Opiniões

Defensoria Pública analisa Covid e vacinação no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (28), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o defensor público Lúcio Campinho. Ele analisará aos olhos da Defensoria Pública da comarca o combate à pandemia em Campos e a oferta de leitos na rede de saúde do para os doentes, os critérios adotados para a vacinação contra a Covid no município e falará também do planejamento para retomada das aulas, ainda que virtualmente.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Culpado pela gravidade da Covid no Brasil, fora Bolsonaro, para quê?

Dois mestres do jornalismo brasileiro, Zuenir Ventura e Elio Gaspari hoje publicaram artigos, no jornal O Globo, que se complementam. Ambos tratam da grave crise no Brasil gerada pela pandemia da Covid-19 e pela absoluta incompetência do presidente Jair Bolsonaro (em partido) em lidar com ela.

No primeiro artigo, Zuenir não tem dúvida ao afirmar que “o responsável” pela gravidade da crise da Covid no Brasil “é o presidente Jair Bolsonaro” (sem partido). Que enfrentou no último final de semana manifestações de rua (confira aqui) por seu impeachment “em 18 capitais” do país, reflexo direto do derretimento (confira aqui) da sua popularidade. Também registrado no texto do Gaspari, esse enfraquecimento é visto com pragmatismo: “O ‘Fora Bolsonaro’ exige um apenso: ‘Para quê?’”.

Confira abaixo os dois textos necessários:

 

(Foto: Pablo Jacob – Agência O Globo)

 

Zuenir Ventura, jornalista e escritor

A crise e o culpado

Por Zuenir Ventura

 

Pouco antes de o procurador-geral da República, Augusto Aras, solicitar ao STF — e conseguir — a abertura de inquérito para apurar a conduta de Eduardo Pazuello durante a crise da saúde no Amazonas, o próprio ministro da Saúde embarcava para Manaus para “ficar o tempo que for necessário”, sem previsão de “voo de volta”.

Enquanto isso, movimentos de direita e esquerda saíam às ruas de 18 capitais, apoiando a vacinação e pedindo o impeachment de Bolsonaro, que respondeu com ironia: “Vi uma carreata monstro de uns dez carros”. Na verdade, ele viu mal. Em São Paulo, a fila de carros na Avenida Paulista era de perder de vista e, no Rio, a carreata formava uma fila de quatro quilômetros de automóveis, motos e bicicletas.

Os protestos aconteceram num momento desfavorável para Bolsonaro, em que a sua popularidade está em queda. Duas recentes pesquisas do Datafolha justificam o mau humor que atrapalhou sua visão. Uma aponta o aumento dos descontentes: 40% da população avaliam sua atuação como ruim ou péssima, ao contrário dos 32% da edição anterior da sondagem, no começo de dezembro.

Outra indica que 46% acham que João Doria fez mais contra a pandemia que Bolsonaro. Aliás, o principal inimigo político de Bolsonaro soube faturar a aprovação do uso emergencial da CoronaVac, a vacina que ele sempre defendeu, e Bolsonaro rejeitou, pelo menos até a embaixada chinesa informar que estava enviando os 5.400 litros de insumos.

Quanto a Pazuello, espera-se que nessa sua volta a Manaus ele não tenha levado para distribuir a hidroxicloroquina, o famoso medicamento ineficaz que Bolsonaro costuma receitar. Quem melhor desvendou o seu papel na trama foi Merval Pereira, ao revelar que ele tem tudo para ser o “bode expiatório”.

Pressionado pelos procuradores para tomar alguma providência, Augusto Aras tratou de proteger quem o protegeu. É claro que o general Eduardo Pazuello tem culpa. Mas o responsável é quem o escolheu e o mantém num cargo para o qual não tem a menor condição de ocupar. É o presidente Jair Bolsonaro.

 

Protesto da direita contra Bolsonaro, realizado pelos movimentos MBL e Vem Pra Rua no último domingo (24), nas ruas de São Paulo (Foto: Fábio Vieira – Metrópoles)

 

Elio Gaspari, jornalista e escritor

Fora Bolsonaro, para quê?

Por Elio Gaspari

 

Por estranho que pareça, o grito de guerra “Fora Bolsonaro” é falta de agenda, como era falta de agenda o “Fora Temer”. O governo do capitão é desastroso no varejo e no atacado. Diante de uma pandemia, todas as suas ideias e iniciativas estavam erradas. Sua “nova política” aninhou-se no Centrão, o Brasil virou um pária. A tragédia do Amazonas mostrou que o pelotão palaciano gosta de ficar zangado; com João Doria, com a Pfizer, com a China e com quem disser que eles não sabem trabalhar. Mesmo assim, o capitão chegou ao Planalto pela vontade de 57,8 milhões de eleitores, e a Constituição diz que pode ficar lá até o dia 1º de janeiro de 2023.

