Opiniões

Democracia que se planta, dá

Presente desde sua primeira edição, em 8 janeiro de 1978, a página de Opinião da Folha sofreu mudanças nas últimas semanas, com a inclusão dos nomes de Betinho Dauaire (nas edições de segunda-feira), Carla Machado e Silvério Freitas (ambos às quartas), além de Odete Rocha e Roberto Henriques (às quintas, a primeira semanalmente, o segundo de 15 em 15 dias). Levado em consideração o antagonismo explícito entre o ex e atual prefeita sanjoanense, a continuidade do espaço à expressão da opinião do reitor da Uenf (cargo no qual Silvério substituiu Almy Júnior), e que a professora Odete e o deputado Henriques são franco opositores do governo de Rosinha, que também estreou há um mês e meio, escrevendo sempre aos sábados, chega-se à conclusão do quão democrático é esse espaço que se pretende herdeiro do conceito da ágora grega, a partir do qual a própria democracia foi inventada.

Prova desta livre convivência entre contrários, será a página de Opinião da Folha de amanhã, onde o presidente do PSDB, da seção regional da Firjan e do sindicato dos usineiros, Geraldo Coutinho, e a vereadora petista Odisséia Carvalho, externam visões bem diversas sobre o setor sucroalcooleiro e a polêmica das queimadas de cana. Quem quiser conferir desde já, basta dar uma olhada abaixo…

 

 

 

 

 

 

Odisséia Carvalho
Odisséia Carvalho

Terra para quem nela trabalha

 

 

 

 

Por Odisséia Carvalho

Em nosso município a luta pela terra está intimamente ligada ao arcaico modelo de exploração agrícola no cultivo da cana-de-açúcar. Não por acaso a primeira ocupação do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) na região aconteceu na propriedade de uma usina.

Em 1997, centenas de trabalhadores ocuparam o complexo de fazendas da falida Usina São João, que acumulava dívidas trabalhistas. A reação do setor canavieiro foi imediata, tentando criminalizar o movimento dos trabalhadores.

Depois de muita pressão junto ao Incra, as terras foram desapropriadas, ainda que muitos problemas ficassem por resolver como o financiamento agrícola e a infraestrutura básica do assentamento.

O assentamento Zumbi é um marco da luta pela terra em Campos e mesmo enfrentando muitas dificuldades é notável a melhoria nas condições sócio-econômicas dos assentados em relação à condição anterior de “bóias-frias”. A partir dessa ocupação muitas outras aconteceram na região, não só em Campos, mas também em municípios vizinhos.

No último dia 28 de junho trabalhadores do acampamento 17 de Abril, próximo a Guandu, foram surpreendidos com uma ordem judicial de desocupação expedida no dia 27 de maio, mas da qual só tomaram conhecimento com a chegada da polícia para a realização de reintegração de posse pedida pela Usina Açucareira Barcelos. Um dia antes, usineiros se manifestavam em praça pública em defesa da lei da queimada, alegando entre outras coisas, que queriam garantir o emprego de “milhares de trabalhadores”.

Os trabalhadores das lavouras de cana da região são submetidos a condições de trabalho insalubres, jornadas extenuantes e várias vezes o Ministério do Trabalho fez blitzen na região que constataram a existência de trabalho escravo. Em uma dessas operações foram resgatados quase 100 trabalhadores durante a ação conjunta do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro, Superintendência Regional do Trabalho e Polícia Rodoviária Federal em fazendas de cana-de-açúcar.

A questão fundiária é central para os trabalhadores rurais da região, ao contrário do que os patrões querem fazer crer, o rompimento com o modelo de produção de açúcar e álcool não trará o caos e o desemprego. Mais da metade desses trabalhadores são clandestinos e só trabalham durante seis meses por anos nas lavouras canavieiras.

Os pequenos produtores dos assentamentos, ainda que com apoio aquém do desejável por parte do governo conseguem sobreviver de maneira digna. A ação do Incra na região precisa ser efetiva para que trabalhadores como o do Acampamento 17 de Abril possam ter seus direitos garantidos e não vejam de uma hora para outra suas lavouras destruídas e a escola derrubada por tratores.

 

 

 

 

 

 

Geraldo Coutinho
Geraldo Coutinho

Acho que sei!!??

