Opiniões

Marcada no dia 23 e desmarcada dia 24, assembleia dos dentistas vai ocorrer nesta 2ª

 

 

Desmarcada no sábado, a assembleia dos odontólogos foi confirmada em grupo de WhtasApp

Para os cerca de 450 dentistas da Saúde Pública de Campos, o que seria e deixou de ser, voltou a ser. Anunciada aqui, neste blog, na última sexta (23), a assembleia do Sindicato dos Odontologistas do Norte do Estado do Rio de Janeiro (Sonerj), marcada para às 19h desta segunda (26), tinha na pauta três itens: 1) ponto biométrico, 2) condições de trabalho e 3) salário. E gerou grande repercussão. Tanto que, no sábado (24), o presidente do Sonerj, Domingos Ferreira Junior, procurou a redação da Folha para comunicar que a assembleia estava desmarcada, o que foi democraticamente anunciado (aqui) na coluna Ponto Final de domingo (25). Só que, no mesmo dia, Domingos pediu a uma colega que postasse no grupo de WhtasApp “Dentistas de Campos”, do qual não faz parte, que a assembleia da categoria vai ocorrer, sim, nesta segunda. E o presidente do Sonerj confirmou a informação ao blog:

— Nós marcamos a assembleia em edital de convocação. Mas a maneira como a pauta foi noticiada gerou reações de dentistas servidores que disseram não se sentirem representados pelo sindicato. E a declaração de um deles, que comparou o servidor que não quer o ponto biométrico com um empresário corrupto gerou muita repercussão negativa. Ninguém é contra a biometria. Temos que trabalhar as horas semanais para que fomos aprovados em concurso. A questão é como a biometria vem sendo feita. E as condições de trabalho, que também estão na pauta. Por conta da reação, procuramos a Folha no sábado para comunicar o cancelamento da assembleia de segunda. Mas como não conseguimos publicar o edital de cancelamento nos classificados do jornal, que já tinham fechado, fomos aconselhados por motivos jurídicos a manter a assembleia. E fomos pressionados também pelos mesmos que disseram não se sentir representados pelo sindicato. Daí pedi a uma colega que avisasse à categoria no grupo de WhatsApp “Dentistas de Campos”, porque não faço parte dele — explicou o presidente da Sonerj.

O local da assembleia é o mesmo marcado incialmente: no auditório do edifício Connect Work Station, na rua Saldanha Marinho, 458. Abaixo, o edital de convocação do dia 23, que foi cancelado no dia 24 e confirmado no dia 25 para o dia 26:

 

 

Vídeo de doutor sobre biometria evidencia: é preciso talento para ser bobo da corte

 

Estátua do bobo da corte Yorick em Stratford-upon-Avon, cidade em que Shakespeare nasceu e morreu

 

A figura do palhaço de circo remonta o bobo da corte, o bufão, o clown imortalizado tanto nas comédias, quanto nas tragédias de William Shakespeare. Em “Hamlet”, é o crânio do bobo da corte Yorick desenterrado no cemitério que o príncipe da Dinamarca toma nas mãos para resgatar suas memórias mais caras da infância. E mergulhar na efemeridade humana enquanto encara as órbitas vazias do crânio do bobo da corte, momento alto da dramaturgia ocidental. Está na cena 1 do ato 5 da peça. Ainda assim, talvez por seu impacto visual, há quem coloque o encontro no solilóquio do “ser ou não ser”, que está na cena 1, mas do ato 2 de “Hamlet”.

 

O príncipe Hamlet de Mel Gibson encara o crânio do bobo da corte Yorick

 

Em Stratford-upon-Avon, cidade inglesa que conserva boa parte da arquitetura medieval dos tempos em que Shakespeare lá nasceu e morreu, inclusive a casa onde ele viveu, é a estátua de Yorick que está na praça central. Com a perna direita para o ar, equilibra no dedo indicador da mão esquerda a cabeça de um boneco. Representa a do próprio Yorick, antes da terra consumir-lhe as carnes. Mas é o reconhecimento vivo da cidade de Shakespeare à importância do seu personagem. E ao fato de que é necessário talento para ser um bobo da corte.

