Opiniões

Amantes no cinema (IV)

1) “Houve uma vez um Verão”, 2) “A Filha de Ryan”, 3) “O Leitor”, 4) “Lavoura Arcaica”, 5) “Casablanca” (aqui), 6) “Closer”, 7) “Não Amarás”, 8) “Um Bonde Chamado Desejo”, 9) “O Céu que nos Protege” (aqui), 10) “A um Passo da Eternidade” e 11) “A Última Sessão de Cinema” (aqui). Nas três semanas anteriores, estes foram os melhores filmes de “romance” já produzidos, em lista e análise geradas num diálogo com a seleção de 30 títulos, feita antes por Aristides Soffiati, sob pseudônimo de Edgar Vianna de Andrade. Esta semana, para não dar sopa ao azar, o acréscimo será apenas do 13º filme, que também integra a lista de Soffiati…

  

13) “O Novo Mundo” (“The New World”, de Terrence Malick, EUA, 2005, 150 min.) Como escreveu esse roteiro ainda nos anos 70, ninguém pode acusar o cultuado (e misterioso) diretor Terrence Malick de pegar carona no sucesso de “Pocahontas” (de Mike Gabriel e Eric Goldberg, 1995), longa de animação da Disney, Oscar de melhor canção original e de trilha sonora. Assim como o desenho, o filme se baseia na estória de amor entre o capitão inglês John Smith e a princesa índia Matoaka (cujo apelido de infância era Pocahontas), filha de Powhantan, chefe da tribo dos algonquins.

Embora tenham realmente se conhecido, no início do séc XVII, nos primórdios da colonização inglesa do que hoje são os EUA, não há provas de que as personagens históricas tenham chegado a se envolver amorosamente. Esse caráter da relação pertence ao folclore gerado do choque entre as duas civilizações, algo como uma versão norte-americana do nosso Caramuru — o português Diogo Álvares Correia que, no séc. XVI, viveu entre os tupinambás e desposou Paraguaçu, princesa daquele povo.

De Pocahontas, o que se pode afirmar historicamente é que se casou com outro inglês, o colono John Rolfe, sendo batizada com o nome cristão de Rebecca. O filme bebe tanto da lenda, quanto do fato, num triângulo amoroso no qual o grande protagonista não é a índia ou os dois ingleses (o suposto amante e o comprovado marido), mas a exuberante natureza de uma América ainda virgem, que Mallick retrata em planos contemplativos, encarnando em poesia de imagens o roteiro que escreveu após ler os diários das viagens e aventuras do verdadeiro John Smith.

Interpretado pelo irlandês Colin Farrell, o Smith da ficção surge aprisionado num dos três navios, com mais 102 colonos, que chegam em 1607 às costas do que hoje é o estado da Virgínia, para fundar Jamestown, assentamento permanente mais antigo dos ingleses nas Américas. Necessitando de todos os braços possíveis para erguer a nova colônia, o comandante da expedição, Christopher Newport  (o veterano Christopher Plummer), decide perdoar Smith, cuja experiência militar é aproveitada na missão de reconhecimento da região. Ele acaba caindo prisioneiro dos algonquins, que decidem matá-lo. Todavia, no momento da execução, Pocahontas (a estreante Q’Orianka Kilcher) se atira sobre ele, salvando-lhe a vida.

Ela, então, passa a introduzir Smith em sua língua e seus costumes. É naquele mundo idílico, ainda em comunhão com a natureza, que o romance entre os dois aflora. Como o chefe Powhatan (August Schllenberg), pai de Pocahontas, não vê a relação com bons olhos, Smith acaba devolvido a Jamestown, onde os ingleses, passando fome, são salvos pelo cultivo do milho e as técnicas agrícolas ensinados pelos algonquins.