O grito de “Fora Bolsonaro” é falta de agenda porque não tem base nem propósito. Não tem base parlamentar, e isso foi informado pela senadora Simone Tebet. Não tem base popular porque 28% dos entrevistados pelo Datafolha ainda acham que ele está fazendo o certo no combate à Covid. Sua popularidade está derretendo. O capitão é rejeitado por 40%, mas ainda tem o apoio de 31%. Admitindo que a velocidade desse desgaste prossiga, em um mês ele ainda terá 25% de admiradores.

No mundo dos sonhos de quem grita “Fora Bolsonaro”, se ele for embora, as coisas melhoram. Se isso acontecer, para a cadeira vai o general Hamilton Mourão. Ele é um vice singular. Nada tem a ver com seus antecessores que foram catapultados à cadeira de presidente. Michel Temer e Itamar Franco tinham identidades políticas. Mourão é apenas vinho da mesma pipa da safra de 2018. Foi escolhido numa reunião matutina porque o príncipe de Orleans e Bragança achou que ainda se vivia no Império. Itamar fez discretos acenos à oposição. Temer chegou a anunciar um plano de governo. Para o bem ou para o mal, o general tem sido um fiel comandado do capitão.

Itamar e Temer mudaram o curso das administrações de Fernando Collor e de Dilma Rousseff. Ganha uma fritada de morcego do mercado de Wuhan quem for capaz de desenhar mudanças possíveis com Mourão.

Admita-se que elas podem acontecer. Aconteceram em 1946, quando elegeu-se presidente o general germanófilo Eurico Dutra, um marquês da ditadura de Getúlio Vargas. Em primeiro lugar, Dutra elegeu-se. Além disso, empalmou a essência da plataforma da oposição democrática. Se o “Fora Bolsonaro” tivesse propostas além do “Fora”, o grito de guerra teria um conteúdo. Não só ele lhe falta, como a oposição ao presidente ainda não tem propósito. Olhando para o fim da ditadura, vê-se que Tancredo Neves encarnava uma proposta.

Bolsonaro meteu o andar de cima e suas Forças Armadas na ruína que hoje está personificada no general Eduardo Pazuello. Ele foi para o lugar de Luiz Henrique Mandetta, que tinha um plano, e de Nelson Teich, que não cumpria ordens de leigos. A pandemia era uma “gripezinha”, que em dezembro estava no “finalzinho”, pois a segunda onda era uma “conversinha”.

O capitão ainda tem quase dois anos de mandato, e sua capacidade de produzir crises desnecessárias é infinita. Como disse o senador Tasso Jereissati, será preciso “trincar os dentes” para atravessá-los. O “Fora Bolsonaro” exige um apenso: “Para quê?”.

Pelo andar da carruagem, essa pergunta precisa entrar na agenda. Ela poderá ser respondida no ano que vem.

 

Artigos publicados hoje aqui e aqui em O Globo

 

Vacinação e combate à Covid aos olhos do MP no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (27), a convidada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é a promotora de Justiça Maristela Naurath, titular da 3ª Promotoria de Tutela Coletiva de Campos e responsável pelo Ministério Público Estadual pela fiscalização das ações de saúde na comarca. Ela analisará a política de combate à Covid em Campos do governo Rafael Diniz (Cidadania) ao Wladimir Garotinho (PSD), assim como a questão de oferta de leito aos doentes.

A promotora falará também das dificuldades alegadas pelo poder público municipal para montar novas equipes médicas aos novos leitos de UTI destinados à pandemia no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus em Campos (CCC). E dos critérios de vacinação adotados no município, bem como dos usados para se decretar e suspender o lockdown do comércio.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Covid e salários com presidente do Simec no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (26), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o médico Peterson Gonçalves Teixeira, presidente do Sindicato dos Médicos de Campos (Simec). Ele falará sobre o pagamento dos salários atrasados de dezembro aos servidores, incluindo médicos e profissionais, anunciado (confira aqui) para esta quarta (27), mas ainda sem previsão para o 13º.