Neste final de semana, o blogueiro do Folha1 Edmundo Siqueira me enviou um vídeo divulgado no Facebook por um doutor da Saúde Pública de Campos. Nele tenta ironizar a cobertura da Folha sobre a greve dos médicos da Saúde Pública de Capos, inclusive a do Edmundo, tentando reduzi-la à questão do ponto biométrico. Na verdade, como é comum aos hipócritas, não aos bobos da corte, pretendeu vender uma questão que é sua, ou da classe que arroga representar, como se fosse do jornal. E se resposta merece, é aqui, na circunscrição do blog, com o anonimato à vaidade fútil de quem não merece ter o nome lembrado.

Sobre as diferenças entre noticiário e opinião em qualquer jornal do mundo, ou da opinião de um blogueiro, colunista ou articulista de um jornal, para a opinião do jornal, coube a esta fazer as distinções devidas. Foi na coluna Ponto Final (aqui) do último dia 10. Que se tornou necessária pela ressalva ali feita: “Não se espera que médicos saibam sobre jornalismo mais do que jornalistas sabem sobre medicina”. A mesma que depois concluiu: “ É opinião do jornal, por exemplo, que o governo errou ao implantar o ponto biométrico, ao mesmo tempo em que suspende as gratificações e substituições dos médicos”.

Mesmo diante disso, o vídeo do doutor se denunciou como resposta ressentida ao adjetivo “famigerado”. Foi utilizado aqui, para falar sobre o ponto biométrico em postagem na sexta (23) do blog “Coxinha de mortadela”, do Edmundo. Na verdade, o blogueiro abordou a vinda de conselheiros estaduais do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) a Campos, nesta segunda (26), para tratar da greve dos médicos. E o doutor se apegou ao detalhe para julgar o todo — naquilo mais conhecido como sofisma das partes — e tentar fazer graça. Talvez da própria capacidade cognitiva de interpretação.

Mas o vídeo do doutor parece ter sido também motivado por uma postagem deste blog (aqui), no mesmo do dia 23. Ela tratou da convocação do Sindicato dos Odontólogos do Norte do Estado do Rio de Janeiro (Sonerj) para uma assembleia da categoria, entre os dentistas da Saúde Pública de Campos, que também se daria nesta segunda. Publicado na postagem, o edital de convocação tinha como primeiro item da pauta o… ponto biométrico. Sobre isso também foi publicada a analogia de alguém insuspeito, por também odontólogo e servidor municipal de Campos:

—  O servidor que se nega a ter fiscalizadas suas horas de trabalho, pelas quais firmou contrato pessoal com a Prefeitura assim que se inscreveu no concurso público, tem pouca ou nenhuma diferença para o empresário corrupto que vende mil garrafas d’água ao poder público, mas só entrega 500 ao respeitável público que pagou pelas mil.

Pelo impacto negativo do evidenciado no edital de convocação do Sonerj — um documento, que não costuma mentir como as testemunhas —, as reações foram fortes e imediatas. E o blog, democraticamente, acresceu a postagem do contraditório externado pelos odontólogos e servidores municipais Beto Miranda e Rafael Correa. Ainda assim, o incômodo foi tanto que o presidente do Sonerj, Domingos Ferreira Junior, procurou a Folha no sábado (24) para anunciar (aqui) que havia desmarcado a assembleia da categoria. Mas voltou a confirmá-la (aqui) hoje (25) para esta segunda (26), no grupo de WhatsApp “Dentistas de Campos”.

Como qualquer leigo é capaz de constatar, o assunto é complexo. E sério demais para se tentar fazer graça. Mas, se fosse o caso, como a cidade de Shakespeare adverte na estátua de Yorick, é necessário algum talento para ser bobo da corte.

 

Gustavo Alejandro Oviedo — Morreu o tio rico, Royalties, de Campos dos Goytacazes

 

Gustavo Alejandro Oviedo, advogado, publicitário e crítico de cinema

Morreu o tio rico

Por Gustavo Alejandro Oviedo

 

Imagine que você tem um tio milionário. Esse tio gosta de você pra caramba, mais do que seus próprios filhos. Gosta tanto que lhe dá uma boa mesada, tão boa quanto o que você ganha fazendo seja lá o que você faz da vida.