A gratidão européia dura pouco, quando os hábitos dos índios, sem a cultura da propriedade ou o conhecimento da metalurgia, passa a se refletir no empréstimo sem consentimento das ferramentas de metal, com o Atlântico a separar os colonos da possibilidade de reposição. As tensões explodem num inevitável conflito armado, com Pocahontas avisando a Smith do ataque planejado por sua tribo.

Como punição pela traição do seu povo, o chefe Powhatan exila a filha numa aldeia do norte, mas ela acaba voltando a Jamestown, trocada por objetos de cobre. Temendo outro ataque e com os navios tendo regressado à Inglaterra em busca de suprimentos e mais colonos, os que ficaram querem fazer a princesa como refém, ao que Smith se opõe, mas acaba vencido pela força da maioria. Os dois são presos e separados, até que o regresso do comandante Newport restabeleça o reconhecimento da colônia aos serviços prestados pelo casal.

A retomada de contato com os planos de exploração da Inglaterra, reacende o espírito aventureiro de Smith com a chance de uma nova expedição. Após partir, ele faz um colono dizer a Pocahontas que teria morrido. Enlutada e respeitada para evitar novos ataques índios, ela adere aos costumes europeus. É já como Rebecca que conhece o colono John Rolfe (Christian Bale, barbada de depois de amanhã, na noite do Oscar, ao prêmio de ator coadjuvante, por sua atuação em “O Vencedor”, de David O. Russell), com quem se casa, vai morar numa fazenda de tabaco e tem um filho.

A nova família vai a Londres, onde a estória da princesa Pocahontas havia se tornado muito popular, conferindo a Rebecca o tratamento de celebridade, sendo inclusive recebida pelo rei James I em sua corte. Por intermédio do próprio Rolfe, ela fica sabendo que Smith não só estava vivo, como também se achava na Inglaterra. Os dois se encontram, mas ela prefere continuar com o marido. Às vésperas do retorno à Virgínia, ela adoece e morre, com apenas 23 anos, deixando o filho aos cuidados do pai.

Além da beleza plástica, realçada pela bela fotografia de Emmanuel Lubezki (indicado ao Oscar), o filme impressiona pelo rigor histórico. O forte de Jamestown foi construído nos mesmos 30 dias em que foi erguido o original, e com as mesmas ferramentas do início do séc. XVII, assim como as armas de fogo daquele período, incluindo artilharia, que os atores foram obrigados a aprender a usar. Também a língua falada pelos índios é o mesmo dialeto do extinto povo algonquin, que até 2005, era falado fluentemente por apenas 10 pessoas em todo mundo, quase todas usadas na preparação do elenco.

O ponto polêmico ficou por conta da idade de Q’Orianka Kilcher, com apenas 14 anos à época, escolhida entre mais de duas mil candidatas ao papel. Fruto do mesmo puritanismo no qual a colonização inglesa dos EUA foi fundamentada, sua atuação gerou denúncias de prostituição infantil. Por conta disso, as cenas de amor tiveram que sofrer cortes. A própria atriz admitiu que o beijo cenográfico em Colin Farrell foi o primeiro que deu em sua vida.    

Assim como outro grande diretor da sua (brilhante) geração, Martin Scorsese, que tem toda sua filmografia baseada na tradição católica da queda e redenção, o cinema de Terrence Malick tende a girar em torno do tema bíblico da expulsão do homem do Jardim do Éden. Foi assim em seu longa anterior, “Além da Linha Vermelha” (1998) — na opinião deste crítico, o melhor filme de guerra já feito —, e continuou sendo sete anos depois, nesse épico histórico, com o mesmo recurso das narrações em off para revelar o que vai dentro de cada personagem.

A diferença é que no filme mais recente, abandonado o impulso, o instinto, a vertigem da aventura que tanto nos aproxima da natureza, o mundo após o pecado original, embora ainda manchado pelo sangue de um irmão derramado por outro, também pode ser montado sobre o altruísmo, a lealdade e o perdão, valores mais do amor que da paixão.

 

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