Versos do domingo — Vladímir Maiakóvski

Na minha irrelevante opinião, os maiores poetas que modernismo produziu no mundo foram o português Fernando Pessoa (1888/1935), o grego (nascido e criado no Egito) Konstantínos Kaváfis (1863/1933), o brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920/1999) e o russo (nascido georgiano) Vladímir Maiakóvski (1893/1930). Sobre o universo contido em um homem só, em convulsões de expansão e retração naquele tímido e fisicamente insignificante lisboeta; sobre o diálogo aberto com a mitologia, a história e o homoerotismo da Antiguidade Clássica, tão caro ao último heleno da Alexandria; sobre a palavra garimpada à sua mineralidade, na faca só lâmina do verso do pernambucano; Maiakóvski tinha a distinção do arrebatamento, do desejo do sol, das paixões reais tão impressas em sua vida e sua obra.

Egresso do cubo-futurismo, movimento artístico russo que buscou fundir o cubismo do pintor espanhol Pablo Picasso (1881/1973) com o futurismo do poeta italiano Fillippo Marinetti (1876/1944), simbolizado na blusa amarela (título dado a um poema de 1913) que trajava para chocar a conservadora Rússia czarista, Maiakóvski seria o grande cantor da queda violenta da velha ordem, no processo social mais impactante do séc. 20: a Revolução Russa de outubro de 1917, à qual serviu ativamente como propagandista, não só na condição de escritor, mas também de desenhista. Também engajaria sua arte à causa proletária no teatro e no cinema, como dramaturgo e roteirista. 

Jornais dos dias da Revolução noticiaram que quando os marinheiros revoltosos investiram contra o Palácio de Inverno do czar Nicolau II, forçando-o a abdicar ao trono, marcharam cantando em coro os versos de luta do poeta até então mais conhecido como “o grandalhão da blusa amarela”, em todo o fulgor dos seus 20 anos: “Come ananás, mastiga perdiz./ Teu dia está prestes, burguês”.

Se, aos 20 anos, todos sonham mudar o mundo, Maiakóvski, armado apenas dos seus versos, foi um dos poucos, muito poucos, em toda a História, a realmente conseguir.

Ironicamente, no processo a partir dali desencadeado, quem acabaria mastigado lentamente até ser engolido pela Revolução — Saturno a devorar os próprios filhos —, seria seu maior poeta. Doutrinado em sua arte e boicotado pessoalmente pela burocracia estatal do novo regime, sobretudo a partir da ascensão de Josef Stálin (1878/1953) ao poder em 1922, que pretendia reduzir a poesia russa, agora soviética, a um simplismo que fosse intelegível às massas, Maiakóvski acabou se matando com um tiro no peito, a 14 de abril de 1930, aos 36 anos. 

Em vida, chegou a versejar contundente resposta à medicrodade dos que pretendiam subordinar sua criação, em poema de 1927, não por acaso intitulado “Incompreensível para as massas”, mesma classificação que tentavam lhe impor: “Aos pávidos/ poetas/ aqui vai meu aparte:/ Chega/ de chuchotar/ versos para os pobres./ A classe condutora,/ também ela pode/ compreender a arte./ Logo:/ que se eleve/ a cultura do povo!/ Uma só,/ para todos./ O livro bom/ é claro/ e necessário/ a mim,/ a vocês,/ ao camponês/ e ao operário”.

Na verdade, desde 1920, quando escreveu “A extraordinária aventura vivida por Vladímir Maiakóvski no verão na datcha”, ele já deixara devidamente evidenciado o parâmetro com o qual pretendia se ombrear, ao desenvolver em versos a imagem do sol aceitando a provocação-convite e descendo do céu para uma conversa entre iguais, regada a xícaras de chá, numa tarde de verão na datcha (casa de veraneio dos russos). Todavia, longe da aspiração meramente individual, concluído o diálogo fraterno entre o astro e o poeta, a lição dele extraída é comungada ao final como vocação de toda a humanidade: “Brilhar pra sempre,/ brilhar como um farol,/ brilhar com brilho eterno,/ gente é pra brilhar,/ que tudo mais vá pro inferno,/ este é o meu slogan/ e o do sol”. 

