Opiniões

Artigo do domingo — Do meu tio e filho mais velho do meu pai

 

“Hoje executarei meus versos

na flauta de minhas próprias vértebras”

(Vladímir Maiakóvski)

 

Luiz Edmundo Barbosa

Vértebras

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Era um fim de tarde no verão de 2011, em Atafona. Eu e Neivaldo Paes Soares estávamos bebendo e conversando em seu bar e residência, na antiga casa de barco da família Aquino. Ficava diante da foz do rio Paraíba do Sul, numa faixa de areia que hoje é fundo de mar. Não lembro muito bem como o papo evoluiu ao questionamento dele: eu não conseguiria ir e voltar nadando do Pontal à ilha da Convivência.

No escambo entre provocações, propus:

— E se eu for e voltar a nado? Vale aquela vértebra de baleia? — disse, apontando para um dos tantos objetos de decoração do seu bar e residência, entre boias de embarcações, cascos de tartaruga marinha e arcadas de tubarão crispadas de dentes.

Com o sol se pondo, a água estava ainda mais fria. E a maré vazante puxava ao oceano quem ignorasse os caminhos líquidos para contornar a boca da barra. Diante dos desafios vencidos em braçadas lentas, antes mesmo de chegar à Convivência, os efeitos do álcool foram suplantados pela adrenalina que agora corria no sangue — como o rio ao mar.

Da ilha, no Pontal deixado do outro lado da foz do rio, Neivaldo em pé e agora distante me olhava. Acenei e descansei um pouco, antes de mergulhar nas águas para iniciar o caminho de volta. Ao chegar, noite quase caída, a vértebra de baleia era minha. Antes de conquistá-la, já tinha lhe dado destino: presentearia meu tio Luiz Edmundo Barbosa, irmão caçula do meu pai, que viria se hospedar na minha casa em Atafona, dali a alguns dias, durante o carnaval.

Tio Luiz gostou do presente. E creio que ainda mais da história em que aquela vértebra gigante se encaixava. Demonstrações de coragem física eram admiradas entre os Barbosa. Acho que era assim desde que o primeiro deles, na virada entre os sécs. XIX e XX, decidiu sair do vilarejo de Paredes de Coura, no norte de Portugal, para fincar raízes no Norte Fluminense.

Meu bisavô paterno, Dionísio Barbosa era um português de dois metros de altura, que gostava de misturar feijão à sopa e de dizer: “calma que o Brasil é nosso”. Seu filho e meu avô, Domingos Barbosa, o Capitão, batizou de Dionísio seu primeiro filho, irmão mais velho de Aluysio e Luiz Edmundo.

Apesar de filho temporão, foi Luiz quem assumiu o papel de referência patriarcal da família, após a morte de Capitão. Desde quando seus irmãos mais velhos, Aluysio e Dionísio, ainda eram vivos. Como estes permaneceram em Campos, enquanto o resto da família migrou a Niterói, foi lá que o caçula cuidou zelosamente das suas irmãs, Anna Maria e Heloísa, assim como da mãe, Myrthes, a Binuca, minha avó.

Independente do gênero e da cidade, os cinco filhos de Binuca e Capitão foram protagonistas em suas áreas. Dionísio e Aluysio, respectivamente, no comércio e no jornalismo de Campos. Assim como Anna Maria e Heloísa, ou Dudu e Isinha, no magistério. A primeira educou gerações no Abel, colégio mais tradicional de Niterói, enquanto a segunda teve uma brilhante carreira docente na UFRJ. Por sua vez, atravessando a Baía de Guanaraba diariamente para trabalhar no Rio, Luiz se tornaria um dos principais advogados tributaristas do país.

Cercado das mulheres da família, Luiz teria outras. Suas filhas Fernando e Manuela nasceram do primeiro casamento com Maria Alice. Contrairia matrimônio mais duas vezes, primeiro com Cristina e depois com Regina, paixão de adolescência em Campos que o destino uniu décadas depois em Niterói. Todas, assim como as suas irmãs, minhas tias, estavam no seu velório e enterro, na última quinta.

Como seu irmão, Aluysio, Luiz demonstrou grande coragem física na luta contra o câncer.

Naquele último verão que ele passou na minha casa em Atafona, caminhávamos juntos pela praia numa manhã. Ao passarmos pelo Pontal, apresentei Luiz a Neivaldo. Este disse não conhecê-lo, mas após eu informar se tratar do irmão do meu pai, complementou:

— Agora eu sei quem é você!

Ao que tio Luiz emendou de bate pronto:

— Agora eu também sei quem é você! — disse ele a Neivaldo, enquanto eu ria e pensava como aqueles dois homens, mesmo tão diferentes, eram tão semelhantes na marra.

Lembro de uma noite de carnaval em que estávamos na casa de amigos. Eu e Luiz nos distanciamos do grupo na sala e conversávamos na varanda, ao sopro suave do vento nordeste. De repente, entra um sujeito solitário e cambaleante de bebida pelo portão.

Com um copo de cerveja na mão, servi outro e disse a tio Luiz: “vou resolver”.

Caminhei até o homem, o cumprimentei e lhe ofereci o copo extra de cerveja. Ele aceitou com uma expressão de gratidão que nunca esquecerei. Brindamos, bebemos e o anônimo se despediu, levando o copo e saindo da casa com a mesma naturalidade com que tinha entrado.

Após o vulto do visitante desaparecer trôpego e feliz pela noite, voltei a Luiz Edmundo, que observava tudo da varanda, e lhe disse: “ele só queria um pouco de carinho”.

No brilho de orgulho nos olhos dele, pude testemunhar que, acima da coragem física, os Barbosa admiravam a humanidade de todos nós.

Com o endosso do meu tio, espécie de filho mais velho do meu pai, a quem ele só chamava de Azinho, concluí naquela noite de carnaval em Atafona: a fraternidade são nossas vértebras.

 

Publicado hoje (02) na Folha da Manhã

 

Paula Vigneron — O sorriso do camaleão

 

Atafona, agosto de 2014 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

“E casamento é isso. Cada dia, uma merdinha.”

Achei a frase em, pelo menos, 50 das quase 100 páginas de um diário amarelado de minha mãe. Não sabia ao certo quanto tempo aquelas folhas estiveram entre os meus cadernos. Ela deixara o objeto, de capa dura e contornos azuis, em minha caixa de correio pouco antes de ir embora, há, no mínimo, vinte anos. Ainda me lembro do quão revoltada fiquei com seu gesto à época.

