HIV, Covid e varíola dos macacos no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Assistente social e presidente da Associação Irmãos da Solidariedade, Fátima Castro é a convidada do Folha no Ar desta quinta, ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ela falará sobre os 34 anos da Associação dedicada à proteção e tratamento dos soropositivos de HIV em Campos e região.

Fátima também falará do mundo do surgimento do HIV, no final dos anos 1970, à explosão da doença nos anos 1980, até a pandemia da Covid-19 e o surgimento mais recente da varíola dos macacos, com dois casos confirmados em Campos e que tem transmissão também pelo contato sexual.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

“Escândalo da Ceperj é misto de rachadinha com Mensalão”

 

Por Aluysio Abreu Barbosa, Cláudio Nogueira, Matheus Berriel e Ícaro Abreu Barbosa

 

“O Ceperj parece um misto de rachadinha e Mensalão”. Foi assim que o estrategista político Orlando Thomé Cordeiro definiu o escândalo que explodiu no governo do RJ. E que, segundo o Ministério Público, gerou mais de R$ 220 milhões em saques na boca do caixa por funcionários fantasmas, com os nomes citados de 10 dos 13 vereadores de oposição de Campos, além do deputado estadual Rodrigo Bacellar (PL). Orlando foi o entrevistado da manhã de ontem no Folha no Ar, quando analisou a política goitacá, dividida entre Garotinhos e Bacellar. E apostou que seus dois líderes, o ex-governador Anthony Garotinho (União) e Rodrigo, serão, respectivamente, o deputado federal e o estadual mais votados da região. Na eleição a senador, ele analisou o favoritismo de Romário (PL) nas pesquisas, assim como de Cláudio Castro (PL) e Marcelo Freixo (PSB) a governador. Mas, para ele, o adversário mais difícil de ser batido por Castro no segundo turno seria Rodrigo Neves (PDT), ex-prefeito de Niterói. Projetou também o segundo turno na eleição presidencial. E, mesmo reconhecendo a recuperação de Jair Bolsonaro (PL) nas pesquisas, acredita na vitória final de Lula (PT), numa batalha entre rejeições.

 

Orlando Thomé Cordeiro

 

Política de Campos entre Garotinhos e Bacellar – Para quem é de fora da região e não acompanha, a figura de (Rodrigo) Bacellar é uma figura que não existia. O Garotinho já tinha, nos últimos 20 anos, se projetado regional e nacionalmente. Então, quando se falava de política de Campos para nós, aqui da Região Metropolitana e para fora do estado do Rio, a associação imediata era com o Garotinho. A ascensão dos Bacellar, por intermédio da sua figura mais proeminente hoje politicamente, que é o Rodrigo Bacellar, constitui uma novidade. De um lado, o Garotinho conseguiu construir a sua imagem a partir da sua competência como radialista. Garotinho, em que pesem todas as acusações e problemas que teve em seus governos e da sua esposa, é uma figura que mantém um capital político e eleitoral considerável. Tanto assim que foi objeto, neste ano, como em anos anteriores também, de todas as formas de cerceamento à sua tentativa de se candidatar ao Governo do Estado, patrocinadas pelo Bacellar e pelo governador Cláudio Castro. Porque seria ele, Castro, o maior prejudicado eleitoralmente. Garotinho é um fenômeno indiscutível, que tem um traço popular e populista. Populista na forma de governar, e popular na sua capacidade de comunicação.  Já o Rodrigo Bacellar nos parece um pouco ter outro estilo: o estilo da articulação Assembleia Legislativa, onde ele está como deputado; na articulação no governo. Ele conseguiu ascender junto aos seus pares no processo de impeachment do Witzel, e isso o colocou com projeção na mídia. Mas, em termos da disputa local entre os dois, eu acompanho por conta do WhatsApp, das notícias, da Folha da Manhã, ela é muito presente na disputa na Câmara de Vereadores.

Pacificação? – Eu não diria nem pacificação. Com o enquadramento do Garotinho, que, como ele mesmo disse, foi impedido de se candidatar (a governador) pelo partido (União) e a declarar apoio ao Cláudio Castro no primeiro turno, isso deu uma amenizada. Mas é só aquela calmaria que vem antes da tempestade. Conhecendo o temperamento do próprio Anthony Garotinho, tenho a impressão de que vai ter troco. Isso não vai ficar barato, não. Mesmo não sendo nessa eleição, vai ter troco mais para frente. Até porque, o Garotinho, mesmo com todos esses conflitos, essas contradições e as brigas até no interior da própria família. Agora tem uma situação que é a Clarissa tentando se viabilizar como a candidata do Bolsonaro (ao Senado), enquanto o candidato do partido do Bolsonaro oficial é o Romário. Eu acho que esse recuo do Garotinho também tem a ver com a preservação do mandato do filho como prefeito (de Campos) e da possível eleição, da disputa eleitoral da filha.

Abraço de Castro a Garotinho – O amor é lindo, o que estraga é só a falsidade (risos).

Remanejamento do orçamento e composição da Mesa Diretora na Câmara de Campos – Cada vez mais, os legislativos têm procurado tomar para si o protagonismo da quase totalidade do orçamento. Então, quando se fala de remanejamento, é a margem que o Poder Executivo procura negociar para poder justamente fazer isso: administrar os recursos orçamentares segundo as demandas que vão surgindo ao longo do exercício anual. E quando você reduz para 5%, como eu não sabia que São João da Barra já tinha aprovado isso, a margem de manobra do Executivo é próxima de zero. Literalmente, não tem o que fazer. Até porque, boa parte do orçamento federal, estadual e municipal é composta pelas chamadas despesas obrigatórias. A relação do Executivo de Campos com a Câmara Municipal sempre conflituosa. É uma cidade que, mesmo sendo do interior, tem um peso político, um orçamento robusto, uma liderança regional. Acho que essa articulação que envolveu o Wladimir, o recuo do Anthony Garotinho, a aproximação com o Cláudio, pode ter tido como uma das contrapartidas a resolução desse impasse na Câmara de Campos. Mas, pelo que acompanhei, não necessariamente o Rodrigo Bacellar vai cumprir esse acordo, se é que ele aconteceu.

