Presidente afastado da Alerj, Rodrigo Bacellar (União) foi criticado por Garotinho na entrevista (confira aqui): “Colheu o que plantou. Ficou obcecado por dinheiro, usou tudo ao seu alcance para se tornar um bilionário. E ficou bem próximo disso”. Procurado pelo blog através da sua assessoria, Bacellar preferiu não se manifestar.
Wladimir não é Garotinho
Ruídos na passagem ou disputa de poder entre pai e filho, entre criador e criatura, são tão antigos quanto a humanidade. Não são monopólio da política de Campos. Ademais, Wladimir não é Garotinho, como Frederico não é Sérgio ou Arnaldo. Os cinco, como quaisquer outros políticos e eleitores, têm virtudes e defeitos diferentes.
Ministro do STF Alexandre de Moraes
Em 2026, o pai tá on
Garotinho ganhou protagonismo após depor como convidado na CPI do Crime Organizado do Senado, em dezembro. Na contramão do ministro do STF Alexandre de Moraes, que passou de “herói da democracia” a marido da advogada do Banco Master a R$ 3,6 milhões/mês, Garotinho saiu de 2025 maior que entrou. Neste início de 2026, o pai tá on.
Anthony e Wladimir Garotinho, Frederico Paes, Sérgio Mendes e Arnaldo Vianna (Montagem: Joseli Matias)
Futuro repetirá passado?
Outro ponto que chamou atenção na entrevista (confira aqui) foi Garotinho usar o exemplo de rupturas com aliados que fez prefeitos de Campos no passado, Sérgio Mendes e Arnaldo Vianna, como analogia ao futuro da aliança entre Wladimir e seu vice, Frederico Paes (MDB). Que assumiria assim que o titular renunciasse até 4 de abril.
Exemplos de Sérgio e Arnaldo
“Foi assim comigo (após ser prefeito de Campos pela 1ª vez, entre 1989 e 1992) e Sérgio Mendes (prefeito entre 1993 e 1996). Foi assim comigo (após ser prefeito pela 2ª vez, entre 1997 e 1998, quando saiu para se candidatar e se eleger governador) e Arnaldo Vianna (vice que assumiu como prefeito em 1998)”, relembrou Garotinho.
Hamuilton Garcia, cientista político e professor da Uenf
Contrário ao interesse público?
“Na entrevista, Garotinho chamou a atenção no que diz da sua experiência com vice-prefeitos, em seus dois mandatos em Campos. O termo ‘traição’ não foi usado. Mas a autonomização dos vices diante dos chefes é vista como ‘desvio pessoal’ contrário ao interesse público”, observou o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf.
Morde e assopra
“O problema acontece quando as pessoas colocam os problemas pessoais acima dos públicos, e buscarão semear discórdia junto a Frederico, como ocorreu com Sérgio e Arnaldo”, projetou o ex-governador. Que, no entanto, elogiou o atual vice do filho, com quem disse ter conversado recentemente por três horas: “É excepcional como pessoa”.
Grupo político
Sem esconder que preferia que Wladimir concluísse o mandato de prefeito, Garotinho ressalvou sobre o possível governo Frederico: “Sem ter grupo um político próprio, não adianta. Ele é administrador de sucesso no setor privado, foi no Hospital Plantadores e é na usina Coagro. Mas, para gestão pública, tem que ter grupo político.”
Wladimir e Frederico reafirmaram união do grupo, sob liderança do primeiro, na reunião com secretariado e vereadores na manhã de segunda (Foto: Ascom)
Frederico reafirma grupo e líder
Na reunião de Wladimir com o secretariado e vereadores na manhã de segunda, uma fala de Frederico (confira aqui) dizendo que não aceitaria pressão gerou muitas interpretações. Em vídeo à tarde, o vice esclareceu: “Nós temos um grupo político e eu pertenço a esse grupo. Do qual Wladimir seguirá como líder, independentemente de qualquer posição.”
Anthony Garotinho e Aluysio Abreu Barbosa em entrevista exclusiva na manhã de domingo (1º), em Chapéu de Sol (Foto: Juninho Virgílio)
Histórias de Garotinho sob casuarinas
Há muitas histórias sob as casuarianas de Chapéu de Sol. Algumas foram contadas pelo ex-governador Anthony Garotinho (REP) na manhã do último domingo (1º), sobre a política de Campos, RJ e Brasil, neste início do ano eleitoral de 2026. Que estão na entrevista (confira aqui) publicada segunda (2), no blog Opiniões, e republicada hoje, na página 2 da edição da Folha da Manhã.