“Eu não devo ter sido boa filha”, dizia em determinados momentos. Em outros, xingava-a de todas as formas possíveis. Em sonhos, em noites, em dias, em gritos. Mas ela já estava longe para me ouvir. Hoje, tantos e tantos anos depois de sua partida, consigo entendê-la melhor. Talvez seja na leitura de sua vida que eu peça desculpas diárias a ela e seus motivos.

Recordo-me, com poucos detalhes, do dia em que ela comprou o diário. Eu era adolescente e tinha acompanhado minha mãe em suas compras de Natal. Eram horas e horas a pé pelas ruas. Calor, ombradas, tropeços, vozes em debate e uma menina de 17 anos com humor de cão. E ela aguentava pacientemente, sempre com um sorriso. Eu tentava, mas não conseguia compreender como ela levava sua feliz infelicidade estampada no rosto. Nenhuma das constantes desavenças com meu pai era capaz de mudar sua forma de lidar com o mundo. Era lindo. No fundo, eu a invejava. E ela sabia.

Entramos em uma papelaria. Não havia entendido o motivo da entrada no estabelecimento incomum em compras de Natal. Ela caminhou em direção a um vendedor, que a entregou uma encomenda. Mesmo curiosa, preferi não perguntar. Em seus sorrisos, para mim, minha mãe era um mistério. Após pagar a compra, ela saiu da loja. Passou a mão em meu rosto. “Vamos?” Concordei e a segui. Dias depois, encontrei o diário em cima de sua cama. Sem buscar as páginas, entendi a ida à papelaria. Olhei, pensando no que poderia estar por dentro da capa dura, mas não me atreveria a invadir sua solidão.

As folhas encardidas roçavam em meus dedos. Uns cabelos brancos a mais me fizeram ter coragem, pela primeira vez, de descobrir o que minha mãe quis dizer em seu bilhete de despedida. “Para todas as suas dúvidas”, escrevera em letras tremidas. Ela sabia que eu a observava e tentava entender quem era. Ou quem éramos. Há mais dela em mim do que fui capaz de enxergar em toda a minha vida.

Chovia no dia em que vi minha mãe chorar pela única vez. Era um sábado. Meu pai gritara com ela de forma estúpida. Mais estúpida, aliás. Eu não conheci a voz dele. Somente os gritos. “Quando eu for embora, você vai se lamentar. Vai minguar. Vai se destruir ainda mais. Vai mostrar o nada que você é.” A frase foi seguida de um tapa dela, um grito dele e batida de porta. Nunca mais o vi, assim como nunca mais ouvi minha mãe falar seu nome. Só via o sorriso.

Eu a conheci depois de lê-la nas páginas do diário. Era uma mulher sofrida. Carregava um peso que considerava além do suportável. A primeira linha de seu caderno era sobre o pacto que fizera em um momento de tristeza: “custe o que custar, você me verá sorrindo”. E assim foi. Todos os sorrisos apareciam em suas narrativas. Ela sempre tratava a si como camaleão. Engraçado ver esse termo traçado pelas letras dela. Quando saí de casa e me vi fora daquela realidade, era exatamente assim que eu a imaginava.

Ler a primeira página foi doído. Era como se rasgassem um véu e desnudassem uma vida desconhecida.

Por trás dos sorrisos, ela acumulava uma quase amargura. Sabia se afastar dela quando queria, mas a vivia de forma intensa em seu interior. Pela garganta, por vezes, parecia escorrer um fel inexplicável. Mas ela nunca daria a meu pai a satisfação de vê-la dessa maneira. Como não consegui enxergar enquanto vivia sob o teto dela?

Em um trecho do seu diário, minha mãe contou que o casamento foi o calvário de sua vida, salvo somente pela minha existência. Eu não notei o quanto ela me amava. Parecia sempre tão distante que eu me sentia apenas uma parte da casa, e não dela. “Essa menina, minha menina, foi capaz de tirar o melhor sorriso do camaleão. Pena que ela não sabe que esse, somente esse, foi sincero. Pena, pequena”, escreveu. Eu não tinha como saber. Para mim, era só mais um sorriso.

Deixei o diário descansar por alguns anos até ter coragem de tocá-lo de novo. Desvendar minha mãe era desnudar a mim mesma. Era como tirar toda a minha roupa em uma praça. Era quase violento. Mas eu precisava voltar a ele para entender. Eu só queria entender. Aquela mulher de olhar sereno era capaz de desejar coisas terríveis em momentos de ódio, embora eu nunca tenha visto um deles. Ao mesmo tempo, uma palavra grosseira de meu pai era o começo de uma dor lancinante contada em detalhes, por dias a fio, em seus escritos.

A última página vinha diferente. Não tinha desabafos ou dores. Era para mim. Eu sabia que era. Havia uma foto envelhecida. Estávamos em um quintal, não me lembro de onde, com flores. Minha mãe estava de mãos dadas comigo. Nossos sorrisos eram o mesmo. Nossos olhares também. Talvez ela nunca entenda. Talvez eu também não. Pena. Pena, pequena.

 

Pontal de Atafona em poesia, teatro e música nesta quinta na Villa Maria

 

Com as bençãos de Kapi, Yve e Neivaldo, às 20h desta quinta (29), o ator e músico Saullo Oliveira estará apresentando na Casa de Cultura Villa Maria alguns poemas meus sobre Atafona, que integraram a peça “Pontal”.

A apresentação fará parte da exposição “Erosões Visuais”, do coletivo Casa Duna de Atafona. Os curadores do evento são Fernando Codeço, Julia Naidin e Andrés Hernández.

Depois da apresentação dos poemas, Saullo e eu vamos fazer um bate papo com o público sobre poesia e Atafona, bem como sobre a história da peça “Pontal”.

