Opiniões

Capitalismo entre a condenação e a maldição

Como o debate em economia ganhou força no blog, a partir da publicação do decreto 454 da prefeita Rosinha, cortando em 10% os contratos e convênios do município, com a justificativa de se preparar para uma crise global que afeta os países ricos, mas por enquanto não chegou ainda aos emergentes — como o Brasil —, segue abaixo a transcrição do artigo do jornalista Carlos Alberto Sardenberg, publicado na edição impressa de hoje de O Globo…

 

Carlos Alberto SardenbergCapitalismo condenado? 

O pensamento de esquerda, em baixa desde a queda do Muro de Berlim, ganhou alento com a falência do banco Lehman Brothers, o epicentro do colapso financeiro de 2008. Quem sabe a quebra de uma poderosa instituição de Wall Street fosse para o capitalismo o mesmo símbolo que a derrubada dos primeiros tijolos do Muro foi para o socialismo.

Passaram-se os meses, e o mundo, capitalista, não acabou. A crise não foi brincadeira, mas já no segundo semestre de 2009 apareciam os sinais de recuperação. Na virada de 2010 para 2011, parecia uma festa. Forte crescimento no mundo emergente, boa retomada nos EUA e na Alemanha. Aí, a história virou de novo.

A crise não acabara e se manifestava de outras maneiras ainda mais complicadas. Nesse clima aparece na imprensa internacional o artigo de Nouriel Roubini, “O capitalismo está condenado?””, e ainda por cima com o destaque para esta observação: Marx estava certo quando disse que “a globalização, a louca intermediação financeira e a redistribuição de riqueza do trabalho para o capital poderiam levar o capitalismo à autodestruição”. (Essa era a chamada, por exemplo, na revista eletrônica Slate.)

O economista Roubini não é socialista, muito menos marxista. É um teórico e intérprete do capitalismo, que traz a fama de ter previsto o colapso de 2008. Ora, se ele está dizendo que o sistema está “condenado”, a coisa é séria.

A esquerda se animou de novo, os conservadores se assustaram. O que viria por aí? — perguntaram-se todos.

O começo do artigo acentua a inquietação. Roubini descreve uma crise que não tem saída. Resumindo, o sentido do texto é o seguinte: há diversos problemas gravíssimos, para os quais as soluções são inviáveis ou por razões econômicas ou políticas.

O ambiente social já mostra esse beco sem saída. As manifestações populares que pipocam por toda parte, diz Roubini, são movidas “pelas mesmas tensões e temas: crescente desigualdade, pobreza, desemprego e desesperança”” — fantasmas que assombram o mundo.

Que fazer? Já se vê um novo mundo?

Não, Roubini não entrega isso. Para começar, a citação de Marx é relativizada. O pensador alemão não estava propriamente certo na previsão de fim do capitalismo, mas “parecia estar parcialmente certo”. E, ainda assim, vem outra ressalva: “Sua visão de que o socialismo poderia ser melhor provou-se equivocada”.

Em seguida, Roubini dá o tiro final nas esperanças da esquerda. A questão central hoje, diz ele, é “encontrar o correto equilíbrio entre mercado e a provisão dos bens públicos”, para que as economias de mercado operem como deveriam e como podem”.

Para ele, tanto o modelo anglo-saxão — “laissez-faire e economia vudu” — quanto o europeu continental — “estado do bem-estar sustentado por déficits” — estão quebrados.

O economista sugere o caminho alternativo — e aqui a coisa não é decepcionante apenas para a esquerda. Vem uma relação de políticas em torno das quais há consensos, se excluída a extrema direita, e que vêm sendo tentadas por toda parte.

Reparem as propostas:

. estímulo fiscal (gasto público ou isenção de impostos) para investimentos produtivos em infraestrutura, de modo a gerar empregos;

. taxação progressiva, os mais ricos pagando mais impostos;

. estímulo fiscal de curto prazo e ajuste fiscal (corte de gastos e aumento de impostos) de médio e longo prazo;

. autoridades monetárias garantindo empréstimos de última instância para evitar corridas contra bancos;

. redução da dívida para famílias e outros agentes econômicos insolventes;

. estrita supervisão e regulamentação do sistema financeiro;

. desmantelar oligopólios e os bancos “muito-grandes-para-quebrar”;

. países ricos precisam investir em capital humano, conhecimento e redes de segurança social.

Reparem: não tem nenhuma proposta para fechamento do comércio internacional, manipulação de moedas, avanço do Estado na economia, controle dos capitais privados, nacionalismos, etc.

Ao contrário, as sugestões cabem perfeitamente no pensamento clássico. Claro, a direita americana não aceita qualquer aumento de imposto, nem mais gasto público.