Escândalo do Ceperj – Isso surgiu há aproximadamente pouco menos de um mês, graças a uma ação jornalística investigativa de um grande jornalista, a quem mando aqui o meu abraço, que é o Ruben Berta, de quem gosto muito. Hoje está trabalhando no Grupo UOL. A partir daí, com a sucessão de denúncias que estavam ainda restritas à apuração dele e depois acompanhadas por um outro jornalista, Igor Mello, a Rede Globo de Televisão repercutiu o assunto. O Ministério Público entrou com poderes legais para fazer isso e surgiram mais informações. Foi a partir da investigação do Ministério Público que surgiu a lista dos beneficiados e do volume de dinheiro alocado para esse tipo de trabalho. Lembrando que a primeira denúncia do Ruben Berta falava do número de pessoas: tem 18 mil cargos secretos no Ceperj. É aquela história: você puxa um rabo de lagartixa e vem um jacaré. Então, o jacaré está vindo. No debate de domingo, na Band, o governador foi pouco espremido em relação a isso e acabou saindo pela tangente. O que o governo fez? O governo, depois da pressão, criou uma comissão interna, exonerou o presidente do Ceperj. Mas parece que integrantes da comissão nomeada para apurar, no passado, já receberam dinheiro na boca do caixa. Não nesse do Ceperj, mas em outras ocasiões. E o vice-presidente da comissão teria sido indicado pelo deputado (estadual) Rodrigo Amorim (PTB), aquele que quebrou a placa da Marielle em ato absolutamente absurdo, antidemocrático, desumano. E esse vice-presidente indicado teria comprado uma Mercedes usada por R$ 169 mil, mas quem pagou a operação comercial à agência que vendeu a Mercedes é um dirigente do Instituto Fair Play, que, por acaso, é um dos institutos contratados pelo Ceperj para fazer um dos programas, com recursos vultuosos. Então, acho que isso ainda vai fazer o governo sangrar. Porém, já me antecipando, sangrar não significa que será suficiente para ser derrotado. Mas, que vai sangrar, vai.

Rodrigo Bacellar vai sangrar também? – Não tenho dúvida de que vai sobrar para ele. Esse esquema me parece um misto de rachadinha, que já foi escândalo lá atrás, e Mensalão. Por que um misto? Porque ele tem no Poder Executivo o centro da distribuição do dinheiro, via Ceperj, e tem como favorecidos parlamentares e seus indicados, apadrinhados na base do governo. Então, quem foi o grande articulador do governo Cláudio Castro? Foi Rodrigo Bacellar. Aliás, é um governo que tem no seu núcleo de articulação dois Rodrigos: o Rodrigo Bacellar e o Rodrigo Abel. O Rodrigo Abel fica mais nos bastidores. Tem também um terceiro Rodrigo, que ajuda informalmente, que é o Bethlem. E um candidato que está disputando com ele (Cláudio Castro) também se chama Rodrigo, que é o Neves. Ou seja, nós estamos vivendo uma certa inflação de Rodrigos na disputa do Estado do Rio de Janeiro. Mas, eu acho que isso pode chegar no Rodrigo Bacellar, sim. Eu não conheço o Rodrigo Bacellar pessoalmente, o conheço como figura pública. O vi despontar na época impeachment do Witzel. Conversei com alguns pares, alguns parlamentares que são de minha relação pessoal, perguntando exatamente quem é essa figura, de onde surgiu, como ele é. Muita gente elogia a capacidade de articulação dele. Então, ele é um cara que tem essa virtude, essa competência. Mas, não nos esqueçamos de que a principal figura de articulação do governo Lula, na época do Mensalão, caiu, que foi o Zé Dirceu (PT). Independente do juízo de valor sobre as ações dele, indiscutivelmente tem uma competência de articulação, de análise política. E, mesmo assim, foi sacrificado. Não acho que vai ser caso de perda de mandato, nada disso, mas deve chegar ao Rodrigo Bacellar, sim.

Garotinho a federal e Bacellar a estadual como os prováveis mais votados da região – Se a gente pegar as últimas eleições gerais, Campos e região sempre conseguiram eleger representantes. Sempre. Nunca deixaram de ter. Norte tem em termos de número de eleitores, de força política, ela é limitada. Então, acho que esse conjunto enorme de candidaturas, seja para federal, seja para estadual, no frigir dos ovos, tende a se concentrar em dois federais, dois estaduais. Não se concentrar em termos de acordo entre eles, mas de resultado final da eleição. É complicado. Até o voto cair na urna, é um trabalho danado. Como dizia Tancredo Neves: “político teve voto, não tem voto, poderá ter”. É óbvio o potencial eleitoral do Garotinho para federal, do Rodrigo Bacellar para estadual, do próprio Bruno Dauaire (União), que será o candidato apoiado pelo Wladimir para estadual. O peso da máquina numa eleição como essa, ainda mais no interior do estado, tem relevância. Eu acho que elege dois federais e elege de dois a três estaduais. Falo Campos, mas é Campos região. Não sei qual é o potencial eleitoral para uma eleição legislativa, por exemplo, da Carla Machado (PT). Disputou uma a estadual e não se elegeu. Em relação ao Garotinho, em particular, eu tenho a impressão de que o Garotinho talvez tenha hoje mais votos para deputado federal na Baixada Fluminense, aqui na Região Metropolitana do Rio, do que na própria região de Campos. A liderança de Garotinho naquela região é viva até hoje. Se pegar as pesquisas de quando ele ainda estava como pré-candidato a governador, ele sempre batia ali nos dois dígitos, perto de 10%, muito por conta da Região Metropolitana e da Zona Oeste do Rio. Então, eu acho que o Garotinho tende a ser o candidato a federal mais votado da região, na minha opinião. Pensando na eleição dos estaduais, acho que, na região, o Rodrigo Bacellar vai ser o mais votado. E, na minha opinião, ele disputa entre os mais votados das 70 vagas. Acho que ele vai vir com muita força nessa eleição para estadual.

