysio, que eu quero provar para o povo: todo mundo tem direito. O dono da Pirelli tem direito, o da Fiat tem direito, o da Volkswagen tem direito, o do Pão de Açúcar tem direito. Todo mundo tem direito. Eu só quero que o pobre tenha direito, que ele tenha oportunidade, que ele possa sonhar que o filho dele vai ter um diploma de doutor porque o governo vai garantir a oportunidade para ele estudar. É isso que me faz voltar à presidência da República. É por isso que eu vou sair para a rua para pedir voto para esse povo. E, quem quiser me derrotar, dispute. Ou faça uma coisa qualquer. Eu estou disposto a qualquer coisa.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Ricardo André Vasconcelos — A vítima perdeu o palco

 

Cena emblemática de um político sem limites: caçapa de camburão

 

 

Assim como as relações espúrias entre empreiteiras e agentes públicos escancaradas na Lava Jato, há muito se sabia que o mesmo se repetia na Planície Goitacá. Por falta de aviso é que não foi: por diversas vezes a chamada “mídia alternativa”, especialmente os blogs, denunciou relações suspeitas entre construtoras, prestadoras de serviços e a municipalidade, sem nenhuma providência efetiva dos órgãos de controle. Eram contratos milionários e aditamentos (de valores e prazos) cujos extratos dos contratos eram printados diretamente do Diário Oficial e divulgados, mas sem tirar da inércia os que deveriam, no mínimo, proceder a abertura de investigação.

O caso da Working Empreendimentos é emblemático porque até as pedras portuguesas do Bouvelard Francisco de Paula Carneiro sabiam que havia algo de errado na onipresença da empresa nos contratos da municipalidade. Era uma empresa polivalente e tinha contrato para reforma e manutenção de escola, obra de drenagem, venda de abrigo de passageiros, aluguel de equipamento e montagem de palco e banheiros químicos. Mas foi outra empresa do grupo, a Ocean Link Solutions Ltda que ganhou fama nacional ao emitir nota fiscal fria para encobrir doação ilegal da JBS à campanha de Garotinho em 2014 e puxou o fio de uma meada que chegou de um esquema de extorsão e arrecadação eleitoral ilegal que levou à cadeia, além do casal Garotinho, dois ex-secretários municipais, empresários locais e o ex-ministro dos Transportes do Governo Dilma, Antônio Carlos Rodrigues (ex-senador e atual presidente nacional do PR) e o genro dele.

A investigação só chegou tão longe porque o empreiteiro André Luiz da Silva Rodrigues, Deca, fez acordo de colaboração com o Ministério Público revelando, entre outras ilegalidades, que o então secretário de governo da Prefeitura de Campos, Anthony Garotinho, teria exigido R$ 5 milhões de empreiteiros para sua malsucedida campanha pelo governo do Estado em 2014. Há notícias de que os outros quatro participantes da “reunião dos R$ 5 milhões”, que teria sido realizada no escritório da campanha na torre Rio Sul, no Rio de Janeiro, confirmariam a delação de Deca. Segundo a denúncia do MP, o atual deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB), à época aliado e coordenador da campanha, estava presente e foi arrolado para depor, como testemunha, no próximo dia 18. Se os empreiteiros e Pudim confirmarem o relato do delator, a temporada de Garotinho na cadeia de Bangu tende a se estender. Salvo providencial ajuda do TSE, especialmente do ministro Gilmar Mendes, presidente da Corte e responsável pelo plantão durante o recesso judiciário que começa no próximo dia 20.

Durando mais alguns dias ou meses, a prisão de Garotinho é resultado de sua opção de fazer política de forma obsessiva e testando o limite das pessoas, das instituições e da própria capacidade de sair das situações que cria. Ainda é cedo para dizer que sua meteórica carreira chegou ao fim, mas ao completar nesta quarta-feira, dia 6, duas semanas preso numa cela de Bangu, é possível concluir que vai precisar se reinventar para tentar dar a volta por cima. Não cabe avocar para si o mérito do desbaratamento da quadrilha de Cabral e debitar seu calvário à vingança dos inimigos. Garotinho agora precisa mais. Precisa provar que não extorquiu empresários, não participou de esquema de nota fiscal fria para encobrir doação de caixa 2 e não chefiou a própria organização criminosa.