Mas é exceção. O governo conservador eleva impostos na Inglaterra, assim como na Alemanha. Não que sejam políticas unânimes e de fácil implementação. Sempre haverá o debate sobre quem deve pagar mais impostos e onde o governo gastará mais. Além disso, a coisa é localizada. Propor aumento de impostos faz sentido no México, onde a carga tributária é baixa. Já no Brasil…

O título original do artigo de Roubini diz “Is Capitalism Doomed?” – palavra esta que pode ser traduzida por “condenado”, como fizemos, ou por “amaldiçoado”. “Condenado” sugere que está acabado. Já um sistema pode ser “amaldiçoado” e continuar vivo. Deve ser isso. Maldito capitalismo, mas ainda não se inventou nada melhor.

Decreto 454 — Contribuições ao debate que se conquistam, não se mendigam

E porque sua contribuição, leitor, se conquista, não se mendiga, seguem abaixo, na forma mais relevante de post, os dois comentários que o blogueiro entendeu mais relevantes, pela riqueza de informações, entre os 20 até agora gerados, sem nenhum anonimato, pelo texto publicado aqui e intitulado “Corte de 10% nos contratos e convênios — Crise mundial ou do orçamento de Campos?”…

 

Alguma coisa está errada.
E não é o jornal, com certeza!
Recebi aqui, ao mesmo tempo em que S. Exª a prefeita baixava o Decreto 454 (parece até número de linha de ônibus, Leblon-Grajaú), mensagens da Petrobrás com as seguintes informações:
– o Lucro da Petrobrás subiu 37%;
– a produção de petróleo aumentou 2,2% e a de gás 6,9%;
– que entraram em fase de produção mais dois campos (os de Aruanã e Brava), justamente na Bacia de Campos;
– que a Petrobrás colocou em operação a a plataforma semissubmersível P-56, no campo de Marlim Sul,no dia 15/8;
– a agência de risco Mooody’s (a mesma que anda rebaixando países por ai) reconhece a melhora do risco da Petrobrás em moeda estrangeita de Bas1 para A3;
E mais:
– A ANP revela que os produtores privados já produzem 200 mil barris/dia;
– está a caminho (saiu hoje de Cingapure), a superplataforma de Eike Batista, a FSPO-OSX 1, que chegará a Campos dentro de 38 dias para começar a produzir imediatamente;
– até julho, a Prefeitura de Campos já havia recebido R$ 566,8 milhões entre royalties e participações, indicando que já superou em mais da metade do arrecadado em 2010, representando um aumento de quase 10% só no primeiro semestre.
O que não dá para entender é que tudo indica que a receita de Campos com o petróleo deverá ficar bem próxima de 2008, quando teve seu melhor momento, beirando os R$ 1 bilhão 200 milhões.
Qual a verdade sob esse decreto?
É preciso tomar cuidado quando se lida com algo tão transparente como as receitas do petróleo. Não dá para enganar, para mentir. Os dados estão ai, perambulando pela internet e sites de transparência.
De que (ou quem?) a prefeita tem medo?
Eu penso que para fazer economia não deve se fixar uma meta de apenas 10%. Isso é muito desrespeito ao povo. Deveria ser de 100%, gastar apenas o necessário. Para mim, esse decreto só tem um sentido: manda esbanjar menos, só um tiquinho…
Paulo Freitas – Rio de Janeiro/RJ

 

Savio

Bem oportuno o comentário do Sr. Paulo Freitas. De fato, com a Petrobrás sinalizando um lucro de 37% só no primeiro semestre deste ano, ou seja, 21,9 bilhões, está muito distante dos sustos causados pelo dólar, que diga-se de passagem, só hoje teve queda de 0,41%, fechando em 1,584.
Mesmo tendo alta de 2,15 no corrente mês de agosto, por conta das indecisões políticas e impasses entre republicanos e democratas americanos, acabaram tirando a confiança dos investidores. Mesmo assim, a desvalorização do dólar acumulada só este ano, está em 4,90%, portanto, ainda longe de afetar seriamente as questões de commodities.
Temos a nosso favor que o PIB brasileiro teve a sua primeira queda destes últimos 2 anos, de apenas 0,26%, o que ainda nos mantém em saudáveis 142,90!
Portanto, fazendo par com o Sr. Paulo Freitas, o “medo” da Prefeita é injustificado, e não serve como desculpa para o tal Decreto 454.
Sem dúvida, parece que há “mais carne debaixo deste angú”, e “onde há fumaça, há fogo”! Tudo indica que no decorrer dos próximos dias muitas coisas terão que ser devidamente explicadas.
Cadê a TRANSPARÊNCIA do “Portal da Transparência”?

