Campos dos Goytacazes,  19/06/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Cristiano Ronaldo foi o mais velho a marcar três gols numa Copa

 

Aos 33 anos, Cristiano Ronaldo comemora seu terceiro gol, de falta, que empatou o jogo de 3 a 3 com a Espanha (Foto: Sergei Grits – AP)

 

Quem ainda está impressionado com os três gols marcados hoje por Cristiano Ronaldo contra a Espanha, a estatística histórica talvez impressione ainda mais. Ele não foi o único a marcar três vezes num jogo de Copa do Mundo. Mas, aos 33 anos, foi o mais velho a fazê-lo.

 

Aos 30 anos, Rob Rensenbrink marcou os três gols da vitória holandesa sobre o Irã do goleiro Nasser Hejazi, na Copa de 1978

 

Com o mesmo número de gols numa só partida de Copa e imediatamente abaixo do português em idade, estão dois outros atacantes: o holandês Rob Resenbrink e o uruguaio José Pedro Cea. Aos 30 anos, o primeiro marcou três gols contra a seleção do Irã. Foi na Copa de 1978, na Argentina, na qual a Holanda seria vice-campeã contra os donos da casa.

 

Aos 29, o artilheiro José Pedro Cea vence o goleiro da Iugoslávia pela primeira vez, antes de marcar mais dois pela vitória uruguaia de 6 a 1, em 1930

 

Já contra a ex-Iugoslávia, o uruguaio Cea anotou outros três. Ele tinha 29 anos na ocasião: a Copa de 1930, primeira de todas, disputada no seu país, que seria campeão.

 

Cristiano Ronaldo manda recado a Messi: “o melhor do mundo sou eu!”

 

Na comemoração do seu primeiro gol, Cristiano Ronaldo acariciou uma barbicha imaginária, mandando um recado a Messi: “o melhor do mundo sou eu!” (Foto: Reuters)

 

Se alguém ainda não tinha certeza de que Cristiano Ronaldo é capaz de ser, em Copas do Mundo, aquilo que sempre foi jogando por clubes, seus três gols no empate de 3 a 3 com a Espanha, encerrado agora há pouco, não deixa mais margem a dúvida. Mesmo num jogo coletivo como o futebol, o atacante português provou hoje com um super-indivíduo, como ele é jogando bola, pode se igular ao melhor jogo coletivo do planeta: o tiki-taka espanhol.

No começo do mês, Messi posou para uma revista dos EUA com a camisa da Argentina e segurando uma pequena cabra, “goat” em inglês e abreviação de “greatest of all time”: o melhor de todos os tempos (Foto: Carles Carabí – Paper Magazine)

Talvez a habilidade e capacidade de decisão de Cristiano Ronaldo só tenha parelha em sua marra. Conhecido por se olhar no telão dos campos do mundo para ajeitar os cabelos sempre impecavelmente penteados, na cobrança de falta com que selou o empate com a Espanha, ele estava tão focado, que nem se deu ao trabalho de admirar a beleza física que acha ter.

Mas como Narciso acha feio o que não é espelho, o português não deixou de fazer uma provocação durante a partida. Após marcar o primeiro gol, num pênalti bobo que sofreu do lateral-direito Nacho, ele acariciou um cavanhaque imaginário. Talvez sem sentido ao público, o endereço do gesto foi certo: o atacante Lionel Messi, que estreia às 10h deste sábado na Copa da Rússia, no Argentina x Islândia.

No começo deste mês de junho, Messi posou para a resvista dos EUA Paper, vestindo a camisa da seleção argentina e segurando junto ao peito um pequeno cabrito marrom. Em inglês, cabra significa “goat”. Mas também costuma ser usado como abreviação de “greatest of all time” (o melhor de todos os tempos).

