Opiniões

Apoio de Ceciliano a Rodrigo na Feijoada da Folha reforça 3ª via a prefeito de Campos

 

Apesar do abraço em Gil Vianna, o presidente da Alerj, André Ceciliano, disse na Feijoada da Folha que vai caminhar com Rodrigo Bacellar na eleição a prefeito de Campos em 2020 (Foto Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

No último domingo (26), o presidente da Alerj, André Ceciliano (PT), declarou sobre as eleições de 2020 a prefeito da cidade que visitava na Feijoada da Folha: “Tenho uma relação muito boa também com Gil Vianna (PSL), com Wladimir (Garotinho, PSD), mas vou seguir em Campos o Rodrigo Bacellar (SD)”. A matéria foi publicada aqui, ontem (28) no Folha1, em meio a depoimentos de várias outras lideranças políticas reunidas no evento. E no mesmo dia foi repercutida e linkada por Rodrigo nas redes sociais.

Após declarar em 2 de maio (aqui) que “NUNCA me lancei candidato a nada, e desafio qualquer jornalista a me mostrar uma fala minha nesse sentido”, o apoio do presidente do Legislativo fluminense parece ter feito Rodrigo mudar de ideia. Haveria um acordo entre ele, o também deputado estadual Gil Vianna (PSL) e o ex-candidato a prefeito Caio Vianna (PDT), para definir até dezembro qual dos três se lançará a prefeito com apoio dos outros dois. A escolha seria feita por pesquisas de intenção de voto e trabalho para arregimentar legendas e montar nominatas.

O tal acordo, segundo Rodrigo detalhou hoje ao blog, teria sido montado uns 15 dias antes de uma foto dele com Gil e João Peixoto (DC) ser publicada nas redes sociais pelos três deputados, em 2 de abril. Dois dias depois, Gil negou aqui qualquer tratativa sua para 2020 que incluísse Caio, de quem foi candidato a vice-prefeito em 2016. Já sobre João Peixoto, em 27 de maio a coluna Ponto Final anunciou aqui sua aliança com o prefeito Rafael Diniz (PPS), pré-candidato à reeleição.

Mesmo sem João e Gil — que na Feijoada de domingo voltou a afirmar: “Estou muito animado, acho que está na minha hora para ser prefeito” — uma aliança entre Rodrigo e Caio poderia dar força à opção de terceira via na eleição a prefeito de Campos em 2020, para tentar driblar a polarização que se anuncia entre Rafael e Wladimir. Sobretudo com o apoio de Ceciliano ao filho do ex-vereador Marcos Bacellar (PDT). E se o filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (MDB), diferente de 2016, dessa vez conseguir manter o apoio do pai.

 

Análise dos protestos a favor de Bolsonaro, antes de ficar velha pelas ruas de amanhã

 

No domingo dia 19, publiquei aqui e na Folha da Manhã o artigo “Democracia com megafone”, usando a história antiga, moderna e recente para tentar analisar o Brasil sob governo de Jair Bolsonaro (PSL). Em diálogo com aquele texto, o servidor público federal Edmundo Siqueira escreveu outro, intitulado “Verdade fora da caverna”, publicado aqui, no blog, e na edição do último domingo (26) da Folha. Nele também foram utilizados exemplos do passado na tentativa de entender o instável presente do país.

De lá para cá, naquele mesmo último domingo, se deram as manifestações em apoio ao governo Bolsonaro, registrado em 156 municípios de todos os estados brasileiros. Antes, no dia 15, as manifestações contra os cortes federais na educação pública tinham se espraiado ainda mais, por 222 cidades. Hoje, véspera dos novos protestos pela educação programados para esta quinta (30), Edmundo voltou a escrever sobre o resultado parcial dessa confrontação democrática pelas ruas do país. E publicou sua nova análise aqui, nas redes sociais.

A partir do texto dele, mantive o diálogo aberto na forma de comentário. Sem que ninguém pretenda se assenhorar da razão, seguem abaixo os dois textos, antes de se tornarem velhos com as ruas de amanhã:

 

(Marcos Corrêa – Agência Brasil)

 

Por Edmundo Siqueira

O bolsonarismo marcou um gol. É preciso reconhecer que as manifestações do último domingo foram melhores que o esperado e o governo ganhou fôlego. As palavras impeachment e Bolsonaro estavam sendo utilizadas na mesma frase com muito mais intensidade antes dos movimentos de rua.

