Opiniões

Indeferimento de Rosinha no Ponto de Vista

Aqui e na transcrição abaixo, a decisão do TRE de indeferir a candidatura da prefeita Rosinha Garotinho (PR) à reeleição, condenando-a ainda à inelegibilidade por oito anos (até 2016), possibilidade que a Folha vinha anunciando quase solitária, no sempre equilibrado Ponto de Vista do Christiano Abreu Barbosa…

Acertou

Por Christiano, em 24-08-2012 – 12h02

A Folha da Manhã foi um dos raros veículos que noticiou a possibilidade de Rosinha ser enquadrada pela Lei do Ficha Limpa. As recentes decisões da justiça mostram que a chance era real. Muita água e decisões nos tribunais ainda vão rolar nesta questão do registro da prefeita, até porque o tema é bastante recente e polêmico.

A minha opinião sobre a questão é contrária às decisões da justiça que afetem as urnas. A vontade popular deve sempre ser respeitada, salvo desequilíbrios claros de conduta que afetem e definam de fato a eleição, o que não parece ter sido o caso.

De toda maneira, melhor que tudo se resolva agora, antes que votos para qualquer um dos candidatos possam ser perdidos, como ocorreu com Arnaldo Vianna em 2008.


Se foi assim contra Nahim, como poderia ser contra Cabral?

Quem quiser se lembrar da confusão generalizada na Câmara de Campos, em 30 de setembro do ano passado, durante a segunda cassação de Rosinha (PR), quando o vereador Nelson Nahim foi impedido fisicamente de tomar posse da Prefeitura, seguindo determinação da Justiça, é só conferir abaixo os registros capturados no competente (e corajoso) trabalho da repórter-fotográfica Mariana Ricci, que o blog à época divulgou aqui. Se foi assim, no plenário da Câmara, contra o próprio irmão e cunhado do casal Garotinho, não é nem preciso muita imaginação para se projetar o que poderia ser, amanhã de manhã, em plena Praça São Salvador, no enfrentamento físico direto contra o ato público que já estava marcado para ser comandado pelo governador Sérgio Cabral, eleito por Garotinho como seu desafeto figadal e por ele pessoalmente culpado pelo indeferimento da candidatura de Rosinha à reeleição, ontem,  pelo TRE, com base na lei do Ficha Limpa, em atendimento ao pedido do Minsitério Público Eleitoral…

Cabral adia ato público para evitar batalha campal na Pça. São Salvador

Como informou aqui em primeira mão o blogueiro Cláudio Andrade, e foi replicado aqui pelo jornalista Saulo Pessanha, o governador Sérgio Cabral (PMDB) não virá mais a Campos amanhã, onde participaria de uma caminhada e ato público, em favor da candidatura petista de Makhoul Moussallém à Prefeitura, com concentração a partir das 10h da manhã, na Praça São Salvador. Ele viria acompanhado do vice-governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e do senador Lindenberg Farias (PT). Também assessor parlamentar do deputado estadual Roberto Henriques (PSD), Andrade informou que as razões do governador seriam “adaptações de agenda”.

Na verdade, como este blogueiro conversou conversou com o próprio Makhoul, desde a noite de ontem, o verdadeiro motivo da mudança de planos foi o chamado “Comício da Verdade”, convocado aqui por Rosinha Garotinho (PR), no blog do seu marido e líder político, deputado federal Anthony Garotinho (PR), logo após o indeferimento da candidatura da prefeita pelo TRE, que a enquadrou na lei do Ficha Limpa, a pedido do Ministério Público de Campos, tornando-a ainda, junto com seu vice, Dr. Chicão Oliveira (PP), inelegível pelos próximos oito anos —  até 2016. Concentrando seus ataques na pessoa do governador Sérgio Cabral, creditando a ele uma suposta influência política na decisão do Tribunal, do qual se dizia exatamente a mesma coisa nos tempos em que o casal Garotinho se alternou no governo do Estado, o comício pró-Rosinha foi marcado exatamente no mesmo dia, horário e local do ato oposicionista previamente agendado.