Desde a aposentadoria do francês Zinédine Zidane e do brasileiro Ronaldo Fenômeno, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo se rivalizam pelo posto de maior jogador de futebol do planeta. Em 2017, o português ganhou o prêmio da Fifa como melhor do mundo pela quinta vez, se igualando ao argentino. Hoje, após marcar o primeiro dos seus três gols, CR-7 disse ao mundo que o melhor é ele. Veremos que resposta Messi dará neste sábado.

 

Indivíduo e coletivo empatam e dão show: CR 3×3 Espanha

 

Cristiano Ronaldo comemora seu terceiro gol no empate com a Espanha (Foto: Sergei Grits – AP)

 

 

Portugal e Espanha prometiam fazer o primeiro grande jogo da Copa da Rússia. E cumpriram com seis gols no placar final: 3 a 3. Quem também finalmente cumpriu a promessa de ser pela seleção portuguesa aquilo que, nos clubes, o levou a ser eleito cinco vezes pela Fifa como melhor do mundo, foi o atacante Cristiano Ronaldo. Ele marcou os três gols lusitanos, de pênalti (4’), em chute com bola rolando (44’) e de falta (88’), assumindo a artilharia do Mundial. Dois minutos depois, de cabeça e já nos descontos do árbitro, ele quase fez o quarto.

Se a grande virtude de Portugal é seu marrento atacante, a da Espanha é o jogo coletivo: o tiki-taka, baseado na posse de bola e troca incessante de passes, com o qual revolucionou o futebol na virada da primeira década do milênio. Se seu grande craque ainda é Andrés Iniesta, que disputa sua última Copa e saiu no segundo tempo, a equipe espanhola apresentou a sucessão do seu estilo de jogo em outros meias, como David Silva e o jovem Isco.

Muito criticada — inclusive na Copa do Mundo de 2010 que conquistou na África do Sul — por tocar bem a bola, mas sem capacidade de penetração, a Espanha arrumou um brasileiro para solucionar o problema. O centroavante sergipano Diego Costa empatou, um (24’) a um (55’), os dois primeiros gols de Cristiano Ronaldo. Depois, em chute forte do lateral-direito Nacho (58’) de fora da área, a Espanha passou à frente.

Mas o nome do jogo guardou uma cobrança de falta perfeita, no ângulo, para deixar tudo igual no placar final: Cristiano Ronaldo 3×3 Espanha.

 

Vitória do Uruguai impressa no rosto do craque do Egito

 

Preso ao banco por uma contusão recente no ombro, o craque egípcio Mohamed Salah não esconde a decepção com o gol do Uruguai aos 43 do segundo tempo

 

 

Para quem acompanha futebol, é normal notar seu efeito trágico sobre os homens. Trágico no sentido dado pelos gregos antigos, não de se fazer tragédia. E, numa Copa do Mundo, o efeito se acentua quando impresso nos jogadores, em resumo de uma nação.

Quem assistiu ao Mundial de 94, nos EUA, como não lembrar do choro de rogozijo do atacante Rashidi Yekini (1963/2012), envolto nas redes da Bulgária, após marcar o primeiro gol da Nigéria na história das Copas?

 

 

No mesmo Mundial, embora a maioria lembre o pênalti decisivo perdido pelo atacante Roberto Baggio na final, que deu o título ao Brasil sobre a Itália, como esquecer o imerecido pranto de desconsolo do zagueiro Franco Baresi, caído de joelhos após desperdiçar a sua cobrança?

 

 

Nessa balança tênue entre o céu e o inferno, foi o mesmo drama estampado agora há pouco na face do craque egípcio Mohamed Salah, após ser obrigado a presenciar do banco o gol do zagueiro uruguaio José Gimenez, que definiu o placar aos 43 minutos do segundo tempo. Sem seu grande nome, o Egito marcou sob pressão nos dois tempos e claramente jogava pelo empate.

 

 

Vindo de uma contusão no ombro há apenas 20 dias, Salah foi poupado para o jogo decisivo do Egito contra a Rússia, que ontem (14) goleou a Arábia Saudita por 5 a 0. Curado ou não, Salah deve entrar em campo na próxima terça, dia 19. E, se não for o suficiente para garantir sua presença na próxima fase, azar o da Copa.