“Quem Rosinha apoiaria a federal?”
A possibilidade de pai e filho disputarem os mesmos votos pelo mesmo cargo de deputado federal em outubro foi, sem dúvida, a pauta que gerou (confira aqui) maior interesse. Por trazer complexidades públicas que só deveriam pertencer ao particular da família. E foi sintetizada por Garotinho: “Rosinha apoiaria quem: o marido ou o filho?”.
Wladimir vice de Paes?
Quatro dias antes da entrevista de Garotinho, a coluna revelou (confira aqui) na quarta (28): “Por mais que (Wladimir, PP) goste de ser prefeito da sua cidade, hoje, o mais provável é que saia para se candidatar a deputado federal. A possibilidade de ser vice na chapa do prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) a governador, se não descartada, parece menos provável.”
Vice de Paes? “Hoje, não existe”
Quatro dias depois, Garotinho disse sob as casuarianas de Chapéu de Sol no domingo: “Por que Paes (PSD), sem ter mais (o campista Rodrigo) Bacellar (União, presidente afastado da Alerj) na disputa a governador, precisa de Wladimir como vice? Isso, hoje, não existe”.
Alternativa a senador
Garotinho deixou aberta a possibilidade de se lançar a senador pelo Republicanos: “Se eu concorresse a senador, poderia ser uma forma de evitar o confronto direto com Wladimir”. Mas, noves fora a questão familiar, a pergunta pragmática talvez devesse ser: se os dois vierem a deputado federal, um não atrapalharia a eleição do outro?
George Gomes Coutinho, cientista político e professor da UFF-Campos
Eleitores para Garotinho e Wladimir?
“A questão da concorrência com o filho é realismo. De fato, sabendo do tamanho do eleitorado que pode votar em alguém da grife Garotinho, podemos projetar que não haveria eleitores suficientes para eleger dois deputados federais”, analisou o cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos.
“Édipo Rei”
Indagado sobre o paralelo goitacá com a tragédia clássica “Édipo Rei”, do grego Sófocles, que narra a disputa entre o pai Laio e o filho Édipo pelo trono de Tebas, George ponderou: “Garotinho se apresentou como o dono do clã. Novamente elegível, retoma espaço e capital eleitoral. Aí, na referência literária, Laio, quem diria, resolveu intimidar Édipo.”
Anthony Garotinho e Aluysio Abreu Barbosa em entrevista exclusiva, na manhã de domingo (1º) em Chapéu de Sol (Foto: Juninho Virgílio)
“Por que (o prefeito carioca Eduardo) Paes (PSD), sem ter Bacellar (União, presidente afastado da Alerj) mais na disputa a governador, precisa de Wladimir como vice? Isso, hoje, não existe”. Foi o que o ex-governador Anthony Garotinho (REP) disse na manhã do último domingo (1º), em entrevista exclusiva à Folha (confira aqui) sob as sombras das casuarinas de Chapéu de Sol.
Coerência de Wladimir?
Ele também questionou a provável decisão do seu filho, o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PP), de deixar o governo da cidade para se candidatar a deputado federal:
— Wladimir era deputado federal, saiu no meio do mandato para se eleger prefeito de Campos e depois se reeleger. E agora vai largar o mandato de prefeito para tentar ser deputado federal? Qual é a coerência disso? Não tem! Não tem uma explicação pública coerente para o eleitor. Já falei com ele, mais de uma vez, que o correto seria terminar o mandato de prefeito.
Rosinha vai apoiar o marido ou o filho?
Sobre a possibilidade de se candidatar a deputado federal, na disputa pelo mesmo cargo e mesmos votos que Wladimir, Garotinho lembrou da divisão que isso poderia causar dentro da sua própria família:
— Vai ser complicado eu e Wladimir disputarmos juntos pelo mesmo cargo de deputado federal. Rosinha apoiaria quem: o marido ou o filho? Eu e Rosinha fomos, por 7 anos, professores de curso de casal na Igreja Presbiteriana Luz do Mundo, na cidade do Rio. E sempre ensinamos aos casais: “Marido e mulher você escolhe, filhos não”.