Nessa peça não tem personagem vítima.

 

Entrevista de Lula ao Grupo Folha viraliza na mídia nacional

 

Entrevista exclusiva do ex-presidente Lula ao Grupo Folha, na manhã de hoje, no hotel Ramada (Foto: Diomarcelo Peçanha)

 

 

Concedida na manhã de hoje (06) ao Grupo Folha da Manhã, a entrevista (aqui) do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) viralizou rapidamente na mídia nacional. Além do Estadão (aqui), trechos a entrevista de Lula transmitida ao vivo na Rádio Continental, na Folha 1 e na página oficial do presidenciável no Facebook, foram repercutidos na Folha de São Paulo, Carta Capital, Portal UOL, Gazeta do Povo, Valor Econômico, Jornal do Brasil, Brasil 247 e InfoMoney.

Confira abaixo as várias aborgadens da entrevista feitas pela mídia nacional:

 

Acho que Moro é surdo e não ouve o que eu falo, diz Lula

Por Catia Seabra

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, nesta quarta-feira (6), que se sente indignado com a Operação Lava Jato.

Em entrevista à rádio Continental AM, em Campos, no Rio de Janeiro, Lula afirmou que a Lava Jato produz prejuízos ao trabalhador ao punir empresas, em vez da pessoa física.

Questionado se não teria dito isso ao juiz Sergio Moro, Lula respondeu que sim. “Acho que o Moro é surdo. Não ouve o que falo”, afirmou.

 

Publicado aqui na Folha de São Paulo

 

 

 

“O mercado precisa aprender a viver com o trabalho da nação”, diz Lula

 

Na manhã desta quarta-feira 6, em entrevista à rádio Continental, o petista voltou ao tema. “Não existe nenhuma possibilidade de o Brasil virar uma grande potência econômica sem investir em educação”, afirmou. “Não vamos virar potência exportando minério ou soja. Precisamos exportar produtos com valor agregado e isso só vem com conhecimento, educação. Por isso educação é investimento, não é gasto”, disse.

Sem mencionar nomes, Lula falou sobre a situação econômica do Rio e lamentou que um “povo tão fantástico” tenha sido “traído” por seus políticos. Atualmente, três ex-governadores fluminenses estão presos por corrupção, entre eles Sérgio Cabral (PMDB), que teve uma aliança duradoura com Lula e foi condenado três vezes na Operação Lava Jato.

 

Publicado aqui na Carta Capital

 

 

 

“Leio todo dia que já estou condenado”, diz Lula sobre a segunda instância

Por Nathan Lopes

 

Pré-candidato do PT ao Planalto em 2018 e líder nas pesquisas eleitorais, Lula pode ficar inelegível, com base na lei da Ficha Limpa, caso a Oitava Turma confirme a condenação de Moro. Lula também poderá passar a cumprir sua pena, em regime fechado, a partir do julgamento dos três desembargadores no caso de condenação.

Em entrevista à rádio Continental, de Campos dos Goytacazes (RJ), no norte fluminense, ex-presidente afirmou não se preocupar em relação a essas possibilidades porque, caso contrário, não conseguirá dormir. “Quando cai na mão desse juiz Gebran, eu estou lendo todo dia que eu já estou condenado. Eu leio todo dia que eu já estou condenado. Então eu prefiro deixar ele fazer o serviço dele, ele ter responsabilidade”, disse.

Sobre Moro, Lula disse que acha que o juiz federal da primeira instância é “surdo”. “Ele não ouve o que eu falo”.

A entrevista de Lula foi feita em meio a caravana do petista pelos Estados do Espírito Santo e do Rio de Janeiro.

 

Publicado aqui no UOL

 

 

 

Moro surdo

Por Kelly Kadanus

 

O evento em Campos não foi a única ocasião em que o ex-presidente alfinetou Moro. Durante uma entrevista à rádio Continental AM, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, Lula afirmou que a Lava Jato produz prejuízos ao trabalhador ao punir empresas, em vez da pessoa física.