Em que pese a simpatia natural pelos donos da casa, quem gosta de futebol torce para que Egito e Uruguai se classifiquem no Grupo A às oitavas de de final. Na dúvida, confira abaixo alguns lances do melhor jogador da liga inglesa na última temporada e maior craque do Magreb (a África do Norte dos islâmicos) de todos os tempos:

 

 

Brasileiros da Rússia, Portugal, Espanha, Polônia, Costa Rica e México

 

O lateral-direito paulista Mário Fernandes estreou pela Rússia na goleada de 5 a 0 sobre a Arábia Saudita

 

O lateral-direito Mário Fernandes que estreou hoje (aqui) na goleada da Rússia de 5 a 0 sobre a Arábia Saudita, não será o único brasileiro a atuar na Copa por seleções de outros países. Haverá outros também com as camisas da Espanha, de Portugal e da Polônia.

 

Zagueiro e volante Pepe, alagoano que defende Portugal

 

Sergipano Diego Costa, titular do ataque da Espanha

 

Carioca Rodrigo Moreno, opção do banco para o ataque da Fúria

 

A partir das 15h desta sexta, três brasileiros estarão no Portugal x Espanha. Dois entrarão em campo: o volante e zagueiro Pepe na seleção portuguesa e o atacante Diego Costa, pela espanhola. No banco desta, ainda estará o atacante Rodrigo Moreno, filho do ex-lateral-esquerdo do Adalberto, que atuou pelo Flamengo nos anos 1980, antes de ir jogar na Espanha.

 

Thiago Alcântara, filho do brasileiro Mazinho, nascido na Itália e meia titular da Espanha

 

Zagueiro Bruno Alves, filho de brasileiro nascido em Portugal

 

Isso, sem contar com o meia Thiago Alcântara, outro titular da equipe espanhola. Filho do ex-jogador Mazinho — ex-Vasco e tetra com a Seleção Brasileira em 1994 —, ele nasceu na Itália, onde seu pai também jogou. O ténico Tite já declarou que, se não tivesse jogado na Espanha, Thiago seria convocado para o Brasil. No banco da equipe lusitana, também estará o zagueiro Bruno Alves, que é filho de brasileiro, mas nasceu em Portugal.

 

Zagueiro Thiago Cionek, paranaense que defende a Polônia

 

Outro jogador nascido no Brasil é o zagueiro Thiago Cionek. Ele está na seleção da Polônia, que estreia contra a Colômbia em 19 de junho. Ele se naturalizou polonês em 2011 e estreou pelo time nacional daquele país em 2014.

 

Volante Celso Borges, filho de brasileiro com a camisa da Costa Rica

 

Irmãos Giovani e Jonathan dos Santos, filhos de brasileiro na seleção do México

 

Como Thiago Alcântara pela Espanha, e Bruno Alves, por Portugal, a Copa da Rússia terá outros jogadores também com naci0nalidade brasileira, embora não tenham nascido aqui: o meia Celso Borges, que defenderá a Costa Rica; e os irmãos e meias Jonathan dos Santos e Giovani dos Santos, pelo México.

 

Nas surpresas de sempre, aposta na Bélgica, Portugal e Croácia

 

Após listar aqui as seleções favoritas na Copa da Rússia — Alemanha, Brasil, Espanha, França e Argentina — o leitor Fernando perguntou aqui: “E não terá nenhuma supresa?”. Sempre há. Há aquelas seleções que decepcionarão e voltarão mais cedo para casa. Campeãs, respectivamente, em 1998, 2006 e 2010, a França, a Itália e a Espanha sequer passaram pela primeira fase nas Copas seguintes, em 2002, 2010 e 2014. Até um bicampeão, como o Brasil em 1958 e 62, também não foi além da fase de grupos na Copa de 1966.

