Campos dos Goytacazes,  21/10/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Debate sobre arte desnuda os extremos da sociedade brasileira

 

No feriado de ontem, postei aqui um texto na tentativa de resumir os debates gerados na democracia irrefreável das redes sociais por dois colaboradores do blog: o especialista em investimentos financeiros Igor Franco e o jornalista, blogueiro e servidor federal Ricardo André Vansconcelos. A partir de visões ideológicas opostas (e complementares), ambos trataram do mesmo tema.

No dia 9, Igor escreveu aqui sobre a reação de dona Regina, uma senhora do povo, num programa da TV Globo. Legitimamente, ela questionou o fato de uma menina de 4 anos, acompanhada da mãe, ter tocado os pés de um homem adulto nu, numa performance artística no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. O título do texto foi a pergunta feita por dona Regina aos globais: “Mas, e a criança?”.

Já no dia 11, foi a vez de Ricardo André abordar aqui não só o caso do MAM paulista, como a polêmica exposição artística anterior, interrompida após forte reação popular, no banco Santander, em Porto Alegre. E intitulou sua reflexão sobre os fatos como “Nostalgia do obscurantismo”.

Nos comentários que seguiram (aqui e aqui) o rastilho de pólvora das redes sociais, o debate sobre a necessidade de regulação etária a determinados tipos de manifestação artística, acabou se ampliando sobre a própria conceituação de arte. Muitas vezes carente de fundamento, feita por quem nunca teve por hábito frequentar museus, exposições de pintura e escultura, ou teatros.

Em sentido contrário, postei primeiro um comentário (aqui) ao link do texto do Ricardo, no Facebook, anexado a uma imagem de uma obra de arte que considero inquestionável. Tanto em valor estético, como pelo fato de ter servido, por acaso ou sorte, como elo de ligação direta entre a Antiguidade Clássica e o Renascimento.

E depois repliquei a imagem e o texto do comentário no blog, numa postagem intitulada com uma indagação: “Desde antes de Cristo — Pornografia, pedofilia, zoofilia ou apenas arte?”. Confira abaixo:

 

 

Pois hoje, ao constatar que mais comentários haviam sido feitos sobre o link (aqui) na página do blog no Facebook, me deparei com muitos que, mesmo diante daquela considerada entre as maiores obras de arte da humanidade, insistiam em “conceituar” a arte em direção oposta. E, muito mais perigoso, querendo fazê-lo por pretensão moral e religiosa.

Num esforço de manter o debate no campo dialético, que vai ficando cada vez mais difícil, dada a polarização da sociedade pelos extremos, reproduzo abaixo alguns desses comentários — com nomes e fotos apagados, por importarem menos que as ideias. E, depois, a resposta que julguei necessária, diante de questões que, para além da arte, parecem querer redifinir para pior, muito pior, nosso próprio conceito de humanidade:

 

 

 

Caros XXX XXX, XXX XXX e XXX XXX,

Dizer que o complexo escultórico de Laocoonte e seus filhos é “pecado”, configura pecado capital e sem aspas contra a própria arte. Quem parece ter fé nisso é a Igreja Católica Apostólica Romana, que exibe a obra com orgulho no Museu do Vaticano, em posição de destaque no seu vasto acervo, sem restrição etária à visitação.

Em suas antigas religiões pagãs, verdade que a homossexualidade era prática aceita entre os gregos e romanos. Mas vamos combinar que esses dois povos são em sua maioria católicos, de orientação moral judaico-cristã, há algum tempo. Teodósio adotou o catolicismo como religião oficial do Império Romano, da qual a Grécia também fazia parte, desde 380 d.C. Quer dizer: tem um pouco mais de 1.600 anos.

De qualquer maneira, querer renegar o legado dos antigos gregos e romanos, por conta de conceitos morais diferentes, é de uma imbecilidade sem par. Dos gregos, herdamos a base de todas as ciências humanas. Dos romanos, sobretudo as leis e o urbanismo. E, de ambos, o próprio conceito de humanismo, sem o qual o cristianismo não existiria, revolucionário, sobretudo, pela introdução do amor do homem pelo homem, através de Cristo, na relação com Deus.

Foi esse mesmo humanismo greco-romano que, resgatado através das artes, resultou no Renascimento. Assim como, um pouco mais tarde e no campo das ideias, foi dar no Iluminismo. Ademais, até por respeito à figura de Paulo, artífice do que hoje chamamos de cristianismo, ele só conseguiu sê-lo por se tratar de um judeu de cultura grega e ex-servidor de Roma, por cujas estradas propagou a nova fé.