Frederico e demanda de grupo político
O ex-governador também especulou sobre como seria o governo do hoje vice-prefeito Frederico Paes (MDB) em Campos, caso Wladimir confirme sua saída até 4 de abril de prefeito para se candidatar em outubro:
— Frederico é excepcional como pessoa. Conversei, recentemente, três horas com ele. Quando ele me disse que não deseja ser prefeito e que nunca combinou isso com Wladimir. Mas sem ter grupo um político próprio, não adianta. Ele é um administrador de sucesso no setor privado, como foi do Hospital Plantadores de Cana e é na usina Coagro. Mas, para gestão pública, tem que ter grupo político.
Vejo o futuro repetir o passado?
Sobre a manutenção da relação boa entre Wladimir e Frederico, caso o primeiro se eleja deputado federal e o segundo assuma como prefeito, Garotinho usou sua experiência do passado para responder:
— É só olharmos um pouco para atrás para ver o que já aconteceu em Campos. Foi assim comigo (após ser prefeito de Campos pela 1ª vez, entre 1989 e 1992) e Sérgio Mendes (prefeito eleito com apoio de Garotinho entre 1993 e 1996), foi assim comigo (após ser prefeito de Campos pela 2ª vez, entre 1997 e 1998, quando saiu para se candidatar e se eleger governador) e Arnaldo Vianna (vice que assumiu como prefeito em 1998 e se reeleger ao cargo em 2000). O problema acontece quando as pessoas colocam os problemas pessoais acima dos públicos, e buscarão semear discórdia junto a Frederico, como ocorreu com Sérgio e Arnaldo.
Garotinho a senador?
O ex-governador falou ainda da possibilidade de se candidatar a senador pelo seu Republicanos. O que evitaria a disputa direta com Wladimir pelo mesmo cargo de deputado federal. Se disputar este cargo, no entanto, projetou a votação que poderia fazer:
— O Republicanos me sondou para ser candidato a senador. Poderia ser Clarissa, que foi muito bem votada a senadora em 2022. Mas ela foi para a iniciativa privada, onde está muito bem. Se eu concorresse a senador, poderia ser uma forma de evitar o confronto direto com Wladimir. O Republicanos virá com uma nominata muito forte a deputado federal. E projeta que, se eu concorrer ao cargo, poderia fazer 250 mil votos.
A questão do vice de Paes
Garotinho voltou a falar sobre Eduardo Paes e a escolha do seu candidato a vice na eleição a governador em outubro:
— Eduardo não tem a necessidade de Wladimir como vice, sem Rodrigo e mesmo se Rodrigo ainda estivesse no páreo a governador. Wladimir está no PP. E lá quem vai definir é o presidente estadual do partido, (o deputado federal) dr. Luizinho. Que não vai escolher Wladimir. O Rogério Lisboa (PL, prefeito de Nova Iguaçu), hoje, poderia ser esse nome para vice de Paes. Mas acho que ele vai enrolar, enrolar e acabar escolhendo alguém próximo a ele.
Sobre Bacellar
O ex-governador também analisou a prisão de Bacellar em 3 de dezembro, pela acusação de ter vazado informações sobre a prisão do ex-deputado estadual TH Joias, ligado à facção Comando Vermelho. E a posterior soltura do político campista em 9 de dezembro, com as medidas cautelares impostas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, como afastamento da presidência da Alerj, uso de tornozeleira eletrônica, entrega do passaporte e recolhimento residencial noturno:
— Bacellar colheu o que plantou. Ficou obcecado por dinheiro, usou tudo ao seu alcance para se tornar um bilionário. E ficou bem próximo disso.
Castro não concorrerá a senador?
Garotinho apostou ainda que Cláudio Castro não se candidatará a senador e que o ainda governador também pode vir a ter problemas pela frente:
— Castro não vai sair para concorrer a senador. Ou será afastado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) presidido pela ministra Carmén Lúcia, mesmo com o pedido de vista, no caso Ceperj. Ou pela Justiça Federal. É provável que nem tenhamos eleição a governador-tampão indireta na Alerj.
Perguntado sobre qual esfera da Justiça Federal poderia trazer problemas a Castro, o ex-governador disse que pode ser tanto no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), quanto no Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou no STF. Onde, apostou em desdobramentos da operação Unha e Carne no STF pela ADPF das Favelas, que gerou a prisão de Bacellar. E na operação Oricalco, que ainda não saiu à rua e poderia agora andar no TRF-2, após sair das mãos do desembargador federal Macário Júdice Neto, afastado do caso após ser preso em 16 de dezembro pela acusação de ter vazado a Bacellar as informações sobre a prisão de TJ Joias.