Questionado se não teria dito isso ao juiz Sergio Moro, Lula respondeu que sim. “Acho que o Moro é surdo. Não ouve o que falo”, afirmou. Ao falar que existe uma campanha para impedir sua volta à Presidência, Lula negou que o juiz seja seu idealizador. “Moro é o instrumento”, afirmou o petista. “Tenho indignação com o comportamento da Lava Jato”, completou.

 

Publicado aqui na Gazeta do Povo

 

 

 

Lula: “Acho que o Moro é surdo e não ouve o que eu falo”

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse, nesta quarta-feira (6), que se sente indignado com a Lava-Jato. Em entrevista à rádio Continental AM, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, Lula afirmou que a operação produz prejuízos ao trabalhador ao punir empresas, em vez da pessoa física.

Questionado se não teria dito isso ao juiz Sergio Moro, Lula respondeu que sim. “Acho que o Moro é surdo. Não ouve o que falo”, afirmou.

Ao falar que existe uma campanha para impedir sua volta à Presidência, Lula negou que o juiz seja seu idealizador. “Moro é o instrumento”, afirmou o petista.

 

Publicado aqui no Valor Econômico

 

 

“Acho que Moro e surdo e não ouve o que eu falo”, diz Lula

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira (6), em entrevista à Rádio Continental AM, em Campos de Goytacazes, no Norte Fluminense, que a Operação Lava Jato produziu muitos prejuízos, ao punir empresas e causar desemprego, em vez de punir os empresários.

“Quanto mais pobreza e desemprego houver, mais vai aumentar a violência. Se você der condições para as pessoas trabalharem, elas não vão assaltar. Tem um cidadão que acha que vai acabar com a violência dando arma, eu quero dar emprego”, disse o ex-presidente.

Lula, que está no Rio de Janeiro para dar continuidade à sua caravana por diversos estados brasileiros, contou que já disse isso ao juiz Sergio Moro, mas “acha que Moro é surdo”. “Não ouve o que eu falo”, criticou o ex-presidente.

O petista negou que Moro seja o idealizador de uma campanha para impedir sua candidatura à Presidência da República e seu retorno ao Palácio do Planalto em 2018. Segundo ele, “Moro é o instrumento”. “Tenho indignação com o comportamento da Lava Jato”, acrescentou Lula, cuja caravana passa pelo Rio de Janeiro até esta sexta-feira (8).

 

Publicado aqui no Jornal do Brasil

 

 

 

Lula: “Se quiserem que eu não vença, apresentem um candidato”

 

Em entrevista à Rádio Continental, de Campos dos Goytacazes, Lula disse nem que Temer desfrutasse de altíssima popularidade perante o povo poderia estar fazendo o que faz. “Você não pode ter um presidente da República governando para meia dúzia de pessoas. Nenhum presidente que tivesse sido eleito com 99% dos votos teria a desfaçatez para fazer isso que o Temer está fazendo. Ele está entregando para o golpe algo com que o povo jamais concordaria”, afirmou.

Lula criticou também a condução da economia pelo governo e o reflexo da operação Lava Jato na eliminação de milhares de empregos no País. “Você não pode matar quem gera emprego, a indústria naval, a indústria de engenharia nacional. Quem assume a responsabilidade por milhares de pais de família que não sabiam que o patrão estava roubando e foram mandados embora porque o patrão roubou?”, questionou.

“Você acha que alguém irá implantar uma fábrica em Campos se não houver consumo para os produtos que ele quer fabricar? As duas coisas caminham juntas. Só haverá produção se você tiver consumo”, acrescentou.

Na entrevista, Lula também desafiou seus adversários numa eventual campanha eleitoral. “Se quiserem que eu não vença as eleições, que tenham coragem de se juntar e apresentar um candidato para concorrer. Esse país não aceita que cortador de cana possa virar advogado ou diplomata. Eu já perdi três eleições, voltei tranquilo pra casa, não xinguei ninguém, não fiz passeata, não tentei anular as eleições como fez o Aécio e nem plantei ódio no país. Se eu for derrotado nas urnas, voltarei pra casa pra lamber minhas feridas”, disse o ex-presidente.