Você está feliz com essa mesada de seu tio, e como tem certeza que ele sempre vai gostar de você — porque os dois compartilham certo porra-louquismo — considera quase impossível que ele venha parar de lhe passar dinheiro.

Mas um dia seu tio morre. E acontece que, como o sujeito era tão porra-louca, se esqueceu de fazer testamento para favorecer você, seu sobrinho amado. A grana toda vai para os filhos.

Só nesse momento você se depara com o fato de que, agora, sua receita caiu pela metade. E suas despesas são altas, do valor equivalente à soma do seu salário, mais a extinta mesada. Você nunca poupou nem investiu esse dinheiro extra que seu tio lhe passava. O gastou em viagens, em festas, no aluguel do apartamento de luxo e na manutenção do seu carro importado. Em vez de ajustar o seu estilo de vida à nova realidade, você foi ao banco e tirou um empréstimo para pagar o IPVA do BMW.

Você já deve ter sacado esta pobre parábola: você é a Prefeitura de Campos, e o seu tio se chamava Royalties.

Foram mais de 20 anos fazendo sambódromos e parques de diversões, transformando praças em pátios de granito, “revitalizando” valas, pagando bons cachês a artistas nacionais para que venham cantar no Jardim São Benedito, e quem sabe quantas outras cositas que nem percebemos. É verdade que também foi feito algum hospital, umas avenidas e umas casinhas. Mas havia grana para tudo! Poupar? Para com isso…

Neste mês de agosto, Campos recebeu (aqui) 24% menos de royalties do que o mês anterior, e 38% menos do que agosto do ano passado. A Bacia de onde se extrai  “nosso” petróleo já está madura, e ainda por cima teremos em novembro o julgamento da constitucionalidade da lei que pode repartir os recursos para todos os municípios do Brasil. Não me parece que o tio venha a ressuscitar.

Há 20 anos o orçamento da Prefeitura de Campos era de R$ 95 milhões. Em 2014, o orçamento atingiu R$ 2,8 bilhões. Um aumento nominal de 3.000% (três mil por cento). Naquele 2014 a Prefeitura  recebeu mais de R$ 1,3 bilhões de royalties, e finalizou o exercício com superávit de mais de 166 milhões de reais*. Dois anos depois, o governo Rosinha já tinha efetuado três operações de crédito, porque não tinha condições de fechar as contas.

Para 2019, se estima que a receita de royalties apenas vá ultrapassar os 500 milhões de reais, 62% a menos do que se recebeu em 2014. E, ainda por cima, 10% desses 500 milhões vão para a Caixa Econômica Federal, para pagar a “venda do futuro”.

Ainda temos tempo de acordar e perceber que não podemos ter o mesmo nível de despesas que tínhamos quando éramos o queridinho de nosso tio. A (nem tão) nova realidade exige que se reavalie o papel da Prefeitura, não apenas para que haja uma melhor distribuição dos recursos, mas também para que se reflita sobre qual é o seu papel essencial no desenvolvimento da cidade.  O bom senso financeiro que não se teve durante 20 anos virá agora, queiramos ou não, por força da realidade impiedosa da aritmética.

 

*Dados do Relatório Anual Interno da Prefeitura de Campos, de 22/04/2015.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

Luciane Silva — A luta política da Uenf, Uezo e Uerj pela automomia financeira

 

Em 2017, sem salários, professores e fundionários da Uenf tiveram que receber doação de alimentos para poderem comer (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Luciane Silva, socióloga, 2ª vice presidente da Aduenf, chefe do laboratório da Uenf de Estudos da Sociedade Civil e do Estado

A luta da Uenf pela autonomia fnanceira

Por Luciane Silva

 

Os anos de 2016 e 2017 foram especialmente difíceis para as universidades estaduais do Rio de Janeiro. A crise que afetou o Centro Universitário da Zona Oeste (Uezo) a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) causou atraso no pagamento de fornecedores, o atraso no pagamento de bolsas de alunos e salários de  professores e técnicos — em 2017 tivemos nossos pagamentos interrompidos durante meses —, a falta de insumos para funcionamento cotidiano destas instituições. Em 6 de dezembro de 2017, as três universidades, a partir de suas reitorias e sindicatos, enviaram uma carta aos deputados da Assembleia Legislativa, solicitando a aprovação da emenda constitucional 47. Ela garantiria o repasse do orçamento anual na forma de parcelas mensais, os duodécimos.