Liderança de Romário nas pesquisas a senador – O Romário é um fenômeno político interessante, peculiar. Ele foge muitas vezes a percepção dos analistas políticos. Aquela participação desastrosa na disputa para governador do Rio marcou muito a imagem de um sujeito despreparado, incompetente. O Romário é um fenômeno eleitoral tanto pelo passado dele como jogador de futebol quanto, vamos dizer assim, pela língua solta… apesar dele ter língua presa. Ele fala as coisas e ele não tem nenhum compromisso com coerência. Já deu pancada no Bolsonaro, hoje apoia o Bolsonaro, já deu pancada no Eduardo Paes, já apoiou Eduardo Paes. Mas ele tem um trabalho parlamentar que viabiliza muitas emendas parlamentares e ele se tornou uma figura relevante, reconhecida no apoio às pessoas com deficiência. Causa em que atua até por conta da filha dele. Não me surpreende que o Romário esteja na frente nas pesquisas; é um voto popular e que não tem nada a ver com, vamos dizer assim, narrativa política ou com questão ideológica. É uma figura mítica, é um ídolo. Agora, ele está reeleito? Eu o considero favorito. Mas acho que é possível que surja algum nome para enfrentá-lo.

Eleição a governador – Bom, a eleição para governo do Rio de Janeiro apesar das pesquisas estimuladas apontarem hoje uma disputa concentrada em Castro e Freixo, Freixo e Castro, está longe de estar resolvida. A grande maioria da população não tem candidato a governador, podemos considerar que há um grau de desconhecimento alto. O indicador na minha opinião mais importante para colocar na mesa é o que as pesquisas indicam como percentual de rejeição, no qual Freixo é campeão. Então esse é o esse é o grande problema para ele. Ele está fazendo uma um esforço desde que saiu do Psol e foi para o PSB. Trouxe o César Maia (PSDB) para ser vice, trouxe figuras importantes como Armínio Fraga (ex-presidente do Banco central no governo Fernando Henrique) para apoiá-lo, na perspectiva de ser uma alternativa mais ao centro. Com uma visão progressista, não radical. A questão é, mesmo considerando o esforço, a imagem do Freixo ainda está muito associada à época de Psol. O Cláudio Castro com a máquina, a não ser que se descubra um escândalo muito maior do que esse do Ceperj, está no segundo turno. A disputa é o seguinte: quem vai para o segundo turno com ele? Freixo, que hoje é o favorito a ocupar essa posição, ou Rodrigo Neves? Se o Freixo for para o segundo turno contra Cláudio Castro, as chances de vitória do Castro aumentam. Se o Rodrigo Neves for para o segundo turno, as chances de vitória do Castro diminuem.

Recuperação de Bolsonaro na pesquisa BTG/FSB – A grande maioria que declara voto em Bolsonaro o faz não porque seja bolsonarista raiz, mas porque não quer a volta do PT e do Lula. E uma parte considerável dos apoiadores de Lula não é formado por lulopetistas, mas por gente que quer tirar o Bolsonaro, que é um grande risco para a democracia mesmo. Então no primeiro turno nós já vamos ter uma eleição polarizada pela rejeição e não pelo apoio das ideias. Mas o Bolsonaro é competitivo. Ele é competitivo, mas não é o favorito. Eu acho que mesmo essa recuperação tende a não ser suficiente para lhe garantir a vitória no segundo turno. E aquele sonho de uma noite de verão que muita gente falava “uau, vamos votar no Lula para ganhar no primeiro turno” não vai se não vai se concretizar. O Lula, mesmo quando estava no auge da popularidade do governo, foi para o segundo turno. Quando ele lançou a Dilma (PT), em 2010, teve segundo turno. Até porque ao contrário do que muitos petistas querem desconhecer, a rejeição ao PT e ao Lula não acabou. Com tudo isso, eu acho que Bolsonaro não ganha essa eleição. Porque boa parte do eleitor que não vota no Lula no primeiro turno, no segundo turno entre Bolsonaro e um cachorro, vota no cachorro.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Onde e como Bolsonaro encurtou a diferença para Lula

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Lula cai, Bolsonaro cresce

Sempre questionadas pelos bolsonaristas, por registrarem em todo o ano de 2022 a liderança de Lula (PT) à corrida presidencial de outubro, as pesquisas passaram a ser a esperança real de Jair Bolsonaro (PL). Na segunda (8), foi divulgada a nova BTG/FSB, feita de sexta (5) a domingo (7). Que, comparada com a pesquisa do mesmo instituto, divulgada em 25 de julho, revelou que o capitão tirou quase metade da vantagem do petista. Na consulta estimulada ao 1º turno, Lula tinha 44% de intenções de voto e caiu a 41%. Bolsonaro tinha 31% e subiu a 35%. A diferença entre os dois era de 13 pontos. E, em apenas 14 dias, caiu para 7 pontos.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

No 2º turno

A tirada de diferença de Bolsonaro para Lula está fora da margem de erro. Que foi de 2 pontos para mais ou menos, das duas últimas pesquisas BTG/FSB, de 25 de julho e 8 de agosto. E não se deu só sobre a projeção para as urnas do 1º turno de 2 de outubro, daqui a 53 dias. Em 25 de julho, na projeção ao 2º turno marcado para 30 de outubro, Lula venceria Bolsonaro por 54% a 36% das intenções de voto. Já na BTG/FSB divulgada em 8 de agosto, Lula continuaria vencendo a disputa final, mas por 51% a 39%. A diferença no 2º turno cada vez mais provável entre o petista e o capitão era de 18 pontos. E, em apenas 14 dias, caiu para 12 pontos.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na rejeição

Fundamental para a definição do 2º turno, a rejeição também veio com diferença menor entre Bolsonaro e Lula. Nas pesquisas BTG/FSB de 25 de julho, o capitão apareceu com 58% de brasileiros que não votariam nele de jeito nenhum, contra 42% do petista. Pelo mesmo instituto, em 8 de agosto Bolsonaro reduziu a rejeição em 6 pontos, aos atuais 52%; enquanto Lula subiu a sua em três pontos, aos 45% de hoje. A diferença no índice negativo entre os dois era de 16 pontos. E, em apenas 14 dias, caiu pela metade: 8 pontos. Com a rejeição de ambos próxima aos 50%, qualquer resultado no 2º turno passa a ser aritmeticamente possível.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Por que crer na BTG/FSB?