Nem Flávio nem Lula: Tarcísio
Garotinho também falou da política nacional. Onde refirmou que não votará a presidente nem no senador Flávio Bolsonaro (PL), nem em Lula (PT). E apostou no nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP), como o nome de oposição mais consistente eleitoralmente e melhor para governar o país:
— Já declarei publicamente que não voto em Flávio Bolsonaro. Que será obrigado a explicar muitas coisas durante a campanha. Como também não voto em Lula, porque o PT, que conheço bem, há muito tempo se tornou um partido patrimonialista. Tarcísio é o melhor nome a presidente. Lógico que São Paulo (onde o governador tem bons índices de aprovação e lidera todas as pesquisas à reeleição) é importante, mas o Brasil é mais.
Deputado federal suspenso, Glauber Braga (Psol) é o convidado do Folha no Ar nesta terça (03), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.
Ele analisará causas e consequências da suspensão do seu mandato de deputado por seis meses, a partir de dezembro, por conta do episódio da agressão a um militante do MBL dentro das dependências do Congresso Nacional, em abril de 2024.
Glauber também falará da sua visita a vários municípios do Norte, Noroeste Fluminense e Região dos Lagos centrado nas opções de se candidatar à reeleição a deputado federal ou a governador pelo Psol, em outubro.
Por fim, com base nas pesquisas mais recentes, ele tentará projetar a eleição a presidente da República (confira aqui e aqui, aqui, aqui e aqui, aqui e aqui), governador e senador do RJ em 4 de outubro, daqui a 8 meses e 2 dias.
Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebooke no YouTube.
À sombra das casuarianas de Chapéu de Sol, na manhã deste domingo, Thiago Virgílio, Anthony Garotinho e Aluysio Abreu Barbosa (Foto: Juninho Virgílio)
“Vai ser complicado eu e Wladimir disputarmos juntos pelo mesmo cargo de deputado federal. Rosinha apoiaria quem: o marido ou o filho? E por que Paes, sem ter mais Bacellar na disputa a governador, precisaria de Wladimir como vice?” Foram alguns questionamentos que o ex-governador Anthony Garotinho (REP) fez na manhã de hoje (1º), entre outras coisas, em entrevista à sombra das casuarinas de Chapéu de Sol.
Garotinho passeou pela política municipal, regional, fluminense e nacional neste início de ano eleitoral de 2026. Com a entrevista constantemente interrompida por veranistas, muitas vezes em família, e até adversários políticos, que paravam para cumprimentá-lo, lembrar histórias e conversar.
A íntegra da entrevista exclusiva poderá ser conferida nesta segunda (02), no blog Opiniões e no site Folha1. Como, nesta quarta (4), bem cedo nas bancas e nas casas dos assinantes, no jornal Folha da Manhã.
Nas rodadas finais do Brasileirão de 2009, o Fluminense carregava um número que mais parecia sentença: 99% de chance de rebaixamento. Lutava contra a tabela, contra a matemática, contra a descrença geral. Ninguém acreditava. Ou quase ninguém …
Seu Alair, o morador mais rabugento do bairro, definitivamente não acreditava. Amaldiçoava o time todos os dias, em voz alta, como se quisesse que o mundo ouvisse: Turma de perna de pau! Ninguém escapava de críticas, nem jogador, nem o futebol.
Para ele, o futebol havia morrido fazia tempo — lá atrás, junto com a geração de Didi, Garrincha, Pelé, Rivelino e outros craques que ele evocava como quem rezava. O que restava agora, dizia, era um esporte em agonia, respirando por aparelhos.
Os números pareciam concordar com Seu Alair. O Fluminense somava apenas 18 pontos em 24 jogos, afundado na lanterna do campeonato, quando Cuca assumiu o time tricolor. A missão era clara e absurda: nos últimos sete jogos, seriam necessários seis vitórias e um empate. Nada menos que isso. Uma tarefa hercúlea. Daquelas que só entram para a história quando alguém resolve desafiar o impossível.
Pois bem, o impossível foi desafiado, um time de guerreiros nasceu. O Fluminense saiu do “mundo comum” para “provação máxima” em poucos meses, normalmente, os heróis vivem suas epopeias ao longo de anos, mas ali o tempo foi comprimido, cruel, implacável.