O principal ganho de nossas universidades seria a capacidade de previsibilidade da execução orçamentária. Entre o envio deste documento pelas universidades e a campanha pela aprovação da PEC, a Alerj foi cenário da prisão de três deputados centrais nas articulações da Casa Legislativa. Jorge Picciani, Paulo Mello e Edson Albertassi (todos do então PMDB) foram presos na operação Cadeia Velha, acusados de integrar esquema criminoso chefiado por Sérgio Cabral (também do PMDB) e garantir vantagens para Fetranspor e a Odebrecht dentro da Alerj.

Nesta conjuntura, no dia 19 de dezembro de 2017, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou em primeiro turno, a proposta de emenda a Constituição do Estado PEC 47/2017, que garantiria autonomia financeira às universidades estaduais. Importante ressaltar que a autonomia aprovada viria de forma escalonada:  em 2018, 33% da dotação definida de acordo com a Lei Orçamentária Anual (LOA 2018), 66% em 2019 e 100 % em 2020. A aprovação de uma autonomia parcelada recebeu um apoio acachapante em tempo recorde. Foram 56 votos favoráveis.

Após a luta pela autonomia financeira, a gestão Resistência e Luta (2017-2019) manifestou seu desacordo com o conteúdo alterado da PEC 47 em 2017. O parcelamento nunca pareceu uma alternativa válida para resolução dos problemas que se acumulavam em nossas universidades. Ao olharmos o caso das universidades paulistas e sua conquista de autonomia, o parcelamento parecia insuficiente para recuperar a saúde financeira de Uezo, Uerj e Uenf.

De lá para cá, a lei não foi cumprida, as reuniões não avançaram na Alerj e o exercício da autonomia, como lembrado pelo deputado Waldek Carneiro (PT) em reunião com governo e universidades em junho deste ano, não foi realizado. Ou seja, chegaremos à integralidade em 2020, sem uma parcela paga nos anos de 2018 e 2019.

A alegação do atual governo (particularmente da secretaria de Fazenda) elucida o desafio posto nos próximos meses: nas palavras da subsecretária Maria Isabel: “autonomia não vai acontecer de hoje para amanhã. Cada entidade é diferente, por isto é preciso pensar nos outros. Hoje na lei é tudo e você não vai conseguir executar. A Uerj não tem condições, do tamanho que ela é, de receber no colo dela uma bomba desta”. Os exemplos se multiplicaram com o objetivo aparente de “fazer a coisa certa” na implantação de nossa autonomia financeira. Para o governo, tudo está sendo cumprido, como frisou a representante da secretaria de Fazenda “está sendo pago o custeio, está sendo paga a folha, então não tem assim, atraso e não cumprimento. O operacional ainda não foi passado para uma conta física. Mas no andamento da universidade o fornecedor recebeu, o contrato está ali, a gente está pagando”. Importante lembrar que servidores da Justiça, ao contrário das universidades, receberam seus décimos terceiros, pois têm autonomia orçamentária.

A proposta do deputado Waldeck Carneiro é de que se faça uma experiência de três meses com o repasse de 50% do valor de custeio para as três universidades, que terão este valor depositado em suas contas. Em sua opinião, até aqui não se tem nenhuma experiência de como vão funcionar os repasses e estamos às vésperas da integralidade. Além de expressarem preocupação com as garantias para o cumprimento da folha de pagamento, o não avanço nas negociações também preocupou os presentes. Efetivamente parece que se avançou muito pouco nestes anos. Mas acima de tudo, fica a questão: quem decide sobre a autonomia das universidades? Quem decide a forma como os repasses devem ser feitos e quando devem ser feitos?

Após uma experiência terrível com atrasos seguidos de não pagamento de salários e exposição das universidades a situações de insegurança quanto às suas pesquisas  — além da insegurança física no caso da Uenf —, a autonomia foi veiculada como a salvação para Uerj, Uenf e Uezo. Faltando poucos meses para sua integralidade é urgente que façamos a discussão sobre nossa capacidade de agência na condução deste processo.