Ainda assim, Paulo está errado ao dizer: “néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, sem misericórdia; os quais, conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam” (Romanos 1:31-32). Levado ao pé da letra, isso significaria condenar à morte não só todo homossexual, como qualquer um que não se achasse no direito de arbitrar sobre a orientação sexual do seu semelhante, desde que observadas as questões da maioridade e, lógico, do consentimento.

É o mesmo equívoco primário que comete XXX, ao afirmar: “Sou tradicional, sou família e os inconformados que mudem de País”. Quem não partilhar do seu conceito moral, não será forçado a fazê-lo, tampouco obrigado a se mudar para lugar algum. E quem não respeitar isso por princípio moral, o fará por imposição da lei — aquela mesma que herdamos dos romanos pagãos.

Religião e arte existem desde que o homem passou a se distinguir dos demais animais, como maneira de se ligar ao Mistério. E, entre ambas, talvez fosse sábio que os tantos críticos de arte recém-convertidos observassem a ressalva feito por um certo rabi da Galileia: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21).

 

Guilerme Carvalhal — A proposta

 

 

 

 

Eu, sozinho em um bar junto da lata de cerveja, um ponto ermo, bem ajeitado e acima de qualquer suspeita. Apenas em um ambiente assim, capaz de proporcionar segurança, que uma mulher apresentaria tal proposta a um desconhecido:

— Aceita duzentos reais pra me comer?

Estava na faixa dos quarenta anos, não era nem bonita nem feia, mas tinha seus atrativos. Se vestia de uma maneira que definiria como discreta e sensual ao mesmo tempo, e seu sóbrio vestido cinza de tecido grosso cobria pernas protegidas por finas meias, meias unicamente postas no intuito de seduzir.

Não disse seu nome nem nada. Somente apresentou a proposta. O aluguel vencido me libertou das iniciais desconfianças de acordar sem um rim: não passava de uma mulher solitária em busca de companhia. E topei.

Ela me conduziu a pé por três quarteirões até um sobrado discreto espremido entre duas grandes casas. Eu mesmo havia passado ali algumas vezes e jamais reparei no imóvel. Ela destrancou um portão lateral que mais parecia uma saída de emergência do que uma entrada principal e me guiou por um corredor estreito até uma escada. Essa escada chegava a uma porta e pela área externa se compreendia ser um pequeno quarto anexo à casa.

Quando entramos e ela acendeu a luz, tomei um susto com um homem cadeirante. Suporia da mesma faixa etária dela, apesar do rosto mais afetado pelos malefícios do problema de saúde. Mexia um pescoço para um lado e outra, mas não braços e pernas, de onde supus que era tetraplégico. Também não falava, emitindo grunhidos guturais.

O quarto, no mais, era apertado como a área exterior indicava, ocupado por uma cama grande e outros apetrechos simplórios. Havendo a escada ali fora, imaginei que o quarto funcionava como uma prisão para ele:

— Deixa explicar como tudo funciona. Eu quero que você me coma aqui, na frente do meu marido.

Olhei para o cara na cadeira de rodas e notei um semblante de ira, indicativo da falta de consentimento com o ato. Aquilo consistia em extrema crueldade, subjugar um inválido a assistir a esposa o traindo, e pensar nisso me esfriou sexualmente:

— Vou contar a história toda. Esse com quem me casei é um patife. Ele sempre me traiu, sempre gostou de farrear. Bem, eu lidei com calma até descobrir algo assustador, que ele andava violentando meninas de um colégio. Foram três que eu fiquei sabendo. E isso não pude suportar. Por isso coloquei um veneno na comida dele que agiu perfeitamente. Ele teve um AVC, perdeu os movimentos e a fala, preservando o raciocínio. Consegui aplicar a mais adequada punição, aquela que a justiça não conseguiu.

Olhei o marido, depois para ela. Aquela situação enfim me excitou. Pulei sobre ela animalescamente, arrancando sua roupa em rasgões, puxando sua pele com tamanha força que lhe deixei marcas roxas pelos membros. Nunca fodi com tanta vontade, quase arrebentando os parafusos da cama metálica, terminando ambos demolidos sobre o colchão ensopado de suor.

Levantei-me para ir embora logo que me recuperei. Fazia parte do teatro, impor àquele sujeito a sensação de ser sexo o mais casual possível, legitimando-a enquanto uma piranha, uma puta, adjetivos que porventura usava para xingá-la. Ela me ofereceu o dinheiro diante dele e peguei somente para aturdi-lo ainda mais: dispensaria completamente a grana tendo em vista a qualidade do sexo. E, antes de partir, ela anotou seu telefone em um cartão pedindo para reencontrá-la.

