Opiniões

Opiniões de poesia — Homero

Antes de começar as atividades neste “Opiniões”, em parceria com o Zé Renato, minha estréia como blogueiro se deu no “Cantos” (aqui), destinado exclusivamente à publicação e discussão de poesia, em conjunto com o professor Adriano Moura e a antropóloga Fernanda Huguenin, ambos também poetas. Como o acúmulo de funções dos seus três autores acabou lançando aquele primeiro blog à inatividade, pecado capital em qualquer mídia interativa, optei por resgatar aqui alguns textos que publiquei lá, neste retorno presente à blogosfera. Até porque, quando da estréia do “Opiniões”, a cultura foi um dos temas anunciados para debate, mas sonegado no decorrer das suas atividades.

E, para iniciar esse transplante de textos do “Cantos” ao “Opiniões”, nada melhor que começarmos com o pai de todos os poetas…

 

Homem entre mulheres

Por aluysio, em 26-10-2009 – 15h23

Busto de Homero
Busto de Homero

Em qualquer língua, em qualquer canto da Terra, o que escrever sobre Homero que já não tenha sido dito?

Para falar dele, melhor falar da história da própria Grécia, cuja Civilização Micênica — assim chamada pelo poder centrado na cidade de Micenas — alcançou o apogeu com a Guerra de Tróia, entre 1.300 a 1.200 a.C., no fim da Idade do Bronze. Pouco depois, ou por invasões de povos dóricos vindos do norte, ou por um período de seca prolongada, ou por ambos os motivos, os gregos entraram num período de profunda decadência, com abandono de cidades, incêndio de palácios e, pior de todos os males, a perda da palavra escrita — o linear A e linear B legados aos micênicos pela Civilização Minóica, anterior e batizada com o nome de Minos, rei da cidade de Cnosso, que centralizava o poder grego na ilha de Creta. Essa “Idade das Trevas” se estendeu por meio milênio, até o séc. VIII a.C., quando ocorreu o fenômeno que o historiador francês Fernand Braudel definiu como “milagre grego”, gênese de tudo aquilo que se convencionou chamar de Civilização Ocidental: Nós!

Produto humano ou divino, o fato é que esse “milagre” foi operado na união de ambos os planos em duas epopéias, que fundaram não só a poesia, como a própria Literatura: a “Ilíada”, que narra os 10 anos da Guerra de Tróia (ou Ílio, daí Ilíada); e a “Odisséia”, que conta os 10 anos da penosa viagem de regresso de Odisseu (o Ulisses da tradução latina), da planície de Tróia à sua montanhosa ilha de Ítaca. Divididas cada uma em 24 cantos, as duas obras são atribuídas a Homero, poeta descrito pela tradição como cego e pobre, que teria adaptado a invenção fenícia do alfabeto fonético para transcrever dos sons aos signos aquilo que fora conservado 500 anos pela tradição oral dos rapsodos — misto de poetas e músicos que iam de cidade em cidade, tocando suas liras e cantando em rimas os feitos passados de suas gentes, a exemplo do que fariam, em tempos e lugares distintos, os trovadores, repentistas e rappers de depois.

Desde o período alexandrino — do domínio macedônio de Alexandre Magno até a transformação da Grécia em província romana — os estudiosos têm se debruçado sobre a chamada “questão homérica”:  Os dois poemas são de um mesmo autor? São realmente dois ou se subdividem em outros, compilados em épocas diferentes? Quem escreveu o quê? Quando? — questionamentos acrescidos, no séc. 19, de uma indagação nunca ousada pelos gregos: Homero realmente existiu?

Certo como a negação de Homero ter sido produto de um Romantismo que buscava creditar as grandes obras literárias menos aos autores do que aos povos que os produziram, é a impossibilidade de se extrair resposta definitiva acerca da existência histórica do pai de todos os poetas. Quem aceita Homero, guardadas as proporções devidas, o faz como aquele que, incapaz de encontrar comprovação fática de Deus, após refletir sobre essas mesmas dúvidas, prefere seguir sua vida crendo. Quem nega sua existência, geralmente o faz por não acreditar que tanto gênio possa ter habitado a mente de um único homem.