Makhoul: “Para mudar seu fisiologismo político, sociedade de Campos tem que querer”

“Nós precisamos mudar. Mas mudar o quê? E como? Se a sociedade quer mesmo mudar, é preciso que participe, que se integre ao processo político e ajude a torná-lo mais limpo. Se as pessoas de bem querem mudar, se Dom Roberto quer mudar, se os professores da academia querem mudar, se a mídia quer mudar, é preciso que esqueçam as eventuais diferenças e se unam nesse desejo comum de mudança. Chega de medo, chega de nos escondermos. É preciso abrir o peito e cair dentro. Se aqueles que querem realmente mudar têm receio dos caciques que comandam os partidos, que entrem nos partidos e ponham para fora os caciques”. Quem fez a convocação, a partir dos indícios de fisiologismo na prática política de Campos — identificados aqui pelo bispo católico Dom Roberto Ferrería Paz, e aqui, pelo professor da Uenf Hugo Borsani —, é o médico Makhoul Moussalém, convidado por PMDB e PT para disputar as eleições de 2012 à Preitura do município.

Para Makhoul, no entanto, a crise moral e ética não é apenas na política, ou em Campos, mas de todos os setores da sociedade e em todo o Brasil. Neste sentido, ele entende como bem vinda a proposta de reação do novo bispo campista, assim como seu endosso pelo cientista político:

— O Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do cronista Sérgio Porto, dizia: “Restaure-se a moralidade, ou nos locupletemos todos”. Para mudar, portanto, é preciso que a maioria que não está se locupletando, queira mudar. É isso, ou então a maioria está, na verdade, levando algum tipo de vantagem com essa situação. O fato é que com o orçamento bilionário de Campos, se as pessoas de bem deste município realmente quiserem, poderíamos estar locupletando a saúde, a educação, o saneamento, a habitação, a infra-estrtura. Mas não é essa a siuação que vemos hoje.

Bacellar — Ida para PMDB ou PT, fisiologismo e denúncia de rombo no orçamento

Vereador e primeiro suplente a deputado estadual liberado ontem pelo PTdoB — como a jornalista e blogueira Suzy Monteiro revelou aqui —, Marcos Bacellar já comunicou hoje ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), por meio de seus advogados, sua saída do partido, visando poder ingressar em outra legenda, possivelmente PMDB ou PT, sem perder seu mandato e sua suplência. Ele vê com bons olhos a postura ativa da Igreja Católica, pregada aqui por Dom Roberto Ferrería Paz, embora faça distinções no fisiologismo identificado pelo novo bispo de Campos na prática política do município. Quanto às denúncias feitas aqui, em seu blog, culpando a saída do ex-secretário de Finanças, Francisco Esqueff, pelos aparentes problemas no bilionário orçamento da cidade, ele disse que tem uma equipe trabalhando na coleta de provas, embora já se arrisque a apontar um rombo e R$ 180 mihões.

Abaixo, ponto a ponto, o que disse o vereador…

 

Do PTdoB para PMDB ou PT — O partido me liberou, mas nada impede que o suplente (Guilherme Nascimento Martins) entre na Justiça Eleitoral para pedir o cargo. Meu advogado no Rio está entrando no TRE para comunicar oficialmente minha liberação pelo PTdoB, para que eu possa manter não só meu mandato de vereador, como também a primeira suplência para deputado estadual. Conversei com o Marcos Abraão (deputado estadual eleito pelo PTdoB) e ele está firme no projeto de se candidatar a prefeito de Rio Bonito. E pode ser até que ele consiga o apoio do governador Sérgio Cabral, caso a candidata natural do PMDB, Solange Almeida (ex-prefeita daquele município), não consiga se candidatar por problemas com o Ficha Limpa. Se Abraão se eleger em Itaboraí, meu mandato na Câmara pode mudar para um mandato na Assembléia. Conquistei essa janela no voto e vou brigar para mantê-la aberta. Tenho convites do PMDB e do PT, mas só depois que a coisa estiver encaminhada na Justiça, é que vou definir meu novo partido.

Fisiologismo em Campos aos olhos do bispo — Existe e ninguém pode negar isso. Só acho que existem também diferenças entre um pedido de um eleitor, às vezes até um amigo, e o político com cargo público atende, para a compra de votos, que infelizmente é o grande mal das eleições não só de Campos, mas de todo o Brasil. Na sua primeira eleição, você até empolga os amigos, que ajudam por acreditar em você, mas depois que se elege, a carência do povo é muito grande e os pedidos acontecem. O que eu faço se um eleitor vem me pedir para ajudar a comprar um remédio que a farmácia popular de Rosinha não dá? Nego essa ajuda? Na sexta passada, por exemplo, veio me procurar um pai de família desesperado, porque sua mulher, grávida depois de já ter perdido o primeiro filho, estava com um problema nos rins e tinha ido duas vezes ao Plantadores, sem conseguir atendimento. Eu liguei para a direção do hospital, mandei para lá, junto ao casal, minha secretária, e a mulher foi atendida. Será que ela seria atendida se não fosse o pedido do vereador Marcos Bacellar? E se eu não pedisse, estaria sendo cristão?Mas vejo com bons olhos a atitude do bispo de denunciar e combater o fisiologismo, de conscientizar seus fiéis, principalmente em relação à compra de voto, mas desde que a Igreja não tome partido.

