Opiniões

Pais e filhos nos poemas de domingo

Neste domingo dia dos pais, seguem abaixo três poemas, os dois primeiros de autoria do blogueiro, respectivamente para o pai e o filho. O primeiro (“Dom Casmurro”), escrito por um filho adolescente; o segundo (“ícaro voador”), feito para um filho com exatos quatro meses de vida. 

Já o terceiro (“Cântico do Calvário”) serve como espírito santo na lavra do meu conterrâneo romântico Fagundes Varela (1841/1875), contemporâneo a quem Castro Alves (1847/1871) mais admirou, feito em memória do filho morto, perda que conduziu também o poeta à morte precoce. Mais do que a tristeza lancinante dos versos, que li pela primeira com a visão embotada em lágrimas, trata-se para mim da melhor evidência literária do amor incondicional de um pai, pelo qual todos deveriam ser lembrados neste e nos outros dias…

 

Dom Casmurro

 

Lá vai ele,

Lamentando do ser e do estar:

“Oh! Dia! Oh! Vida! Oh! Azar!”

 

Lá vai ele,

Pernas fortes, passos curtos,

Jade nos olhos, miúda estatura,

Tomar o seu cafezinho no Boulevard.

 

Lá vai ele,

Levando seu inseparável cigarro entre os dedos,

Escassos cabelos revoltos na fronte,

Um colo escondido no bolso da calça caída,

Um afago oculto sob a La Coste poída

E um conselho ponderado sei lá de onde.

 

Lá vai ele,

Meu adorável Dom Casmurro,

Trajando a sisuda carapaça da esfinge,

Guardiã eterna da singeleza de um menino

Que nunca soube elaborar charadas,

Tampouco devorar ninguém.

 

 

ícaro voador

 

na descoberta do eixo

ele gira seu pequeno corpo

busca com os olhos

me identifica neles

simula espanto

e ri

ri estridente como os anjos

agita seus bracinhos morenos

bate palmas

e leva as mãos à boca

escancarada em riso

desdentada e ávida de gostos

 

eu, que nunca cri

ser motivo de tanta alegria

por estar ao lado de alguém

percebo meu choro

no reflexo dos seus olhos

 

cambuci, 15/11/99 

 

 

Cântico do Calvário

(À memória de meu Filho morto a 11 de dezembro de 1863)

 

Eras na vida a pomba predileta

Que sobre um mar de angústias conduzia

O ramo da esperança. Eras a estrela

Que entre as névoas do inverno cintilava

Apontando o caminho ao pegureiro.

 

Eras a messe de um dourado estio.

Eras o idílio de um amor sublime.

Eras a glória, a inspiração, a pátria,

O porvir de teu pai! — Ah! no entanto,

Pomba, — varou-te a flecha do destino!

 

Astro, — engoliu-te o temporal do norte!

Teto, — caíste! — Crença, já não vives!

Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,

Legado acerbo da ventura extinta,

Dúbios archotes que a tremer clareiam

A lousa fria de um sonhar que é morto!

 

Correi! um dia vos verei mais belas

Que os diamantes de Ofir e de Golconda

Fulgurar na coroa de martírios

Que me circunda a fronte cismadora!

São mortos para mim da noite os fachos,

Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,

E à vossa luz caminharei nos ermos!

 

Estrelas do sofrer, gotas de mágoa,

Brando orvalho do céu! Sede benditas!

Oh! filho de minh’alma! Última rosa

Que neste solo ingrato vicejava!

Minha esperança amargamente doce!

 

Quando as garças vierem do ocidente

Buscando um novo clima onde pausarem,

Não mais te embalarei sobre os joelhos,

Nem de teus olhos no cerúleo brilho

Acharei um consolo a meus tormentos!

 

Não mais invocarei a musa errante

Nesses retiros onde cada folha

Era um polido espelho de esmeralda

Que refletia os fugitivos quadros

Dos suspirados tempos que se foram!

 

Não mais perdido em vaporosas cismas

Escutarei ao pôr-do-sol, nas serras,

Vibrar a trompa sonorosa e leda

Do caçador que aos lares se recolhe!

Não mais! A areia tem corrido, e o livro

De minha infanda história está completo!

 

Pouco tenho de andar! Um passo ainda

E o fruto de meus dias, negro, podre,

Do galho eivado rolará por terra!

Ainda um treno, e o vendaval sem freio

Ao soprar quebrará a última fibra

Da lira infausta que nas mãos sustenho!

 

Tornei-me o eco das tristezas todas

Que entre os homens achei! o lago escuro

Onde o clarão dos fogos da tormenta

Miram-se as larvas fúnebres do estrago!

Por toda a parte em que arrastei meu manto

Deixei um traço fundo de agonias!…

 

Oh! quantas horas não gastei, sentado

Sobre as costas bravias do Oceano,

Esperando que a vida se esvaísse

Como um floco de espuma, ou como o friso

Que deixa n’água o lenha do barqueiro!

 

Quantos momentos de loucura e febre

Não consumi perdido nos desertos,

Escutando os rumores das florestas,

E procurando nessas vozes torvas

Distinguir o meu cântico de morte?