Em contrapartida, sempre há aquelas seleções das quais ninguém espera muito, mas surpreendem positivamente. Embora nunca tenham chegado à final. Foi o caso da Camarões de Roger Milla, que só caiu na prorrogação das quartas de final de 1990, após colocar a Inglaterra na roda de bobo; da Bulgária de Hristo Stoichkov, 4ª colocada em 94; da Croácia de Davor Suker, 3ª em 98; da Turquia de Hakan Sükür, 3ª em 2002; do Portugal de Luís Figo, 4º em 2006; do Uruguai de Diego Forlán, 4º em 2010; e da Costa Rica do goleiro Keylor Navas, que em 2014 derrotou Uruguai e Itália na primeira fase, empatando com a Inglaterra, para só cair nas quartas de final, na disputa de pênatis, após empatar sem gols e no tempo normal e prorrogação contra a Holanda.

Supresas como as listadas nos dois parágrafos acima são impossíveis de se prever. Mas, se tivesse que apostar em seleções com potencial para fazer uma bela campanha, mesmo sem talvez romper o tabu de chegar à final, listaria três:

 

Eden Hazard, camisa 10 da Bélgica e considerado um dos mais habilidosos no futebol de clubes da Inglaterra

 

1) a Bélgica, cuja geração dos meias Eden Hazard e Kevin De Bruyne, respectivamente do Chelsea e do Manchester City, é muito boa — a melhor desde a que encantou o mundo nos anos 1980, com Eric Gerets e Enzo Scifo — e já pegou rodagem após cair nas quartas de final de 2014;

 

Cristiano Ronaldo, craque inconteste em clubes, mas ainda a dever em Copa do Mundo

 

2) Portugal, cuja conquista da Eurocopa de 2016 indica que finalmente se conseguiu montar uma equipe equilibrada para dar suporte ao talento de Cristiano Ronaldo, eleito melhor jogador do mundo cinco vezes pela Fifa, mas ainda sem dizer a que veio em Copas do Mundo;

 

Luka Mocric, cérebro do meio de campo da Croácia

 

3) e a Croácia, grande herdeira da clássica escola da ex-Iugoslávia, os “brasileiros do Leste Europeu”, que pega um grupo difícil, com a Argentina de Messi e a sempre temida Nigéria, mas tem em Luka Mocric, meia do Real Madrid, um dos maiores organizadores do futebol mundial.

 

Mohamed Salah, destaque pelo Liverpool no Campeonato Inglês, é a esperança do Egito

 

Muito provavelmente, alguma seleção não listada entre as três opções acima, surpreenderá positivamente. Alguma equipe africana sempre aparece bem. Além da já citada Nigéria, pode ser o Senegal ou o Egito, que deposita suas esperanças no talento do craque Mohamed Salah, astro do Liverpool, mas vem de contusão e é dúvida nesta sexta contra o Uruguai dos perigosos atacantes Luisito Suárez e Edson Cavani, respectivamente do Barcelona e Paris Saint-Germain.

 

Craque da Colômbia e revelação da Copa de 2014, James Rodriguez não emplacou no Real Madrid

 

Num grupo teoricamente fácil, talvez a Colômbia possa repetir ou até superar a boa campanha de quatro anos atrás, quando caiu nas quartas de final. Seu grande craque, o meia-esquerda James Rodriguez foi a revelação da Copa de 2014. E marcou o gol mais bonito da competição, na vitória  de 2 a 0 sobre o Uruguai. Mas o jogador foi para o Bayer de Munique, após não ter emplacado no Real Madrid.

 

Zagueiro Rafa Márquez, do México, vai para a sua quinta Copa do Mundo

 

Em condições normais, o México do veterano zagueiro Rafa Márquez, que vai disputar sua quinta Copa, é conhecido por endurecer contra os grandes. Assim como a velocidade e a aplicação tática da Coreia do Sul — 4ª colocada na Copa que sediou em 2002, junto com o Japão — podem complicar a vida dos favoritos. Mas mexicanos e sul-coreanos cairam no mesmo grupo da poderosa Alemanha, que tem ainda a Suécia, vice-campeã em 1958 e 3ª em 50 e 94.