Talvez o “pacto” entre os poderes seja fruto desse sucesso, ou não sendo o fiasco esperado. Porém essa reconciliação deve ter vida curta e esteja ligada à reforma da previdência que atende a muitos interesses corporativos, inclusive do próprio congresso. Ao que parece o governo recua sobre o Coaf (assunto tratado nesse pacto, certamente), órgão que foi levado ao ministério da fazenda, saindo do guarda-chuva do Moro, que foi uma das pautas das manifestações que pediam justamente o contrário desse movimento, que agora o governo recua. Mesmo assim, o executivo saiu vencedor.

Mas as ruas deram seu recado e o congresso não quer sair como vilão. Deve destravar a pauta governista para que não seja ele, o congresso, o culpado pelo insucesso econômico crescente. Mas vejo que não esquecerá que foi antagonizado pelo próprio presidente, que inflou a militância. Me parece que a reforma da previdência é uma trégua, uma pausa estratégica no conflito entre os poderes, onde o mais afetado é o país.

O bolsonarismo venceu essa batalha, mas as ruas também deram outro recado: a direita liberal se afasta do bolsonarismo e a direita conservadora, ligada a costumes, enaltece as figuras de Moro e Guedes, vendo que o presidente de baixíssima capacidade intelectual e política é incapaz de atender aos seus anseios. Os pilares foram expostos.

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

As manifestações do dia 26 foram aquém dos protestos do dia15 contra o corte na educação pública. No placar parcial de municípios brasileiros, contabilizado pelo G1, está governo 156 x 222 oposição. Falta a rodada dos novos protestos pela educação desta quinta (30). Mas, sim, o domingo serviu a uma inconteste demonstração de força do governo. Que será sempre refém da lógica: só governo fraco precisa demonstrar força.

Concordo contigo e alguns comentaristas: tudo dependerá da resposta da economia às reformas. À equação só acrescentaria o elemento das investigações do MP/RJ sobre Flávio Bolsonaro e a ligação da família presidencial com as milícias fluminenses. Mas como Lula foi reeleito pelo resultado econômico do seu governo, mesmo após o Mensalão, voltamos à sentença do Jim Carville, ex-marqueteiro de Bill Clinton: “It’s the economy, stupid”.

Quanto à questão do pacto, também concordo se tratar de trégua entre os três poderes. Embora não entenda como o STF possa pactuar nada além do cumprimento da Constituição. Contudo, a não ser que o presidente, seus filhos e astrólogo voltem à carga nas redes sociais, pode durar até a aprovação das reformas da Previdência e tributária. Ambas serão conduzidas pelo “parlamentarismo branco” abertamente instalado no país.

Aprovadas as principais reformas por um Congresso que, sim, “não quer sair como vilão”, quem controla a pauta da Câmara, inclusive pedidos de impeachment, pode se lembrar que foi representado nas passeatas do domingo com o logotipo da Odebrecht e notas de dólar nos bolsos e sapatos, rotulado publicamente como “Nhonho”, “Judas” e “171”. Por muito menos, Eduardo Cunha (MDB) fez o que fez, antes de se tornar residente do Complexo Penal dos Pinhais.

 

Caminho tomado por quem desconhece a história ou se julga habilitado a desafiá-la

 

 

Carlos Andreazza, jornalista

O plebsicito permanente

Por Carlos Andreazza

 

Não importa o volume das manifestações governistas de domingo. Avalio que foram de porte razoável e de caráter nacional tanto quanto expressivas de uma mentalidade autoritária, resumida no ataque direto ao Parlamento — motor original dos atos e ímpeto antidemocrático cujo propósito, apesar da competente campanha que tentou limpar a barra pesada das convocações, não se conseguiu disfarçar: o de esmagar o Legislativo sob a convicção de que o Congresso, o inimigo, sindicato do crime, seja poder menor destinado a mero despachante dos desejos do governante popular, um imperador eleito, um guerreiro de todos os lados acossado pelo monstro chamado establishment.