 

Quantas noites de angústias e delírios

Não velei, entre as sombras espreitando

A passagem veloz do gênio horrendo

Que o mundo abate ao galopar infrene

Do selvagem corcel!… E tudo embalde!

 

A vida parecia ardente e doida

Agarrar-se a meu ser!… E tu tão jovem,

Tão puro ainda, ainda n’alvorada,

Ave banhada em mares de esperança,

Rosa em botão, crisálida entre luzes,

Foste o escolhido na tremenda ceifa!

 

Ah! quando a vez primeira em meus cabelos

Senti bater teu hálito suave:

Quando em meus braços te cerrei, ouvindo

Pulsar-te o coração divino ainda;

Quando fitei teus olhos sossegados,

Abismos de inocência e de candura,

E baixo e a medo murmurei: meu filho!

 

Meu filho! Frase imensa, inexplicável,

Grata como o chorar de Madalena

Aos pés do Redentor… ah! pelas fibras

Senti rugir o vento incendiado

Desse amor infinito que eterniza

O consórcio dos orbes que se enredam

Dos mistérios do ser na teia augusta

Que prende o céu à terra e a terra aos anjos!

 

Que se expande em torrentes inefáveis

Do seio imaculado de Maria!

Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!

E de meu erro a punição cruenta

Na mesma glória que elevou-me aos astros,

Chorando aos pés da cruz, hoje padeço!

 

O som da orquestra, o retumbar dos bronzes,

A voz mentida de rafeiros bardos,

Torpe alegria que circunda os berços

Quando a opulência doura-lhes as bordas,

Não te saudaram ao sorrir primeiro,

Clícia mimosa rebentada à sombra!

 

Mas, ah! se pompas, esplendor faltaram-te,

Tiveste mais que os príncipes da terra!

Templos, altares de afeição sem termos!

Mundos de sentimento e de magia!

Cantos ditados pelo próprio Deus!

 

Oh! quantos reis que a humanidade aviltam,

E o gênio esmagam dos soberbos tronos,

Trocariam a púrpura romana

Por um verso, uma nota, um som apenas

Dos fecundos poemas que inspiraste!

Que belos sonhos! Que ilusões benditas!

 

Do cantor infeliz lançaste à vida,

Arco-íris de amor! luz da aliança,

Calma e fulgente em meio da tormenta!

Do exílio escuro a cítara chorosa

Surgiu de novo e às virações errantes

 

Lançou dilúvios de harmonia! O gozo

Ao pranto sucedeu. As férreas horas

Em desejos alados se mudaram.

Noites fugiam, madrugadas vinham,

Mas sepultado num prazer profundo

Não te deixava o berço descuidoso,

Nem de teu rosto meu olhar tirava,

Nem de outros sonhos que dos teus vivia!

 

Como eras lindo! Nas rosadas faces

Tinhas ainda o tépido vestígio

Dos beijos divinais, — nos olhos langues

Brilhava o brando raio que acendera

A bênção do Senhor quando o deixaste!

 

Sobre teu corpo a chusma dos anjinhos,

Filhos do éter e da luz, voavam,

Riam-se alegres, das caçoilas níveas

Celeste aroma te vertendo ao corpo!

 

E eu dizia comigo: — teu destino

Será mais belo que o cantar das fadas

Que dançam no arrebol, — mais triunfante

Que o sol nascente derribando ao nada

Muralhas de negrume!… Irás tão alto

Como o pássaro-rei do Novo Mundo!

 

Ai! doido sonho!… Uma estação passou-se

E tantas glórias, tão risonhos planos

Desfizeram-se em pó! O gênio escuro

Abrasou com seu facho ensangüentado

Meus soberbos castelos. A desgraça

Sentou-se em meu solar, e a soberana

Dos sinistros impérios de além-mundo

Com seu dedo real selou-te a fronte!

 

Inda te vejo pelas noites minhas,

Em meus dias sem luz vejo-te ainda,

Creio-te vivo, e morto te pranteio!…

Ouço o tanger monótono dos sinos,

E cada vibração contar parece

As ilusões que murcham-se contigo!

 

Cheias de frases pueris, estultas,

O linho mortuário que retalham

Para envolver teu corpo! Vejo esparsas

Saudades e perpétuas, sinto o aroma

Do incenso das igrejas, ouço os cantos

Dos ministros de Deus que me repetem

Que não és mais da terra!… E choro embalde.

 

Mas não! Tu dormes no infinito seio

Do Criador dos seres! Tu me falas

Na voz dos ventos, no chorar das aves,

Talvez das ondas no respiro flébil!

Tu me contemplas lá do céu, quem sabe?

No vulto solitário de uma estrela.

 

E são teus raios que meu estro aquecem!

Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!

Brilha e fulgura no azulado manto,

Mas não te arrojes, lágrima da noite,

Nas ondas nebulosas do ocidente!

 

Brilha e fulgura! Quando a morte fria

Sobre mim sacudir o pó das asas,

Escada de Jacó serão teus raios

Por onde asinha subirá minh’alma.

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