 

 

Abaixo, um dos poemas que será apresentado, “muda” foi o vencedor do FestCampos de Poesia de 2007:

 

muda

 

a memória sai da toca

sobe pela palafita

ainda escorrendo lama

e me fita

com olhos de caranguejo

entre as tábuas do piso

do bar do espanhol

quando o pontal era ponta

tinha fé de igreja

e luz de farol

 

na boca do mangue

passei minha rede de arrasto

mas só peguei filhotes de bagre

que me ferraram o pé

ao chutá-los de volta à água

até que pedro me ensinou

a pegar pitu de mão

entre raízes do mato

na beira do alagadiço

 

hoje passo no mangue

e não piso na lama

mas na asfixia lenta

dos aterros do homem

e do avanço do mar

perto das ilhas da convivência e pessanha

siamesas da mesma terra

onde ficou minha casca da muda

de caranguejo a espera-maré

 

atafona, 06/2000

 

 

Bertolucci é “O céu que nos protege” nesta quarta no Cineclube Goitacá

 

Bernardo Berttolucci (1941/2018)

 

“As bruxas de Salém”, de Nicholas Hytner,  com Daniel Day-Lewis e Wynona Rider

Afastado do Cineclube Goitacá por motivos profissionais desde a Copa do Mundo de futebol, tinha programado meu retorno nesta quarta com o filme “As bruxas de Salém” (1996), de Nicholas Hytner. É uma adpatação cinematográfica da instigante peça de Arthur Miller, que usou fatos históricos do séc. XVII para falar de outra caça às bruxas nos EUA: a do macartismo aos comunistas na década de 50 do séc. 20.

Além do costumeiro show de interpretação de Daniel Day-Lewis na pele do colono puritano adúltero, a exibição e debate sobre o filme seria pertinente com o tempo de intolerância em que vive hoje o Brasil. Sobretudo depois de ter participado do debate “Fake News: Mentiras Verdadeiras” na última sexta (23), durante a Bienal do Livro de Campos, ao lado do artista plástico Wagner Schwartz e dos jornalistas Artur Xexéo, Cláudia Eleonora e Ocinei Trindade.

Mas depois do falecimento do cineasta italiano Bernardo Bertolucci na segunda (27), não tinha como não mudar o programado. Na minha opinião, era um dos últimos grandes mestres vivos do cinema no mundo, ao lado dos estadunidenses Martin Scorsese e Quentin Tarantino, e do chinês Zhang Yimou.

 

Em “O último imperador”, que lhe deu o Oscar de melhor diretor, Bertolucci foi o primeiro cineasta ocidental a filmar dentro da Cidade Proibida

 

 

A dúvida foi: qual filme de Bertolucci escolher? “O último tango em Paris” (1972), com atuação antalógica de Marlon Brando em polêmicas cenas de estupro, que depois se soube real, e sodomia, tornando Bertolucci conhecido no mundo? “Novecento” (1976), reunindo os jovens Robert De Niro e Gérard Depardieu como protagonistas, épico da luta de classes e última obra da fase marxista do cineasta? “O último imperador” (1987), com o qual ele conquistou Hollywood, levando nove estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme e diretor? “Beleza Roubada” (1996), entre poesia e descoberta na beleza da Toscana, lançando a da jovem atriz Liv Tyler ao mundo? “Os sonhadores” (2003), onde a musa revelada foi Eva Green, uma dos três jovens que discutem cinema e vida real em um apartamento de Paris, enquanto lá fora explodem os protestos estudantis de 1968?

 

Na fotografia de Vittorio Storaro, “O céu que nos protege”

 

Mas a escolha acabou sendo pessoal. Como é o sentimento de orfandade pela morte do seu realizador. Não por outro motivo, às 19h desta quarta (28), na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio, o Cineclube Goitacá exibirá “O céu que nos protege” (1990). Expostos numa resenha crítica escrita (aqui) de fevereiro de 2011, os motivos seguem transcristos abaixo:

 

Sob a proteção do céu, Bertoclucci orienta seus protagonistas Debra Winger e John Malkovich

 

Casal burguês de Nova York, a escritora Kit (Debra Winger) e o compositor Port Moresby (John Malkovich), acompanhados do amigo playboy George Tunner (Campbell Scott), partem num navio rumo ao Norte da África. É 1948, três anos após o fim da II Guerra, da qual a região foi um dos palcos da batalha, saindo do conflito para iniciar seu processo de descolonização de uma Europa devastada.

A diferença no caráter da viagem para o casal e o amigo fica estabelecida logo ao desembarque:

Turner: “Somos os primeiros turistas desde a guerra”.

Kit: “Somos viajantes, não turistas”.

Turner: “Qual a diferença?”.

Port: “O turista pensa em voltar para casa assim que chega”.

Kit: “E o viajante pode nem voltar”.

Na verdade, o único retorno planejado pelos Moresby é à paixão que esfriou em ambos no ócio de Nova York. Ao perceber que a atração (correspondida) de Turner por Kit pode ser um empecilho ao seu objetivo, bem como à fuga do conformismo opulento que o amigo representa, Port o deixa para trás em sua jornada cada vez mais para dentro da África e fora do mundo moderno.

 

 

Na busca do amor, da música e, mesmo, da humanidade (da qual a África é o berço) em seus estágios mais primitivos, Port encontra o tifo, num forte da Legião Estrangeira, em pleno deserto do Saara. Nele, a vida abandona seu corpo em contraponto à areia que entra com o vento por todas as frestas do aposento. Antes, confessa à esposa que amá-la foi toda a razão da sua vida. E que tudo que fez foi por ela.

Atônita pela morte do marido, Kit simplesmente segue uma caravana que passa, tornando-se amante de um nômade bérbere. Ela mergulha naquele mundo árido, miserável, tribal e repleto de moscas, onde o dinheiro não tem serventia e a língua estranha só se torna íntima ao traduzir desejo e prazer. Como Ofélia, que enlouquece de verdade, enquanto Hamlet apenas simula, é Kit quem completa a busca de Port.

Escritor Paul Bowles, quando viveu o que narra no filme

Embora os transgressores “O Último Tango em Paris” (1973) e “Os Sonhadores” (2003) também sejam filmes de Bernardo Bertolucci que poderiam integrar qualquer lista de melhores filmes de “romance”, a opção se dá por essa solar transposição às telas do livro homônimo e autobiográfico — adaptado em roteiro pelo próprio diretor italiano e pelo queniano Mark Peploe — do escritor estadunidense Paul Bowles. É dele a voz da narração em off. E é o próprio que surge, já idoso, encarando Kit, ao final do filme.

Além da direção e das atuações de Winger e Malkovich, o destaque fica por conta das envolventes melodias compostas na parceria entre o japonês Ryuichi Sakamoto e o estadunidense Richard Horowtiz, ganhadores do Globo de Ouro de melhor trilha. Assim como para a belíssima fotografia em planos amplos do gênio italiano Vittorio Storaro, conhecido como “mago das luzes” e discípulo assumido do pintor renascentista Caravaggio.