Após seu suicídio, que alguns até hoje acreditam ter sido forjado pelas motivações políticas daqueles que preferiram converter brilho em sombra, um dos principais líderes da Revolução de 1917, Leon Trótski (1879/1940), exilado e perseguido (até ser assassinado no México) por Stálin, escreveu: “Sim, Maiakóvski é o mais viril e o mais corajoso de todos os que, pertencendo à última geração da velha literatura russa e ainda por ela não reconhecidos, procuraram criar laços com a Revolução. Sim, ele desenvolveu laços infinitamente mais complexos que todos os outros escritores. Um dilaceramento profundo nele permanecia. Às contradições, que a Revolução comporta, sempre mais penosa para a arte, na busca de formas acabadas, somou-se, nos últimos anos, o sentimento do declínio a que o conduziram esses burocratas”.

Elemento sempre presente em seus versos, o sarcasmo de Maiakóvski não o abandonou nem no bilhete de suicídio, no qual advertiu sobre seu ato capital: “não recomendo a ninguém”. Por justificativa e despedida, a caligrafia dos versos: “Como dizem: caso encerrado,/ O barco do amor espatifou-se na rotina./ Acertei as contas com a vida/ inútil a lista/ de dores,/ desgraças/ e mágoas mútuas./ Felicidade para quem fica”.

Na carta testamenta também seu amor por Lí­lia Brik e Ve­rô­ni­ca Vi­tol­dov­na Po­lonskaia, a “No­ra”, ambas casadas, o que parece ter sido outra causa à depressão da qual padeceu até tirar a própria vida. À primeira, pede que o ame, enquanto a segunda esteve com Maiakóvski na noite precedente e manhã do suicídio, cujo barulho do tiro ouviu ainda no corredor do prédio, após sair do quarto do poeta. E ao Estado que ajudou a reinventar, pede que cuide das duas amantes, da mãe e das irmãs.

Em versos dedicados ao também poeta Sierguéi Iessiênin (1895/1925), que igualmente cometera suicídio cinco anos antes, Maiakóvski também já deixara outra ressalva sarcástica: “Melhor/ morrer de vodca/ que de tédio!”.

Um ano antes, em 1924, no poema “Jubileu”, em homenagem ao 125º aniversário de nasimento de Alexander Púchkin (considerado o fundador da literatura russa moderna) Maiakóvski escrevera sem nenhum sacasmo: “É preciso/ que o poeta/ seja mestre da vida”. Iessiênin parece ter descoberto antes que, mesmo com a Revolução Bolchevique, esta necessidade jamais seria atendida. E a mesma certeza deve ter sido insuportável ao autor que, ainda a seis anos de se matar, encerraria aquele poema a Púchkin com os versos: “A mim,/ a meu posto,/ uma estátua é devida./ Dinamite:/ — eu a explodo em detritos!/ Odeio/ a morte e seu mortiço./ Adoro/ aquilo que é vida.”

Na busca de vivê-la de todas as maneiras, apesar do amor à Rússia, foi também um homem do mundo. Mesmo sem falar nenhum outro idioma, conheceu França, Espanha, Cuba, México e Estados Unidos, jornada de cujo relato em prosa chegou a citar “um tal de Brasil”.  Na definição de Boris Schnaiderman, ucranio radicado em São Paulo e um dos seus mais dedicados tradutores à língua portuguesa, Maiakóvski foi um “revolucionário nas concepções sociais e na forma que utilizou, desabusado, amigo do palavrão e do coloquial, poeta das ruas”. O que não deve nublar o fato de se tratar de um artesão da palavra com requinte de ourives, capaz de reescrever um único verso até 60 vezes, antes de se dar por satisfeito

Mas definição ainda mais precisa talvez nasça da sua própria lavra. Concluído em janeiro de 1930, apenas dois meses antes de sua morte, no poema “A plenos pulmões”, que era como o gigante (literário e literal) costumava declamar seus versos, Maiakóvski lega sua satisfação pessoal a qualquer curiosidade póstuma: “Caros/ camaradas/ futuros!/ Revolvendo/ a merda fóssil/ de agora,/ percrustando/ estes dias escuros,/ talvez, perguntareis/ por mim. Ora/ começará/ vosso homem de ciência,/ afogando os porquês/ num bando de sabença,/ conta-se/ que outrora/ um férvido cantor/ a água sem fervura/ combateu com fervor”.