Relação entre suposto rombo no orçamento e saída de Esqueff — Tenho uma equipe minha trabalhando para levantar isso, com pedidos de informação junto ao Ministério Público, já que todos os pedidos feitos na Câmara são sistematicamente negados pela maioria governista. Segundo o que já levantei, há relação, sim, entre o rombo no orçamento e a saída de Esqueff da secretaria de Finanças. Seria algo em torno de R$ 180 milhões. E agora Rosinha lança esse decreto para cortar 10% dos contratos e convênios. Mas como cortar agora, em agosto, se o orçamento de 2011 foi aprovado desde dezembro de 2010? Se está realmente tudo bem, como eles dizem, como cortar agora despesas que já deviam ter sido previstas desde o início do ano? Tiveram esse tempo todo para fazer planejar os gastos, quase R$ 2 bilhões para gastar e ainda assim não deu? Qualquer dona de casa ou pai de família que lida com o orçamento da sua casa acharia muito difícil e acreditar.

Corte de 10% nos contratos e convênios — Crise mundial ou do orçamento de Campos?

 

Blogueira hospedada na Folha Online, a jornalista Júlia Maria divulgou aqui a redução de 10% nos contratos e convênios do município, por meio de decreto 454/2011, assinado pela prefeita Rosinha e publicado hoje em Diário Oficial. Em comentário feito aqui ao Entrelinhas, o procurador geral Francisco de Assis Pessanha Filho disse se tratar de medida de contenção, em virtude da crise econômica mundial.

É até possível que a recessão possa se fazer sentir na planície goitacá com a queda do dólar, moeda do principal país afetado e reguladora internacional do preço do barril de petróleo — responsável, via royalties e participações especiais, por considerável parcela do orçamento de Campos. Ou seja, se cai a diferença do dólar ao real, diminui o que se paga em moeda brasileira como indenização pela extração do petróleo cotado em moeda dos EUA. Mas esta seria a única ligação direta possível com o decreto de Rosinha, uma vez que todas as previsões são de que a nova crise global, como foi em 2008, afete muito mais os países ricos do que os emergentes como o Brasil.     

O fato é que enquanto não se revela onde, quando e como serão efetuados esses cortes nos serviços conveniados e contratados, se cristaliza na mente de qualquer ser pensante a razoável dúvida se essa redução é mesmo fruto de uma crise internacional que ainda não chegou, mas se admite, quem sabe, poder chegar. A única outra causa possível seria o aparente e ainda inexplicável sumiço do R$ 1,9 bilhão do orçamento municipal de 2011, que segue sem ser admitido oficialmente pela Prefeitura, muito embora sua chegada precoce (em agosto) a maioria dos campistas já sinta na pele.

 

Atualização às 23h08: Ao largo dos maniqueísmos contra e a favor, exercitados sempre com vigor na blogosfera local, outro questionamento lógico acerca dos reais motivos do decreto de Rosinha foi feito aqui, pelo jornalista e blogueiro Ricardo André Vasconcelos.

Andral: “O fisiologismo político existe e é generalizado em Campos!”

“Acho que essa posição do bispo é uma das coisas mais interessantes que aconteceu na política de Campos. Aplaudo a coragem dele, seu senso de civismo. E isso revigora a atividade política, sobretudo daqueles que pensam em caminhar diferente. Eu fico entusiasmado e acho que essa deve ser a mesma reação das pessoas de bem desta cidade”. Foi assim que o advogado e presidente municipal do PV, Andral Tavares Filho, reagiu à proposta do novo bispo católico, Dom Roberto Ferrería Paz, que em matéria publicada na edição impressa da Folha do último domingo, pregou uma posição mais ativa da Igreja Católica, em relação às eleições de 2012, diante do fisiologismo que entende como generalizado na política do município.

Se Dom Roberto (aqui) e o cientista político Hugo Borsani (aqui) enxergam indícios desse fisiologismo político em Campos, Andral tem absoluta certeza:

— Não tenho nenhuma dúvida: existe e é generalizado. E é por isso que a gente está nesta luta. Para combater essa prática na política do nosso município, é preciso fazê-lo de dentro. A gente olha isso se repetir, eleição após eleição, e fica até apavorado. É isso que tira a  vontade das pessoas dignas de entrarem na política. É desanimador, é frustrante.

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