O futebol é jogado por homens. E, como ressalvou o filósofo espanhol Ortega y Gasset: “o homem é ele e suas circunstâncias”.

 

Paula Vigneron — Tantos

 

Pôr do sol em Atafona, 29 de agosto de agosto de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

A janela fechada tornava ainda mais escuro o quarto. Era o segundo da casa, usado por sua mãe na adolescência. Entre fumaça de sucessivos cigarros, ela buscava decifrar o som ao redor. Crianças na rua. Passos pela casa. Gatos e cachorros em confusões, divididos entre o seu e outros quintais. Conversas gritadas por vizinhos. Uma batida oca sinaliza a continuidade de obras.

Fechou os olhos. Por ali, passaram tantos outros. Avós, tios, primos, amigos. Amores de diversas naturezas e períodos. Uns mais. Outros menos. Assumia: era incapaz de se recordar quantos dividiram, por breves ou longos momentos, cantos de seu recanto. Ligou o som. A música a levara, rapidamente, a uma época não tão remota de sua vida, quando passava horas trancada em uma sala, em um monótono trabalho. Ainda com os olhos fechados, mais um trago no cigarro e nas lembranças, que a atingiam sem que esperasse.

“Ah, se eu pudesse viver das minhas memórias.”

Era criança. Gordinha, com a franja quase sempre desalinhada. Corria de um lado para outro. Ou usava um velotrol quando era chamada. Mais um trago no cigarro. Era inevitável sorrir nestas horas. Também era brava. Não gostava quando apertavam sua bochecha. Doía. Era fácil deixá-la zangada. Uma vez, em um bar, segurara, com irritação, a mão de um homem desconhecido que havia se apoiado em sua cadeira, puxando e afastando-a em seguida. Por fim, encarou o estranho. Era menina. Não passava de seis anos. E não temia.

“Ah, se eu pudesse viver das memórias.”

Levantou. Esticou as pernas. Caminhou pelo cômodo pouco mais escuro. As horas pareciam passar em minutos. A cabeça vagava enquanto segurava, entre os dedos, o cigarro para mais um trago. Sentia a fumaça percorrer o seu corpo. Estava novamente correndo por espaços antes seus. A piscina cheia de crianças e adolescentes em uma tarde de férias. Perguntara a um amigo, mais velho, quanto tempo faltava para o horário em que sua mãe a autorizara a mergulhar e brincar com os outros.

O rapaz respondera, pacientemente, atento às brincadeiras à beira d’água. Cinco minutos depois, como se cronometrasse o tempo, perguntou novamente. Ainda não. Mais cinco minutos até interromper o menino, que ralhou:

— Não adianta ficar perguntando porque o tempo não vai passar mais rápido!

Ela esperou enquanto olhava, ansiosa, os outros gargalhando em brincadeiras. O tempo passou. Não só os desejados mais cinco minutos para a hora de brincar, mas anos. Anos e anos e anos que silenciaram as gargalhadas à beira da piscina e a voz e o sorriso daquele rapaz. Agora, ela temia.

Respirou fundo. “Ah, se eu pudesse”, disse, com a voz rouca pelo silêncio. Tocou a testa, buscando a franja desalinhada. Riu. Por vezes, via-se menina outra vez. Quase sempre, olhava-se no espelho e enxergava, junto ao reflexo de sua imagem, outros tantos rostos. Era parte de cada traço com que cruzara ao longo de sua vida. Deu o último trago e colocou a ponta do cigarro no cinzeiro, apagando-o. A linha de fumaça desfazia-se diante de seus olhos.

Abriu a janela. Parou em frente ao espelho. Observou atentamente. Era um misto: vozes, rostos, sorrisos. Novos, velhos. Homens, mulheres. Sentimentos. Histórias, idas e vindas. Era tantas e tantos. Tocou novamente a testa. Sorriu. Com mãos mais preparadas, agora, era capaz de ajeitar a quase sempre desalinhada franja.

