Três meses depois, mulher de Moraes admite contrato com Master de Vorcaro

Desde que a jornalista Malu Gaspar revelou em 9 de dezembro (confira aqui ou aqui) o contrato do liquidado Banco Master de R$ 3,6 milhões/mês com o escritório de advocacia da esposa e dois filhos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, a profissional da imprensa passou a ser atacada nas redes sociais (confira aqui e aqui) por perfis de esquerda, ao estilo do “gabinete do ódio” bolsonarista. Só que, hoje, o próprio escritório Barci de Moraes admitiu em nota pública (confira aqui) que o contrato existia.
Versão da mulher de Moraes — O escritório de Viviane Barci, esposa de Moraes, disse ter produzido 36 pareceres jurídicos e opiniões legais para o Banco Master. A advogada também ressaltou na nota do seu escritório que promoveu 79 reuniões semipresenciais na sede da instituição financeira (Banco Master), além de dois encontros por videoconferência.
Ao todo, foram contratados ainda outros três escritórios especializados em consultoria, que ficaram sob a coordenação do Barci de Moraes Sociedade de Advogados. “O escritório esclarece ainda que nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no âmbito do Supremo Tribunal Federal”, disse a nota do escritório da esposa e de dois dos seus três filhos com o ministro Alexandre de Moraes.
Desde 15 de março de 2025, supeição para julgar Bolsonaro — Em 15 de março do ano passado, em texto intitulado “De Lula a Bolsonaro, Brasil entre a justiça e a vingança”, o blog trouxe (confira aqui) as advertências de juristas nacionalmente respeitados, como o desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) Wálter Maierovitch e Aury Lopes Jr., doutor em Direito Processual Penal e professor da PUC do Rio Grande do Sul. Ambos diziam que que Moraes, na condição parcial de vítima, deveria se declarar suspeito de atuar no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.
Pelo espelho retrovisor, Xandão e Super Moro — Os avisos desses e de vários outros juristas capacitados (confira aqui e aqui), foram ignorados por Moraes e seus defensores como Xandão, o “herói da democracia” do STF. Reflexo ao espelho, mesma imagem em direção (política) invertida, de quando o hoje senador e ex-juiz federal da 13ª Vara de Curitiba, Sérgio Moro, era reverenciado durante e depois da operação Lava Jato (2014/2021), como “Super Moro”.
O fato é que, mesmo como vítima do planejamento da tentativa do seu sequestro e homcídio pela (confira aqui) Operação Punhal Verde e Amarelo, Moraes foi o relator do julgamento de Bolsonaro e cúmplices por tentativa de golpe de Estado, entre 2022 e 2023, na 1º Turma do STF. Que, em 11 de setembro de 2025, por 4 votos a 1, condenou (confira aqui e aqui) o ex-presidente a 27 anos e três meses de prisão.
Biruta moral pelo vento do interesse político — Foi isso que fez, sobretudo entre os eleitores do presidente Lula (PT), Moraes ser reverenciado, com a biruta moral entre garantismo e punitivismo variando ao sabor do interesse político da Lava Jato à tentativa de golpe. E Malu Gaspar ser por estes mesmos eleitores de Lula atacada, exatamente como foram, em passado recente, as jornalistas Patrícia Campos Mello (relembre aqui) e Vera Magalhães (relembre aqui), entre outras, pelos bolsonaristas.
“Quebrar todos os dentes” do jornalista Lauro Jardim — De volta ao contrato de valor inusitado (R$ 129 milhões em três anos) do Banco Master com o escritório da esposa e dos filhos de Moraes, hoje admitido após três meses da sua revelação pela Malu Gaspar, somam-se outros fatos. Inclusive as ameaças de Vorcaro em mensagens de celular periciadas pela Polícia Federal (PF) trocadas com o recentemente falecido Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário” (codinome e sinônimo de “assassino”), para (confira aqui) simular um assalto e “quebrar todos os dentes” de outro jornalista, Lauro Jardim.
Por que Gonet e Toffoli ignoraram gravidade dos fatos? — Relatados pela PF, esses fatos foram aparentemente ignorados pelo procurador-geral de República (PGR), Paulo Gonet (confira aqui). Como pelo antigo relator do caso Master no STF, o ministro Dias Toffoli (confira aqui). Que só mesmo dia 12 em que seria afastado do caso (confira aqui) por seus pares, admitiu ser sócio (confira aqui) da Maridt Participações, empresa familiar dirigida pelos irmãos do magistrado que fez negócios com um fundo gerido pela empresa Reag, ligada ao Banco Master.
Ministro “terrivelmente evangélico” não ignora — No entanto, a gravidade dos fatos envolvendo Vorcaro, parceiro de negócios de Toffoli e contratante a R$ 3,6 milhões/mês do escritório da mulher de Moraes, não foi ignorada pelo novo relator do caso no STF, o ministro “terrivelmente evangélico” de Bolsonaro (relembre aqui), André Mendonça. Que, no último dia 4, mandou prender preventivamente Vorcaro (confira aqui). Assim como “Sicário”, morto após suposta tentativa de suicídio (confira aqui) já no 1º dia da sua detenção, em uma cela da Superintendência da PF em Minas Gerais.
De Vorcaro a Moraes: “Conseguiu bloquear?” — No dia 6, novamente a jornalista Malu Gaspar revelou (confira aqui ou aqui) que, em 17 de novembro, dia da 1ª prisão de Vorcaro, este teria trocado, segundo a perícia da PF, várias mensagens com Moraes. Entre elas, o ex-banqueiro, com modus operandi de miliciano, teria indagado ao “herói da democracia” do STF: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”
Análise do jursta — A partir de todas essas novas relevações, o jurista Wálter Maierovitch, também colunista do portal UOL, fez uma nova advertência no dia 7 (confira aqui) sobre Moraes e sua atuação no STF:
— A esposa dele (de Alexandre de Moraes), em janeiro de 2024, ela (Viviane Barci de Moraes) celebrou um contrato (com o Master). E depois, em novembro, começou, e a PF apresenta isso, diálogos entre o Moraes e o Vorcaro. No sentido de que Moraes estaria por dentro de toda a atividade do Vorcaro e dando-lhe conselhos, orientações. Existe até uma mensagem, que é a última delas, que parece dar indicativos de que houve, sim, a troca. O Moraes interagiu com ele, respondia a ele, embora essas mensagens tivessem sido apagadas. A situação do Moraes é delicadíssima.
Ou pede o boné ou impeachment? — O desembargador aposentado do TJ/SP seguiu em sua análise jurídica do envolvimento de Moraes com o Master e suas consequências:
— Ele (Moraes) deveria, de pronto, se licenciar. E, imediatamente, também, ou se licencia, ou se exonera. Exoneração é um termo técnico. No popular, é demissão. Ou seja, pede o boné, deixa a toga na cadeira e vai embora. Porque, diante de tudo isso, os indicativos são fortíssimos de crime; crime de advocacia administrativa. E esse crime prevê que aquele que patrocina, que participa de uma forma direta ou indireta. E no caso são duas. Diretamente pela mulher e indiretamente debaixo da toga. Nós só temos uma saída, que se chama impeachment, que é pelo Senado — indicou Maierovitch.

