O tamanho e a representatividade dos protestos, porém, sempre independerão dos fatos, matéria que são para guerra de versões. Como escrevi: não importa. O que interessa tampouco deriva do sucesso populacional das manifestações e da qualidade de suas pautas — e pode ser resumido numa pergunta: em que os atos contribuem para a agenda de um governo que se vende como reformista e que, para ter êxito na empreitada, necessitará de mínima estabilidade? Mais precisamente: qual a aposta contida em dar vazão — com estímulo oficial desde o Planalto, inclusive do presidente — a uma estratégia de intimidação contra um Poder da República do qual o Executivo precisará?

Nesta altura, só uma questão resta — dado que o erro político está cometido: o quanto tamanha burrice atrapalhará. Como recado ao ingênuo que espera alguma perspectiva de equilíbrio para se planejar, a estupidez patriota é clara: o governo, dirigido pela força reacionária bolsonarista,escolheu a campanha permanente e não perderá chance de plantar polarizações. É caminho tomado por quem desconhece a história ou se julga habilitado a desafiá-la: um governo que se move sob linguagem de oposição, ainda aos cinco meses, apostando em apoio popular constante, é um que cansa e se cansa.

O bolsonarismo investe na fundação de uma cultura plebiscitária como mecanismo para esvaziar-desqualificar o Congresso e anabolizar um canal de comunicação direta entre líder carismático e povo. É fetiche totalitário antigo e que tem exemplo recente na Venezuela — um país de instituições devastadas pela imposição populista dos governantes e que expõe sua paralisia em disputas tribais sobre quem reúne mais esfomeados na rua.

Não acredito, por óbvio, na viabilidade desse norte plebiscitário: porque o Brasilnão é a Venezuela e tem a faca afiada (e prática) de um mercado que compra (pagou caro por Bolsonaro) tão rápido quanto vende (barato) se diante de uma alternativa de negócio; porque a população, saturada de discurso político-eleitoral, elegeu Bolsonaro, um forte, para resolver o problema, e não para se apregoar vítima e pedir socorro; porque o povo não tarda a perceber que essa batalha partidária nas ruas equivale a país travado (um que não gera empregos); e porque não há quem, não sendo fanático ou estando a serviço, cegue-se longamente em fumaça que pretenda camuflar incompetência.

O governo Bolsonaro tem natureza — a imprevisibilidade — avessa ao princípio básico do que seja governar, o que é agravado pela alarmante incapacidade de gestão. E o investimento permanente em conflitos, essa verdadeira forja de crises institucionais que anima o bolsonarismo, apenas radicalizará o que é óbvia constatação: a de que um programa de reformas liberais, como o de Paulo Guedes, não tem meios de prosperar, senão modestamente, num ambiente de instabilidade como regra.

A reforma da Previdência já passou, será aprovada, e será razoável, independentemente de governo — e essa também é mensagem captada por quem gira a roda do dinheiro. Mas: e depois? Qual a força política — para concretizar a retórica reformista estrutural — de um governo que veste a antipolítica, que se pensa eleito para ser uma nova etapa da Lava-Jato e que considera a formação de base de apoio parlamentar uma atividade criminosa, o que significa informar ao mundo que fará “articulação” (com quem considera bandido) caso acaso, projeto a projeto, multiplicando confrontos como os vistos até agora? Não é sustentável.

O mercado financeiro, fiador de Bolsonaro como alguém domável pela razão produtiva, já mediu e pôs preço na limitação incontornável do presidente, e está ávido por embarcar na engenharia que se projeta para minimizar o prejuízo e tocar a canoa da administração de danos até 2022: o parlamentarismo informal que parece unir “governo Guedes” e o poder moderador em que consiste o Congresso, uma costura que se dedicaria a um pacote enxuto de reformas econômicas e que ceifaria — ceifará — a agenda de costumes que dá identidade ao bolsonarismo.