Por todos esses motivos e outros tantos, sempre que alguém me pede um poema, entre os poucos que cheguei a memorizar, não tenho muita dúvida antes de emprestar voz aos versos do prólogo de “A flauta-vértebra”. Escrito em 1915, por um autor de apenas 21 anos, nele já se pode constatar o amor dividido entre mulheres passadas e presentes, assim como a idéia do suicídio e a forma que o vate (sinônimo de poeta no sentido daquele que vaticina, que vê antes) escolheria para consumá-lo 15 anos depois: “pôr-me o ponto final de um balaço”.

Numa das metáforas mais belas da poesia universal, até por sua literalidade possível, quando o significado do título se desvela ao final, o leitor-ouvinte descobre o poeta às portas de um novo começo, no raiar da sua maior revolução, onde nem a morte seria capaz de pôr termo ao destino de quem insiste em existir materialmente mesmo depois da carne, no canto dos seus versos, na flauta das próprias vértebras…

 

 

Ilustração de Maiakóvski para o poema “A flauta-vértebra”/ Tradução do texto da ilustração: “Estou preso ao papel com os pregos das palavras”
Ilustração de Maiakóvski para o poema “A flauta-vértebra”/ Tradução do escrito: “Estou preso ao papel com os pregos das palavras”

 

 

A flauta-vértebra

 Prólogo

 

A todas vocês,

que eu amei e que eu amo,

ícones guardados num coração-caverna,

como quem num banquete ergue a taça e celebra,

repleto de versos levanto meu crânio.

 

Penso, mais de uma vez:

seria melhor talvez

pôr-me o ponto final de um balaço.

Em todo caso

eu

hoje vou dar meu concerto de adeus.

 

Memória!

Convoca aos salões do cérebro

um renque inumerável de amadas.

Verte o riso de pupila em pupila,

veste a noite de núpcias passadas.

De corpo a corpo verta a alegria.

Esta noite ficará na História.

Hoje executarei meus versos

na flauta de minhas próprias vértebras.

 

 

(Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

 

 

Flauta-vértebra de 35 mil anos, achada no fundo de uma caverna da Alemanha, é o instrumento musical mais antigo da humanidade
Flauta-vértebra de 35 mil anos, achada no fundo de uma caverna da Alemanha, é o instrumento musical mais antigo da humanidade

Construtor candidato a prefeito em 2012 para descontruir vícios nas obras públicas

No próximo dia 6, o empresário Clodomir Crespo assina sua filiação ao PV, pelo qual pretende concorrer à Prefeitura de Campos, com apoio do presidente municipal do partido, o advogado Andral Tavares Filho, também pré-candidato à eleição majoritária de 2012. Ao defender o programa de governo que elegeu Rosinha prefeita em 2008, como o melhor já elaborado para o município, Clodomir não tem papas na língua para apontar o descumprimento de vários pontos e os supostos motivos, sobretudo em relação às obras públicas. Engenheiro e construtor, ele afirmou ter entregue ao deputado federal Anthony Garotinho (PR), em março de 2009, uma planilha orçamentária provando tecnicamente que o preço correto do programa municipal “Morar Feliz”, com toda infra-estrutura necessária, seria de R$ 50 mil por unidade habitacional, não os R$ 70 mil aprovados, o que teria gerado um super-faturamento de R$ 102 milhões nas 5,1 mil casas já licitadas, entre as 10 mil prometidas.

Enquanto vê dinheiro demais por um lado, Clodomir aponta àquele que parece de menos no pagamento às empreiteiras, gerando o atraso e a paralisação das obras públicas do município. Como resposta a quem também quiser questionar o fato de que ele já teria participado, enquanto construtor, do mesmo esquema que agora denuncia, mas garante ter abandonado desde 31 de maio de 2007, ele apresentou todos seus dados, enquanto pessoa física e jurídica, para a devida conferência. Na sua visão, a melhor maneira de se administrar a cidade seria aquilo que define como “gestão empresarial pública”, unindo empresários e trabalhadores para que os bilionários recursos de Campos sejam integralmente investidos no município.   