Retornando para casa, fiquei pensando se não passaria de mentira tudo que ela disse. Talvez seu marido fosse bom e ela uma psicopata se divertindo em infligir o máximo de dor. Cogitei todas as possibilidades imagináveis, ela o envenenando por querer alguma herança ou por mera maldade, e ponderei se deveria continuar.

A dúvida me perturbou durante alguns dias. Eu pairava na berlinda, em uma escolha que contrariava inúmeros valores morais meus. Porém, pensei na satisfação de poder fazer sexo na presença daquele pobre coitado, no grito amargurado que não conseguia expelir, em toda a raiva causada pelos ciúmes, e ele ali, indefeso em sua cadeira. Não resisti e telefonei para ela.

 

Desde antes de Cristo — Pornografia, pedofilia, zoofilia ou apenas arte?

 

Na última segunda (09) o artigo do jovem Igor Franco foi publicado aqui, intitulado “Mas, e a criança?”. Falava do caso da menina de 4 anos que teve permissão da mãe para tocar os pés de um homem adulto nu, em performance artística no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. E gerou acalorado debate no link da postagem (aqui) na democracia irrefreável das redes sociais. A reboque, só no blog, obteve mais de 160 likes.

Escrevendo quizenalmente às segundas-feiras, é o segundo texto seguido de Igor a superar os 100 likes (confira aqui). Além da qualidade do escriba, evidencia também como cresce na sociedade o apoio ao ideário liberal, defendido com verve nas análises do especialista em investimentos financeiros por ofício.

Como, num blog chamado “Opiniões”, se busca o equilíbrio entre as vozes ecoadas, quem optou por escrever ontem (aqui) sobre o ocorrido do MAM de São Paulo, assim como a polêmica exposição de arte anterior do Santander, em Porto Alegre, foi o jornalista, blogueiro e servidor federal Ricardo André Vasconcelos. Em mão ideológica oposta, ele viu nos episódios uma curva do Brasil à direita, naquilo que sinalizou “Nostalgia do obscurantismo”.

O link da postagem nas redes sociais gerou debate (aqui), embora não tanto quanto o texto do Igor. Diferente deste, onde acabei me metendo nos comentários do Facebook mais do que devia, fiz sobre o texto do Ricardo (aqui) um único comentário, anexado de uma imagem. Para abir este feriado de 12 de outubro, reproduzo ambos abaixo, no mesmo respeito às discordâncias que tiveram os dois colaboradores:

 

 

Obra dos escultores Agesandro, Atenodoro e Polidoro, todos da ilha grega de Rodes, datada de 40 a.C. e perdida desde a Antiguidade, até ser achada por acaso em 1506, nos arredores de Roma, Laocoonte (personagem da “Eneida”, de Virgílio) e seus dois filhos estrangulados por serpentes marinhas. Pornografia, pedofilia, zoofilia ou apenas arte? Na dúvida, o conjunto escultório está no Museu do Vaticano, sem restrição etária à visitação.

 

Amantes de Atafona têm encontro marcado neste 12 de outubro

 

 

 

Neste feriado de 12 de outubro, os amantes de Atafona têm encontro marcado. A centro de arte, pesquisa e memória CasaDuna convida a todos para a exposição Atafona: Museu em Processo.

Com entrada franca, será apresentado o acervo da CasaDuna, composto  do material histórico doado pelo poeta e artesão Jair Vieira, reunindo registros dos últimos 40 anos em Atafona.

Também será apresentado o Projeto Muxuango, coordenado pelos pesquisadores João Almeida e André Pinto. É um trabalho de registro e investigação sobre os antigos moradores da Ilha da Convivência.

Haverá ainda a exposição dos registros fotográficos de Fred Alvim, Jéssica Filipo, Flavio Bacellar, Mariana Moraes, Rodrigo Sobrosa, Elisael Pereira Barros, Renata Lamenza, e Victor Aquino. Além deles, será inicado o Mural Interativo, para receber fotos de família em Atafona, registros pessoais e objetos históricos, que possam ser deixados para a composição do espaço de memória coletiva.

De acordo com Julia Naidin e Fernando Codeço, coordenadores da CasaDuna, a proposta do projeto “Atafona: museu em processo” é “trazer a lembrança de que toda narrativa, cada escombro e cada história dessa praia está no processo de se tornar vestígio. Dar o testemunho e o depoimento do tempo vivido ao tempo que virá”.

A exposição tem a co-curadoria do museólogo André Pinto e se manterá aberto a novas propostas e contribuições.

