Os melhores

Em meu primeiro texto no blog Folha na Copa (aqui), no último dia 24, não por acaso intitulada “Apresentação”, comecei dizendo: “Em filme, música, literatura, listas dos melhores não são exatamente uma novidade. Tampouco nos esportes, de modo geral. Seja em relação aos autores ou suas obras, todos têm suas opiniões para dar, do mais embasado crítico ao entusiasta casual e linear. Só podem ser consideradas besteira quando têm pretensão de verdade absoluta. Noves fora o óbvio, é também uma maneira de se listar, na mão oposta, os predicados mais relevantes à vista de quem opina, do seu tempo, sua gente, sua índole e seus conceitos — além, é claro, do seu conhecimento”.

Acerca da Copa que se inicia amanhã, na África do Sul, disse também que nossas únicas certezas poderiam ser extraídas daquilo que vimos nas Copas anteriores, bem como entre elas, período que costuma se alongar como hiato para muito entusiasta cometa, daquele que só surge de quatro em quatro anos, numa expressão mais de nacionalidade do que amor ao futebol. Da minha parte, disse naquele primeiro texto e repito agora: “Acompanho futebol desde 1980 e Copas do Mundo desde a de 82”.

É dentro, pois, deste período de observação de três décadas, duas delas atuando profissinalmente na cobertura jornalística de Copas, que agora passo ao prazeroso exercício de listar minhas preferências, posição a posição, daquilo que vi entre as quatro linhas de um gramado de futebol. No lugar dos 11 que se enfrentam de lado a lado, as listagens se farão sobre 10 nomes em cada função executada pelos jogadores em campo.

“O meio campo é o lugar dos craques / Que vão levando o time todo pro ataque”. Ecoemos os versos do Skank como nosso apito inicial…

Dos 10 meias listados acima, só um deles jogará na África do Sul: o argentino Lionel Messi. Atrás apenas dos três maiores jogadores do futebol mundial no período analisado, num quarto lugar bastante promissor para quem ainda tem 23 anos incompletos, o menino-prodígio do Barcelona é cobrado nesta Copa em relação a um dilema que perpassará não só a listagem que ele integra, mas todas as demais: Por que não joga na seleção o mesmo que joga no clube? Será que este paradoxo será finalmente equilibrado nesta Copa, como desejam os argentinos?Na dúvida, não custa lembrar: mesmo que a resposta permaneça negativa em 2010, Messi deve ter ainda outras duas, quem sabe três Copas ainda pela frente…

Embora tenha jogado duas e se sagrado campeão numa delas (em 2002, no Penta do Brasil), o outro jogador ainda em atividade da lista não estará presente na África, perene vítima do mesmo dilema clube/seleção: Ronaldinho Gaúcho, que deve sua inclusão, na sexta posição, justamente pela fase esfuziante que viveu, em seus tempos de Barça, como companheiro de Messi. 

Segundo colocado na lista, Zico é o maior ídolo do time da maior torcida do mundo, na qual modestamente me incluo na condição de seu súdito, antes mesmo de (ou talvez por isso) rubro-negro. Ao contrário do que pregam seus pretensos críticos, ele jogou bem, sim, na Seleção Brasileira, sendo seu terceiro maior artilheiro, com 66 gols em 89 partidas, ficando atrás apenas de Pelé, de quem foi considerado sucessor, além daquele que o sucedeu como grande jogador brasileiro: Romário. Deste, seu assumi-do desafeto, partiu a consideração mais isenta para avaliar a dimensão exata do Galinho: “Em clube, foi o maior jogador que já vi”. E não creio que nenhum italiano da região de Friuli, torcedor do Udinese, diga diferente. Se Zico não ganhou Copa nas que disputou em 78, 82 e 86, como bem definiu o cronista Fernando Calazans: “Azar o da Copa!”

Em outros casos, contudo, não há como desconsiderar as Copas. Muito pelo contrário, foi justamente pelo que fizeram nelas que Diego Maradona e Zinedine Zidane são, por ordem, o primeiro e terceiro colocados da lista. Por mais que tenham brilhado em clubes, o argentino no Napoli e o francês na Juventus e Real Madrid, ambos se consagraram como gênios na história do futebol mundial ao conduzirem suas seleções, respectivamente, às conquistas das Copas de 86 e de 98 — além dos vice-campeonatos seguintes de 90 e 2006. Maradona, em 86, nas quartas-de-final contra a Inglaterra, e Zidane, na mesma fase, mas contra o Brasil e 20 anos depois, deram as maiores exibições individuais já registradas entre as sete últimas Copas.  

Com traços de índio, o produto da periferia pobre de Buenos Aires concentrou na canhota uma habilidade que ninguém em seu tempo, ou depois dele, foi capaz de igualar com as duas pernas. Já o filho de imigrantes argelinos, nascido e criado na zona portuária de Marselha, foi o jogador mais cerebral que já vi, capaz como nenhum outro de ler o jogo e reescrevê-lo com uma classe também sem pararelo nestas três últimas décadas. No Olimpo do futebol, onde Maradona encarnou Dionísio, Zidane foi Apolo. Se Zico está entre ambos, é porque sua bola de meia das ruas de Quintino sempre se equilibrou, sem padecer de vertigem, entre o improviso milongueiro de um gênio e o descortino blasé do outro.