Lula ainda é o favorito para as eleições presidenciais de outubro. Mas a possibilidade de vencer no 1º turno, retratada em várias pesquisas de junho, parece cada vez mais distante. Como os bolsonaristas que questionam as pesquisas, os lulopetistas podem lembrar que o banco de investimentos BTG Pactual, contratante do instituto FSB Pesquisa, teve entre seus fundadores Paulo Guedes, ministro da Economia de Bolsonaro. Mas a verdade é que a BTG/FSB divulgada em 13 de junho também chegou a projetar a possibilidade de Lula liquidar a fatura em turno único. E, se projetou o que era a tendência de antes, também o faz agora.

 

Classe média migra voto

O contraste entre as BTG/FSB de 25 de julho e 8 de agosto mostrou de onde saíram as intenções de voto perdidas por Lula e achadas por Bolsonaro. Houve estabilidade entre os eleitores com renda familiar até 1 salário mínimo, de 1 até 2 mínimos e de mais de 5 mínimos. A alteração não se deu no voto dos pobres e ricos, mas da classe média. Entre os que ganham de 2 até 5 mínimos, Bolsonaro passou dos 36% de intenções de voto a 42%; enquanto Lula caiu de 39% aos 30% de hoje. O motivo? O preço dos combustíveis, que 44% dos brasileiros já achavam um pouco menores em 25 de julho. Mas, em apenas 14 dias, chegaram a 50%.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O voto dos pobres

Essa migração de votos da classe média ainda precisa ser comprovada por outras pesquisas. Mas se a diminuição no preço do combustível provocou alteração eleitoral até 8 de agosto, é sobre quem não tem carro que o impacto pode ser ainda maior. Ontem, 9 de agosto, começou a ser pago o Auxílio Brasil anabolizado de R$ 600 a 20,2 milhões de brasileiros pobres. Mais o Auxílio Gás também anabolizado de R$ 110 a 5,6 milhões de famílias igualmente pobres. E é entre os pobres que Lula tem sua maior vantagem de intenções de voto sobre Bolsonaro. São as pesquisas feitas a partir de ontem que dirão o que será a eleição presidencial de outubro.

 

Auxílio Bolsonaro

Ninguém mais que Bolsonaro crê em pesquisas. Ele e seu coordenador político de campanha, ministro da Casa Civil e presidente do PP, Ciro Nogueira, certamente comemoraram a BTG/FSB de segunda. Nogueira chegou a projetar em maio uma virada de Bolsonaro sobre Lula nas pesquisas em junho, com a PEC dos Precatórios. Em que a União deu beiço nas dívidas para subir o Auxílio Brasil de R$ 170 a R$ 400. Mas, no lugar da virada, as pesquisas de junho deram a vitória de Lula no 1º turno. Nogueira reagiu com a PEC Kamikaze. Que rasgou a legislação eleitoral e furou o teto orçamentário para passar o Auxílio Brasil de R$ 400 a R$ 600.

 

Culpa no cartório

Lula também está atento às pesquisas e à BTG/FSB de segunda, que registrou sua perda de votos na classe média. Também preocupado com o que o Auxílio Brasil ainda pode causar no eleitor pobre, o petista disse ontem, em encontro na Fiesp: “Depois de três meses, há de se perguntar se o povo aceitará pacificamente a retirada de um benefício que está recebendo por causa das eleições”. Ele está certo, pois os benefícios só vão até 31 de dezembro. Se depois disso o país convulsionar e continuar governado por Bolsonaro, será por conta também do PT e da oposição. Que votaram a favor da PEC Kamikaze no Senado e na Câmara de Deputados.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Economia de Campos e nas urnas no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Economista e professor da Uenf, Alcimar Ribeiro é o convidado desta quarta (10) no Folha no Ar, ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele analisará as perspectivas econômicas de Campos, São João da Barra, Norte Fluminense e Estado do Rio. Falará também da relação economia/eleição nas urnas de outubro a presidente da República.

Por fim, Alcimar analisará a situação econômica global com a Guerra da Ucrânia e a crise entre EUA e China por conta da república insular e separatista de Taiwan. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Eleição a governador e presidente no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Estrategista político e articulista do Correio Braziliense, Orlando Thomé Cordeiro é o entrevistado do Folha no Ar desta terça (9), ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Da perspectiva da cidade do Rio, ele dará o olhar de fora sobre a política goitacá, na disputa entre Garotinhos e Bacellar. Também tentará projetar as eleições a deputado federal e estadual, senador e governador do RJ.