Como independente do seu gênio, o homem (ou os homens) sempre importa menos que sua obra, a opção pela análise aqui adotada, recairá sobre dois pontos. O primeiro, baseado nas distinções entre as personagens centrais dos poemas. 

Protagonista da “Ilíada”, Aquiles era o herói impossível, não só pela incomparável habilidade de guerreiro, como por sua busca de glória e conceitos de honra inalcançáveis aos seus semelhantes. Este, aliás, era o dilema: diante de Aquiles, não era possível se sentir semelhante. Ele era aquele tipo de homem que todos fingem admirar, mas na verdade invejam e até odeiam, pelo reflexo nítido e impiedoso que se contrapõe à toda mediocridade alheia.

Recentemente, uma adaptação da “Ilíada” foi levada às telas pelo cineasta alemão Wolfgang Petersen. Para saber a quem coube o papel de Aquiles em “Tróia” (“Troy”, EUA, 2004, 162 min.), não é nem preciso ter assistido ao filme. Sem necessidade de concordância, basta constatar que, em nossos dias, a beleza física e o sucesso financeiro são os valores que fazem um homem ser considerado superior a outros. Quem, então, se não Brad Pitt, considerado um dos atores mais belos e certamente um dos mais bem pagos de Hollywood? Qual celebridade maior neste mundo vazio de celebridades?

Independente dos valores de uma sociedade, Aquiles sempre será encarnado no mais alto pico que elas possam alcançar.

Mas quem também está no filme é Odisseu, corretamente relegado ao papel de coadjuvante que desempenha na “Ilíada”. Muito embora tenha sido dele a idéia do Cavalo de Tróia, do cinema à Literatura, isso só é revelado no Canto IV da “Odisséia”, quando Menelau e Helena já se encontram reinando novamente em Esparta e recebem em sua corte o jovem Telêmaco — filho de Odisseu e Penélope, que parte de Ítaca em busca do pai —, a quem contam como foi concluída a Guerra de Tróia, com a queda da cidade, e o destino das principais personagens. Tal epílogo narrativo é sonegado na “Ilíada”, que se encerra com os funerais de Heitor, príncipe de Tróia morto em combate por Aquiles.

De qualquer maneira, o fato do conflito ter se definido pela astúcia, não pelas inúmeras demonstrações de bravura de lado a lado, evidencia claramente a superioridade prática das virtudes do protagonista da “Odisséia” sobre aquelas que brilhavam na personalidade esfuziante que domina o primeiro poema. Diferente de Aquiles, Odisseu não foi à Tróia em busca de glória, mas de riqueza para sua casa. Ao ver o conflito se arrastar por 10 anos, separando-o idefinidamente da mulher e do filho, ele o definiu com um artifício talvez pouco honrado, mas eficaz, ocultando um punhado de guerreiros no “presente” aceito pela cidade sitiada.  Herói possível, o rei de Ítaca só queria voltar para casa.

Concluída a Guerra de Tróia, o retorno pelo dorso das ondas se complica diante da vingança jurada por Posido, deus dos mares. Seu filho, o ciclope Polifemo, fora cegado com uma lança por Odisseu, para que ele e seus homens pudessem fugir ao cativeiro do monstro antropófago. Seguindo o conselho da feiticeira Circe, o rei de Ítaca navega até o Hades — destino de todos os mortos na crença pagã dos gregos — para tentar achar o caminho de casa junto ao fantasma do adivinho tebano Tirésias.