Peterson também falará sobre o fato da Saúde Pública de Campos ter 980 médicos concursados na ativa, segundo levantamento revelado ao Folha no Ar (confira aqui) pelo vice-prefeito Frederico Paes (MDB), mas ainda assim ter dificuldades para montar equipes aos novos leitos de UTI para doentes de Covid (confira aqui) no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC). E analisará o combate à pandemia em Campos, os questionamentos aos critérios adotados à fase inicial de vacinação (confira aqui) e os primeiros dias do governo Wladimir Garotinho (PSD).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Esquerda e direita saem às ruas pelo impeachment de Bolsonaro

 

Protesto pelo impeachment de Bolsonaro promovido no sábado pela esquerda em várias cidades do país, como o Rio de Janeiro (Foto: Ricardo Moraes – Reuters)

 

Respeitando as regras de distanciamento por conta da pandemia da Covid, este final de semana marcou a volta da população brasileira às ruas para pedir o impeachment de um presidente, como aconteceu em 1992 e 2016. Ontem (23) foi o dia de militantes de esquerda saírem em carreata em várias cidades do Brasil para pedirem a saída do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) do poder. Hoje foi a vez de movimentos de direita, como MBL e Vem Pra Rua, também pedirem o impeachment de Bolsonaro e a saída do general Eduardo Pazuello no ministério da Saúde, em carreata organizada nas ruas de São Paulo.

Ainda não é algo que pareça ameaçar a permanência de Bolsonaro no cargo ao qual foi eleito em 2018. Mas, diferente do que ocorreu com os ex-presidentes também eleitos Fernando Collor de Mello (hoje, Pros), em 1992, e Dilma Rousseff (PT), em 2016, a pandemia em 2021 não permite adesão em massa. Ademais, Collor e Dilma só caíram quando a aprovação popular aos seus governos ficou abaixo dos 10%. Mesmo em queda, por sua desastrosa condução do combate à Covid, Bolsonaro ainda tem 31% de bom ou ótimo, segundo a pesquisa Datafolha (confira aqui) feita na quarta (20) e quinta (21), e divulgada na sexta (22).

Todavia, como a Datafolha também mostrou que Bolsonaro tem seu governo hoje reprovado por 40% da população, 9 pontos a mais que a sua aprovação, cautela, canja de galinha e senso de ridículo não fariam mal ao capitão. Mesmo que a pesquisa tenha mostrado uma maioria de 53% dos brasileiros hoje contrária ao seu impeachment, também revelou uma substancial minoria de 42% que o querem fora do Palácio do Planalto antes de 2022. E que se manifesta neste sentido tanto com a cor vermelha das esquerdas, quanto no verde e amarelo da direita que levaram o presidente ao poder.

 

Protesto da direita contra Bolsonaro, convocado pelos movimentos MBL e Vem Pra Rua, neste domingo nas ruas de São Paulo (Foto: Fábio Vieira – Metrópoles)

 

Em Macaé, uma carreata pelo impeachment de Bolsonaro também foi promovida na tarde de ontem, como em outras cidades do país. Mas não em Campos dos Goytacazes. Confira abaixo a convocação para a manifestação, veiculado nas redes sociais macaenses, e o vídeo da sua realização na cidade vizinha:

 

 

 

Covid, comércio e crise com presidente da Acic no Folha no Ar desta 2ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta segunda (25), quem abre a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o empresário Leonardo Castro de Abreu, presidente da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic). Ele falará sobre a decisão do poder público municipal de fechar o comércio (confira aqui) para tentar conter o crescimento da Covid-19 em Campos, sobre a reação contrária dos comerciantes (confira aqui) que pressionou pela reabertura do setor (confira aqui) anunciado para esta segunda.

O presidente da Acic também falará sobre as consequências econômicas da pandemia para o setor produtivo. E analisará a crise financeira de Campos (confira a série da Folha sobre o tema, em 11 painéis publicados entre junho e setembro de 2020, aquiaquiaquiaquiaqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui) e os primeiros dias do governo Wladimir Garotinho (PSD).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Datafolha: Bolsonaro sangra na popularidade e cresce na rejeição

 

(Foto:Marcos Corrêa – Presidência da República)

 

A “gripezinha” fez a popularidade de Jair Bolsonaro (sem partido) espirrar. Segundo a Datafolha feita na quarta (20) e na quinta (21), e divulgada na sexta (22), em meio ao agravamento da crise da Covid-19 no país, que contabiliza 215.249 mortos pela doença, o presidente brasileiro perdeu aprovação: caiu dos 37% da última pesquisa do instituto, para os atuais 31% de bom e ótimo. E cresceu ainda mais sua rejeição, passando de 32% para os atuais 40%. que julgam seu governo ruim ou péssimo.