À luz do sol real, é fato: no deserto ou no amor, só o céu nos protege.

 

Confira o trailer do filme:

 

 

Risco anunciado: interdição em prédio na Pelinca desaloja 28 famílias

 

 

Racahaduras provocadas pela coluna de sustentação que cedeu na face esquerda do edifício Vollare, na Pelinca (Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Balança mas não cai na Pelinca (I)

Foi um susto. Na manhã de domingo, o estrondo provocado pelo esmagamento de uma coluna de sustentação do edifício Vollare causou pânico. O prédio foi evacuado e interditado, deixando 28 famílias desalojadas. O fato foi noticiado em primeira mão (aqui) pelo blog “Ponto de Vista”, do diretor da Folha Christiano Abreu Barbosa. Mas poderia ter sido muito pior se uma empresa, contratada pelo condomínio, já não estivesse trabalhando no reforço da coluna que há anos começou a apresentar problemas na face esquerda do prédio.

 

Balança mas não cai na Pelinca (II)

O Vollare é um edifício residencial de classe média alta na Pelina, com 14 andares. No segundo, na garagem, a coluna de sustentação vinha há 15 dias sendo reforçada com vigas de escoramento. No momento em que o pilar do prédio cedeu, 10 dessas vigas teriam se partido. Se elas e as que resistiram não estivessem ali, difícil mesmo para um engenheiro saber qual seria o resultado. Quem tem 30 anos ou mais se lembra do desmoronamento do edifício Palace II, na Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, que causou oito mortes.

 

Escoramento pode ter impedido que o problema na coluna de sustentação do prédio causasse danos muito mais graves (Foto: Defesa Civil de Campos)

 

Balança mas não cai na Pelinca (III)

Ontem, a Defesa Civil de Campos visitou o prédio na Pelinca e garantiu que ele não oferece risco às construções vizinhas, nem a quem passa abaixo. Os moradores, no entanto, só serão autorizados a voltar após o reparo da coluna ser concluído. Até lá, terão que improvisar onde morar. Entregue há apenas 11 anos, o edifício foi obra da DAC Construções e Pavimentações. Após os problemas na estrutura surgirem, o condomínio tentou fazer a empresa assumir os reparos. Sem sucesso, os moradores acionaram a construtora na Justiça e bancaram o reparo.

 

Aumento

O presidente Michel Temer (MDB) sancionou, no início da noite de ontem, o reajuste salarial para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que passarão a receber R$ 39 mil mensais ante os R$ 33 mil atuais — um aumento de 16,38%. Como os salários do STF são a referência para o teto do funcionalismo público, a decisão pode custar R$ 4,1 bilhões. O reajuste provocou uma forte reação contrária de vários setores. Uma petição, capitaneada pelo partido Novo, já tem mais de 2, 7 milhões de assinaturas. Em vão.

 

Dominó

Aprovados no início do mês pelo Senado, os dois projetos de lei sancionados por Temer alteram o subsídio dos 11 integrantes do STF e da atual chefe do Ministério Público Federal, Raquel Dodge. A medida provoca um efeito cascata sobre os funcionários do Judiciário, abrindo caminho também para um possível aumento dos vencimentos dos parlamentares e do presidente da República.

 

Acordo

Temer sancionou o reajuste mediante acordo feito com o Supremo para que o ministro da Corte Luiz Fux revogasse as liminares que garantiam o auxílio-moradia a juízes e procuradores de todo o país para não impactar as contas públicas. O benefício é de R$ 4,3 mil. Se tivesse mantido o benefício moradia, os vencimentos passariam de R$ 33 mil para R$ 37,3 mil. Abaixo do salário reajustado e sem efeito cascata. O aumento para os ministros do STF foi aprovado pelo Senado e sancionado pelo presidente Michel Temer pouco antes da decisão de Fux.

 

Governadores

O governador Luiz Fernando Pezão (MDB) e o governador eleito do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), realizam hoje, no Palácio Guanabara, a primeira reunião temática de transição, para discussão de assuntos específicos de cada área de governo. Também participam do encontro secretários estaduais e representantes do governo eleito. Os secretários da atual gestão elaboraram relatórios com informações sobre os principais programas de cada pasta, seguindo orientação publicada em decreto do governador Pezão, publicado no Diário Oficial.

 

Com Suzy Monteiro

 

Publicado hoje (27) na Folha da Manhã

 

Artigo do domingo — O fato e o fake na Bienal do Livro de Campos

 

Sentados no palco, da esquerda à direita: Wagner Schwartz, Aluysio Abreu Barbosa, Ocinei Trindade, Cláudia Eleonora e Artur Xexéo (Foto de Isaias Fernandes – Folha da Manhã)

 

 

Fato ou fake?

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

O auditório Cristina Bastos, no IFF, estava lotado na última sexta (23), durante a 10ª Bienal do Livro de Campos. Na abertura do debate “Fake News: Mentiras Verdadeiras”, o jornalista Ocinei Trindade, mediador do debate, usou a imagem bíblica do Éden para falar como a serpente usou de fake news para tentar Eva com o fruto proibido. No ensejo, após as participações dos jornalistas Artur Xexéo e Cláudia Eleonora, aproveitei os estudos sobre o Éden real para lembrar como as fake news estavam presentes no nascimento da humanidade. E como, talvez a partir delas, tenhamos passado a nos diferenciar dos demais animais.

Em seu livro “Sapiens — Uma breve história da humanidade”, o historiador israelense Yuval Noah Harari conta que o homem se tornou homem a partir da Revolução Cognitiva, há cerca de 70 mil anos. Com ela, passamos a criar e compartilhar mitos, deixando de ser uma espécie restrita ao continente africano para conquistar o mundo. E uma das teorias mais aceitas, com apoio na neurolinguística, é que isso só se deu pelo apreço humano à fofoca, congênere do boato, ou das fake news:

— Nossa linguagem evoluiu como uma forma de fofoca. De acordo com essa teoria, o Homo sapiens é antes de mais nada um animal social (…) Não é suficiente que homens e mulheres conheçam o paradeiro de leões e bisões. É muito mais importante para eles saber quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro (…) As novas habilidades linguísticas que os sapiens modernos adquiriram há cerca de 70 milênios permitiram que fofocassem por horas a fio. Graças a informações precisas sobre quem era digno de confiança, pequenos grupos puderam se expandir para bandos maiores, e os sapiens puderam desenvolver tipos de cooperação mais sólidos e sofisticados (…) A fofoca normalmente gira em torno de comportamentos inadequados. Os que fomentam os rumores são o quarto poder original, jornalistas   que informam a sociedade sobre trapaceiros e aproveitadores e, desse modo, a protegem.