 

Publicado aqui no Brasil 247

 

Maior problema do Brasil não é a Previdência, diz Lula

 

O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou na manhã desta quarta-feira, 6, em Campos, em entrevista à rádio Continental AM, que o maior problema do País hoje não é a Previdência, como sustenta o governo do presidente Michel Temer, que luta para aprovar a medida na Câmara dos Deputados antes do fim deste ano. O petista está realizando essa semana mais uma etapa de sua caravana, agora no Rio de Janeiro.

Segundo o ex-presidente, em sua gestão no governo federal, quando se criava empregos e os salários aumentavam todos os anos, “a previdência era superavitária”.

“Acho que o PT tem a clareza que minha volta à Presidência (da República) pode fazer com que o povo volte a sonhar, porque não é possível que alguém ache que o maior problema do Brasil é a Previdência”, disse ele.

Para o ex-presidente da República, virtual candidato às eleições gerais do ano que vem, “se o povo não tem dinheiro para comprar, por que as empresas vão produzir, empregar?”

No seu entender, as duas coisas caminham juntas, portanto, só haverá produção se houver consumo. “O Brasil tem um mercado de 207 milhões de pessoas. Gente ansiosa pra comprar, mas que hoje não tem dinheiro. Se tiver produtos a preços compatíveis, as pessoas vão comprar.”

Gás de cozinha

Na entrevista, Lula disse ainda que ficou oito anos na presidência e não aumentou o gás de cozinha uma única vez.

E continuou: “O Temer, em sete meses, já aumentou 68%. Tem lugar do País onde o gás já está custando R$ 105. É um produto da cesta básica. Não pode ser aumentado desse jeito.”

Mercado financeiro

Em outro trecho da entrevista, Lula destacou a influência do mercado financeiro e o atual momento de rejeição de representantes deste setor ao seu nome na disputa pelas eleições de 2018. “Dizem que o mercado é meu adversário, mas os empresários ganharam dinheiro no meu governo. O mercado precisa aprender a viver com o trabalho da nação.”

Mais críticas

Lula voltou a criticar o presidente Michel Temer, ao dizer que “nenhum presidente que tivesse sido eleito com 99% dos votos teria a desfaçatez para fazer o que Temer está fazendo, entregando para o golpe algo com que o povo jamais concordaria”.

 

Publicado aqui pelo InfoMoney

 

Atualizado às 16h27 para acréscimo de repercussões

 

Previdência — Entrevista de Lula ao Grupo Folha repercute no Estadão

 

 

 

Por Roberta Jansen

 

O ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva afirmou na manhã desta quarta-feira, 6, em Campos, em entrevista à rádio Continental AM que o maior problema do País hoje não é a Previdência, como sustenta o governo do presidente Michel Temer, que luta para aprovar a medida na Câmara dos Deputados antes do fim deste ano. O petista está realizando essa semana mais uma etapa de sua caravana, agora no Rio de Janeiro.

“Acho que o PT tem a clareza que minha volta à Presidência (da República) pode fazer com que o povo volte a sonhar, porque não é possível que alguém ache que o maior problema do Brasil é a Previdência”, disse ele. Segundo o petista, em sua gestão no governo federal, quando se criava empregos e os salários aumentavam todos os anos, “a previdência era superavitária”.

Para o ex-presidente da República, virtual candidato às eleições gerais do ano que vem, “se o povo não tem dinheiro para comprar, por que as empresas vão produzir, empregar?” No seu entender, as duas coisas caminham juntas, portanto, só haverá produção se houver consumo. “O Brasil tem um mercado de 207 milhões de pessoas. Gente ansiosa pra comprar, mas que hoje não tem dinheiro. Se tiver produtos a preços compatíveis, as pessoas vão comprar.”

Em outro trecho, ele destaca: “Dizem que o mercado é meu adversário, mas os empresários ganharam dinheiro no meu governo. O mercado precisa aprender a viver com o trabalho da nação.”E volta a criticar o presidente Michel Temer, ao dizer que “nenhum presidente que tivesse sido eleito com 99% dos votos teria a desfaçatez para fazer o que Temer está fazendo, entregando para o golpe algo com que o povo jamais concordaria”.