Nesta quarta-feira, dia 28, às 14h, no Centro de Ciências do Homem, a Aduenf reúne sua comunidade para debater autonomia financeira e autonomia universitária. Estarão presentes representantes do Andes, da Unicamp e da Unirio. Em uma conjuntura de ataque à ciência e à educação, este debate é fundamental.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

Ricardo Amorim por Alexandre Buchaul: Lula/Arnaldo, Dilma/Rosinha e Temer/Rafael

 

Painel do slideshow da palestra do economista e jornalista Ricardo Amorim no Trianon, na última quarta, dia 21 (Foto: Alexandre Buchaul)

 

 

Alexandre Buchaul, odontólogo, servidor municipal e pré-candidato a prefeito de Campos

Do Planalto à planície

Por Alexandre Buchaul

 

Trazendo à nossa terra as reflexões levadas a termo por Ricardo Amorim, na brilhante palestra (aqui), apresentada no Trianon, na quarta-feira, 21 de agosto. Peguei-me comparando os atores políticos nacionais a seus “similares” campistas. Guardadas as devidas proporções, diria que Campos reflete bem o que se passou no cenário nacional, tempos de bonança desperdiçada antecedendo crises e novamente ciclos de bonança que acabaram alimentando o populismo e criando novos tempos de crise. Vejamos:

Arnaldo Vianna (de volta, aqui, ao PDT) simbolizaria o nosso Lula. Assumiu uma prefeitura enxuta, com poucas obrigações, e receita subindo como um foguete. Há os que queiram dizer que sua receita total do último ano de mandato fora de apenas R$ 600 milhões. E, aí, cabe um parênteses. Se atualizada pela taxa Selic essa receita seria o equivalente, hoje, a algo em torno de R$ 3 bilhões e a bagatela de R$ 46 milhões gasta com os devaneios materializados na praça São Salvador corresponderiam a pouco mais de R$ 200 milhões, dinheiro suficiente para quase 20 hospitais São José. Diferente de Lula, Arnaldo contou com um judiciário benevolente e está inelegível há bons anos. Estivesse submetido aos rigores com que a Lava Jato trata os corruptos atualmente, certamente teria sido condenado a penas mais duras — provavelmente à prisão, assim como o Lula.

Rosinha Garotinho seria a nossa Dilma Rousseff. Usou e abusou do orçamento para manter políticas insustentáveis, inflou programas sociais com fins eleitoreiros, não mostrou qualquer respeito pela saúde fiscal do município. A operação Chequinho da Polícia Federal,  a rejeição das contas pelo TCE-RJ e pela Câmara puniu os Garotinho, como o impeachment puniu a ex-presidente Dilma. A derrota nas urnas deu o claro recado de que a recessão que se iniciava tinha um preço alto. Um preço que nenhuma antecipação de receita (“venda do futuro”) seria capaz de cobrir.

Rafael Diniz, nosso Michel Temer.  Ao contrário do ex-presidente que assumiu com popularidade já não elevada, Rafael assume com ares de salvador da pátria e, parafraseando o Ricardo Amorim, expectativas altas não atendidas geram frustrações igualmente elevadas. A perda de popularidade de Rafael o colocou em situação próxima à do Temer, o presidente brasileiro com maior índice de rejeição da história recente. Ferido de morte pela delação do Joesley Batista, o presidente ainda conseguiu, à custa de forte recessão, sanear alguns dos pilares de nossa economia e deixar ao sucessor condições de governo melhores que as que encontrou. Rafael parece querer deixar um legado de saúde fiscal/administrativa melhor que o recebido de Rosinha (Dilma) Garotinho. Mas, não tem tido aparente sucesso.

Uma vez mais, me valendo dos ensinamentos do jornalista e economista Ricardo Amorim, ousarei dizer que Rafael, agora com rejeição “temerária”, erra nos dois principais fatores que levariam ao sucesso de um empreendimento: time de execução e timing.