Por fim, com base nas últimas pesquisas eleitorais, Orlando tentará projetar a eleição a presidente da República, polarizada entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL). Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

BTG/FSB: Lula no 2º turno, mas Bolsonaro encurta diferença

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Nas duas últimas semanas, caiu em quase metade a vantagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o presidente Jair Bolsonaro (PL), na corrida às urnas de 2 de outubro, daqui a exatos 55 dias. Feita dos dias 5 (sexta) a 7 (domingo) e divulgada hoje (8, segunda), a nova pesquisa BTG/FSB deu ao petista 41% das intenções de voto na consulta estimulada, contra 34% do capitão. A diferença de 7 pontos entre os dois líderes era de 13 pontos (44% a 31%) na pesquisa anterior do mesmo instituto, feita de 22 a 24 de julho, e divulgada no dia 25, há exatos 14 dias. Lula continua vencendo na projeção de segundo turno de 30 de outubro, no qual bateria Bolsonaro por 51% a 39%. A diferença atual de 12 pontos entre os dois líderes era de 18 pontos (54% a 36%) na BTG/FSB do final de julho. Índice fundamental à definição do segundo turno, o capitão também diminuiu na rejeição, de 58% aos atuais 53%, enquanto o petista cresceu de 47% a 49%. A margem de erro é de 2 pontos para mais ou menos.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Na consulta estimulada ao primeiro turno, depois de Lula e Bolsonaro, vieram o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), com 7%; a senadora Simone Tebet (MDB), com 3%; o deputado federal André Janones (Avante), com 2% e que no dia 4 (quinta) retirou sua candidatura a presidente para apoiar Lula; e do ex-deputado federal José Maria Eymael (DC) e do influenciador digital Pablo Marçal (Pros), com 1% cada. No bloco de cima da disputa, a melhora do presidente e correspondente queda do ex-presidente em todos os índices são atribuídos à percepção do eleitor de melhora na economia:

— Hoje, menos de metade do eleitorado (44%) acredita que os preços continuarão subindo nos próximos três meses (no final de maior, eram 70%). E em duas semanas subiu de 54% a 63% a fatia do eleitorado que percebeu a redução no preço dos combustíveis. Para 74% dos eleitores, a economia é muito importante para a definição do voto a presidente —  analisou o relatório da pesquisa BTG/FSB de hoje.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na classe média, onde a redução temporária do preço da gasolina é mais sentida, entre as BTG/FSB de 25 de julho e de hoje, Lula caiu de 39% aos atuais 30% de intenções de voto no com renda familiar mensal de 2 a 5 salários mínimos, faixa em que Bolsonaro cresceu de 36% a 42%. São movimentos inversos e fora da margem de erro. Já com o eleitor pobre, que raramente tem carro, houve aparente estabilidade. O petista passou dos 61% aos atuais 60% das intenções de voto com renda familiar mensal até um salário mínimo, faixa em que o capitão tinha 19% e passou a 20%. Na faixa acima de renda, Lula passou de 52% a 50% nas intenções de voto das famílias que ganham mensalmente de 1 a 2 salários mínimos, com o qual Bolsonaro teve queda fora da margem de erro, de 26% a 22%.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Entre esse eleitor mais pobre, com o qual Lula tem sua maior vantagem, o reflexo do aumento do Auxílio Brasil por Bolsonaro que começa a ser pago nesta terça (9), mas só até 31 de dezembro, é bastante esperado nas próximas pesquisas presidenciais. Que, na série da BTG/FSB, desde março deste ano, registrou hoje a menor diferença de intenções de voto e de rejeição entre o petista e o capitão.

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística pelo IBGE

— A exatos 55 dias para 2 de outubro, a pesquisa do Instituto FSB, encomendada pelo Banco BTG Pactual, a exemplo das demais pesquisas realizadas por telefone, confirma projeção de segundo turno, com redução da diferença entre Lula e Bolsonaro, fora da margem de erro. Na pesquisa estimulada a diferença é de 7 pontos: Lula caiu de 44% para 41%, em relação à pesquisa divulgada duas semanas atrás, enquanto Bolsonaro subiu de 31% para 34%. 82% dos eleitores do atual presidente afirmaram que a decisão do voto já está tomada, sem chance de alteração, o mesmo percentual dos eleitores de Lula (81%) dentro da margem de erro. As intenções de voto para o segundo turno também tiveram alteração fora da margem de erro: Lula caiu de 54%, na pesquisa de 25 de julho, para 51%, no levantamento divulgado hoje, enquanto Bolsonaro subiu de 36% para 39%. Na rejeição aos candidatos, Bolsonaro reduziu a sua em 5 pontos, passando de 58%, duas semanas atrás, para 53%. Já Lula aumentou em 3 pontos a rejeição, também acima da margem de erro, de 42% para 45% — analisou William Passos, geógrafo com especialização doutoral em Estatísticas do Setor Público, da População e do Território na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do IBGE.

 

Elo EUA/Brasil, morre aos 86 anos Audrey Coutinho

 

Audrey Coutinho

Morreu hoje, por volta das 11h30 da manhã, de causas naturais, Audrey Coutinho. Matriarca da família Coutinho, proprietária da usina Paraíso, onde estava, ela tinha 86 anos. Deixa os filhos Tina, Gel, Maurício, Marcelo e (in memoriam) André, 12 netos e 2 bisnetos. Seu corpo será velado a partir da noite de hoje e sepultado às 11h da manhã desta terça (8) no Campo da Paz. De onde deverá ser transferido, após o prazo de 5 anos, para o jazigo particular da família na usina, como o seu marido Geraldo Coutinho, falecido em 2007.

Homônima de uma das divas de Hollywood, Audrey era estadunidense de origem irlandesa, da cidade de New Orleans, capital do estado da Luisiana, colônia francesa de origem anexada pelos EUA. Ela conheceu o pernambucano Geraldo quando ambos cursavam, no final dos anos 1950, a Universidade Estadual da Luisiana (Louisiana State University, LSU). Casaram-se ainda nos EUA e ratificaram o matrimônio no Brasil, quando vieram em 1958. Primeiro para Pernambuco e depois para Alagoas, onde Geraldo ajudava a administrar a usina da sua família. Viriam para Campos em 1967, após a compra da usina Paraíso, na Baixada Campista, de onde não sairiam mais.

Formada em História na LSU, Audrey não chegou a lecionar, a não ser aulas informais de inglês para amigas. Através dos anos, se tornou uma figura conhecida e querida da sociedade goitacá. Sempre muito gentil e simpática, anfitriã acolhedora, de riso fácil, sabia ser também assertiva quando julgava necessário. Adorava estar com as pessoas e conversar com elas. No eixo Brasil/EUA, foi uma referência do século 20 na terra do escritor José Cândido de Carvalho, entre seus coronéis e lobisomens, que sobreviveu ao 21 de memória quase sempre curta e superficial do tempo das redes sociais. Mais portuguesa do que muitos brasileiros de nascimento, era também torcedora fanática do Vasco da Gama.