 

PROGRAMAÇÃO DE INAUGURAÇÃO

 

16h: Abertrura da Casa

 

17h: Programação Dia da Criança

–       Oficina de arte

–       Palestra interativa “Dança da chuva”, com Luís Henrique Araújo (Lulu)

 

20h30: Palestra “Interpretação de paisagens em zonas costeiras à partir de imagens de satélites”, com o geógrafo, pesquisador e professor Gilberto Peçanha

 

Dicas de filme e livro em debate sobre o futuro do Brasil e do mundo

 

 

 

Por motivos de ordem pessoal, o blog caminhou esta semana sem produção de textos próprios, se sustentando no orgulhoso ecoar dos seus colaboradores. Mas, independente da autoria, todos os textos publicados aqui são linkados na democracia irrefreável das redes sociais, onde geram alguns debates, por vezes tão ou mais interessantes do que as postagens que os ensejaram.

Exemplo disso foi um debate sobre a bipolaridade em que o Brasil e o mundo se encontra divididos, naquilo que parece antecipar a eleição presidencial tupiniquim de 2018, daqui a menos de um ano. A despeito da presença do blogueiro, essa discussão se desenvolveu no Facebook com os professores Aristides Soffiati e José Luis Vianna da Cruz, dois dos pensadores que mais admiro em Campos, pela envergadura da intelectualidade e do caráter.

Para evidenciar que o escritor e semiólogo italiano Umberto Ecco (1932/2016) pode não estar de todo certo quando afirmou “as redes sociais deram voz aos imbecis”, confira aqui ou nas reproduções abaixo:

 

 

De concreto, ficam as dicas do filme “Ele está de volta”, do diretor alemão David Wnendt, e do livro “Só mais um esforço”, do filósofo chileno-brasileiro Vladimir Safatle. Independente da concordância, confira abaixo o trailer do filme e uma entrevista com o escitor sobre seu livro:

 

 

 

 

Ricardo André Vasconcelos — Nostalgia do obscurantismo

 

“A criação do homem”, pintado por Michelangelo no teto da Capela Sistina (Vaticano), entre 1508 a 1512, mostra Adão nu, sendo tocado pelo Criador. A arte iluminando a humanidade que saía do obscurantismo da Idade Média

 

 

 

Num dos filmes do Superman o inesperado acontece: em meio a um terremoto causado pelo vilão Lex Luthor, a jornalista Lois Lene tem seu carro tragado por uma fenda que se abre na estrada e morre. No espanto do silêncio era possível ouvir a mais tênue respiração da plateia decepcionada que lotava o saudoso Cine Goitacá. Clark Kent, disfarce do homem de aço que caiu na Terra ainda bebê, vindo de Kripton, mal tinha se recuperado de sua exposição à kriptonita, e, com seus poderes restaurados, descobre o triste fim de seu amor platônico. Num rompante de desespero, começa a dar voltas cada vez mais rápidas em torno do planeta de forma a fazê-lo girar para trás e, por consequência, o tempo, até segundos antes do acidente e consegue evitar a morte da intrépida jornalista. O cinema veio abaixo em aplausos, gritos e assovios.

A cena da Terra girando em sentido anti-horário é a imagem que me vem à cabeça nesses dias em que a sensação é que o mundo está de fato, e não apenas na ficção, retrocedendo, resgatando discussões e medos que pareciam superados pela marcha da evolução humana. Estávamos enganados. O medo do diverso e de tudo que ameaça tirar do cômodo conforto está fazendo com que muita gente se pinte para a guerra em defesa de um modus videndi que acham o “certo”, mas mantinham-se silentes, em seus protegidos armários, talvez por não quererem ir contra a corrente que se entendia majoritária e/ou por não saberem da existência de outros tantos com as mesmas inquietações.

A internet e o formidável mundo da comunicação instantânea transformaram as redes sociais em tribunas livres (às vezes tribunais), num ambiente que sepultou definitivamente o perigo do pensamento único e do controle absoluto seja pelo Estado, Religião ou outra forma de dominação consentida que venha a surgir com a evolução inevitável. A aldeia global preconizada pelo filósofo canadense Herbert Marshall McLuhan, nos anos 60 do século passado, nunca foi tão real, assim como a consequência por ele prevista, ou seja, enquanto a imprensa teria destribalizado o mundo, a tecnologia iria retribalizar. Todos estão conectados com o mundo, porém com interação cada vez mais restrita às suas tribos, aos seus iguais.

É normal que as pessoas se sintam incomodadas e até constrangidas com certas posições de outras por elas admiradas, assim como certo estou que o inverso é verdadeiro. O dissenso é a essência da democracia. Dito isso, e respeitadas as opiniões dos que se alinham ao movimento conservador que vem ganhando terreno em todo o mundo, é preciso dizer que as pessoas têm o direito de agir e pensar de acordo com seus princípios e assim educar seus filhos. Extrapola desse direito os que querem impor sua visão do mundo aos outros, impedindo ou demonizando quem pensa diferente.