 

“Era uma vez em… Hollywood”, Tarantino e seu protagonista, o cinema, em podcast

 

Brad Pitt, Leonardo Di Caprio e Quentin Tarantino

 

Na tarde de ontem, atendendo a convite do advogado e publicitário Gustavo Alejandro Oviedo, nos reunimos ele, eu, mais o publicitário e professor de cinema Felipe Fernandes. O objetivo era debater o novo filme de Quentin Tarantino, “Era Uma Vez em… Hollywood” (aqui), e gerar um podcast.

O bate-papo descontraído derivou ao próprio universo taratinesco, sua reinterpretação da realidade e as interpretações que dela podem, ou não, ser feitas no universo real. Inclusive as acusações de machismo que perseguem o revolucionário diretor e roteirista desde seu impactante início de carreira, nos anos 1990.

Como não poderia deixar de ser, em se tratando de Tarantino, a conversa girou também sobre o principal personagem do seu filme mais recente, presente em todos os outros: o cinema. Aquele que Orson Welles chamou de “mágica caixa de luzes”. E pelo qual “Era Uma Vez em… Hollywood” é uma comovente ode de amor.

Com o agradecimento ao Oviedo e ao Felipe pela parceria, segue abaixo o podcast. Longo, com direito a spoiler, ruídos, buzina de carro, cantos de pássaros, ameaças com lança-chamas e uma discussão bizantina no fim.

 

 

Biometria é o ponto? — Odontólogos da Saúde Pública fazem assembleia no dia 26

 

 

Em greve (aqui) desde o último dia 7, os médicos da Saúde Pública de Campos podem ganhar companhia. Se em sua última assembleia, no dia 22, os médicos decidiram (aqui) pela manutenção da greve, os dentistas também marcaram a sua própria assembleia para às 19h da próxima segunda, dia 26. No auditório do edifício Connect Work Station, na rua Saldanha Marinho, 458, os ondontólogos do serviço público municipal estabeleceram três pontos na pauta: 1) ponto biométrico, 2) condições de trabalho e 3) salário.

Se vão aderir, ou não, à greve dos médicos, é uma decisão de classe legítima, que só cabe aos odontólogos. E, diferente dos médicos — que negam ser contra a biometria, mas só publicamente —, os dentistas tiveram a honestidade de elencar o ponto biométrico como primeiro ítem da pauta. E é aí que, a despeito da justiça de se lutar por melhores condições de trabalho e salários, a legitimidade do pleito falseia.

Como ouvi de um ondontólogo e servidor municipal, antes da palestra (aqui) do economista e jornalista Ricardo Amorim, na noite do dia 21, no Trianon: o servidor que se nega a ter fiscalizadas suas horas de trabalho, pelas quais firmou contrato pessoal com a Prefeitura assim que se inscreveu no concurso público, tem pouca ou nenhuma diferença para o empresário corrupto que vende mil garrafas d’água ao poder público, mas só entrega 500 ao respeitável público que pagou pelas mil.

E o mais irônico é perceber que os médicos e dentistas da Saúde Pública de Campos, com as exceções que confirmam a regra, votaram majoritariamente em Jair Bolsonaro (PSL) a presidente em 2018. E o fizeram alegando ter como principal motivo o combate à corrupção, sobretudo no poder público do país. Do Planalto Central à planície goitacá, o buraco parece ser um pouco mais embaixo.

Após a publicação da postagem, o blog recebeu versões diferentes sobre a questão do ponto. No link desta postagem na página do blog no Facebook, o odontólogo e servidor Beto Miranda questionou (aqui) o sindicato:

— Se ele está falando por um número de dentistas do município, ok. Mas o sindicato não me representa. É no mínimo bizarro pauta de uma reunião o ponto biométrico. Com ponto ou sem ponto, o servidor tem que cumprir com sua carga horária.

Rafael Correa, odontólogo e servidor municipal

Quem também entrou em contato com o blog foi o Rafael Correa, outro dentista e servidor municipal. Ele fez questionamentos muito semelhantes à pauta estabelecida pelo sindicato, com o ponto biométrico em primeiro lugar:

— O sindicato não tem sede no município. E o presidente (Domingos C. F. Júnior) é uma pessoa de difícil acesso. Ele estabeleceu essa pauta sem ouvir o conjunto dos 450 dentistas que trabalham como servidores de Campos. As condições de trabalho e os salários defasados são, sim, pleitos da categoria. Mas não o ponto biométrico. Participo de um grupo de WhatsApp chamado “Dentistas de Campos”, que reúne entre 150 a 200 odontólogos servidores. E é uníssono: ninguém é contra a biometria, que já está funcionando há um mês. O único questionamento é a falta de orientação aos profissionais, para saberem como e onde bater o ponto. E o fato de que, pela precariedade de condições e falta de equipamentos, muitos batem o ponto, mas não têm como trabalhar.