 

 

 

 

Por Geraldo Coutinho

Alguém já disse que o mundo seria diferente se as pessoas tivessem o cuidado de separar o que de fato conhecem daquilo que acham que sabem. É comum, e ninguém escapa disto, completarmos quadros ou concluirmos histórias tendo apenas informações parciais. É o trabalho que cabe à nossa imaginação, que soma os dados novos que nos chegam com aqueles armazenados em nossa memória, completando um raciocínio. Até aí não há nada demais, comumente é visto até como sinal de inteligência. O problema, grave, é quando essas conclusões são postas em debate e não temos o discernimento de segregarmos a parcela que achávamos conhecer e tentamos impor argumentos construídos em hipóteses. Tem pessoas que exacerbam nesta prática e, no popular, costuma-se dizer que, embora recorrentemente equivocadas, erram com uma certeza que chega a impressionar e até a inibir os interlocutores.

Acontece que a prerrogativa de fazermos uso desse mecanismo de imaginação é inversamente proporcional ao grau de responsabilidade que a nossa função impõe. Se considerarmos que nossa missão envolve responsabilidade com avida de terceiros, eu diria que o direito de agirmos a partir de versões parciais ou conclusões solitárias deveria ser reduzido a zero. Ouvi dizer, li em algum lugar ou acho que é assim, são inícios de conversas que, via de regra, fazem de vítimas os fatos e a verdade. O único antídoto para este mal é o diálogo, e o desprendimento para enxergar razões na argumentação alheia.

Nestas últimas semanas algumas medidas foram tentadas contra o segmento canavieiro desta região. Tenho absoluta convicção que foram motivadas imaginando-se seguir uma direção certa. Também, de que os princípios da imparcialidade e os bons propósitos de gerar resultados em proveito da população estavam a nortear estas ações. Entretanto, lamentamos o fato de não se ter buscado conhecer melhor a realidade de fato estabelecida. De não terem sido ouvidos os trabalhadores, para saber de suas dificuldades, do esforço e dos riscos que é colher cana crua. De não ter sido dada voz aos produtores, para ouvir da impossibilidade de mudar, em curto prazo essa prática de colheita. De se ter ignorado os pareceres da Academia. De ter sido desprezado o senso comum que regra a matéria nos demais estados produtores, inclusive respaldada em dezenas de decisões dos tribunais do Brasil a fora e do próprio STJ. O equilíbrio é o princípio determinante da boa regra, e a gradualidade sua sustentação maior.

A atividade canavieira não gera o efeito poluidor que apregoam e muito menos causa dano à saúde pública, como insiste a imaginação de alguns. É até natural que algumas pessoas não tenham conhecimento amplo deste tema. Mas não consigo compreender a superficialidade com que é tratado por alguns na imprensa, em partido político e autoridades constituídas.

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Este post tem 7 comentários

  1. A vereadora Odisséia Carvalho se baseia em fatos em fatos concretos, dados científicos a partir de operações do Ministério do Trabalho, Polícia Federal. Já Geraldo Coutinho utiliza do senso comum, de achismos. Podemos provar determinada experiência, fato como o mais adequado, por achimos?

    Douglas Azeredo – Dirigente PCdoB-Campos

  2. Poderiam, também,abrir um espaço livre para textos dos leitores descomprometidos com qualquer tema.
    Naturalmente reservadas às manifestações respeitosas, coerentes e desprovidas de agressões.
    Passando tudo, por conseguinte, por um mediador que aprovaria ou não sua publicação.
    É uma sugestão, senhor Editor.

  3. E não precisaria, necessariamente, ser na publicação impressa.

  4. Caro “Profeta”, IP: 200.216.152.19, comentarista das 11h58,

    Nenhum dos blogs hospedados na Folha pode publicar comentários anônimos. De todos os inegáveis benefícios advindos da net, o anonimato é talvez a mais perigosa das suas contraindicações, posto exercer sobre quem nele se esconde o efeito da cachaça, no sentido de dar coragem a quem não tem. Liberdade, pelo menos no espaço virtual da Folha, tem que rimar, necessariamente, com responsabilidade.

    Abraço e grato pela colaboração!

    Aluysio

  5. Caro Joaquim,

    Penso que, sobretudo em blogs como este, que por vezes dão a alguns comentários a relevância maior de post, seu pedido já vem sendo atendido. De qualquer maneira, em relação a este “Opiniões”, sinta-se livre para escrever o que quiser, sempre que quiser, “naturalmente reservadas às manifestações respeitosas, coerentes e desprovidas de agressões”. A transposição de comentário a post, como ocorre com todos os demais comentaristas, reserva-se ao juízo do editor. O que posso prometer é ficar ainda mais atento a esta possibilidade de aproveitamento.

    Abraço e grato pela sugestão!

    Aluysio

  6. Obrigado, e vou me “atrever”.

  7. Caro Joaquim,

    Eu é que agradeço. E, dentro dos limites de responsabilidade muito bem pinçados por vc, que poderiam servir de exemplo a muitos blogueiros menos responsáveis, “atreva-se” à vontade…

    Abraço e grato pela colaboração!

    Aluysio

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