Os recentes casos das exposições sobre diversidade, em Porto Alegre, e o do artista nu no Museu de Arte Moderna de São Paulo trouxeram à tona preconceitos, exageros e medos. É espantoso como a sexualidade alheia incomoda tanta gente. Mesmo onde não há nenhuma conotação de sexo, tem gente que consegue ver as mais terríveis perversões que devem existir só nas cabeças de quem as vê. No caso especifico do MASP, quem levou a menina a tocar os pés do artista nu foi a própria mãe, ela sim a responsável legal pela educação da menor e não cabendo a ninguém substituí-la nos estritos limites da lei, na medida em que não se configurou nenhuma vulnerabilidade. Ver pedofilia em tudo pode ser um distúrbio sério e que precisa ser tratado. O naturista que leva seus filhos a uma praia de nudismo está educando-os dentro de uma filosofia de vida e não cometendo um crime.

Pior é quando a autoridade pública investida na função pelo voto impõe à sociedade a sua visão de mundo em detrimento de um dos mais caros princípios constitucionais, que é a liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença, conforme o inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal de 1988. Foi o que o prefeito do Rio, a mais cosmopolita das cidades brasileiras, desrespeitou ao censurar a exposição Queermuseu prevista para o MAR (Museu de Arte do Rio). Em infeliz blague, o prefeito, que é bispo da Igreja Universal, divulgou vídeo em que disse que a exposição poderia ir para o fundo do mar e nunca exposta no MAR. Não gostar, achar de mau gosto esta ou aquela manifestação artística, tudo bem, mas a opção é de quem tem capacidade de escolher o que vê. Para os menores, classificação etária é condição básica, como programas de televisão, cinema e teatro. No caso da exposição do MASP, havia classificação etária, conforme informou o membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB, em entrevista (aqui).

Essa nostalgia do obscurantismo latente na sociedade tem se revelado nas relações sociais e, enquanto ficam restritas aos “costumes” limita-se a reações às mudanças de comportamento, especialmente nas questões de gênero e sexo. O sexo continua sendo o grande bicho-papão que cresceu e ficou mais “perigoso” agora que é possível discernir sexo e gênero. Gênero é o que consta no RG erroneamente como sexo, enquanto este tem relação com o desejo e nem sempre está focado no gênero oposto, ou nos dois ou em nenhum.

O que realmente preocupa não é quem e de que forma sente e realiza seu desejo, porque a receita é cuidar da própria sexualidade da forma que mais se aprouver, até mesmo se o prazer seja policiar a cama do outro. O que acende a luz amarela nessa onda de nostalgia do obscurantismo e a Nação mais poderosa do mundo eleger alguém que pensa como Donald Trump; é o nacionalismo radical em ascensão na Europa e as vivandeiras dos quartéis se assanharem com ideias de (re) intervenção militar no Brasil. Apenas três décadas nos separam daquele período de censura e tortura e já tem gente com saudade! Não aprendemos nada, com a história? E os mortos e desaparecidos nos porões do regime ou pelos guerrilheiros que a ele se opunham?

Nunca é de mais lembrar que o mundo está em evolução. Há menos de 200 anos os negros eram legalmente mercadorias no Brasil. As mulheres só conquistaram o direito de votar em 1932, mas continuaram parcialmente incapazes por mais 30 anos e só poderiam trabalhar fora de casa com autorização expressa do marido. A conquista do voto secreto, direto, periódico e universal é fruto de uma Constituição que tem como um de seus fundamentos a dignidade da pessoa humana. Portanto, nada contra um militar filiar-se a um partido político e disputar uma eleição como cidadão qualquer, mas que nunca mais se prevaleça das armas sob sua guarda para submeter a Nação e não protegê-la. E aos que, com razão, não suportam mais os desmandos dos civis no governo, lembrem-se que sob os militares os casos de corrupção também existiam, não vieram à tona porque nos cinco governos dos generais (1964-1985), a imprensa era amordaçada, o Judiciário acovardado e as policiais eram do regime e não do Estado.

Mais atual que nunca é a surrada frase do ex-primeiro ministro britânico, Sir Winston Churchill: “a democracia é a pior das formas de governo, excetuando-se as demais”.