 

Jogador brasileiro estreia com goleada na Copa do Mundo

 

O brasileiro Mário Fernandes jogando pela seleção da Rússia (Foto: Getty Images)

 

 

A Seleção Brasileira só estreia na Copa da Rússia no domingo, às 15h, contra a difícil seleção da Suíça. Mas um jogador brasileiro já entrou em campo hoje. E na maior goleada da história em jogos de abertura da Copa do Mundo. O lateral-direito brasileiro Mário Fernandes jogou pela Rússia, que enfiou 5×0 na fraca Arábia Saudita, agora há pouco. Ele participou da jogada do terceiro gol, marcado de cabeça pelo atacante Golovin.

Ex-jogador do Grêmio, Mário Fernandes se transferiu para o CSKA de Moscou em 2012. Em 2018, se naturalizou russo, quando disse:

— Estou feliz e orgulhoso de ser russo. Após me mudar para o CSKA em 2012, a Rússia se tornou um verdadeiro lar para mim. Era um desejo natural obter a cidadania e poder jogar pela equipe nacional. Agora, vou fazer tudo o que depende de mim para ser útil para o clube e para o país.

Uma curiosidade na carreira do jogador é que, antes mesmo de se mudar para a Rússia e se naturalizar, ele se recusou a atuar na Seleção Brasileira. Convocado pelo então treinador, Mano Menezes, para um amistoso contra a Argentina em 2011, Mário Fernandes disse “não”.

Depois, em 2014, após o fracasso do Brasil na Copa, o jogador mereceu uma nova convocação por Dunga. Mas ficou na reserva e só entrou no segundo tempo de um amistoso contra o Japão. Na ocasião, Mário substituiu Danilo, atual titular de Tite, com a contusão de Daniel Alves.

 

De hoje a 15 de julho, blog entra de cabeça na Copa da Rússia

 

 

 

Começa hoje a Copa da Rússia. Salvo as postagens dos coloboradores do blog, minhas atualizações serão diárias sobre a maior e mais importante competição de futebol do planeta. O jogo de abertura é daqui a pouco, ao meio dia, entre a dona da casa e a Arábia Saudita, no que promete ser uma das peladas da primeira fase.

Acompanho Copas desde 1982, na Espanha, na qual encantou, mas perdeu e não levou, a melhor seleção que vi jogar. Sua linha média tinha Cerezzo, Falcão, Sócrates e Zico. Como jornalista cubro Copas desde a de 1990, sediada na Itália e vencida pela Alemanha — ainda Ocidental, antes de ser oficializada a reunificação do país, em outubro daquele ano.

Passados os três primeiros jogos de cada seleção, começa a fase eliminatória e a Copa propriamente dita: perdeu, vai para casa. Para quem conseguir continuar, serão mais quatro jogos: oitava de final, quarta de final, semifinal e, em 15 de julho, a final. Para estar nela, considero que há, entre as 32 seleções na Rússia, cinco favoritas. Por ordem, elas são:

 

Alemanha — Atual campeão mundial (2014, no Brasil) e da Copa das Confederações(2017) está invicta em jogos oficiais desde a semifinal da Eurocopa de 2016. Após uma classificação impecável na Eliminatória Europeia à Rússia, não tem colhido resultados favoráveis nos últimos amistosos: foram três empates (0x0 com a Inglaterra, 2×2 com a França, 1×1 com a Espanha), duas derrotas (0x1 para o Brasil e 1×2 contra a Áustria) e um vitória magra de 2×1 contra a Arábia Saudita. Mas tem um time forte em seus três setores, comandado dentro de campo por um melhores meias do mundo, Toni Kross, cérebro também do Real Madrid. Pesa sobre a Alemanha um fato histórico: apenas a Itália de Giuseppe Meazza, em 1934 e 38; e o Brasil de Didi, Garrincha e Pelé, em 1958 e 62, conseguiram ser bicampeões do mundo. Ademais, como já provocou o presidente russo, Vladimir Putin, em referência à II Guerra Mundial (1939/45), a Alemanha não costuma se dar bem na Rússia.