No Hades, ao fazer o sacrifício para que os mortos pudessem beber do sangue e só assim enxergar os vivos, Odisseu não apenas consulta Tirésias, como percorre todos os mitos gregos depois explorados pelo teatro de Sófocles, Ésquilo e Eurípedes, além de reencontrar as almas dos companheiros mortos. Entre eles Agamenón — rei de Micenas, irmão de Menelau e comandante dos gregos em Tróia, morto pela mulher e o amante ao voltar para casa — e Aquiles, abatido pela flecha de Páris, irmão de Heitor e também príncipe troiano. 

Embora a vida de maior dos guerreiros tenha lhe conferido a posição de rei entre os mortos, o fantasma de Aquiles revela ao amigo que sua existência em busca de glória não valeu a pena:  “pois preferia viver empregado em trabalhos no campo / sob um senhor sem recursos, ou mesmo de parcos haveres, / a dominar deste modo nos mortos aqui consumidos”. 

Mas é com sua mãe, Anticléia, o encontro mais impressionante, posto que ele a  havia deixado viva e com saúde em Ítaca, e só a descobre morta ao divisar seu espectro vagando em busca de sangue no Hades. O diálogo que se segue entre o filho de vida sofrida e o fantasma da mãe, base do segundo ponto de análise, sempre foi a passagem que mais me marcou, desde a primeira leitura da obra de Homero. Ao tentar sintetizar esta, o trecho destacado não poderia obedecer a escolha pessoal diversa.

Confesso, no entanto, que só após as diversas releituras recentes do texto, para confeccionar este post, fui atentar à missão que um inconsolável Odisseu recebe de Anticléia:  relatar à esposa, Penélope, tudo que ouvira da mãe, quando finalmente regressase à Ítaca.

Em relação à “Ilíada”, não há novidade em situar o eixo da ação em Helena, rainha de Esparta raptada por Páris para Tróia, em resgate da qual partem todos os príncipes da Grécia. E aqui, na analogia com o segundo poema, no lugar das distinções entre os homens, o que há é comum nas mulheres que os moveram. O herói da maior obra literária já produzida (a “Odisséia”), quem diria, nada mais era do que um mensageiro, um menino de recado entre duas mulheres: sua mãe e sua esposa.

Tanto a Odisseu, quanto a Homero, admiro ainda mais por isso.

Ao fim e ao cabo, recorramos novamente a Braudel, outro dos tantos marcados por um encontro entre mãe e filho que nos define há três mil anos: “a Grécia antiga permanece viva, o homem grego testemunha uma humanidade de base que variou pouco ao longo dos tempos. E o pensamento voa até nós, reencarna-se obstinadamente como as almas que o sacrifício de Odisseu chamava à vida”…

 

 

“No mesmo ponto fiquei, até vir minha mãe para perto,

o negro sangue beber. Conheceu-me no mesmo momento,

e, com sentidos queixumes, me diz as palavras aladas:

‘Como vieste, meu filho, até às trevas espessas debaixo,

ainda com vida? É difícil aos vivos olhar estes quadros.

Há, de permeio, cachoeiras enormes e caminhos violentos,

a começar pelo Oceano, que nunca jamais ninguém pôde

a vau transpor, mas somente provido de nau bem construída.

Ora, depois de vagar muito tempo com teus companheiros,

vieste de Tróia até aqui? Às paragens ainda não foste

de Ítaca, nem te avistaste em teus passos com tua consorte?’

 Isso me disse; em resposta lhe torno as seguintes palavras:

“Foi, minha mãe, necessário descer até ao de Hades Palácio,

para consulta fazer ao Tebano adivinho Tirésias.

Ainda ao país dos Aqueus não fui ter, nem à pátria querida,

mas sem cessar hei vagado, sofrendo aflições incontáveis

desde o momento em que o Atrida preclaro segui como sócio

para guerrear os Troianos em Ílio, de belos cavalos.

Vamos! Agora me fala e responde conforme a verdade:

Como domou-te o destino, inflingindo-te Morte implacável?

Foi demorada doença? A ti veio, talvez, a frecheira

Ártemis, que te privaste da vida com dardos suaves?