Gostava muito de Audrey. Foi uma das mulheres mais elegantes que conheci. Sem nunca perder essa característica, sempre soube se impor, mesmo em tempo felizmente passado quando isso era menos comum entre as mulheres. À família numerosa que criou e aos muitos amigos que cativou durante a vida, os mais sinceros sentimentos.

 

Campos/RJ/Brasil nas urnas de outubro pela ciência política

 

Por Aluysio Abreu Barbosa, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel

 

Embora a eleição de outubro, daqui a exatos a 57 dias, não seja municipal, as consequências das suas alianças ameaçam redesenhar a relação acirrada entre oposição e governo em Campos. Como foi encarado o giro de 180º do ex-governador Anthony Garotinho (União) no último domingo (31), quando declarou seu apoio à reeleição do governador Cláudio Castro (PL), a quem vinha dirigindo “críticas bastante ferozes”. A definição é do cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos. No Folha no Ar do início da manhã de ontem (5), ele e o também cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf, foram entrevistados. E fizeram ressalvas à pacificação da política goitacá, entre Garotinhos e Bacellar, a partir do realinhamento estadual. Mas analisaram essa correlação, assim como a eleição a governador e senador do RJ, além das candidaturas a deputado federal e estadual da região. Na eleição presidencial, com intenções de votos polarizadas e cristalizadas entre o ex-presidente Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL), George lembrou episódios de pleitos anteriores para manter a disputa aberta ao imponderável. Já Hamilton cravou: “Você também nunca teve uma eleição onde o presidente da República ameaça dar um golpe. Isso é ponderável”.

 

George Gomes Coutinho e Hamilton Garcia diante do apresentador do Folha no Ar, Cláudio Nogueira (Foto: Genilson Pessanha/Folha da Manhã)

 

 

Folha da Manhã – Crê na pacificação entre oposição e governo em Campos, a partir do apoio do ex-governador Anthony Garotinho (União) à reeleição do governador Cláudio Castro (PL)?

George – Garotinho adere à campanha do governador Cláudio Castro, com um histórico de críticas bastante ferozes. E nós, que conhecemos bastante o repertório do Garotinho, sabemos o quão ferozes podem ser. Nesse momento em que ele adere, se isso vai arrefecer a disputa local? Talvez não. Embora, neste momento, na disputa eleitoral do estado do Rio de Janeiro, você possa ter uma convergência dos Bacellar e do Garotinho em torno do Cláudio Castro, não quer dizer que necessariamente os ânimos vão se acalmar em âmbito local. Por que esta minha perspectiva? Você nota que há uma proximidade, em diferentes pesquisas, do primeiro lugar, que é o Cláudio Castro, e o segundo lugar, que é o Marcelo Freixo. O Freixo, neste momento, ele ameaça e parece que chega ao segundo turno. Então, o que o Cláudio Castro, o homem da máquina, está fazendo? Ele tem tentado ampliar as suas possibilidades de aliança no estado. Neste sentido, ele pode trazer, inclusive, para o campo de aliança dele inimigos mortais locais. Tem que se olhar a perspectiva do Cláudio Castro, não a disputa local. Na perspectiva do Cláudio Castro, é coerente ele ter como apoio Garotinho e Bacellar, porque, neste momento, ele está vivendo uma disputa muito acirrada. Agora, isso vai traduzir a um reset da disputa local? Não consigo vislumbrar essa possibilidade. Acompanhando as discussões dos grupos em disputa no âmbito local, fico bastante constrangido com os termos que têm sido utilizados: um nível de debate padrão 12 anos de idade. Não estou me referindo a ninguém específico, mas às vezes tenho a impressão de que vai chegar a dizer: “Você é cara de melão”. O nível é muito baixo. A questão da disputa para o Governo do Estado pode, de repente, se traduzir numa paz eleitoral momentânea. Mas não mais do que isso.

Hamilton – Creio que cada grupo está fazendo o seu cálculo de modo a utilizar a disputa local e se inserindo na disputa regional. Isso, aliás, está acontecendo também na esfera da candidatura presidencial, com a disputa entre o PT e o PSB no Rio de Janeiro. Cada um faz o seu cálculo do que é melhor para ele na disputa maior para alavancar o seu público, seu eleitorado, e se cacifar nas eleições, quer no Senado ou nas disputas locais. Mesmo no caso de Campos, que é um município empoderado por rendas petrolíferas, que no passado até desdenhava dessas conexões. Mas o fato é que a crise veio e Campos teve que restaurar essas conexões entre o local, o estadual e o federal. Agora, acho que isso se dá num contexto da democratização que o país está vivendo desde 1984, que é a do aumento do protagonismo do Legislativo. Mas os municípios também não estão refletindo esse avanço do Legislativo sobre o orçamento público. Não é só a discussão do quanto de liberdade tem o prefeito. É o avanço mesmo de verbas, de emendas impositivas que começam a aparecer nos legislativos estaduais e locais. Alguns prefeitos da região, inclusive, se referem às câmaras dos vereadores como câmaras de extorsão. Não é uma coalisão legislativa programática que resolve engessar o orçamento e dar uma liberdade exígua ao prefeito. O protagonismo do Legislativo tem se dado mais ou menos em torno da questão de distribuir dinheiro. Isso é uma coisa meio ao acaso, não tem planejamento. Isso representa muito mais a capacidade desses agentes legislativos de fidelizarem o voto popular, o que é uma corrupção da democracia. Porque, na democracia, o que se espera é que o eleitor seja o árbitro das disputas, dizendo quem tem maioria e quem não vai ter maioria. Mas o que acontece é que os agentes políticos se empoderam de recursos para corromper o voto popular, e aí neutralizam o poder da população de arbitrar. Não é uma exclusividade do Legislativo, não é uma novidade. Essa é uma política que o Executivo já fazia, mas agora o Legislativo faz de maneira mais ativa. O orçamento está sendo disputado para sufocar, e não tem uma conexão com a sociedade. É uma degradação generalizada, embora em cada município isso vai aparecer de uma forma. Aqui, a disputa é entre duas oligarquias muito fortes, que conseguem fidelizar o voto popular e vão estar aí nas eleições. Parece que a disputa aqui vai se dar no interior de um mesmo bloco que está se organizando para a disputa regional, porque são duas oligarquias que não vão ser apaziguar. Eles estão disputando o voto à próxima eleição municipal. O problema é o que está por trás disso: no nosso caso, nada. A não ser interesses particularistas de grupos às vezes inconfessos e até inconfessáveis.