 

 

Após a fofoca nos espalhar da África ao mundo, o termo fake news foi cunhado na eleição presidencial dos EUA de 2016. Nasceu da imprensa, não da academia, para designar as notícias falsas divulgadas na internet contra a candidata Hillary Clinton, que ganhou no voto popular, mas perdeu no sistema do colégio eleitoral. Depois de eleito, Donald Trump se apropriou do termo, chamando de fake news todas as matérias jornalísticas críticas a ele e seu governo.

 

 

Se o fenômeno não é novo, ganhou notável impulso com a popularização da internet. Antes de Trump, foi através dela que Barack Obama se elegeu presidente dos EUA pela primeira vez, em 2008. E se reelegeu em 2012. Em 2011, o advento das redes sociais criou a Primavera Árabe, que sacudiu o Norte da África, o Oriente Médio e parte da Ásia. Foi emblemático: o primeiro movimento de massas da história que não nasceu em nenhum templo, quartel, partido, sindicato, ou escola. Foram todos substituídos pelo celular.

 

Com o movimento “Cabruncos Livres”, Campos aderiu aos protestos nacionais das Jornadas de Junho de 2013 (Foto: Folha da Manhã)

 

No Brasil, o fenômeno deu o ar da graça nas Jornadas de Junho de 2013. Com uma pauta difusa, começou com preço da passagem do transporte coletivo, passando à luta contra a corrupção e à cobrança por melhores serviços públicos. Durante o governo Dilma Rousseff, trouxe uma relevante novidade: o fim do domínio do PT sobre as ruas brasileiras, que exercia desde o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992.

 

Movimentação do protesto pelo impeachment de Dilma na av. Paulista, das 9h às 19h de 13 de março de 2016

 

Vinte e um anos depois, foi nas Jornadas de Junho que, além dos black blocs, começaram a aparecer pessoas com as camisas amarelas da seleção brasileira de futebol. As mesmas que depois dominariam as ruas do país em 2015 e 2016, gerando o impeachment de Dilma. Foram os maiores protestos populares do Brasil desde as Diretas Já, em 1984. E os grupos que os lideraram voltaram a usar as redes sociais para encarnar seu antipetismo em Jair Bolsonaro na eleição presidencial, vencida por ele menos de um mês atrás.

Um ano antes do pleito, para testar a pauta conservadora na sociedade através das redes sociais, grupos como o MBL — Movimento Brasil Livre, que copiou seu nome do Movimento Passe Livre, das Jornadas de Junho de 2013 — empreenderam uma cruzada contra a arte e os artistas do país em 2017. E uma das vítimas foi o coreógrafo Wagner Schwartz, convidado principal do debate de sexta, atacado nas redes sociais por uma direita local acéfala.

Independente da ideologia, ouvir o depoimento do que esse artista sofreu na sua vida real, após ser linchado virtualmente nas redes sociais e na propaganda eleitoral de Bolsonaro, mas não se solidarizar, talvez seja perder o que, acima da fofoca, nos torna humanos. Para os que se dizem cristãos e não se deixam tocar, é uma pena. A solidariedade para com o semelhante que sofre, sobretudo quando injustamente, é a maior virtude do cristianismo.

Após ouvir o testemunho de Wagner no debate da Bienal, aplaudido de pé pela grande maioria do público, o mediador propôs aos debatedores estabelecer as diferenças entre fato e fake. Reproduzo aqui o que respondi:

Fato: uma menina de 4 anos interagiu durante poucos segundos, tocando o pé e a mão do artista nu, que era filha de uma amiga presente, numa performance artística no MAM de São Paulo. Era 26 de setembro (de 2017). No dia 28, as cenas editadas da criança tocando o artista viralizaram na internet. Ele sofreu cinco meses de linchamento moral como pedófilo.

Fake: comprados com dinheiro público pela Lei Rouanet nos governos do PT, artistas e museus de esquerda tentam promover a pedofilia e a pornografia infantil, contra os valores cristãos da família tradicional.

Fato: em 22 de fevereiro o Ministério Público Federal de São Paulo pediu o arquivamento da investigação. A procuradora da República Ana Letícia Asby concluiu: “a mera nudez do adulto não configura pornografia eis que não detinha qualquer contexto erótico. A intenção do artista era reproduzir instalação artística com o uso de seu corpo, e o toque da criança não configurou qualquer tentativa de interação para fins libidinosos”.

Fato: o artista chegou a encaminhar à Polícia as 150 ameaças de morte que sofreu.

Fake: o pedófilo se suicidou. E foi morto a pauladas na rua diante da sua casa.

Fato: o artista sobreviveu. E está aqui contando a sua história.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

Bienal do Livro merece defesa contra estupidez, mas também críticas

 

 

Defesa da Bienal

Na quinta a coluna foi (aqui) enfática na defesa da Bienal do Livro contra a campanha de ódio e intolerância que lhe foi lançada nas redes sociais. Ela foi perpetrada por alguns aloprados da direita local, tentando surfar a onda conservadora que elegeu Jair Bolsonaro (PSL) presidente, para saírem da obscuridade e se lançarem a vereador por Campos em 2020. Com ambições pessoais travestidas de cruzada moral, a intenção é semear ódio e medo para tentar tumultuar o evento cultural mais importante da cidade.

 

Contra livro a estudantes

A Bienal será realizada no campus Campos-Centro do Instituto Federal Fluminense (IFF), entre os dias 20 e 25. Ironicamente, um dos autores de vídeo contra a Bienal é também professor de pedagogia do próprio IFF. O obscurantismo da sua posição foi tamanho, que ele chegou a criticar o incentivo do governo municipal à leitura de alunos da rede pública, através de um vale-livro no valor de R$ 10,00. Segundo ele, o dinheiro poderia ser usado na construção de uma sala de repouso, na qual possivelmente dormita seu compromisso como educador.