 

Orávio de Campos — A arte no espaço urbano

 

 

 

Quando estivemos, com muito orgulho e disposição, à frente da extinta secretaria municipal de Cultura, no governo de Rosinha Garotinho, nos deparamos com diferentes desafios institucionais e o mais interessante deles foi exercitar a compreensão sobre os chamados pichadores anônimos que, em tese, saem por aí (inter) ferindo, com suas tintas negras, na harmonia estética de muros, edifícios, igrejas, viadutos, patrimônios históricos…

Para melhor entender os atos desses artistas não convencionais, na melhor acepção que o termo possa/pode nos sugerir, em princípio preferimos partir da idéia da produção de uma arte marginal aliada aos seus efeitos ideológicos, como é comum nas análises das artes que fluem das culturas populares, logicamente, sem as teorias da cultura erudita divulgadas por Walter Benjamim (1892-1940): um intelectual da (ainda) idolatrada Escola de Frankfurt.

O senso comum tenta ensinar que os “pichadores” não são artistas porque “emporcalham o espaço público”, dando-lhes um aspecto deplorável em prejuízo para os proprietários particulares e, principalmente, para o poder público — encarregado da manutenção de suas prédios e representações históricas e culturais.  Mas aceitar esta hipótese seria a mesma opinião da maioria de uma sociedade entorpecida pelos discursos midiáticos, quando os sabemos descompromissados com a “verdade”.

Em princípio, já que não podemos identificar os autores dessas proezas muralistas, recorremos à filosofia imanente que traduz o sentido da comunicação, como o desejo incoercível de traduzir, com diferentes linguagens, a expressão de pessoas e ou grupos com uma identidade ideológica definida. Realmente, se analisarmos esta arte urbana vamos encontrar hieróglifos eivados de mensagens, na maioria das vezes, envolvidas pelas subliminaridades. Não é diferente do que observamos no campo da Folkmídia, isso para dar razão ao pranteado pesquisador Joseph Luyten.

 

 

Escolhem, os pichadores, onde as mensagens são/serão mais visíveis, como igrejas, patrimônio históricos (como os casos do Obelisco e do Monumento ao Expedicionário, esta obra-prima do artista Modestino Kanto, atualmente limpo graças ao professor Vilmar Rangel), apenas para citar estes exemplos. Mas, apesar de múltiplas ações desses insignes pichadores, podemos, sem susto, afiançar que a cidade de Campos dos Goytacazes é a “menos pichada de todo o interior do Rio de Janeiro”.

Isso credita-se ao trabalho dos grafiteiros, grupos igualmente políticos, mas que transformaram suas vocações na expressividade dos desenhos que, em tese, também, falam das mensagens que querem traduzir no espaço público. E, descobrimos, em nossas boas relações com essas trupes artísticas, com ênfase para o Mestre Andinho Ide e a Anna Franchesca, os princípios da evolução dos desenhos artísticos que, em boa hora, se preparam para adentrar, como já ocorre na Europa, nos grandes museus encarregados de preservá-los. Coisas dos tipos: arte e transgressão.

Como ocorre com outras expressões da mesma raiz, como o funk, os desafios do rap, o street-dance, (integrantes da arte hip-hop), a pichação pode ser identificada como uma trajetória entre a exclusão e a integração, eito radical citado por Michael Herschman no artigo “Por uma leitura político-cultural do espaço público”, publicado no livro ”Nas Fronteiras do Contemporâneo – Território, identidade, arte, moda, corpo e mídia” (Mauad,2001, p.117).

Não temos dúvida. Os pichadores, que respeitam eticamente os espaços dos grafiteiros, numa espécie de costume produzido pela convivência em lugares comuns, através de seus estilos de vida e da experiência social, buscam “retraçar novas fronteiras socioculturais e espaciais”, sem a preocupação ingênua de que estão prestando um trabalho meritório em favor das artes plásticas atuando no cerne do ciberespaço – lugar para onde se concentram todas as tendências da pós-modernidade.

Cremos que as negociações que propusemos nos parcos momentos de apoio ao hip-hop (poderia ter feito muito mais), — dentro de um espaço ainda tenso, porquanto a estética está sujeita à lide de uma análise na maioria das vezes equivocada — produziram a afirmação de diferenças e as hibridações parecem garantir visibilidade, vitalidade e algum poder para esses artistas ciberespacianos.

 

Empresas de ônibus de Campos pregam a contramão da ilegalidade

 

Vazio da greve dos ônibus de ontem (09) publicada como foto principal da capa de hoje (10) da Folha da Manhã (Foto: Rodrigo Silveira)

 

 

Na contramão da legalidade

Por José Maria Matias (*)

 

O serviço regular de transporte de passageiros de Campos vem enfrentando graves dificuldades em consequência de práticas ilegais e irresponsáveis intensificadas nos últimos três anos. Ações que comprometeram a saúde financeira das empresas legalmente instituídas e que colocam em risco o serviço prestado à população.