George – Como ainda é fato recente, e eu acho também que a gente pode falar isso sem ferir suscetibilidades: é uma aproximação tanto envergonhada. Eu acho que, num primeiro momento, o que nós vimos foram trocas de farpas entre os Bacellar, o grupo que está gravitando em torno dos Bacellar, e os Garotinho. Mas, não sei se nós vamos ter uma prorrogação dessa discussão em termos de beligerância nos próximos tempos. Mais uma vez, a gente tem que olhar um pouco pela perspectiva do Cláudio Castro. É um cara que é situação no Governo do Estado neste momento, tem máquina, o Ceperj que o diga. E, nesse momento, numa disputa quente para o Governo do Estado, o que o Cláudio Castro fez ao se aproximar de grupos que estão em disputa no âmbito local, acho que se trata de garantir os dois palanques, garantir a possibilidade de dialogar com os eleitores, sejam dos Bacellar ou sejam dos Garotinho. O fogo agora são as eleições. E o próprio Garotinho tem que cuidar da campanha dele para deputado federal também. Então, talvez continue esse clima de Guerra Fria, beirando a quente. Mas creio que, agora, há um trabalho de concentração dos agentes que estão na disputa eleitoral. As próximas semanas serão decisivas para definir resultados, saber se determinadas campanhas serão bem-sucedidas; pode poder disputar espaço, inclusive, dentro do partido. Acho que tende a arrefecer um pouco o tom da disputa local, que, sem dúvida alguma, não é das mais civilizadas.

 

Folha – E a eleição de deputado federal e estadual na região, e a senador no RJ?

Hamilton – Existe uma certa perspectiva de partido regional, de você tentar maximizar uma representação dentro desse sistema que a gente tem do voto proporcional com lista aberta, que o eleitor escolhe quem botar. Todo mundo vem aqui para conseguir voto. O partido regional tem que se organizar para limitar um pouco o número de concorrentes em cada uma dessas esferas para maximizar as chances de uma representação regional. Isso parece que não é possível, em função das disputas. O que eu perguntaria a quem conhece mais essa realidade do é o risco de, com nomes fortes, você acabar fragmentando o voto e beneficiar quem vem pescar de fora e que tem outras fontes de voto para além da região. Eu acho também que em Campos, acontece também aqui, para a questão do voto regional, o fato de que a disputa local está muito degradada. Campos, de fato, está perdendo a oportunidade de ser um polo de liderança política do Norte Fluminense. Eu vejo, neste momento, um protagonismo maior de Macaé, que tem conseguido projetar mais em termos de política, em termos de debate de aperfeiçoamento institucional. Então, as dificuldades econômicas e políticas de Campos, e a pulverização de candidatos competitivos, podem ter um efeito negativo para a representação local. Em relação ao voto a senador, e essa observação talvez sirva em alguma medida para deputado, é a presença dos currais eleitorais no Rio de Janeiro. Isso deforma muito qualquer previsibilidade. O voto do senador é um voto majoritário, é um pouco impreciso. Tem umas incertezas, sobretudo na disputa para o Senado, tanto em termos programáticos, porque vão pesar de fato os programas de cada senador, como também o curral eleitoral: em que medida essa distorção do curral eleitoral, seja por traficante, seja por miliciano, impactam no voto para senador e também para deputado. Na minha lógica, talvez a questão que seja decisiva é o quanto de curral eleitoral Ceciliano (PT) vai conseguir fechar para concorrer com Romário (PL). Esse pode acabar sendo o fator decisivo na disputa entre eles, e aí eu acho que o Molon (PSB) fica um pouco em desvantagem, porque o Molon só vai entrar nas áreas libertas.

George – Quando a gente está falando sobre curral, é sobre capital eleitoral, ou seja, como você vai construir capital eleitoral numa perspectiva de ter domínio geográfico do território. Acho que a discussão sobre o Senado, pelo menos neste momento, está muito matizado pela questão da disputa nacional. Você vê isso nitidamente na atual polêmica entre a centro-esquerda, entre o André Ceciliano e o Alessandro Molon. A discussão é menos pragmática, talvez, e mais de quem talvez representaria melhor, no campo da centro-esquerda ou em certos grupos de uma direita democrática; quem seria o melhor nome anti-Bolsonaro. Porque o Romário aderiu com os dois pés ao bolsonarismo. Então, a disputa ao Senado está muito saturada na disputa nacional, além dessa questão da manutenção ou não de capital eleitoral pelos currais. Para discussão sobre o voto proporcional, seja para a Alerj ou seja para a Câmara dos Deputados, a região tem vários nomes relevantes a nível regional. Há alguns nomes que são nomes relevantes na política atual nesta conjuntura, vide inclusive (Rodrigo) Bacellar, Garotinho também. Mas, como eu avalio essa disputa? Eu acho que não é uma disputa do voto proporcional como foram as anteriores, o que dificulta as campanhas menores. Acho que há um entendimento na formulação das nominatas para poder concorrer tanto à Câmara quando às assembleias legislativas estaduais. Está se apostando muito em nomes puxadores de voto, tanto no campo da direita quanto no campo da esquerda. Isso faz com que nomes que não têm tanta projeção estadual ou nacional, digo os postulantes que estão saindo aqui na região: eles estão lidando com uma disputa desigual que lhes é desvantajosa. Esses outros nomes muito populares são puxadores de voto, eles vão capitalizar a atenção do eleitor; e as pequenas candidaturas vão, no máximo, acrescentar, levar votos para seus partidos, mas não vão conseguir muito além disso. Não me parece que nomes pouco conhecidos nesse momento das eleições das redes sociais vão ser bem-sucedidos na concorrência eleitoral. Eu acho que a situação das pequenas candidaturas regionais é muito dramática se se pretende que sejam eleitas. Não estou discutindo a qualidade dos nomes, mas o quanto eles podem bem-sucedidos nessa disputa.