 

Nem Hitler ou Mussolini

O outro autor de vídeo atacando a Bienal do Livro foi um jovem que diz liderar um grupo de direita em Campos. Estranhamente, a sigla do coletivo é composta das iniciais do nome do suposto líder. Ao que se saiba, Adolf Hitler nunca pensou em designar o Partido Nacional-Socialista como AH. Tampouco Benito Mussolini pensou em chamar o Partido Nacional Fascista de BM. Aparentemente, os dois ditadores tiveram mais humildade e senso de ridículo do que seu pastiche campista.

 

Posição do IFF

Sobre o professor do IFF, a coluna consultou o reitor da instituição, professor Jefferson Azevedo, sobre o vídeo. Ele disse: “Reafirmamos que a manifestação do servidor no vídeo não representa, em hipótese alguma, a opinião e o posicionamento da instituição com relação a esse relevante evento cultural, este ano em sua 10ª edição. Apesar de manifesta de maneira agressiva e com claro viés político-ideológico, nosso entendimento é de que as críticas são feitas por um cidadão no uso de sua liberdade de expressão em um ambiente social.”

 

Soldo rosáceo

Já sobre o líder do grupo de direita que batiza com as iniciais do seu nome, quem descobriu algumas coisas interessantes foi o jornalista Esdras Pereira. O jovem em questão não só quer ser candidato a vereador em 2020, como já foi em 2012, quando teve apenas 117 votos. E, como consta no site de prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele recebeu seis doações de campanha da ex-prefeita Rosinha Garotinho (atual Patri), no valor total de R$ 1.486,60. A mesma Rosinha que trocou com a petista Dilma Rousseff a ausência da filha Clarissa na votação do impeachment da então presidente pela venda do futuro de Campos.

 

Nelson censurado

Rosinha e Garotinho saíram do teatro à política. Após ter interpretado papeis ousados nos palcos de Campos, nas décadas de 70 e 80 do século passado, Rosinha ficaria marcada como prefeita por ter censurado no Trianon, em julho de 2013, a peça “Bonitinha, mas ordinária”, do mestre da dramaturgia brasileira Nelson Rodrigues. O motivo foi denunciado à época pelo Rodrigo Vahia, do grupo teatral carioca Oito de Paus: “meu grupo de teatro teve a peça CENSURADA em Campos (…) Simplesmente porque a peça de Nelson Rodrigues poderia ofender a prefeita Rosinha Garotinho, que é evangélica. Em pleno século XXI?”.

 

Crítica à Bienal

Em vez de servir a velhos senhores e tentar surfar a onda conservadora, críticas construtivas poderiam ser feitas à organização da 10ª Bienal. Realmente, muitas dos seus temas e debatedores atendem à agenda lacradora, recusada pelas urnas de outubro. Há muitos intelectuais de pensamento liberal que poderiam ser convidados para dar equilíbrio ao evento. Sem discordância não há debate, só monólogo. A unanimidade, como sentenciava o próprio Nelson, é burra. Em verso, o poeta Manoel de Barros advertia: “O mundo é sortido, Senhor”.

 

Publicado hoje (17) na Folha da Manhã

Onda do crime em Campos e da estupidez política contra a Bienal

 

 

Onda do crime em Campos

Em plena intervenção das Forças Armadas na segurança pública do Estado do Rio, vários crimes foram registrados em Campos, entre a noite de terça e o dia de ontem. Na ocorrência de maior repercussão, quatro homens armados renderam um segurança e roubaram as Lojas Americanas, por volta das 20h do dia 13, na rua 13 de Maio, em pleno Centro de Campos. A Polícia Civil suspeita da ligação desse crime com o furto no supermercado Walmart, na madrugada de segunda (12), também praticado por quatro assaltantes.

 

Em 2018, 202 homicídios

Ainda na noite de terça, mais dois óbitos elevaram a 202 o número de homicídios praticados em Campos em 2018. Baleado por um policial militar durante confusão de bar no Parque Alphaville, em Guarus, Luan Lilargem Barcelos tinha 29 anos. Ele não resistiu e morreu no Hospital Ferreira Machado, onde estava internado desde o último dia 2. Também na noite de terça, Donato Ribeiro Carvalho foi executado a tiros. No lugar de um bar, o palco do assassinato foi uma pizzaria no Parque Presidente Vargas, novamente em Guarus.

 

Força de Bolsonaro e Witzel

Na manhã de ontem foi a vez de cinco presos que haviam saído do Presídido Carlos Tinoco da Fonseca. De carro, eles teriam ido realizar um serviço extramuro, quando foram fechados por outro veículo na estrada do Santa Rosa. Deste saíram homens armados, que atiraram, ferindo dois detentos. Eles foram atendidos, enquanto os outros três aproveitaram a episódio para fugir. Foi a repetição diária de episódios como esse, no Estado do Rio e em todo o país, que elegeu Jair Bolsonaro (PSL) presidente. Assim como Wilson Witzel (PSC), governador.

 

Guarda da esquina

A necessidade de combate à criminalidade não pode ser confundida com carta branca. Na ditadura militar (1964/85) que Bolsonaro afirma não ter existido, um dos momentos mais dramáticos foi o Ato Institucional nº 5 (AI-5) de 1968. Diante dele, o vice-presidente civil Paulo Aleixo disse: “o problema é o guarda da esquina”. Até agora, nada indica que o presidente eleito não respeitará a Constituição. O problema é que, após sua vitória, seus eleitores mais aloprados se julgam investidos da autoridade do tal “guarda da esquina” nas redes sociais.

 

Censura prévia

Um dos itens considerados mais duros no AI-5 foi a censura prévia, inclusive a livros. Parece ser isso que os aloprados locais da direita se julgam no direito de instalar em Campos. E logo sobre o evento cultural mais importante do município: a Bienal do Livro, que terá sua 10ª edição entre os dias 20 e 25. O alvo escolhido foi o artista Wagner Schwartz, que irá compor a mesa “Fake News: Mentiras Verdadeiras”, no dia 23. Um grupo de direita chegou a ameaçar nas redes sociais: “protesto no dia da Bienal, impossibilitando que o evento seja realizado”.

 

O alvo

Schwartz se tornou conhecido em setembro de 2017, com a polêmica envolvendo sua apresentação no MAM de São Paulo. Na performance, ele se apresentava nu e permitia que os espectadores interagissem com seu corpo. Acompanhada da mãe, uma menina de 6 anos tocou o tornozelo do artista. A partir dali, ele sofreu um linchamento virtual, acusado de pedofilia, e chegou a receber 150 ameaças de morte. Em fevereiro de 2018, o Ministério Público Federal concluiu que não houve nenhum crime no caso e arquivou a investigação.