 

Publicado hoje (aqui) em O Globo

 

Prisão domiciliar de Feijó e consequências dos protestos em defesa do governo Bolsonaro

 

 

Feijó em prisão domiciliar

Natural de Santa Maria Madalena, Paulo Feijó foi vereador e presidente da Câmara de Campos, antes de se eleger cinco vezes deputado federal. E teve em Brasília a atuação que mais retorno deu em emendas parlamentares aos municípios da região, desde a morte do ex-deputado federal Alair Ferreira, em 1987. Ontem, foi anunciado que Feijó teve sua condenação de 12 anos e meio de prisão convertida em prisão domiciliar, por conta de um câncer. Ele foi sentenciado em 2017 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso conhecido como “máfia dos sanguessugas”, revelado em 2006.

 

Livres, leves e soltos

No estado democrático de direito não se discute decisão judicial, sobretudo julgada em última instância. Feijó cumprirá a pena na sua casa, em Campos. Usará tornozeleira eletrônica e só poderá sair para tratar da saúde. No país em que o ex-presidente Lula está preso há mais de um ano, condenado pelos mesmos crimes de Feijó, e que o ex-presidente Michel Temer já foi preso duas vezes, antes mesmo de ser condenado, o que muitos questionam são os aparentes dois pesos e duas medidas. Estão aí o ex-governador Anthony Garotinho, o deputado federal Aécio Neves e o senador Renan Calheiros, livres, leves e soltos, para suscitar as dúvidas.

 

Brasil de Bolsonaro (I)

Desde domingo (26), o principal assunto do país foram os protestos daquele dia em defesa do governo Jair Bolsonaro (PSL). Campos não foi exceção, com manifestantes saindo da Igreja Nossa Senhora do Rosário até a praça São Salvador. Segundo os organizadores, foram 400 pessoas. No dia 15 a cidade tinha registrado outro protesto, contra os cortes do governo federal na educação pública, que também se deu em todo o país. Mas, além de terem errado ao fecharem a av. Alberto Lamego em frente à Uenf, os organizadores da manifestação de oposição falharam ao não contabilizar quantos pessoas as integraram em Campos.

 

Brasil de Bolsonaro (II)

Na conta nacional, as manifestações a favor do governo perderam: foram registradas em 156 cidades, contra as 222 contra o corte na educação. Mas, embora criticados dentro da própria direita brasileira, os protestos de domingo estiveram longe de ser um fracasso. Após suas primeiras convocações nas redes sociais terem sido feitas com ameaças de invasão do Congresso e do STF, a pauta foi corrigida para a defesa da reforma da Previdência do ministro da Economia Paulo Guedes e do projeto anticrime e anticorrupção do ministro da Justiça Sérgio Moro. Ambas foram democraticamente encaminhadas pelo governo à Câmara Federal.

 

Brasil de Bolsonaro (III)

Embora uma minoria tenha insistido no domingo em propor o fechamento do Congresso e do STF, o que é antidemocrático e inconstitucional, o fato de uma reforma da Previdência ter conquistado tanto apoio popular nas ruas, é fato inédito na história do Brasil. E raro em todo o mundo, já que sempre é feita sobre a perda de direitos. Outra novidade foi a troca dos alvos dos bolsonaristas. Nas ruas de domingo, Lula e o PT foram substituídos pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), e o Centrão, que reúne cinco partidos e cerca de 170 deputados. Após os protestos, Bolsonaro chegou a dizer que o Centrão virou “palavrão”.

 

Brasil de Bolsonaro (IV)

As manifestações de domingo conseguiram êxito em adesão popular, quando todas as pesquisas indicam que o governo perde popularidade como nenhum outro na história da redemocratização do país. Mas podem gerar um efeito reverso, ainda que retardado. O puxão de orelhas das ruas pode fazer com que a Câmara apresse a votação da reforma da Previdência. Mas, como já planejava, deve continuar a fazê-lo aos seus moldes, não do governo, engatando na sequência a sua própria proposta de reforma tributária, no que já vem sendo chamado da instalação de um “parlamentarismo branco” no Brasil.