Abaixo, a convocação da assembleia do Sindicato dos Odontologistas do Norte do Estado do Rio de Janeiro (Sonerj):

 

 

Com a história do Brasil, Ricardo Amorim leciona no Trianon: “É a economia, estúpido!”

 

Na sociedade de especialistas em que hoje vivemos, em que o mais brilhante neurocirurgião é incapaz de diagnosticar um simples resfriado, o verdadeiro intelectual é aquele capaz de fazer pontes entre áreas de conhecimento distintas. Na disputada palestra da noite de ontem, que lotou o Trianon, promovida pela Uno Imobiliária, o economista e jornalista Ricardo Amorim demonstrou essa capacidade pré-socrática, renascentista de pensamento, capaz de ligar ciências exatas e humanas para evidenciar as suas conclusões.

Ao mostrar um gráfico histórico do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil nos últimos 110 anos, ficou evidente como as mudanças mais bruscas do regime político do país só ocorreram quando o bolso da poulação doeu. Não por coincidência, foi durante os PIBs brasileiros mais baixos que se deram a Revolução de 30 que levou Getúlio Vargas ao poder; a queda do Estado Novo do ditador em 1946; o golpe civil-militar de 1964; o fim melancólico da ditadura militar em 1985; o impeachment de Fernando Collor de Mello em 1992, que propiciou a estabilidade do Plano Real com Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso; e, mais recentemente o impeachment do desastroso governo Dilma Rousseff, em 2016.

 

Close do gráfico da história do PIB do Brasil usado por Ricardo Amorim, para demonstrar que suas depressões levaram à mudança bruca de regime no país (Foto: Christiano Abreu Barbosa)

 

Agradeço pubicamente à oportunidade de compor a mesa redonda que abriu a palestra de Ricardo Amorim, mediada pelo jornalista Marco Antônio Rodrigues, ao lado de José Humberto do Nascimento, da Realiza Construtora; Mateus Terra, da Golf Invest; Talles Roberto, CEO da Metro Malls; Leandro Almeida, superintendente do Boulevard Shopping Campos; Sérgio Simas, CEO da Forte Telecom; e Christiano Abreu Barbosa, diretor financeiro do Grupo Folha. E o agradecimento é pessoal ao Mário Otávio de Souza, presidente da Uno, e ao seu diretor, Fernando Abreu, meu primo, que conheço desde criança e vejo, não sem orgulho, o homem empreendedor e de visão que se tornou.

Ao lado de tantos empresários, tentei passar em resumo a história econômica de Campos, desde a introdução da cana-de-açúcar no séc. XVII, nossa principal atividade até o ciclo do petróleo, iniciado (aqui) no final dos anos 1970 e hoje em franca decadência (aqui e aqui), chegando ao Porto do Açu. Na condição de “isentão” keynesiano, em meio a justificados entusiastas do liberalismo econômico, tentei oferecer o contraditório necessário a qualquer debate, ao lembrar que as reformas profundas e necessárias ao Estado brasileiro, tocadas pelo presidente de fato do país, o deputado federal Rodrigo Maia (DEM/RJ), na Argentina não deram muito certo politicamente com o (ainda) presidente Mauricio Macri.

 

Economista Ricardo Amorim explicou no Trianon o que a história do PIB nos útimos 110 anos do Brasil ensina politicamente (Foto: Christiano Abreu Barbosa)

 

Mas, como Ricardo Amorim demonstrou que a história do PIB nos últimos 110 anos do Brasil ensina politicamente, a maior lição da noite no Trianon foi o endosso da sentença de James Carville, estrategista do ex-presidente dos EUA Bill Clinton: “É a economia, estúpido!”

 

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