É uma sangria consistente na popularidade do capitão. Com esses números, se as eleições presidenciais de 2022 fossem hoje, ele provelmente estaria no segundo turno, mas lá poderia ter dificuldades para conseguir outros quatro anos de mandato. Sobretudo se seu adversário final, desta vez, não vier do PT. Mas como as urnas ainda estão a um ano e nove meses de distância, qualquer aposta agora é mero exercício de futurologia.

Aos que pedem o impeachment, a pesquisa não mostra um quadro animador. Mantendo seus resilientes 30% de aprovação, Bolsonaro também se mantém 20 pontos percentuais distante da linha dos 10% ou menos de popularidade que abreviaram os mandatos presidenciais de Fernando Collor de Mello (hoje, Pros) e Dilma Rousseff (PT). Ademais, 53% da população são contra o impeachment, com a minoria relevante de 42% a favor.

O eleitor mais resiliente de Bolsonaro também fica bem definido pela Datafolha. Que fornece o retrato falado do tio do WhatsApp: homem de 49 a 55 anos, evangélico e empresário. Em queda livre no Norte, após a catástrofe da Covid em Manaus, Bolsonaro também volta à normalidade refratária a ele no Nordeste, após o fim do coronavaucher. E começa a sangrar também em seu antigo bastião do Centro-Oeste. Vai mal no populoso Sudeste e bem melhor no Sul.

 

Confira aqui a matéria da Folha de São Paulo sobre a nova pesquisa Datafolha.

 

Crônica — Covid, comércio, Eichmann e a copa das árvores

 

Covid, comércio, Eichmann e a copa das árvores

 

Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS na Alemanha Nazista e arquiteto da Solução Final, que na II Guerra matou 6 milhões de pessoas em câmaras de gás e queimou seus corpos em fornos

— É o mundo real, percebe? A Covid impôs a realidade ao mundo! — sentenciou Aníbal na varanda do seu apartamento à tarde, diante da tela do lap top aberto, antes de secar pela metade o copo em um gole longo de Original gelada. Combinou a cerveja real no encontro virtual com o amigo, por conta do novo fechamento dos bares e comércio de Campos, enquanto lá fora a copa das árvores balançava com o vento, tão invisível e real quanto o vírus.

— Está falando de quê? Da pandemia? De Campos e seu comércio, do Brasil de Bolsonaro, dos Estados Unidos de Trump a Biden? — indagou Luiz, estampado na tela do computador do amigo, lambendo do lábio superior o bigode de espuma deixado por sua tulipa de Heineken, na sala do próprio apartamento.

— Estou falando de tudo. Literalmente tudo. E estou só no primeiro copo de cerveja.

— Tudo é muita coisa. E falar de tudo é correr o risco de não falar de nada.

— Como diria Jack the Ripper, vamos por partes. Campos e seus comerciantes, por exemplo. Com o governo Wladimir, entraram o Chabell Kury e o Rodrigo Carneiro no lugar da Andreya Moreira, que comandou o combate à Covid no governo Rafael. A que saiu e os dois que entraram são três médicos infectologistas da mais alta qualidade. Com os quais Campos tem a sorte por ter formado e agora contar.

— E do outro lado tem comerciantes brigando para sobreviver.

— Perfeito. Embora quase todos abracem a neurose anticomunista de Bolsonaro e Trump, sem nunca terem lido Marx ou Górki, para se descobrirem pequeno-burgueses diante do espelho. E se legitimarem no conceito da luta de classes do primeiro. São os anticomunistas de WhatsApp. Como foram antes deles os marxistas de axila, aqueles que botavam o grosso “O Capital” embaixo do braço, mas nunca leram nem o fininho “O Manifesto do Partido Comunista”, para sair gritando palavras de ordem.

— Como diria Lula: “menas”, Aníbal. Não precisava nem puxar do fundo do baú o filósofo barbudo judeu alemão, ou o grande romanista russo. Com Russo no nome, é só lembrar do poeta do rock brasileiro dos anos 80. Não precisa nem gastar todos os nove minutos de “Faroeste Caboclo” para cantarolar ao comércio de Campos e promovê-los de tamanho: “E a alta burguesia da cidade/ Não acreditou na história que eles viram na TV”.

— Não dá para ser raso, Luiz. Renato não era. Tanto que o “Russo” que adotou foi em homenagem a Jean-Jacques Rosseau e Bertrand Russel. Do Planalto Central onde a Legião foi parida à planície goitacá, acho que o fechamento do Piccadilly foi um marco que assustou muito o comércio. Se um restaurante e bar com 30 anos de tradição fechou as portas físicas, o que podem esperar os demais comerciantes da cidade?