 

Brasil de Bolsonaro (V)

Após as reformas da Previdência e tributária, tudo vai depender da resposta da economia. E de questões como as investigações dos fortes indícios de lavagem de dinheiro, fraude fiscal e “rachadinha” pelo senador Flávio Bolsonaro (PSL). Bem como da ligação da família presidencial com as milícias fluminenses. Em apenas cinco meses, o tempo parece acuar o presidente, que recorreu às ruas para ganhar fôlego. Mas nada indica que afetará quem controla a pauta e 170 votos da Câmara. No passado, três presidentes tentaram governar sobre o Congresso: Jânio Quadros renunciou, Fernando Collor e Dilma Rousseff sofreram impeachment.

 

Publicado hoje (29) na Folha da Manhã

 

Polemista, velho rockeiro analisa “domingo histórico” em defesa do governo Bolsonaro

 

Lobão em protesto pelo impeachment de Dilma na av. Paulista, em 2014 (Foto: Daniel Teixeira – Estadão Conteúdo)

 

Lobão é e sempre foi um polemista. Mas, ao lado de Cazuza (1958/1990) e Renato Russo (1960/1996), talvez seja o grande compositor do BRock, movimento que deu a trilha sonora dos hoje míticos anos 1980. Tão bom letrista quanto seus dois pares vítimas do HIV, sobreviveu a eles para se tornar um músico muito superior, capaz de tocar todos os instrumentos dos seus discos.

 

Amigos e parceiros eventuais, Cazuza e Lobão nos anos 1980

 

Autobiografia escrita a quatro mãos com o jornalista Cláudio Tognolli

Autodidata de grande erudição, nos últimos anos se revelou também um escritor de sucesso. Seu primeiro livro foi um imediato bestseller. A autobiografia “50 Anos a Mil”, lançado em 2010, é leitura prazerosa. E necessária para se compreender a década de 1980, transição da ditadura militar à Nova República, pelos olhos de quem à época era jovem e transgressor.

Seu segundo livro “Manifesto no Nada na Terra”, de 2013, é fruto de outra caraterística da personalidade multifacetada de Lobão: sua enorme pretensão. Busca desmontar não só o modernismo brasileiro a partir do manifesto de 1922, como tudo que veio de lá para cá na cultura do Brasil. E centra fogo nos ícones da MPB Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, por quem o rockeiro desenvolveu uma obsessão edipiana, temperada por um nítido e justificado complexo de inferioridade.

Não li seu terceiro livro, “Em Busca do Rigor e da Misercórdia”, de 2015. E achei o quarto, “Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 Pelo Rock”, de 2017, uma colagem oportunista das suas duas primeiras obras literárias. Mas por músicas, livros e lives nas redes sociais, Lobão continua sendo referência a uma juventude de classe média do país, que só tinha vivido a partir dos governos do PT e, em reação, foi a primeira a aderir em peso à candidatura vitoriosa de Jair Bolsonaro (PSL) em 2018.

 

Nos anos 1980, íntimo de José Dirceu e Lula

 

Recentemente, Lobão rompeu com o dublê de astrólgo e filósofo Olavo de Carvalho, de quem se aproximara em sua migração de militante petista a antipetista ferrenho. Não sem razão, o músico classificou como “sórdido” o ataque do guru da família presidencial ao general Eduardo Villas Bôas. O ex-comandante do Exército Brasileiro, atual assessor do GSI no governo federal e portador de doença degenerativa foi chamado por Olavo de “doente preso a uma cadeira de rodas”.

 

 

Lobão advertiu que o governo Bolsonaro iria “ruir” se continuasse sob a tutela olavete. E rompeu ruidasamente com o próprio presidente: “não tem a menor capacidade intelectual e emocional para poder gerir o Brasil”. O músico se juntou à parte cada vez maior da direita brasileira que chega à mesma conclusão: o economista Delfim Neto, o filósofo Luiz Felipe Pondé, o historiador Marco Antonio Villa, o empresário Flávio Rocha e os jornalistas Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Rachel Sheherazade, Felipe Moura e Carlos Andreazza.

Como esses e alguns outros, Lobão foi severamente crítico às manifestações de ontem em defesa do governo Bolsonaro. Contra elas também se posisionaram Janaína Paschoal (PSL), autora do pedido de impeachment de Dilma e deputada estadual mais votada do Brasil, e o MBL do deputado federal Kim Kataguiri (DEM). E qualquer um que classificar algum desses como esquerdista, não passa no psicotécnico.