Como os atos de protesto engendrados por Garotinho, sempre que as decisões jurídicas são desfavoráveis aos seus interesses, não respeitaram nem seu próprio irmão, vereador Nelson Nahim (PPL), que foi fisicamente impedido de tomar posse da Prefeitura, na segunda e última cassação de Rosinha, numa confusão generalizada na Câmara, nada indica que o desfecho pudesse ser diferente na manhã de amanhã, sob risco da Praça São Salvador se tornar palco para uma batalha campal, caso os militantes ambos os lados se encontrassem, com aqueles arregimentados por Garotinho sendo pessoalmente insuflados contra Sérgio Cabral. Assim, sendo, como explicou Makhoul, num gesto de responsabilidade com a integridade física própria e, sobretudo, com a de terceiros, tanto ele, quanto o governador, seu vice e o senador Lindenberg, optaram por adiar seu evento, mesmo que o tenham marcado antes dos Garotinho.

Como Cláudio Andrade também já informou, o ato da oposição local, com a presença dos líderes da situação estadual e federal, foi remarcado para o próximo sábado, dia 1º de setembro.

É ela, sem importar com quem

Aqui, em seu “Ponto de Vista”, o blogueiro Christiano Abreu Barbosa ressaltou, dia desses, a boa sacada da campanha de Rosinha em colocar a imagem dela junto de cada placa de candidato a vereador. Uma vez que a coligação governista detém a maior nominata, poder econômico e estrutura de campanha, a superexposição da prefeita tende a favorecê-la em outubro.

Em contrapartida, como uma observadora comum, mas arguta, ressalvou ao blogueiro, o tiro pode sair pela culatra, não na eleição majoritária, mas na proporcional, já que a tendência natural do eleitor é guardar o que há de comum nas placas, a prefeita, não seus muitos candidatos a vereador, transformados em meros acessórios de campanha. O principal, para o grupo de Garotinho, é manter o poder e o controle sobre o orçamento bilionário de Campos. Quem vier acompanhando Rosinha, na Câmara, que venha. Quem não conseguir, pouco ou nenhuma falta fará. Sempre vai existir outro para ocupar seu lugar.

Havia um menino

Escrita pelo poeta beatnik (da geração do pós-II Guerra e pré-hippie) Eben Ahbez, “Nature Boy” se tornou um standard da música popular dos EUA no piano e voz aveludados de Nat King Cole. É uma das tantas músicas legadas pelo meu pai como repertório de cabeceira.

Ouvimos a canção juntos, pela última vez, na voz que Rodrigo Santoro emprestou ao polêmico craque Heleno, do qual ele tanto já me havia falado, no filme homônimo que o que levei para assistir num cinema de poucos meses atrás. Na tela, Heleno canta na rádio para saudar o filho que nasce. Curiosamente, mas não por acaso, o menino descrito na sua letra singela (no original e na tradução abaixo) me traz a lembrança vívida daquilo que nunca morreu, ou morrerá, no velho Aluysio…

Nature boy

There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A litte shy and sad fo eye
But very wise was he

And then onde day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
“The greatest thing you’ll ever learn
Is just to love and be loved in return”

Garoto Natural

Havia um menino
Um menino muito estranho e encantado
Dizem que ele vagava muito longe, muito longe
Sobre terra e no mar
Um pouco tímido e triste para os olhos
Mas muito sábio ele era

E então um dia
Um dia mágico ele passou no meu caminho
E enquanto nós falamos de muitas coisas
Tolos e reis
Isso ele me disse:
“A melhor coisa que você aprenderá
É amar e em troca amado ser”

Paz, pai!

Como ator, meu pai considerava Fábio Júnior até razoável. Quanto aos seus dotes musicais, no entanto, o crítico era lacônico: “Não existe!”. Sobre toda a obra do compositor, Aluysio guardava apenas uma admirada exceção, que, não sem emoção, ora divido aqui…

No final do horizonte

(Foto de Diomarcelo Pessanha)
(Foto de Diomarcelo Pessanha)

“Está vendo o horizonte? Se você olhar bem, vai enxergar a África bem lá no final! Foi de lá que veio o homem, meu filho! Foi lá que tudo começou!”. À beira mar, onde o dublê de jornalista e pescador gostava de passar os finais de semana de sol com sua família, era o que dizia aquele pai, mais ou menos com a idade que tenho hoje, àquela criança que um dia fui.