 

Polícia Federal

Dois membros dessa direita obscura divulgaram vídeos nas redes sociais. Neles exemplificaram o que são fake news, insistindo nas acusações de pedofilia. Um é professor do IFF, que abrigará a Bienal, e foi contrário até a estimular estudantes à leitura. O outro delirou com “atentado de esquerda” e batiza com as iniciais do seu nome o grupo que diz liderar. Lastimáveis como “guardas de esquina”, buscam pegar carona na onda conservadora para se lançarem a vereador em 2020. Antes e depois, qualquer problema no IFF caberá à Polícia Federal.

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

Contra Bienal do Livro em 2018 na busca de holofote para 2020

 

 

Hoje, o assunto do dia foram as ameaças de militantes da direita de Campos contra a 10ª Bienal do Livro de Campos, que será realizada entre os dias 20 e 25 deste mês. O alvo principal é a mesa “Fake news: Mentiras Verdadeiras”, programada para às 17h do dia 23, e um dos seus integrantes: o coreógrafo Wagner Schwartz.

Schwartz ficou famoso em setembro de 2017, com a polêmica envolvendo sua apresentação “La Bête” no MAM de São Paulo, em setembro de 2017. Na performance, ele se apresentava nu e permitia que os espectadores interagissem com seu corpo. Acompanhada da mãe, uma menina de 6 anos tocou o tornozelo do artista, a cena foi filmada e viralizou nas redes sociais. A partir dali, Schwartz sofreu um linchamento virtual, acusado de pedofilia, e chegou a receber 150 ameaças de morte. Em 22 de fevereiro de 2018, o Ministério Público Federal concluiu que não houve nenhum crime de pornografia infantil no caso e arquivou a investigação.

Por conta da presença de Schwartz, bem como de outros eventos da X Bienal de Campos considerados “esquerdistas”, dois vídeos circularam nas redes sociais locais. Num deles, um professor de pedagogia do IFF — cujo campus Campos-Centro abrigará a Bienal — chegou a criticar até o vale-livro no valor de R$ 10,00, que será distribuído a cada aluno da rede pública presente. No outro vídeo, um líder de um grupo de direita de Campos chegou a dizer que, com a presença de Schwartz, a 10ª Bienal iria sofrer “um atentado de esquerda”.

Nos dois vídeos, chamado pejorativamente de “Peladão do MAM”, Schwartz foi o principal alvo. Atrás de holofotes, seus autores não terão os nomes divulgados. Os dois tentam se tornar conhecidos, surfando a onda conservadora que, em outubro, elegeu Jair Bolsonaro (PSL) presidente e Wilson Witzel (PSC), governador. O objetivo de ambos é se lançar à Câmara Municipal de Campos em 2020.

Com ambições pessoais travestidas de cruzada moral, a intenção é semear ódio e medo para tentar tumultuar o evento cultural mais importante da cidade. O governo de Campos certamente merece críticas. Mas classificá-lo como “comunista” ou “socialista”, por conta da diversidade temática em debate aberto na Bienal, é como um professor ser contra o estímulo à leitura de crianças e adolescentes de baixa renda. Ou um coletivo que pretende representar a direita no município e se identifica não com as iniciais do grupo, mas do nome de quem se diz líder.

 

Com a chegada de Hitler ao poder em 1933, listar obras e autores como proibidos levou à queima de livros na Alemanha nazista

 

 

Se for para tentar boicotar o evento, faz parte da democracia. E não deverá fazer muita diferença. Historicamente, os discursos de ódio só têm eco entre quem nunca foi muito chegado a ler. Agora se for para “cobrar da Prefeitura em forma de protesto do dia da Bienal, impossibilitando que o evento seja realizado”, como o tal grupo de direita chegou a veicular ontem em manifestção nas redes sociais, além da segurança da PM e Guarda Civil, bom lembrar que qualquer problema no IFF terá que ser investigado pela Polícia Federal.

Jornalista Artur Xexéo

Jornalista de O Globo, Artur Xexéo participará da mesa de debate com o artista Wagner Schwartz, assim como os jornalistas campistas Ocinei Trindade e Cláudia Eleonora. Hoje, Xexéo falou ao repórter da Folha Matheus Berrirel sobre as reações nervosas ao debate sobre fake news na Bienal de Campos:

— Enquanto ficar no protesto, tem até o meu apoio, pelo direito de protestar. Sou contra tentar se impedir que o evento aconteça. Neste caso, eu sou contra, porque foi chamado o artista para participar de uma mesa, esse artista tem um histórico.  Você tentar impedir que uma pessoa participe de uma mesa de debate porque ela tem essa história no seu currículo artístico, aí não dá para aceitar. Isso não é democrático, é antidemocrático.

 

Hamilton Garcia — O Brasil que emerge das urnas

 

 

A vitória de Bolsonaro começou a se delinear em abril de 2017, quando, pela primeira vez, o candidato suplantou, por um ponto percentual apenas, seus competidores mais proeminentes na oposição ao desgastado PT, cujo candidato (LILS) ocupava a primeira colocação nas sondagens[i]. A partir daí, o candidato da direita se afirmaria, crescentemente, na primeira colocação, sem o petista preso em Curitiba ou concorrentes outsiders (J.Barbosa e L.Huck), enfrentando uma Marina Silva fragilizada por seu isolamento, um Ciro Gomes reestreante no protagonismo político e candidatos tucanos tisnados pelas escandalosas relações entre seu ex-candidato (Aécio Neves) e o megaempresário Joesley Batista — que o PSDB, apesar dos esforços de seu presidente interino (Tasso Jereissati), tratou de minimizar.

Além do isolamento da Rede, do vácuo de alternativas e da desmoralização do PSDB, Bolsonaro também se beneficiou da rigidez fisiológica do centrão-MDB e ideológica da esquerda, que manteve-se atada ao partido (PT) que capitaneou os megaesquemas de corrupção desnudados, à exaustão, no Mensalão e no Petrolão. Mas, nem a tibieza oposicionista da centro-esquerda, nem a crise da velha política associada à canonização de LILS, podem explicar o desenlace eleitoral. Concorreu de maneira decisiva para tal, mesmo que a compreensão geral não seja muito clara a respeito, o esgotamento do bloco histórico responsável pela redemocratização do país (vide “Os perigos que se avizinham e o antídoto”).