Sem papas na língua, Lobão analisou em vídeo o ovo de serpente que ajudou a chocar, eclodido nas manifestações de ontem contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF). E o que elas, em seu entender, apontam ao amanhã. Mesmo a quem não gosta do velho rockeiro — pelos motivos certos e, sobretudo, pelos errados —, vale a pena conferir:

 

 

Brasil vai de novo às ruas entre as bandeiras da Educação e da defesa de Bolsonaro

 

Hoje, em frente ao Congresso, um típico tiozinho do WhatsApp se egoelava contra o STF ao lado de um banner que falava em três poderes: Exército, Marinha e Aeronáutica (Foto: O Antagonista)

 

Não foi um fiasco. Mas quem saiu hoje às ruas de 156 cidades brasileiras, em defesa do governo Jair Bolsonaro (PSL), ficou um pouco aquém dos 222 municípios do país que, no último dia 15, registraram manifestações em defesa da educação pública, ameaçada pelos cortes anunciados por um MEC comandado pelo olavista Abraham Weintraub.

Não é preciso ser bolsonarista para ser a favor de algumas pautas defendidas nos protestos de hoje. É o caso da demanda aritmética da reforma da Previdência, com a qual o presidente nunca se empenhou; ou a manutenção do Coaf no ministério da Justiça e Segurança, ao contrário do que a Câmara Federal recentemente decidiu.

Mas é estranho que quem saia às ruas contra a corrupção ignore os indícios de lavagem de dinheiro, fraude fiscal e “rachadinha” que pesam sobre o senador Flávio Bolsonaro (PSL), ou as ligações intestinas da sua famíla com as milícias cariocas. E que o arauto da honestidade vestido de verde e amarelo não fique vermelho diante da pergunta: como Fabrício Queiroz, ex-assessor do filho 01 do presidente, arrumou R$ 133,58 mil em dinheiro para pagar despesas médicas?

Mais inadmissível foi ver as faixas nas manifestações de hoje pregando o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF). Mesmo após Bolsonaro ter advertido publicamente que essas seriam pautas dos protestos em defesa do governo Nicolás Maduro na Venezuela, não do seu, a realidade revelou o mesmo espírito autoritário de ambos — independente das ideologias que se dizem opostas.

Congresso, STF e governo federal merecem críticas. No Brasil ou qualquer outro estado democrático de direito. Mas este deixa de existir quando um dos três poderes, insituídos desde o séc. XVIII por Montesquieu, acha que pode funcionar sem os limites impostos pelos outros dois. É o que se vive hoje tanto na Venezuela sob o regime esquerdista de Maduro, quanto na Hungria do direitista Viktor Orbán, com quem o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) se reuniu em abril.

No Brasil do último domingo de maio, os ataques ao Congresso e ao STF se limitaram a faixas e palavras de ordem. Diferente do que chegou a ser pregado nas redes sociais durante as convocações das manifestações, as duas instituições não tiveram suas sedes invadidas em Brasília. Caso contrário, na transição dos delírios virtuais ao mundo real, poderiam descobrir que o primeiro risco de quem quer bater é apanhar.

Ainda assim, sobre um dos trios elétricos hoje em frente ao Congresso, um manifestante se esgoelava ao microfone: “Abaixo o STF”. E o fazia ao lado de um banner onde se lia: “A favor dos três poderes: Exército, Marinha e Aeronáutica”. Apesar da afronta direta à democracia, o banner não foi tocado. Diferente do que os defensores de Bolsonaro fizeram em Curitiba, quando arrancaram sob aplausos uma faixa afixada à fachada do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Nela estava escrito: “Em defesa da Educação”.

Entre as duas bandeiras, não deveria ser difícil escolher.