Do pai me conta e do filho, que em casa, ao partir, me ficaram,

se as regalias do mando ambos eles desfrutam, ou se outrem

as usurpou, por julgar que não hei de rever o palácio?

O pensamento e a vontade, também, me revela da esposa,

se junto ao filho ainda se acha e conserva os haveres intactos,

se o mais insigne dos chefes Aqueus a tomou por consorte?’

Disse-me, então, minha mãe veneranda a essas minhas palavras:

 ‘O coração paciente, em verdade, tua esposa ainda se acha

onde a deixaste, em tua casa. Aflição permanente a consome

todas as noites e dias, sem nunca pôr termo ao seu pranto.

Ainda ninguém do comando real se apossou, mas Telêmaco

todos os bens te administra tranqüilo, e freqüenta os banquetes,

tal como cumpre a pessoa que sói distribuir a justiça.

É convidado por muitos. No campo teu pai ainda se acha,

sem baixar nunca à cidade. Jamais dorme em leito macio,

por não ter mantos em casa, nem cópia de bons cobertores.

Dorme, de inverno, na casa onde os servos encontram repouso,

na cinza, junto à lareira, com roupa andrajosa por cima.

Mas quando chega o verão e a estação luxuriante de frutos,

pelo monstruoso terreno em que tem sua vinha plantada

no chão a cama prepera, formada de folhas caídas.

Acabrunhado ali fica, sentindo a tristeza indizível

de tua ausência. Sobre ele carrega a velhice funesta.

Esse o motivo, também, de me ver pelo Fado colhida.

Não me matou no interior do palácio a frecheira veloce,

que, com seus dardos suaves, da vida, afinal, me privasse;

nem foi, tampouco, doença que sói produzir nos humanos

definhamento terrível, e a força dos membros apaga;

mas os cuidados, ilustre Odisseu, por tua casa, e a saudade,

como a ternura que a mim dedicavas, tiraram-me a vida.’

Profundamente abalado deixaram-me suas palavras;

e, desejoso de o espírito ao peito apertar com ternura,

arremeti por três vezes, levando-me ao peito a abraçá-la;

por outras tantas dos braços fugiu-me, qual sombra fugace,

ou mesmo sonho, deixando-me dor mais acerba no espírito.

Volto-me, então, e lhe digo as seguintes palavras aladas:

‘Mãe, por que evitas o abraço em que tanto desejo estreitar-se?

Não poderíamos nós, até mesmo aqui no Hades, os braços

entrelaçar e atenuar, desse modo, a tristeza indizível?

Ou porventura, Perséfone ilustre, um fantasma ilusório

somente a mim deixou vir, porque dores mais fundas sentisse?’

Disse-me, então, minha mãe veneranda a essas minhas palavras:

‘Pobre de mim, caro filho, dos homens o mais desgraçado!

Não, não te engana Perséfone, a filha de Zeus poderoso:

esse o destino fatal dos mortais, quando a vida se acaba,

pois os tendões de prender já deixaram as carnes e os ossos.

Tudo foi presa da força indomável das chamas ardentes

logo que o espírito vivo a ossatura deixou alvacenta.

A alma, depois de evolar-se, esvoaça qual sombra de sonho.

Mas cuida logo de à luz retornar; grava na alma isso tudo,

para que possas, depois do retorno, à tua esposa contá-lo.’”

 

Homero, em Odisséia, Canto XI, versos 152 a 224, tradução de Carlos Alberto Nunes, Ediouro, 5ª Edição (2001), págs. 194 a 196

 

Aluysio Abreu Barbosa ao lado do busto de Odisseu, na praça central da pequena aldeia de Stavrós, na ilha de Ítaca (foto de Ícaro Abreu Barbosa)
Aluysio Abreu Barbosa ao lado do busto de Odisseu, na praça central da pequena aldeia de Stavrós, na ilha de Ítaca (foto de Ícaro Abreu Barbosa)
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