Apesar dos colossais obstáculos impostos — como a atuação das lotadas e a tarifa defasada —, as empresas de ônibus tentam sobreviver e garantir o serviço à população, sem incentivo econômico do poder público, a exemplo da Auto Viação São João, que para participar da licitação do setor fez um alto investimento, refletido principalmente na aquisição de mais de 60 ônibus, custo que vem sendo pago mensalmente pela empresa, juntamente com as demais despesas, como a folha de pagamento e combustível, indispensáveis para a sua atuação.

A contrapartida, no entanto, não foi cumprida. Apesar de atender a todas as exigências, a empresa tem seu serviço comprometido pela invasão de lotadas nas ruas da cidade, que impõem uma concorrência desleal e cuja atuação é irresponsável, criminosa e não traz qualquer benefício ao município. Há a (pertinente) cobrança da sociedade por um serviço de qualidade, porém, as empresas não encontram ambiente salubre para trabalhar. O transporte pirata se estabeleceu na cidade de Campos como o câncer do setor de transporte de passageiros e do trânsito.

Ninguém sai ganhando com o comprometimento da saúde financeira das empresas, nem no setor de transporte nem em qualquer segmento. As empresas perdem com o acúmulo de dívidas, a população perde com a queda na qualidade dos serviços, os funcionários perdem com o atraso no pagamento dos salários e o município perde com o estabelecimento da ilegalidade, falta de arrecadação e desemprego.

Em tempo: Antes mesmo da realização da licitação no setor de transporte, a Prefeitura estabeleceu o Programa Campos Cidadão — mantido entre 2009 e 2017 —, um benefício oferecido à população em forma de subsídio de parte do valor da passagem de ônibus. As empresas, entretanto, apenas passaram a receber do governo municipal o valor que antes era pago à vista pelo usuário no ato da prestação do serviço. Portanto, não houve qualquer benefício direcionado às empresas de ônibus e sim aos cidadãos inscritos no programa. Se houve qualquer irregularidade no período de validade do programa, deve ser apurada e os responsáveis punidos. O que não pode ocorrer é a generalização ao se apontar (aqui) ilegalidades.

 

(*) Proprietário da Auto Viação São João

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

Igor Franco — Mas, e a criança?

 

 

A mais recente polêmica ocorreu no Museu de Arte Moderna de SP, em que um sujeito nu era tocado por pessoas da plateia. Tudo caminhava dentro do script: uma performance sem sentido para espectadores que afetavam profundidade, devidamente bancada com dinheiro público. Eis que entrou em cena uma criança que, estimulada pela mãe, passou a tocar no corpo nu do homem. Os brasileiros não pareceram dispostos a tolerar essa nova imoralidade.

O assunto já esfriava quando surgiu Dona Regina, do alto de sua singela bravura e humilde altivez. Claramente fora do script, entrincheirada nos confins do Projaquistão — nome alternativo para a Terra do Nunca, realidade paralela onde vivem encastelados artistas e outras celebridades — uma típica avó da família tradicional brasileira discordou publicamente da narrativa uníssona que vigorava na imprensa. Após ser fuzilada por olhares arrogantes dos presentes e ter de ouvir tergiversações a respeito da liberdade, tabus e sobre o papel da arte, nossa brava heroína devolveu uma pergunta que inverteu o protagonismo e matou de raiva aqueles que foram chamados para concordar entre si: mas, e a criança?

Deslocar a discussão para um debate sobre liberdade artística é uma estratégia intencional para criar confusão. A não ser por justiceiros sociais ávidos por demonstrar apoio inabalável a qualquer erro, há pouca gente disposta a defender o que se passou — pouco importa se num museu e sob supervisão. Dias mais tarde, um menino de 13 anos, ainda analfabeto, seria encontrado na cela de um estuprador levado pelos próprios pais. Pela lógica progressista, como houve consentimento dos responsáveis, não poderíamos falar de pedofilia ou negligência.

Qualquer sociedade convive com a chaga do abuso infantil. Em muitos casos, a intenção do abuso é dissimulada através de atos progressivos, com o objetivo de não despertar a surpresa da vítima e envolve-la numa relação. Indefesa e incapaz de perceber a malícia dos atos, muitos menores caem na armadilha de relacionamento abusivos que duram por muitos anos e causam danos perenes ao desenvolvimento da personalidade. Sob qualquer perspectiva — psicológica, sociológica, pedagógica, legal — a tentativa de normalizar o contato entre uma criança e um estranho nu é, no mínimo, irresponsável e reprovável.