— O problema é que, em Campos, no Brasil e no mundo, todo o comércio está na banguela. Não é uma coisa só daqui. Nem as mortes da Covid, com gente caindo como moscas em toda a parte para o vírus.

— Para ficar no nosso canavial, o problema é que a rede de saúde de Campos já está colapsando pela Covid. Desde terça e quinta da semana passada, onde as vagas de UTI chegaram aos 100% de ocupação. E desta vez, diferente do que foi no lockdown parcial de Rafael entre maio e junho, o problema maior agora está na rede privada. Que atende quem tem plano de saúde, como os comerciantes. Quando um deles precisar e não conseguir vaga para internação em UTI, e não precisa nem ser para Covid, mas tiver que mendigar na rede pública um leito para sofrer menos e tentar sair vivo, aí talvez a ficha caia.

 

Paciente com Covid sendo entubado nessa sexta (22) no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus de Campos (CCC)

 

— Ou talvez não caia nunca. Sem nenhuma empatia pelo sofrimento do semelhante, provavelmente sociopatas, Trump e Bolsonaro abriram a caixa de Pandora. Depois deles, as pessoas que sempre esconderam seu pior lado, não só perderam a vergonha de mostrá-lo. Agora elas têm orgulho. Literalmente, não usam máscara.

 

Jair Bolsonaro e Donald Trump (Foto: Alan Santos – PR)

 

— Sim, é o orgulho de ser filho da puta. O que não sei é se essas pessoas ficaram assim por conta de Bolsonaro e Trump, ou se sempre foram e só escondiam bem. Essa distorção cognitiva coletiva aparece na humanidade de tempos em tempos. É o conceito que a Hannah Arendt, judia alemã como Marx, chamou de “banalidade do mal”. Ela escreveu após assistir em Jerusalém ao julgamento de Adolf Eichmann, arquiteto da Solução Final para os judeus e outros “inimigos” da Alemanha Nazista, que exterminou 6 milhões deles em câmaras de gás e queimou seus corpos em fornos durante a II Guerra Mundial.

— E por conta disso o Mossad foi catar o Eichmann em Buenos Aires, em 1961, 16 anos após o suicídio de Hitler e a rendição da Alemanha. “Anjo da Morte” do campo de concentração de Auschwitz, o Josef Mengele nunca conseguiram pegar. Acabaria morrendo afogado no Brasil, nadando na praia paulista de Bertioga, só em 1979.

— Exato. Mas Mengele não foi exposto aos olhos do mundo como Eichmann. Que chocou ao ser revelado como homem de cinquenta e tantos anos, careca, com óculos e aspecto insignificante. Impressionou o tal mundo real por não ter pés de cabra, rabo pontudo, cornos de carneiro montês na testa, língua bifurcada de serpente ou tridente na mão.

 

Adolf Eichmann em 1961, após ser sequestrado pelo Mossad em Buenos Aires para ser julgado em Jerusalém e condenado à morte por enforcamento

 

— Verdade. Parecia só mais um sujeitinho medíocre, absolutamente normal, sem nada que chamasse a atenção. Como qualquer tio do WhatsApp de hoje — disse Luiz, enquanto um calafrio lhe subia pela espinha, na direção inversa à do outro gole da sua Heineken gelada.

— Como é que a Arendt definiu mesmo em seu “Eichmann em Jerusalém”? Peraí… — pediu Aníbal, até encontrar no pai dos burros do São Google e ler ao amigo de volta à tela do seu lap top: “Os membros fanatizados são intangíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parecem ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte”.

— E o que dizer desses canalhas que fizeram campanha contra a “vacina chinesa” contra a “doença chinesa”, ecoando Bolsonaro, mas furaram a fila dos idosos e dos profissionais da saúde da linha de frente, na primeira etapa da vacinação com a CoronaVac?

— É dizer que o Rosseau de Renato Russo, Marx e o Cristo podem estar errados. Que o homem não é bom por natureza. E que ser filho da puta talvez seja a sua essência.

— Então Biden e seu discurso de união e valores humanos, na direção contrária, vão dar com os burros n’água?

— Espero sinceramente que não. Mas é como disse o ex-presidente conservador George W. Bush, que prestigiou a posse de Biden: “O futuro é algo que veremos amanhã” — citou Aníbal sem recorrer ao Google, matando a Original do copo antes de enchê-lo novamente, atento ao barulho do vento sobre as folhas na copa das árvores.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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