 

Sob aplausos de quem se vestiu de verde e amarelo, bolsonaristas arrancam em Curitiba uma faixa em defesa da Educação, na fachada da Universidade Federal do Paraná  (Foto: Twitter de Ricardo Marcelo Fonseca, reitor da universidade)

 

Com Rafael e Wladimir, Igreja Católica nivela o debate político de Campos para 2020

 

 

Dom Roberto Ferrería Paz abriu e fechou o encontro com lideranças políticas de Campos na Igreja do Saco (Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)

 

Igreja nivela debate político

Se nas rodas de conversa, nas redes sociais e na imprensa, a eleição a prefeito de Campos em 2020 já começou, ontem foi um dia em que a Igreja Católica chamou para si a responsabilidade de nivelar o debate por cima. Como a coluna anunciou, várias lideranças políticas da região foram convidadas pelo bispo Dom Roberto Ferrería Paz para um encontro às 10h da manhã na Igreja Nossa Senhora do Rosário, a popular Igreja do Saco. Se nem todos puderam comparecer, os dois nomes que despontam como mais fortes candidatos ao governo da cidade estiveram presentes: o prefeito Rafael Diniz (PPS) e o deputado federal Wladimir Garotinho (PSD).

 

“Valores, não conchavos”

Primeiro a usar a palavra, Dom Roberto advertiu: “A política não pode se resumir ao poder pelo poder, mas tem que ser usada para servir à população”. Ele ressaltou a “importância da palavra de Deus, que deve se aproximar da cidade, reconhecendo sua pluralidade”. E disse que “a Constituição de 1988 é cidadã porque tem nela os valores cristãos do diálogo e da inclusão”. Sobre 2020, ressalvou que as discussões têm que se dar “entre valores, não conchavos”, criticando o que chamou de “publicidade do medo”, lançada na política do mundo por Steve Bannon, estrategista da campanha vitoriosa de Donald Trump a presidente dos EUA em 2016.

 

Rafael

Após Dom Roberto, Rafael Diniz fez uso da palavra. O prefeito admitiu que a cidade precisa avançar mais, mas falou do que seu governo já fez. Na educação, destacou “a primeira escola em tempo integral, cuidando dos filhos de Campos com quatro refeições diárias e qualidade no ensino, com reforço nas aulas de português e matemática”. E lembrou que as Fundações Municipais dos Esportes e da Criança atendem mais de 36 mil jovens. Ressaltou que o “momento da fartura (dos royalties do petróleo) já passou” e que “a cidade e a região não podem mais ser usados como trampolim, com objetivos eleitoreiros e irresponsáveis”.

 

Wladimir

Depois de Rafael, foi a vez de Wladimir. Se o uso da cidade como “trampolim eleitoreiro”, lembrado pelo prefeito, pareceu uma referência direta ao ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), seu filho preferiu não vestir a carapuça. O deputado disse que o momento não era de discussão política, mas de união na luta contra a desigualdade social, cujo acirramento no país atribuiu ao desemprego: “O desenvolvimento econômico gera empregos. E hoje temos até engenheiros desempregados trabalhando como motoristas de Uber”. Conciso em sua fala, ele disse estar ali “mais para ouvir e aprender”.

 

Os demais 

Após Wladimir, quem falou foi o vice-prefeito de São João da Barra, Alexandre Rosa (PRB), representando a prefeita Carla Machado (PP). Ressaltou a importância do Porto do Açu para a economia da região e a mudança no comportamento do eleitor, demonstrado no pleito de 2018. Depois dele, falaram os vereadores Eduardo Crespo (PR) e Josiane Morumbi (PRP), o odontólogo Alexandre Buchaul, dois representantes do Partido Novo e, por último, outros dois, do movimento Direita Campos. Também presentes, os vereadores Jairinho É Show (PTC) e Fred Machado (PPS), presidente do Legislativo goitacá, não fizeram uso da palavra.

 

Pior analfabeto

Dom Roberto voltou a falar para encerrar o encontro. Clérigo considerado progressista, ele não deixou que a direita radical desse a última palavra na manhã de ontem. No que poderia servir de advertência a alguns dos presentes, como a todos aqueles que hoje planejam protestar pelo país em apoio ao governo Jair Bolsonaro (PSL), o bispo de Campos lembrou: “Há dois tipos de analfabetos, os políticos, dos quais nos fala (o dramaturgo alemão) Bertolt Bercht; e os religiosos, que muitas vezes usam o nome de Deus em vão. A união dos dois produz o pior tipo: o analfabeto político que pensa poder usar a religião”.