Calados durante mais de uma década enquanto o país era destruído em várias frentes, a classe artística tem se mostrado especialmente ativa de um ano e meio para cá. Agora capitaneados por uma ex-paladina da censura de biografias até anteontem, embarcam mais uma vez numa já fracassada expedição, supostamente em defesa da liberdade de expressão, que navega contra os anseios da maior parte da população brasileira, que jamais chancelou sua pauta. Há uma clara divisão entre os anseios de uns poucos e os do restante do país.

Empurrado contra a parede pela atuação em bloco das vozes tradicionais que o trata como um tipo de ser inferior, incapaz de alcançar as virtudes de certas medidas contrárias à sua visão de mundo, o brasileiro médio acumula um sentimento de frustração muito comum ao observado em outras regiões como EUA e Europa. Apesar de panos de fundos diferentes, a discrepância entre a percepção do homem de carne e osso e a opinião predominante nos meios tradicionais tende a transbordar das redes para encarnar em agentes públicos que compartilhem de sua visão. A emergência de Jair Bolsonaro, após os fenômenos do Brexit, Marine Le Pen, Trump e o recente resultado eleitoral alemão não são fenômenos desconectados.

Há quase dois meses, num programa televisivo, ouvi com certa desconfiança um cientista político descartar a hipótese de radicalização ideológica nas eleições de 2018. Embora nosso histórico eleitoral rejeite apostas em candidatos mais estridentes, me parece claro que a temperatura nas redes sociais, que teve súbito aquecimento em 2014 e, desde então, arde em chamas cada vez mais altas, refletirá de alguma maneira no “mundo real”.

Não tenho dúvidas que, em algum desses debates dirigidos e previsíveis, de algum modo alguém haverá de lembrar da pergunta que dividiu o campo: mas, e a criança?

 

Alexandre Bastos — O silêncio dos bons

 

 

 

Atribui-se a Martin Luther King uma frase de valor inquestionável: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Quando os bons se calam, a maldade triunfa. E em nossa planície goitacá, esse silêncio foi determinante para a colocação em prática de um modelo político personalista e ultrapassado.

Nos últimos anos o município de Campos teve todas as oportunidades de se desenvolver e buscar sua independência. Entre 2009 e 2016 entrararam cerca de R$ 20 bilhões nos cofres da Prefeitura. Porém, o que vimos em nossa cidade foi um projeto pessoal de poder acima de um planejamento sério e estratégico. Não houve investimento na diversificação da economia, não houve diálogo com a sociedade civil organizada e nossas vocações históricas foram ignoradas. E tudo isso acontecia sem que houvesse uma forte manifestação contrária. Certa vez, a deputada Clarissa Garotinho chegou a ironizar, afirmando que este grupo contrário ao casal Garotinho não “fazia nem cosquinha”.

Muita gente já se cansou de ouvir que os problemas atuais foram gerados pela irresponsabilidade da gestão anterior. Mas sabe de uma coisa, esse discurso realmente precisa ser reformulado. Pensando bem, será não não cabe a seguinte reflexão: nós também não temos uma parcela de culpa? Quem se calou quando o casal Garotinho vendeu o futuro, contraiu empréstimos, e deixou dívidas milionárias, não tem culpa? Quem ficou em silêncio quando a cidade foi transformada em balcão de negócios, não tem culpa? Quem aplaudia a cantoria de Rosinha enquanto o marido mandava e desmandava, não tem culpa? Quem viu em silêncio a Prefeitura torrar R$ 100 milhões para construir o Cepop, não tem culpa? E quem viu calado, em 2014, o maior orçamento da história de Campos desaperacer, coincidentemente quando um senhor disputava o governo do estado, não tem culpa? Quem jamais participou de uma audiência pública na Câmara de Campos, não tem culpa?

Mas esse silêncio foi rompido e as urnas gritaram em 2016. A vitória histórica de Rafael Diniz uniu as mais variadas correntes e, após o resultado, nasceu uma expectativa gigantesca. Mais do que uma mudança entre governos, era esperada uma imediata troca de modelo. Mas será que após décadas de descaso, é possível reconstruir uma cidade apenas apertando aquele botão no dia 02 de outubro de 2016. Os cidadãos são parte determinante deste processo de transformação, com um papel que vai além de curtir, compartilhar ou questionar. É hora de decidir em conjunto, como já ocorreu este ano na elaboração do novo Código Tributário, do PPA e ocorrerá no debate sobre o orçamento de 2018 e outros temas fundamentais para adaptar o município a uma nova realidade. Não podemos nos esquecer que a troca do silêncio dos bons pela participação ativa é a melhor maneira de calar o grito daqueles que defendem o retrocesso.