É neste contexto crítico que deve ser visto o futuro governo e sua oposição. O bloco histórico em agonia, da inclusão consumista-financista, impõe duas tarefas básicas, de dificuldade assimétrica, ao novo governo: o fim do compromisso neopatrimonial, que marca a modernização conservadora brasileira e veio a se constituir em pilar central de variados arranjos políticos ao longo do séc. XX — com importantes inflexões no Estado Novo (1937-1945) e no período militar (1964-1984), sem maiores resultados por conta do infantilismo de esquerda que os antecedeu —, e a reindustrialização do país, cujo ápice foi o “milagre brasileiro” (1967-1979) — cujo retrocesso se deveu à incapacidade do regime de superar o caráter elitista de seu bloco histórico.

A indicação do juiz Sérgio Moro para o (super)ministério da Justiça coloca o novo governo em posição privilegiada para enfrentar tal desafio histórico, na busca da racionalização da máquina de Estado — objetivo acalentado desde o DASP (1938) e levado à cabo marginalmente, ao sabor das conveniências políticas, com os resultados conhecidos, na média: Estado grande, com baixa eficiência, perdulário e refém de corporações (privadas e públicas) que atrofiam seu desempenho enquanto parasitam seus recursos em benefício próprio.

A persistência do neopatrimonialismo, uma versão avançada e urbana do velho patrimonialismo mercantil lusitano[ii], se liga a uma modernidade cujos atores foram tragados pelo Estado ao longo de sua constituição — caso dos sindicatos de trabalhadores e patrões a partir de 1930[iii] —, quer pelas assimetrias institucionais dos primeiros (déficit de representatividade), quer pela vontade ativa do Estado de manter controle sobre a sociedade esmagando os que dele tentavam escapar. As desigualdades regionais, no imenso território, e a resiliência das antigas práticas coronelísticas — urbanização adentro, mesmo sem “coronéis” —, ajudaram na sobrevivência do modelo nos interstícios da Constituição de 1988.

O desmonte desta herança maldita, que desde a Primeira República (1889-1930) conecta a base eleitoral municipal ao governo central, por meio da “política de governadores” e suas casas legislativas, terá forte impacto sobre a eficiência e universalidade das políticas públicas, mas ainda assistirá a uma árdua resistência, dada sua capilaridade federativa, que exigirá, para ser suplantada, não da mera descentralização, mas dela acompanhada da instituição de núcleos qualificados de gestão, com a obrigatoriedade de contratação de pessoal técnico especializado para as funções administrativas regionais e municipais — algo que não se ouviu falar até o momento.

Seja como for, a ruptura, evitada por todas as coalizões governistas na Nova República, se eficazmente concluída, tem potencial para alçar Jair Bolsonaro ao rol dos estadistas nacionais, forçando o centro e a esquerda a repensar suas estratégias para não serem varridos para a margem da disputa política, como foi a direita no fim melancólico do regime militar (Governo Figueiredo, 1979-1985).

Mas, mesmo que obtenha sucesso na agenda de modernização do Estado, com impacto ao nível econômico mais básico, é certo que o novo governo não poderá prescindir do suporte econômico de setores estratégicos, capazes de sustentar a renda agregada, suportar o consumo (privado e público) e os investimentos (idem). Para isso, a indústria, setor por excelência da propulsão tecnológica e da economia de escala, capaz de sustentar amplas cadeias produtivas e estabilizar a modernização no longo-prazo — problema estrutural do Brasil ao longo do séc. XX, que foi posto em segundo plano desde a redemocratização em proveito da distribuição (consumo) —, terá que reassumir a centralidade perdida, na agenda econômica e política, desde a crise do modelo militar-autoritário.

As tensões que se prenunciam no âmbito da nova coalizão dirigente (do velho bloco histórico), portanto, vai muito além daquela que desafiará Sérgio Moro, na Justiça, em relação à máquina estatal e os três poderes, avançando decisivamente na disputa entre Paulo Guedes (liberais) e Onyx Lorenzoni/militares (desenvolvimentistas), que, embora também guarde relação com a pauta racionalizaste do Estado, não se esgota nela, desafiando a mediação do presidente eleito com resultados imprevisíveis.

O certo é que a ameaça de tudo se desmanchar no ar, sob a crise do bloco histórico, poderá levar a um rearranjo de forças ainda mais forte do que o verificado nas urnas. Ao centro político, ao que tudo indica, caberá um papel de apoio crítico ao novo governo sob a égide do liberalismo (mercado e instituições), funcionando como um freio à radicalização (popular) da pauta antineopatrimonial no que ela implica em “refundação da república” — pretensão tida por alguns como “ataque dissimulado à democracia” —; o mesmo com relação à problemática do desenvolvimento retardatário, que encerraria em alguma forma de revalorização da regulação econômica — tida como antípoda ao mercado e à democracia.

Por tudo isso, o centro-democrático, que agrupa os fundadores do PSDB, o PPS e a Rede, entre outros, tende a um oposicionismo parlamentar e intelectual moderado, de escassa repercussão social, podendo oscilar, à esquerda e à direita, em pautas específicas.

Já à esquerda, a cisão representada por Ciro Gomes e sua pauta desenvolvimentista, explicitamente vocacionada para a construção de um novo bloco histórico centrado no trabalho e na indústria, necessitará, para ser bem sucedida, do esgotamento da pauta liberal-econômica do novo governo, sem alternativa consensual na agenda governativa vitoriosa. Ao mesmo tempo, precisará o pedetista suplantar o protagonismo petista, aferrado ao neocorporativismo de minorias e ao socialdesenvolvimentismo de compromisso (neopatrimonial) como estratégia de viabilização do “Estado popular”. Não será fácil, dada nossa tradição populista.

Todavia, o novo dinamismo político inaugurado pela novíssima frente radical de direita promete, além das incertezas, grandes oportunidades às forças políticas capazes de entender a natureza da crise e dispostas a interpelar, a seu modo, os desejos da maioria dos brasileiros.

 

[i] Vide Gazeta do Povo, in. <https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/pesquisas-eleitorais/datafolha/pesquisa-datafolha-abril-2017/> em 3/11/18

[ii] Vide Raimundo Faoro, Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro (vol.2); ed. Publifolha/SP, 2000, cap. III.

[iii] Vide Armando Boito, O Sindicalismo de Estado no Brasil, ed. Unicamp/Campinas, 1991.

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