Michel Platini nunca foi tudo que os europeus achavam, talvez por carência de um filho do Velho Mundo capaz de se equiparar, nos anos 80, aos sul-americanos Maradona e Zico. Ainda que uma oitava abaixo destes, bem como do compatriota Zidane, seu toque refinado, aliando visão de jogo e faro de gol, conduziu a França às semi-finais das Copas de 82 e 86, além do Juventus à fase mais gloriosa talvez já vivida pelo clube de Turim.

Chamado de “Maradona dos Cárpatos”, o apelido de George Hagi se dava pela cordilheira de montanhas que corta sua Romênia natal, bem como pela cirúrgica precisão da sua perna canhota. Dentro do dilema ensejado na composição da lista, ele configura uma curiosa inversão: talvez tenha jogado mais na seleção do que em clubes. Vitorioso no romeno Steua Bucareste, no início de carreira, e no Galatasaray, na Turquia, onde se aposentou, Hagi, no entanto, não conheceu o mesmo sucesso no Real Madrid e Barcelona. Entre as passagens pelos dois gigantes espanhóis, foi o maior meia da Copa de 94, conduzindo a Romênia (da qual foi maestro também em 90 e 98) até o time cair nos pênaltis, nas quartas-de-final, diante da Suécia.

Junto com Zico, quem também está no melhor time de todos os tempos de Romário, é Michael Laudrup, ao lado de quem o Baixinho formou o grande Barcelona dos anos 90. Maior jogador da história da Dinamarca, surgiu para o mundo ainda com 22 anos, como destaque da seleção que se tornaria sensação na primeira fase da Copa de 86, quando ficou conhecida como “Dinamáquina”. Naquela mesma década, Laudrup brilharia na grande fase do Juventus, ao lado de Platini. Foi para o Barcelona e depois ao Real Madrid, igualando o sucesso como o controle da bola com as duas pernas, antes de encerrar a carreira no Ajax, da H0landa. Viking poeta, fez seu último jogo pela seleção dinamarquesa na Copa de 98. Em suas palavras: “Despedi-me com a braçadeira de capitão, numa quarta-de-final de Copa do Mundo, em jogo duro diante do Brasil. Como poderia ser melhor?”

Dejan Savicevic jogou as Copas de 90 e de 98, pela antiga Iugoslávia, com lampejos de seu gênio na primeira e prejudicado por contusão na última. Astro maior do Estrela Vermelha de Belgrado, foi comprado pelo Milan em 92, quando substituiu o ídolo holandês Rudd Gullit. Em 94, na decisão da Liga Européia, destruiu com sua canhota de exceção o favoritismo do Barcelona, humilhado com uma goleada de 4 a 0. O terceiro do Milan, de Savicevic, figura entre os mais belos gols da história do torneio, culminando a maior atuação individual que já vi em clubes. Como foi com ela que eclipsou completamente Romário, estrela do Barça, que apenas algumas semanas depois seria o maior nome da Copa de 94, no Tetra do Brasil, instiga a imaginação pensar no que o montenegrino poderia ter feito nos gramados dos EUA, caso a Fifa não tivesse excluído a Iugoslávia, punida pela sangrenta guerra civil após a dissolução do país. Neste caso, o dilema entre clube e seleção ficou por conta da estupidez humana…

Apelidado de “El Príncipe” por seus compatriotas, o que dizer de um jogador que levava a torcida argentina do River Plate a cantar a plenos pulmões  “U-ru-guayo!”, toda a vez que entrava em campo? Não bastasse, Enzo Francescoli foi o grande ídolo de Zinedine Zidane, que o assistiu conduzir o Olympique de Marselha ao título nacional francês, em 1990. Introvertido fora dos campos, Zizou não teve reservas ao batizar seu filho de Enzo, além de usar a camisa de Francescoli, trocada na final do Mundial Interclubes de 96, entre River e Inter de Milão, por baixo da camisa da França, na final da Copa de 98, em que marcaria dois dos três gols sofridos pelo Brasil. Vestindo ele próprio a camisa 10 da Celeste, Francescoli não teve a mesma sorte nas Copas do Mundo que disputou, em 86 e 90. Todavia, à nível continental, seu brilho individual se sobrepôs à decadência do futebol do Uruguai, vencendo três (83, 87 e 95) das quatro Copas América que disputou.

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Este post tem 2 comentários

  1. Cesar

    Seu coração de torcedor bateu mais forte aí né? Zidane é segundo nessa lista sobrando…

  2. Aluysio

    Caro Cesar,

    Como frisado no post, listas de melhores são podem ser consideradas bobagem quando têm a pretensão de verdade absoluta. Não é este o meu caso. Reconheço motivos para apontar Zidane não só como segundo, mas até como primeiro da lista. Ocorre que tenho outros, entre eles, possivelmente, o coração. De qualquer maneira, não custa lembrar que numa enquete recente, veiculada no Esporte Espetacular, sobre quem foi melhor entre Zico e Zidane, um dos votos recebidos pelo Galinho foi justamente o do eterno camisa 10 francês.

    Abraço e grato pela colaboração!

    Aluysio

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