 

Brasil — Conseguiu superar a maior humilhação da sua história, a derrota de 7×1 para a Aleamanha, na semifinal da Copa 2014, dentro do Brasil, aparentemente sem maiores traumas. Vinha capengando nas Eliminatórias, até passar ao comando do técnico Tite, com o qual fez 12 jogos, com 10 vitórias e dois empates. Em amistosos, teve apenas uma derrota, de 0x1 para a Argentina, em 9 de junho de 2017. De lá para cá, foram mais sete amistosos, com seis vitórias e apenas um empate (0x0 diante da Inglaterra). Chega à Copa embalado, após vencer os quatro amistosos de 2018. Sua grande estrela é o atacante Neymar, do Paris Saint-Germain (PSG). Como este costuma jogar pela esquerda, faixa também do lateral Marcelo, do Real Madrid e considerado o melhor do mundo na posição, O Brasil passou a ser um time canhoto na saída de bola. A característica se acentuou após o corte por contusão do lateral direito Daniel Alves, também do PSG.

 

Espanha — Ficou marcada pela demissão do treinador Julen Lopetegui, ontem (13), na véspera do início da Copa da Rússia. Sua contratação pelo Real Madrid gerou bastante polêmica, sobretudo num país já dividido entre o centralismo da capital espanhola e a cada vez mais forte disposição separatista da Catalunha, província economicamente mais desenvolvida do país, cuja capital é Barcelona — cidade do grande rival dos madrilhenos no futebol. Quem assumiu como treinador foi ex-zagueiro Fernando Hierro, que já integrava a comissão técnica da Espanha como diretor esportivo. Foi uma solução rápida, bem vista pela torcida e pode ser eficaz no sentido de unir ainda mais um elenco já comprometido por disputar a última Copa de Andrés Iniesta, um dos maiores meias na história do futebol mundial, que recentemente trocou o Barcelona pelo japonês Vissel Kobe.

 

França — Outra equipe que fez uma boa campanha nas Eliminatórias Europeias, classificando-se em primeiro lugar em seu grupo, com sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota. Tem a terceira seleção mais jovem da Copa, com média de idade de 25,6 anos. E, por isso pode oscilar em suas atuações, apesar da qualidade técnica dos seus jogadores. Entre eles, destaque para o meia Paul Pogba, do Manchester United, cuja elegância e visão de jogo lembram o ex-craque Zinédine Zidane. Nos amistosos, a França impresionou ao bater por 3×1 a Itália, sempre forte, mesmo fora da Copa. Todavia, os franceses decepcionaram ao empatarem em 1×1 seu último amistoso, contra os EUA. A irregularidade fez com que o ex-jogador e treinador Didier Deschamps tenha relativizado o favoritismo de sua equipe: “É um time forte, mas inexperiente. Apenas seis jogadores da atual seleção estiveram no Brasil”.

 

Argentina — Tem um equipe irregular. Famosa no passado pela qualidade dos seus goleiros e zagueiros, como respectivamente Ubaldo Filliol e Daniel Passarella, campões na Copa de 1978, a seleção argentina há algum tempo não inspira confiança em sua defesa. Oscilou muito na campanha das Eliminatórias da América do Sul, com sete vitórias, sete empates e quatro derrotas, classificando-se em terceiro lugar, atrás dos seus tradicionais rivais no continente: Brasil (1º) e Uruguai. Nos amistosos, também se meteu em polêmicas, como no cancelamento do jogo contra Israel, após protestos dos palestinos e do mundo árabe. Mas tem o melhor jogador do mundo desde a aposentadoria de Zidane dos campos, em 2006: Lionel Messi, grande estrela do Barcelona, jogará provavelmente sua última Copa. E isso não pode ser desprezado, sobretudo se coadjuvantes como o meia-atacante Ángel Di María, outro do PSG, também cumprirem seu papel.