 

Pecados e virtude

O Estado é laico. Mas com todos os seus pecados ao longo da história, das Cruzadas à venda de indulgências que gerou o protestantismo, da omissão contra o nazifascismo na II Guerra aos recentes casos de pedofilia, a Igreja Católica mostra a importância dos seus 2 mil anos de tradição no debate político de Campos. Dom Roberto lembrou que se, entre os três pilares da Revolução Francesa, a igualdade é mais cara à esquerda, e a liberdade à direita, o maior valor do cristão é a fraternidade. Conservador que marcou a cidade em nove mandatos de vereador, cujo busto está diante da Igreja do Saco, o padre Antonio Ribeiro do Rosário (1909/2004) aprovaria.

 

Publicado hoje (26) na Folha da Manhã

 

George Coutinho — Campos tem o que comemorar com a retomada das obras da UFF

 

Cidade que há anos se transformou em polo universitário, Campos ontem teve um dia feliz. Cinco deputados federais — Wladimir Garotinho (PSD), Clarissa Garotinho (Pros), Hugo Leal (PSD), Chico D’Ângelo (PDT) e Talíria Petrone (Psol) —  se comprometeram (aqui) com a emenda de bancada que deve garantir R$ 50 milhões, no Orçamento da União de 2020, para que a UFF-Campos retome e conclua as obras abandonadas dos seus dois novos prédios, às margens da av. XV de Novembro.

Diretor da UFF-Campos, Roberto César Rosendo disse ontem acreditar que bastará para a conclusão das obras, paradas na metade, que devem ser retomadas já no segundo semestre de 2020. Quem também se manifestou foi outro professor da instituição federal de ensino superior, o sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho. Abaixo, o que ele disse sobre o assunto ao blog, que toma a liberdade de fazer suas as palavras dele: “Campos tem definitivamente o que comemorar com essa excelente notícia”.

 

Prédios abandonados da UFF Campos, às margens da av. XV de Novembro (Foto: Folha da Manhã)

 

George Gomes Coutinho

Neste momento em que a educação brasileira no geral e, em particular, o ensino público superior federal encontram-se em destaque no debate público brasileiro na atual conjuntura mais por ataques de setores alinhados com uma perspectiva obscurantista e não tanto por seus avanços e contribuições (mesmo que ainda insuficientes), as notícias sobre o campus da UFF em Campos são, sem dúvida, uma bela injeção de ânimo para docentes, técnico-administrativos, alunos de pós-graduação e para os estudantes de graduação, algo em torno de 3.000 pessoas. Não obstante este “núcleo duro acadêmico”, ainda há o público frequentador dos projetos de extensão universitária em vigor no campus, vide por exemplo o longevo projeto da Uniti (Universidade da Terceira Idade), que atende pessoas oriundas da comunidade campista.

A finalização dos dois prédios da avenida XV de Novembro se traduz na instalação da vasta comunidade da UFF Campos em salas de aula modernas, gabinetes para pesquisadores-docentes (que possibilitam a acomodação que permite um melhor aproveitamento dos recursos humanos de alta qualificação que temos tendo espaço real para produção de conhecimento em tempo integral nas dependências da própria instituição), além da melhor acomodação de projetos sócio-culturais no galpão da antiga RFFSA a ser utilizado de maneira permanente com projetos de vanguarda e intervenções de interesse da população das regiões Norte e Noroeste Fluminenses.

Para além de projetos de pesquisa, projetos de extensão voltados para o público amplo, cursos de graduação e pós-graduação stricto sensu, os impactos nos arredores, onde efetivamente estão instalados os dois prédios, costumam gerar demanda por moradia estudantil, movimentação do comércio local, ampliação de equipamentos urbanos e demanda por melhoria de acessibilidade e transporte público. Em suma, os beneficiados vão para muito além do “núcleo duro acadêmico”. Os moradores dos arredores ganham, a cidade ganha e a região contará com uma instituição de ensino superior que se encontra na 6ª posição dentre as Universidades da América Latina segundo o Round University Ranking com melhores condições de infra-estrutura. Campos tem definitivamente o que comemorar com essa excelente notícia.

 

 

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