Mais que qualquer outra coisa, mais que seus testemunhos de criança nos tempos da II Guerra Mundial, das molecagens do menino criado em Guarus, da rebeldia do adolescente expulso do Liceu para acabar interno em Pádua, mais que as estórias do boleiro campeão pelos juvenis do Rio Branco no enfrentamento direto contra o Americano de Amarildo (depois Bi-Campeão do Mundo pelo Brasil, no Chile, em 1962), mais que as inconfidências do mulherengo inveterado, que o gosto pela música, pela literatura, pelo cinema, pelos esportes, mais do que qualquer lição de jornalismo, nenhuma semeadura do meu pai vicejou tanto em mim quanto aquela “África” a ser buscada no final do horizonte, a origem de todos nós naquela imensidão de quando o Atlântico se espraia diante da nossa própria pequeneza neste mundo.

Durante muito tempo, aquilo se transformou numa obsessão. Criança e adolescente, sempre quando à beira mar, fitava o horizonte até os olhos doerem, ou serem lentamente tomados pela cegueira enquanto o sol se punha mansamente às minhas costas. Posteriormente, o hábito acabou convertido em preocupação para aquele que o incutiu em mim, depois que passei, na juventude, a pegar o carro, a esmo, em qualquer madrugada ávida de imensidão, para guiar sozinho na Campos-Atafona, só para ver o sol brotar de dentro do mar, até que o astro amigo dos poetas Rimbaud e Maiakóvski me cegasse em seu nascimento, como antes também fazia em sua morte.

Foi mais ou menos nessa época em que tive a última pescaria com meu pai, lá para os lados de Iquipari, bem antes destes tempos do Porto do Açu. Estávamos eu, Aluysio e o Rafael Abud, hoje médico. No auge do nosso vigor físico, jovens homens bem maiores e mais fortes que o pequenino e já cinquentão Barbosa, eu e Rafael nos orgulhávamos das nossas varas de fibra japonesa e dos nossos molinetes de última geração. Mas a empolgação só durou até o momento do primeiro arremesso.

Eu e Rafael avançávamos na água quase até o pescoço para arremessar nossas linhas uns 100, 150 metros mar adentro. Papai pouco molhava os pés para lançar suas iscas depois da arrebentação das ondas, com sua vara simples de bambu e sua inseparável carretilha Penn, na qual chegava a queimar o dedo para não deixar que fossem embora todos seus 250 metros de linha. Depois de nos humilhar, sem grande esforço, o velho pescador só olhava para a gente e ria.

Seja para buscar a África ou o peixe, meu pai me ensinou a olhar a imensidão sempre de frente. Foi dessa maneira, de cabeça em pé, com uma coragem física e uma serenidade que nunca vi em nenhum outro homem, que ele lutou pela própria vida, até o fim, como os peixes que mais admirava fisgar; como o marlim capturado pelo velho Santiago, enquanto sonhava com leões brincando nas praias da África, na prosa em que Hemingway legou, de pai para filho, tantas lições de jornalismo, de vida e de mar.

Tentei lutar ao seu lado. Nos últimos dois meses, pouco me dediquei a qualquer outra coisa. Mas não consegui fazer o que meu pai um dia fez por mim; não consegui salvar sua vida. Meu arremesso, em todos os sentidos, sempre foi mais curto que o dele.

Todavia, com a idade madura e minha própria paternidade, aprendi que mais importante do que conseguir enxergar a África, é buscá-la, sempre, ao final do horizonte de todo dia. Afinal, como um jornalista e pescador revelou certa vez a uma criança, é de lá que nós todos viemos. É lá, do outro lado do oceano, que meu pai me espera.

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