 

Gustavo Alejandro Oviedo — Argentina discute o aborto

 

 

 

Hoje, por volta do meio-dia, a Câmara de Deputados da Argentina começou a discutir a descriminalização do aborto. Estima-se que os debates se estenderão até a manhã de quinta feira. Será muito interessante de assistir, em função da veemência e do habitual pitorequismo dos nossos legisladores latino americanos, sempre propensos ao histrionismo e, no caso argentino, à dramaticidade.  Até hoje, o placar se encontrava com uma leve diferença a favor da rejeição do projeto de Lei. No entanto, se espera que a parcela de deputados indecisos acabe aprovando a descriminalização por uma margem estreita, e com os votos dos últimos deputados a falar. Afinal, se não é com emoção, não é argentino.

Como não podia ser diferente, o assunto partiu a sociedade argentina em dois, gerando acalorados debates nas redes sociais, nos programas de televisão e nos almoços familiares. O curioso é que no campo político a divisão não se deu entre partidos políticos a favor e contra. O corte, aqui, foi transversal: cada partido tem dentro de seus blocos parlamentares que apoiam e rejeitam o projeto.

Hoje, o código penal argentino pune com pena de até quatro anos a mulher que causar o seu próprio aborto, ou que permita outra pessoa fazê-lo. A punição para quem praticar o aborto em outra pessoa pode chegar até 15 anos, caso a mulher venha a falecer. O projeto de lei descriminaliza a pratica do aborto até a 14ª semana de gestação, e garante a gratuidade do procedimento através do sistema público de saúde.

Outro fato interessante é que tenha sido o presidente Mauricio Macri quem possibilitasse a discussão no congresso argentino, dando liberdade de decisão para os deputados de seu partido. Não apenas por ele ser pessoalmente contra a descriminalização, mas também pelo fato de que durante os 12 anos do kirchnerismo nem o presidente Nestor nem sua esposa Cristina sequer tenham tocado no assunto. Esta contradição do ‘progressismo meia-boca’ peronista não é exclusividade argentina: o aborto também permanece penalizado na Venezuela, no Equador e na Bolivia. A única exceção sul-americana é a do Uruguai.

Para sermos honestos, não é a esquerda a única em demonstrar contradição entre os valores que prega e os que pratica. A direita autodenominada liberal também rejeita a legalização do aborto, revelando, junto com sua posição sobre o consumo de drogas,  que os termos de liberdade individual que defende limitam-se à questão econômica.

Para aqueles que defendem a proibição, o cerne da questão do aborto passa pela definição do momento em que acontece o inicio da vida humana. Já os que promovem a descriminalização primam pela autodeterminação da mulher em decidir sobre o seu próprio corpo e no fato de que, ainda sob a proibição, milhares delas morrem em clínicas clandestinas. Como se vê, as posições não são conciliáveis, pois as respectivas prioridades são diferentes. Entendo que, desde o estado, na há como impor a uma mulher aquilo que somente ela pode decidir, e que penalizá-la por isso é sobrepor um castigo a um evento que sempre será infeliz. Ressalvando que, aquelas que por convicção religiosa se oponham ao aborto, não estão obrigadas a realizá-lo.

A questão do aborto está na mesma categoria de assuntos ‘sensíveis’ como já foram o divórcio e o matrimonio gay, e como ainda é a legalização das drogas. Mas a experiência indica que a realidade acaba se impondo sobre os dogmas e a ideologia, e mais cedo ou mais tarde o bom senso prevalecerá, na Argentina, no Brasil e no resto de América do Sul. Basta ver o mapa acima, que mostra quais são os países onde se permite o aborto e quais onde é proibido, para ver para onde marcha o mundo civilizado.

A sessão da Câmara argentina está sendo transmitida ao vivo, aqui.