 

Folha – E a eleição a presidente, polarizada em todas as pesquisas entre Lula e Bolsonaro, e talvez a com a intenção de voto mais cristalizada desde 1989?

George – Se fizer a linha histórica das pesquisas para a presidência, há mais ou menos uma regularidade. E há, no geral, uma perspectiva de que parece que tudo mais constante, algo mais ou menos consolidado. A grande questão é que sempre tem o imponderável. Nós já tivemos, nas últimas campanhas a presidente, tentativa de assassinato (com Bolsonaro em 2018); tivemos acidente de avião (com Eduardo Campos, em 2014). Os imponderáveis podem modificar cenários que estão consolidados. O que explica essa estabilidade, inclusive quando você faz pesquisa espontânea, são dois personagens absolutamente populares. Lula e Bolsonaro são políticos extremamente populares, tão conhecidos quanto nota de R$ 2. Todo mundo sabe quem são ambos. Inclusive, é o que ajuda a explicar o grau de rejeição também elevado de ambos. Às vezes acho engraçado quando fulano de tal fala: “Fulano de tal tem baixíssima rejeição”. Mas é claro, ninguém conhece. Nós temos uma cultura política bastante antipolítica. A perspectiva popular sobre a política no Brasil é muito negativa. Então, esses nomes também têm esse grau de rejeição por conta justamente de uma rejeição importante da opinião pública brasileira. Nesse momento, ainda, tudo bem que tem a expansão do Auxílio Brasil, que os mais críticos chamam de auxílio eleição. Quanto o Auxílio Brasil vai acelerar a diminuição da rejeição ao Bolsonaro é uma discussão. Neste momento, ainda há uma expectativa do eleitor, sobretudo do eleitor que vive neste momento uma situação mais periclitante, do quanto esse Auxílio Brasil pode mudar para melhor a vida dele. A questão é que esse Auxílio Brasil vai entrar, está entrando agora em (9 de) agosto. Esse auxílio vai atender à expectativa do eleitor de modo a reverter a tendência de rejeição de Bolsonaro? Não necessariamente o auxílio vai se traduzir numa reversão do segundo colocado da pesquisa para primeiro lugar. Mas ainda há os imponderáveis. Há um dado da última pesquisa Genial/Quaest: uma parte importante do eleitorado hoje, quase 1/3, se informa sobre política por rede social e WhatsApp. Ou seja, a modulação da intenção de voto e a percepção de mundo desse eleitor vai se dar das formas mais tresloucadas possíveis.

Hamilton – É uma eleição que expressa a polarização social. Minhas análises anteriores eram de que havia um espaço, sobretudo na centro-direita, na fragilidade da candidatura Bolsonaro. Mas, essa possibilidade se fechou, porque a única figura que poderia ser o antídoto ao Bolsonaro seria o Sérgio Moro (União), por ser uma figura que emergiu na esfera pública não pela política, mas pelo sistema de Justiça. Esse seria o remédio à antipolítica do Bolsonaro. Me parecia que o estelionato eleitoral praticado pelo Bolsonaro o colocaria numa situação difícil na eleição, mas isso dependeria de ter uma alternativa a ele, que seria o Sérgio Moro. O fato é que o espaço está muito difícil de ser mudado. O Ciro sempre me pareceu, embora seja um candidato que tenha feito críticas muito coerentes e contundentes ao lulopetismo, me parece que ele perdeu o tempo. Ele começou a fazer essa crítica muito tarde. Por isso, sempre considerei que, pelo lado do Ciro, seria muito difícil abrir brecha. Para não falar na solidez partidária. O PT, apesar da sua degeneração, é o único partido moderno e organizado que a gente tem na sociedade brasileira. Então, me parecia sempre que a despolarização da sociedade em torno desses dois mitos dependeria da oferta de alternativas. No caso do Ciro, do meu ponto de vista, o tempo foi perdido quando ele defendeu Dilma e defendeu Lula (em 2016) na esperança de ser o candidato desse campo. Quando o Lula, na prisão, lançou o Haddad, caiu a ficha, mas acho que caiu tarde para a imagem que ficou dele, diante da opinião pública de esquerda. Então, este é o quadro que nós temos, que me parece irreversível. Existe o imponderável, mas também existe o ponderável. A Nova República (de 1985 até o presente) nunca teve uma eleição com um presidente da República e um ex-presidente. Você também nunca teve uma eleição onde o presidente da República ameaça dar um golpe. Isso é ponderável. Isso está colocado como uma variável dessa disputa. Inclusive, eu diria que esse é o plano A do Bolsonaro. Olhando a campanha do Bolsonaro, a impressão que dá para quem está de fora, como analista, é de que quem se empenha pela candidatura do Bolsonaro é o Centrão; o filho dele Flávio Bolsonaro, os empresários bolsonaristas, os evangélicos. A sociedade civil bolsonarista se empenha, mas o plano A do Bolsonaro e do núcleo duro do bolsonarismo é dar um golpe.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

 

Confira em vídeo, nos dois blocos abaixo, a íntegra da entrevista dos cientistas políticos George Gomes Coutinho e Hamilton Garcia ao Folha no Ar de sexta: