Opiniões

Amantes no cinema (III)

1) “Houve uma vez um Verão”, 2) “A Filha de Ryan”, 3) “O Leitor”, 4) “Lavoura Arcaica”, 5) “Casablanca”, 6) “Closer”, 7) “Não Amarás”, 8) “Um Bonde Chamado Desejo”, 9) “O Céu que nos Protege” e 10) “O Paciente Inglês”. Nas semanas anteriores (aqui e aqui), estes foram os filmes de “romance” elencados como os melhores já produzidos. Já estaria de bom tamanho, não fosse o fato de que a lista deste crítico foi elaborada em diálogo com outra, composta por Aristides Soffiati na Folha, sob pseudônimo de Edgar Vianna de Andrade, onde ele enumerou aqueles que julga os 30 melhores do gênero. Não por outro motivo, para seguir nessa verdadeira maratona, passo a passo entre amor e cinema, vamos aos próximos filmes, não cinco como nos dois últimos posts, mas apenas dois desta vez…  

 

11) “A um Passo da Eternidade” (“From Here to Eternity”, de Fred Zinnemann, EUA, 1953, 118 min.) Às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbor, no Havaí, que lançou os EUA na II Guerra, a estória gira em torno de um soldado, um sargento e seus amores. Pugilista talentoso, o soldado Robert Lee Prewitt, o “Prew” (Montgomery Clift, indicado ao Oscar de melhor ator), chega ao pelotão comandado de fato pelo sargento Milton Warden (Burt Lancaster, igualmente indicado como ator principal), enquanto seu capitão Dana Holmes (Philip Ober) está mais ocupado com casos extraconjugais e o treinamento da equipe de boxe, cujos troféus exibe orgulhosamente em seu escritório.

Se Prew subir aos ringues pelo pelotão, terá vida fácil. Todavia, ele decidiu pendurar as luvas, após ter golpeado um colega num treino e causado sua cegueira.
Sem conseguir convencê-lo, o capitão passa a perseguir Prew. Seu único apoio é o amigo e também soldado Angelo Maggio (Frank Sinatra, Oscar como ator coadjuvante), que o apresenta à prostituta Alma Burke (Donna Reed, também Oscar de coadjuvante), por quem Prew se apaixona. Alma também por ele, embora viver esse amor signifique para ela retomar a vida simples da qual fugiu para buscar coisa melhor no Havaí.

Paralelamente, Warden se envolve com Karen Holmes (Débora Kerr, indicada como atriz principal), esposa do capitão, ausente em casa como em seu pelotão. Aqui, o dilema é masculino, pois para manter a amada, Warden teria que se tornar oficial, possibilidade que abomina. Sargento durão, mas correto, sua indiferença inicial à perseguição contra Prew acaba se transformando em admiração, dada a dignidade com que o soldado suporta os tratamentos mais cruéis. Seu melhor amigo vai sofrer ainda mais, após se envolver numa briga com o sádico sargento “Fatso” Judson (Ernest Bornigne, na caracterização que inspirou o Sargento Tainha dos quadrinhos do Recruta Zero), chefe da prisão militar na qual o impulsivo Maggio acaba indo parar.

Além dos atores coadjuvantes, o filme levou ainda os Oscar de longa e diretor (para o austríaco Fred Zinnemann), roteiro adaptado (Daniel Taradash, sobre romance de James Jones), fotografia em preto e branco (Burnett Guffey), edição (William A. Lyon) e som (George Duning e Morris Stoloff). Segundo a lenda, após uma depressão pela separação da belíssima atriz Ava Gardner, da qual emergiu novamente ao estrelato na pele de Maggio, Frank Sinatra teria conseguido o papel por pressão da máfia, hipótese endossada no filme “O Poderoso Chefão” (de Francis Ford Coppola, 1972).

Na dúvida, a certeza do clássico de Zinnemann se resume no beijo mais famoso da história do cinema, entre Débora Keer e Burt Lancaster, com seus corpos entrelaçados na areia e banhados pelas ondas do Havaí.

 

12) “A Última Sessão de Cinema” (“The Last Picture Show”, de Peter Bogdanovich, EUA, 1971, 118 min.) Na cidadezinha de Anarene, no Texas de 1951, os jovens Sonny Crawford (Sam Bottoms) e Duane Jackson (Jeff Bridges, indicado ao Oscar de coadjuvante, assim como disputa neste 2011, como protagonista, pela refilmagem dos irmãos Cohen de “Bravura Indômita”) gastam o tempo entre os únicos salão de bilhar, cafeteria e cinema do local. Este último, frequentam menos pelos filmes, do que pela chance dos amassos com as namoradas, respectivamente Charlene Duggs (Sharon Ulrick) e Jacy Farrow (a bela Cybill Shepherd, que depois ficaria mais famosa pela série televisiva “A Gata e o Rato”). Cinema, cafeteria e bilhar pertencem ao ex-vaqueiro Sam, o “Leão” (Ben Johnson, merecido vencedor do Oscar de coadjuvante), típica referência texana da cidade, tanto pela solidez dos seus valores morais, quanto por sua inconteste virilidade.

Num tempo em que a virgindade das mulheres ainda era précondição ao casamento, o “jogo duro” de Charlene e Jacy beira aos limites hormonais de Sonny e Duane. O primeiro casal de desfaz por conta disso, enquanto Jacy, moça mais bonita e rica da cidade, acaba mudando de idéia, depois de dar um “quiabo” em Duane e ir a uma festa com o bobão Lester Marlow (Randy Quaid), na casa do descolado Bobby Sheen (Gary Brockette), onde todos tomam banho de piscina nus.

Também rico e bem apessoado, Bobby se interessa por Jacy, mas impõe a ela perder a virgindade antes. Assim, Duane passa a ser visto pela própria namorada como mero “rufião” (cavalo que excita a égua para a cobertura do garanhão). Mas, pressionado pelo repentino desejo de Jacy, ele não consegue consumar o ato.

Paralelamente, após desmanchar seu namoro, Sonny passou a se envolver com a Sra. Ruth (Cloris Leachman, outra vencedora com justiça do Oscar de coadjuvante), dona de casa de meia idade e esposa do treinador de basquete Popper (Bill Thurman). Com a inesperada morte de Sam, da qual fica sabendo após voltar de uma farra no México com Duane, Sonny recebe como herança “paterna” o salão de bilhar.

Cedendo às pressões da mãe, Lois Farrow (Ellen Burstyn, também indicada a coadjuvante), que não via em Duane um partido “à altura” da filha, além de decepcionada com o “fracasso” do namorado, Jacy passa a se insinuar para Sonny. Ele sempre teve atração por ela, mas nunca tentou nada por respeito ao amigo.

Duane, que havia se mudado para outra cidade, em busca de emprego, volta a Anarene, para tomar satisfações com o amigo, por conta da namorada. Após levar a pior na briga, Sonny foge com Jacy, planejando se casar. Eles acabam interceptados pela polícia, a mando do pai da “noiva”, Gene Farrow (Robert Glenn), dono de uma petrolífera e com quem Lois só havia se casado por dinheiro.

Apesar do caso que mantinha abertamente com Abilene (Clu Gulager), empregado do marido, Lois depois confessa a Sonny que a grande paixão da sua vida sempre fora Sam, o Leão. Quem volta pela última vez à cidade é Duane, para fazer as pazes com Sonny, antes de seguir à Guerra da Coréia (1950/53). Na despedida, os dois amigos assistem juntos à última sessão de cinema, que vai fechar as portas.

Sem Charlene, Sam, Jacy e Duane, Sonny ainda perde o amigo Joe Bob Blanton (Barc Doyle), deficiente mental que o seguia como uma sombra, morto num atropelamento. Consumido pela solidão, ele vai bater na porta da Sra. Ruth, a quem havia abandonado, sem nenhuma satisfação, desde que começara a se envolver com Jacy.

Após a recepção dura, onde joga todas as verdades na cara de Sonny e tenta expulsá-lo, ela cede e corresponde ao abraço do jovem amante, como um náufrago à única bóia restante que ambos representavam ao outro. Afinal, não há espaços para orgulhos ou amores idealizados nesse sensibilíssimo trabalho sobre o desencanto, que ganha força na contraposição histórica, ao retratar um período de otimismo triunfalista dos EUA, após sair como grande vencedor da II Guerra Mundial, ao lado da antiga União Soviética.

Brilhante trabalho de direção (outra indicação ao Oscar) do estadunidense Peter Bogdanovich, que foi crítico e historiador de cinema, antes de começar a filmar por conta própria. Ele também assinou o roteiro adaptado (outra indicação), junto com Lary McMurthy, autor do livro original.

A aridez das expectativas das personagens é endossada tanto pela ausência de trilha sonora — exceção à música que eventualmente toca num rádio em cena —, quanto pela secura das paisagens amplas do Texas, fotografadas por Robert L. Surtees (também indicado e falecido em 1985) num retrato em branco e preto que maltrata todos os corações que pulsam na tela, mas reserva um indelével frescor ao peito de quem assiste.

 

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