Cada rodada era uma batalha, cada acréscimo no tempo da partida era um desafio, cada penalidade marcada era um inimigo. Sem armadura ou espada, os guerreiros se feriam, sangravam e seu Alair se desesperava, mesmo com o Fluminense precisando só de um empate para não cair na última rodada, ele não conseguia crer, era um pessimista contumaz.Parte superior do formulário
A última batalha seria dificílima: jogar contra o Coritiba no território inimigo, arquibancadas hostis, nervos à flor da pele. Não era apenas mais um jogo — era o limiar entre a queda e a permanência. Em campo, o Fluminense não jogava bonito, jogava o necessário. Cada dividida era um juramento, cada passe, um ato de fé.
O empate bastava, mas ninguém ousava confiar nisso. Empates são frágeis demais. O medo rondava como sombra, e o silêncio antes do apito inicial pesava mais que a própria bola. Seu Alair assistia ao jogo de braços cruzados, o cenho franzido, pronto para a blasfêmia. Não gritava mais — observava. Talvez porque, no fundo, também estivesse atravessando sua própria provação: admitir que ainda era possível acreditar. Quando o gol saiu, houve espanto. Ele ficou sem palavras, como se o impossível tivesse tropeçado.
Nelson Lellis, doutor em Sociologia Política pela Uenf
Fígaro e o fóbico: a armadilha do silêncio nas pautas identitárias
Por Nelson Lellis
Introdução: casos factuais
O debate público brasileiro atravessa um momento de interdição que transcende a mera polarização; vivemos a instauração de uma certa auditoria do pensamento. Esse fenômeno ficou evidente no último ano, quando a crítica de Chico Bosco a certas vertentes do feminismo contemporâneo foi recebida não com contra-argumentos, mas com um escrutínio moralizante que visava deslegitimar o interlocutor antes mesmo do debate.
Essa dinâmica confirma o diagnóstico recente de Vladimir Saflatle na revista Piauí: a universidade e a esfera pública estariam se convertendo em um “grande FMI universitário”. Para Safatle, operamos hoje sob uma lógica de ajuste estrutural das ideias, onde identidades são geridas como ativos financeiros e o pensamento crítico é substituído por uma burocracia de conformidade que decide quem pode falar e sobre o que é permitido divergir.
É nesse cenário de vigilância que a pesquisa de Beatriz Bueno acerca do conceito de “parditude” emerge como um caso paradigmático. Ao propor o reconhecimento do pardo não como um resíduo da branquitude ou uma categoria a ser subsumida automaticamente pela negritude, mas como uma ontologia mestiça com vivências, dores e complexidades próprias, a pesquisadora tocou no nervo exposto dos dogmas identitários.
A reação de setores da militância e da academia ao seu estudo — muitas vezes sendo acusada de “eugenista” ou “desmobilizadora” por ousar diferenciar a experiência parda da negra — ilustra perfeitamente a tese do “FMI” de Safatle: a diversidade é celebrada apenas até o momento em que ela desafia a cartilha hegemônica da gestão identitária.
O caso da parditude nos força a encarar o paradoxo atual: as pautas identitárias, que nasceram para dar voz a saberes silenciados (Foucault), correm o risco de instaurar novos regimes de verdade que, ao rejeitarem a complexidade do real (como a existência de uma identidade mestiça autônoma), reproduzem a exclusão que dizem combater.
Retomo nesse breve texto, portanto, a máxima de Pierre Beaumarchais em “O Casamento de Fígaro” (1778): “Sem a liberdade de criticar, não existe elogio sincero”. Se a tentativa de Beatriz Bueno de complexificar o debate racial é interditada pelo medo do cancelamento ou pela acusação automática de fobia, o que resta não é justiça social, mas um silêncio preventivo. E onde impera o silêncio, a democracia fenece.
A liberdade de criticar: do Fígaro ao fóbico
Em 1778, Pierre Beaumarchais escreveu “O Casamento de Fígaro”, uma peça que, antes mesmo da Revolução Francesa, já disparava contra os privilégios da nobreza. Nela, o protagonista imortalizou uma máxima que ecoa em nossos dias: “Sem a liberdade de criticar, não existe elogio sincero”. O raciocínio é direto: se sou proibido de discordar, meu apoio não é admiração, é medo ou obrigação. Para que o elogio tenha valor, ele precisa ser uma escolha, não uma imposição.
Ao observarmos o cenário atual, amparados por leituras como as de Yascha Mounk (A armadilha da identidade), percebemos um paradoxo perigoso. É inegável que as políticas identitárias surgiram para dar voz a saberes historicamente silenciados e desmascarar falsas universalidades (Foucault). No entanto, há uma ironia trágica na prática contemporânea: ao blindar suas pautas contra qualquer análise externa, certos ativismos instauram novos regimes de verdade, tão dogmáticos quanto os antigos.