 

Publicado aqui no Estadão
 

Lula em entrevista exclusiva nesta quarta ao Grupo Folha

 

Entrevista exclusiva do Grupo Folha com o ex-presidente Lula, na manhã de hoje (06), no hotel Ramada (Foto: Diomarcelo Peçanha)

 

 

Entrevistei na manhã de hoje (06), no hotel Ramada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pré-candidato e líder em todas as pesquisas na corrida ao Palácio do Planalto em 2018. A entrevista foi transmitida ao vivo no programa Panorama Continental, da Rádio Continental, do Grupo Folha, apresentado pelo radialista Cláudio Nogueira. Simultaneamente, foi trasmitida em lives na página oficial de Lula no Facebook e no Folha 1, portal da Folha.

Lula veio a Campos para participar de um comício, na noite de ontem (05), na Praça do Liceu, que teve cerca de 2 mil presentes, com direito a uma minoria barulhenta de militantes do também pré-candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSC, de mudança para o PEN, que mudará de nome para Patriota). Depois da entrevista da manhã de hoje, o ex-presidente foi para um evento no Instituto Federal Fluminense (IFF), de onde seguirá com sua caravana ao município fluminense de Maricá.

Sem contar políticos circunscritos a Campos e região, já tive a oportunidade de entrevistar alguns líderes ao longo de 28 anos de jornalismo: Leonel Brizola, Fernando Henrique Cardoso, Moreira Franco, Marcello Alencar, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Jorge Picciani, César Maia, Fernando Gabeira e Lindbergh Farias. Mas devo confessar que raras vezes fiquei diante de um entrevistado tão espirituoso e com a capacidade de tratar de temas complexos como questões do cotidiano, na fluidez de um papo informal. Em termos de carisma, no cara a cara, só o compararia a Brizola.

De tudo  que falou na entrevista, mesmo diante das perguntas mais difíceis, como a sua condenação pelo juiz federal Sérgio Moro na Lava Jato, cujo recurso teve julgamento recentemente antecipado pelo Tribunal Federal Regional da 4ª região (TRF-4) para março ou abril, o mais importante do que Lula disse, para mim, foi:

— Como você vai encontrar paz se você está estimulando o ódio, se você está estimulando a disseminação do preconceito? (…) Eu sonho, na verdade, que a gente possa restabelecer a paz neste país. As pessoas têm que aprender que a gente pode ter divergência, que a gente pode não concordar, (mas) que o vascaíno possa ver o jogo sentado ao lado do flamenguista (…) e ir para a casa e tomar uma cerveja juntos, sabe? Sem precisar brigar! (…) A quem interessa essa briga?

Por fim, devo registrar aqui, publicamente, o agradecimento ao presidente do PT em Campos, o petroleiro Rafael Crespo, bem como ao senador petista Lindbegrh, fundamentais à realização da entrevista. Sem nenhum juízo de valor, além daquele externado nas perguntas, peço desculpas por alguns risos desavexados causados pelas tiradas de Lula.

Sem mais delongas, confira abaixo a íntegra da entrevista de quase 41 minutos:

 

 

 

 

Confira a transcrição da entrevista na edição de amanhã (07) da Folha da Manhã

 

Pá de areia de Atafona com a lama do Paraíba entre os grãos

 

 

Nós sabíamos

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Caro Aluysinho, nós éramos felizes e não sabíamos. Abraços. Oswaldo Ferraz Filho. 15/01/13”. Foi esta a dedicatória escrita de próprio punho atrás da fotografia que Oswaldinho me mandou naquele início de ano, poucos meses após a morte do meu pai.

Se não me engano, a foto fora feita em 1987, 26 anos antes de eu a receber sem esperar. Na imagem congelada do tempo, Oswaldinho e eu, ainda adolescente, gargalhávamos, sentados na mesa e ladeados por Aluysio Cardoso Barbosa (1936/2012), sempre mais sério, com seu inseparável cigarro entre os dedos.

Oswaldinho era amigo de Aluysio. E era pai de dois meus amigos de infância, Fabiano e Evandro Ferraz. Estudei com o primeiro no curso primário da saudosa Escola Santo Antônio da Formosa, que hoje abriga o Hortifruti. Depois, voltamos a nos cruzar no segundo grau, atual ensino médio, do Auxiliadora, onde só estudei justamente naquele ano de 1987.

Mesmo ruim na linha, embora esforçado no gol, como qualquer bom “perna de pau”, frequentei também o campo gramado de futebol, conjugado à casa de Oswaldinho, na rua Edmundo Chagas. Aquele foi meio que ponto de referência de uma galera de classe média de Campos que cresceu junta nos anos 1980.

No final daquela década de ebulição, em 1989 se daria a primeira eleição a presidente no Brasil desde o golpe civil-militar de 1964. Foi quando passei a escrever em jornal, movido pelo sentimento de esperança democrática que tomava conta do país. Talvez tenham sido os primeiros goles do chope de cuja brutal ressaca padece hoje o país.

Como tinha 17 anos e a enorme pretensão de escrever sobre política nacional ao leitor adulto, passei a dolosamente acompanhar meu pai em suas costumeiras idas vespertinas da redação da Folha ao Boulevard Francisco de Paula Carneiro, também conhecida como “Rua dos Homens em Pé”. Num tempo pré-redes sociais, o experiente jornalista me ensinou uma maneira empírica de saber como repercutiam em nossa aldeia os assuntos do dia.

Oswaldinho era um dos companheiros mais constantes de Aluysio nessas conversas regadas a cafezinho durante as tardes. Se nossa relação antes se restringia ao contato entre um pai e o amigo adolescente dos seus filhos, a amizade pôde, a partir dali, transpor precocemente a barreira natural entre as gerações.

Além do bom marido, pai zeloso e médico endocrinologista conceituado na comunidade, pude conhecer melhor um sujeito simpático e bom de papo, vascaíno chato e às vezes esquentado, amigo dos amigos e dono de sólidos valores morais. O tempo passou e nessas coisas da vida, que depois não sabemos dizer como ou porquê, acabamos nos distanciando, como também ocorreu entre mim e seus filhos.

Nos últimos anos, sabia mais da família por Laura Ferraz, prima de Oswaldinho e braço direito de Diva Abreu Barbosa na Folha. Foi por Laura que, naquele início de 2013, o velho amigo me enviou a foto, nossa e de meu pai, com a dedicatória.

Recebendo-as sem esperar, bateu súbita e contundente a saudade do tempo em que um garoto brincava de ser homem sentado na mesma mesa com o pai, morto poucos meses antes, e seu amigo. Confesso, chorei pela sensibilidade daquele gesto tão carinhoso e paternal.

Liguei para agradecê-lo no mesmo dia e combinamos de nos encontrar, o que acabou não acontecendo. Pouco tempo depois, sabendo também por Laura do câncer contra o qual Oswaldinho lutou bravamente por quatro anos, tentei diversas vezes visitá-lo. Nesta intenção, busquei a intermediação de Fabiano e Evandro. Mas eles me confidenciaram que o pai evitava receber visitas.

Conhecendo o orgulho de Oswaldinho, traço da sua personalidade firme, respeitei. Mas na manhã de ontem, quando soube da sua morte poucas horas antes, novamente por Laura, me arrependi por tê-lo feito.

Ao final da tarde, no velório do amigo morto, ao falar com seus filhos vi estampado em cada face a mesma orfandade que senti quando perdi meu próprio pai, cinco anos atrás. E sei que não há nada que se possa dizer capaz de preencher o buraco deixado.

Assumido esse vazio, aquela foto e a dedicatória foram uma pequena, mas generosa pá de areia de Atafona — aquela que guarda a lama fértil do Paraíba entre seus grãos.

Sim, nós éramos felizes. Só discordo em uma coisa de Oswaldinho: Nós sabíamos!

 

Publicado hoje (05) na Folha da Manhã

 

Orávio de Campos — Ode a um poeta morto

 

(Ilustração de João Luiz Roth)

 

 

Não gostaria de voltar a defender o princípio (óbvio, por sinal) de que todas as representações estéticas são — salvo melhor juízo científico — a pura expressão da arte, independentemente se si referem às expressões fruídas de imagens erotizantes (ou não) e se o seu julgamento é suscetível ao olhar paradigmático de quem o vê pela lente opaca das falsas culturas ou mesmo pelas ideologias com fulcros moralistas.

Mas, observando o conteúdo do pequeno livro “Ode a um poeta morto”, de Raul de Leoni (1895-1926), escrito em 1919, dedicado “à memória de Olavo Bilac”, pudemos especular algumas razões que levaram o poeta, considerado pelos seus biógrafos como neoparnasiano — ou simbolista (?) — a se mostrar, assim sem pejo, à saciedade intelectual da época, considerando as mensagens sensíveis de amor nas entrelinhas.

Bilac (1865-1918), um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e eleito, por seus pares, em 1907, “Príncipe da Poetas Brasileiros”, parnasiano juramentado, quando morreu, aos 53 anos, causando real consternação no seio intelectual do Rio de Janeiro, Raul tinha apenas 21 anos de idade e estava em dúvida se seria diplomata, estimulado pelo nosso Nilo Peçanha, ou assumiria ser poeta por opção.

Nas biografias conhecidas dos dois vultos da intelligentsia nacional, não consta que tenham se encontrado em alguma tertúlia literária pelo restrito mundo da capital federal.  Apenas o historiador Alfredo Bosi (1936) assinala que Leoni “embora tivesse sido um poeta à antiga, era ousadamente moderno”. O que se lhe afigura a idéia do simbólico, para que possa ser compreendido no sentido lato da semiologia.

O livrinho, muito bem escrito, por sinal, foi reeditado, em 2002, pela Editora da Universidade do Sagrado Coração, de Bauru-São Paulo, com apresentação do imortal José Mindlin (1914-2010). Ele aclara que “a poesia de Raul não existiria sem os versos de Bilac”, identificando uma relação meramente cultural, até porque o simbolista (?), além do “Ode…)”, só escreveu “Luz Mediterrânea”, lançado em 1922.

Na ilustração de João Luiz Roth (1961) o expressionista lança 11 quadros, nos quais, acompanhando o poema, revelam uma estranha relação transgenérica, andrógina, com imagens travestidas pelo (fe-menino). Eis os versos: “Freme em tua arte o sangue de Dionísio / Diluído nas virtudes apolíneas / E do seu seio voluptuoso chovem / Alvas formas pagãs, ardentes frisos… / Baixos relevos, camafeus, sanguíneas / Numa palpitação de carne jovem (…)”.

Existe uma explicação plausível? Leoni era leitor do poeta Paul Valéry (1871-1945), um ser tão envolvido pelo existencial que, contrariado pelo amor à Madame Rovira, resolveu abandonar, por anos, a lira poética. Terá sido uma influência do vate francês? Mas, vejamos outros versos: “(…). Dirá aos homens que o melhor destino / Que o sentido da vida e o seu arcano/ É a imensa inspiração de ser divino / No supremo prazer de ser humano (…)”. Há no poema uma dimensão sagrada do prazer.

André Bretton (1896-1966) quando define o surrealismo diz, não ipsis litteris:  “Psiquismo puro que explica o funcionamento real do pensamento na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral”. Será que tem a ver? Uma dedicatória simples de uma ternura extrema camuflada pela loucura explicita no além-real, com a certeza do/e ser não-revelado. Ou nada existe no cerne da dedicatória, a não ser a vaga imagem (i) refletida da razão.

Morto aos 31 anos, vítima da “peste branca”, Leoni realmente pousou seu olhar carinhoso em Bilac, jornalista, poeta, frequentador das rodas boêmias do Rio Antigo… Com sutileza, dedicou-lhe seus primeiros e sentidos versos, por algum motivo platônico. Simples assim. Neste caso esta reflexão terá sido apenas mais um exercício ingênuo e atemporal deste escriba ao atuar no cenário da experimentação ficcional…

 

Mais um “homem em pé” se deita — Morre o médico Oswaldo Ferraz

 

Oswaldo Ferraz

 

Morreu em sua casa, por volta das 6h da manhã de hoje (04), o médico Oswaldo Ferraz Filho. Endocrinologista conceituado na cidade, tinha 74 anos e há quatro lutava contra um câncer no intestino. Ele deixa a viúva Diva Maria Guimarães Ferraz e os filhos Fabiano, Evandro e Natália Guimarães Ferraz. O velório acontecerá à tarde, na Capela da Santa Casa no Caju, cemitério onde o corpo será sepultado, às 9h desta terça (05).

Colega de escola de Fabiano desde o primário, na saudosa Escola Santo Antônio da rua Formosa, que hoje abriga o Hortifruti, conheci Oswaldinho desde minha infância. Ele também era amigo do meu pai, Aluysio Cardoso Barbosa (1936/2012), com que costumava se reunir para um cazezinho à tarde no Boulevard Francisco de Paula Carneiro, a “Rua dos Homens em Pé”. Adolescente com pressa de ser homem, costumava acompanhá-los eventualmente, quando minha amizade com Oswaldo, apesar da nossa diferença de idade, se solifidicou na comunhão dessa típica tradição campista.

Sujeito simpático e bom de papo, vascaíno chato e às vezes esquentado, Oswaldinho era amigo dos amigos, bom marido, pai zeloso e um profissional respeitado. Com a sua perda, além do lado pessoal, no qual me solidarizo sobretudo com os amigos de infância Fabinho e Evandro, registro com pesar o desaparecimento gradual de uma geração de homens de bem, da qual meu pai fez parte, que construíu o mundo nem sempre fácil do pós-II Guerra Mundial (1939/45).

A lacuna que eles deixam não é pequena. Que nós, seu filhos, jovens daqueles anos 1980 e hoje homens de meia idade com cabelos grisalhos, saibamos estar à altura do legado.

 

Alexandre Bastos — Olho por olho, dente por dente?

 

 

 

Hamurabi, rei da Babilônia, foi o autor de 282 leis, que ficaram conhecidas como Código de Hamurabi, baseadas na lei de talião, pena antiga pela qual se vingava o crime impondo ao delinquente o mesmo dano ou mal que ele praticava. Olho por olho, dente por dente, era a base de qualquer justiça. E até hoje, movidos pelo sentimento de vingança, há quem defenda esta maneira de resolver algumas questões.

Ao ler todas as notícias sobre o ex-governador Anthony Garotinho (PR) na prisão, surgiu uma indagação: o que ele faria se fosse um de seus adversários na cadeia? Como ele reagiria ao ver um inimigo atrás das grades? Nem é preciso pensar muito para responder, já que horas antes de ser preso, Garotinho debochou dos antigos aliados de PMDB e cobrou uma “faxina geral”.

E agora, com Garotinho atrás das grades e vivendo situações bem controversas na cadeia, como seus adversários devem proceder? É lógico que todos devemos esperar que a Justiça seja feita e ele pague pelos eventuais crimes cometidos. Mas é importante lembrar dos seus filhos, netos e sobrinhos que acompanham estes episódios. O mesmo Garotinho que no início deste ano usou a morte de uma mulher pelas costas, diante da filha, para fazer ilações e atacar um adversário, não merece ser atingido neste mesmo nível.

Durante a sua busca insana pelo poder, Garotinho ficou conhecido por não poupar ninguém e jogar baixo. Já atingiu ex-amigos, irmão e muitos ex-aliados. Para ele vale tudo: insinuações sobre a vida pessoal, opção sexual e ameaças com dossiês. Em 2008, quando secretários do então prefeito Alexandre Mocaiber foram presos pela Polícia Federal, ele estimulou a ida de aliados para o aeroporto. O objetivo era insultar os presos com todos os xingamentos possíveis. Naquela ocasião, um dos aliados de Garotinho chegou a cuspir no então procurador do governo Mocaiber. Em uma emissora de rádio, Garotinho transformou a operação “Telhado de Vidro” em um show e fez questão de pisar em cada um dos acusados.

O atual momento do casal Garotinho deve estimular mais reflexão do que sentimento de vingança. Afinal de contas, vale tudo pelo poder? O pastor Caio Fábio, que batizou Garotinho em 1994, após um acidente de carro, lembra que ele se desviou do seu caminho poucos meses após alcançar o governo do estado, em 1998. “Em três meses já era possível notar que ele estava completamente cego pelo poder. Andava bem próximo ao Eduardo Cunha e as negociações eram bem pesadas. Avisei que isso ia destruir a vida dele, ia comer a alma dele”.

Mesmo conscientes de todo mal que ele fez e da sua natureza maquiavélica, devemos evitar o sentimento de vingança. Até porque, como ensinava o imperador romano Marco Aurélio, a melhor a melhor forma de se vingar de um adversário é não se assemelhar a ele.