Se a ética se constrói na coragem de dizer a verdade diante do poder — o que Foucault chamava de parrhesía —, a interdição da crítica sob o rótulo automático de fobia anula esse ato ético. O aliado que se cala por medo do cancelamento não oferece apoio real, mas uma confissão de fé performática.
A Interdição do Debate e o “Lugar de Fala”
O primeiro ponto de desgaste é a distorção do conceito de “lugar de fala”. Originalmente criado para iluminar perspectivas esquecidas, ele tem sido usado para encerrar discussões. Se um aliado não pode questionar uma tática ou postura sem ser tachado de “fóbico”, seu apoio perde a substância racional. A causa, a longo prazo, definha pela falta de oxigênio intelectual.
A Sacralização da Identidade
Do ponto de vista da sociologia da religião, notamos uma lógica sectária. A identidade tornou-se o “sagrado”. Tocar nela de forma crítica é visto como profanação. Essa barreira é visível tanto em grupos progressistas quanto conservadores: onde termina a crítica sociológica e começa a intolerância? Se não encontrarmos essa linha, o respeito será apenas uma fachada.
O Limite entre Crítica e Ódio
É preciso, contudo, um cuidado fundamental: a distinção entre crítica e discurso de ódio. Beaumarchais falava de criticar atos e ideias, jamais de desumanizar pessoas. No Brasil, infelizmente, o termo “liberdade de expressão” é frequentemente sequestrado para camuflar o racismo e a homofobia. A liberdade que defendemos aqui é a de discordar civilizadamente, pois só dela nasce o reconhecimento legítimo.
Por uma Democracia com Atrito
Movimentos sociais verdadeiramente fortes são aqueles que suportam o escrutínio. O elogio que vale a pena é aquele que reconhece a legitimidade do outro, mesmo apontando suas falhas. Uma democracia saudável precisa dessa tensão. Como na física, sem o atrito não há movimento; resta apenas a inércia de um discurso vazio.
Concluindo…
O percurso que traçamos, da interdição sofrida por Francisco Bosco à “auditoria” denunciada por Vladimir Safatle, revela que a crise do debate público brasileiro não é apenas de civilidade, mas de ontologia política. O caso da “parditude” de Beatriz Bueno serve aqui como a prova final e irrefutável de que o “Grande FMI Universitário” não tolera o excedente da realidade. Ao tentar enquadrar a complexa experiência mestiça brasileira na planilha binária de importação norte-americana, o dogmatismo identitário precisa silenciar a dissonância para manter a sua coerência interna.
Contudo, o silenciamento do dissenso cobra um preço alto: a esterilização da própria política. Quando a dúvida é convertida em fobia e a crítica em heresia, o que resta não é militância, mas liturgia. Nesse momento, a lição de Fígaro torna-se muito peculiar: a legitimidade de qualquer pauta progressista depende vitalmente da sua capacidade de suportar o contraditório. Se quisermos construir uma justiça social que não seja apenas uma gestão burocrática de ressentimentos, precisaremos resgatar urgentemente a liberdade de criticar. Pois, sem ela, todo elogio à diversidade continuará sendo, tragicamente, apenas medo disfarçado de virtude.
O principal entrave reside nessa tribalização do intelecto: no ambiente digital, a crítica raramente é recebida como um convite à reflexão, sendo imediatamente processada como um ataque à identidade do grupo. Isso gera um efeito de silenciamento preventivo, onde o medo do estigma social (a acusação de fobia ou heresia) sufoca a honestidade intelectual antes mesmo que ela se transforme em palavra. Além disso, enfrentamos o desafio da distinção semântica. Em um cenário de polarização aguda, a linha que separa o escrutínio legítimo de ideias (a liberdade de blâmer) da agressão desumanizante tornou-se perigosamente tênue.
O desafio da crítica hoje é, portanto, duplo: a) resgatar a civilidade para manter a capacidade de confrontar a ideia sem aniquilar o sujeito; b) combater o dogmatismo aceitando que a dúvida e o contraditório não são inimigos da causa, mas os únicos elementos capazes de conferir autenticidade ao apoio e à militância. Sem enfrentar esses desafios, corremos o risco de transformar o debate público em um eco de monólogos, onde a verdade é medida pelo volume da adesão, e não pela força da razão.