 

(Foto de Alessa Oliveira)
(Foto de Alessa Oliveira)

 

Folha da Manhã — Você inicialmente planejou aqui lançar sua candidatura levando uma série de questionamentos técnicos às obras públicas municipais ao Ministério Público. Por que mudou de idéia? Receio de não dar em nada?

Clodomir Crespo — De jeito nenhum, tenho certeza que o Ministério Público cumprirá com seu dever, só que cheguei à conclusão que já tem e terá mais ainda tanta gente e tantas instituições insatisfeitas com os desmandos praticados pelo governo municipal atual, que serei apenas mais um com os mesmos questionamentos.

 

Folha — Por que essa impressão generalizada de que a grande maioria das obras públicas municipais estaria parada ou a passos muito lentos? Isso realmente está acontecendo? Quais os motivos?

Clodomir — Esta acontecendo de forma generalizada e a olhos nus, só não enxerga quem não tem interesse de enxergar, ou seja, os responsáveis pelos fatos. E o motivo é simples: as empresas vem tendo seus pagamentos por serviços prestados com frequentes atrasos, muitas vezes de mais de 90 dias; estão com pendências ainda atrasadas e, o que é pior, não confiam mais neste governo para adiantarem os cronogramas. Se fizerem isso, sabem que correm o risco de ficar sem receber.

 

Folha — Como encarou a notícia de que na última segunda, em tensa reunião de cinco horas na Prefeitura, Garotinho teria feito cobranças pesadas ao secretariado de Rosinha, especialmente sobre Tom Zé e César Romero, chegando a ameaçá-los de exoneração, caso as obras públicas não acelerem o ritmo? Acha que o caminho é por aí?

Clodomir — É um verdadeiro absurdo, pois além dele não ter oficialmente essa autoridade, que deveria ser da prefeita eleita por 1/3 da população votante de Campos, o prefeito de fato ainda quer exigir das empresas que acelerem os serviços sem nenhuma garantia de quando e se vão receber, pois já está mais do que provado que eles não têm nenhum compromisso com as necessidades impostas às empresas de cumprir suas obrigações com seus funcionários e seus fornecedores.

 

Folha — Um dos questionamentos que você projetou levar ao MP se refere ao valor de R$ 70 mil por unidade do “Morar Feliz”, menina dos olhos do governo Rosinha. Falando tecnicamente, como engenheiro e construtor, o que há de errado no programa?

Clodomir — Diversas coisas, tanto política quanto administrativamente. Primeiro, Garotinho tem em mãos, entregue por mim em março de 2009, uma planilha orçamentária provando que o preço certo e justo das casas deste belo programa habitacional, chamado “Morar Feliz”, é de R$ 50 mil por casa, com toda infra-estrutura necessária. Quantos milhões de motivos políticos e pessoais ele teve para aprovar um preço R$ 20 mil acima? Só na primeira etapa prometida, de 5,1 mil casas, temos um super-faturamento de R$ 102 milhões, bancado pela dinheiro público. Em segundo lular, nesta primeira etapa foram prometida 5,1 mil casas, divididas em 13 obras em 13 bairros diferentes do nosso município, fato que poderia ter gerado 13 oportunidades de licitações, onde dezenas de empresas de nossa região poderiam ter participado, alavancando o empresariado regional em todos os segmentos, inclusive as nossas cerâmicas, que receberam a promessa de aquisição de tijolos e telhas, o que não foi cumprido. No entanto, o que foi arbitrariamente feito: unificaram as treze obras em único e imoral edital de licitação de nº 004/2009, formando um bolão de R$ 357.963.677,57, com exigências de atestados técnicos em quantidades absurdas para o objeto do projeto, casas populares, e capital social elevadíssimo, fazendo com que todas as empresas de nossa região ficassem impedidas de ao menos participar da licitação citada. Pergunto: quantos milhões de motivos políticos e pessoais os levaram a prejudicar tantas empresas? E não digam que foi por capacidade operacional, pois as obras estão claramente atrasadas, correndo o risco de não serem concluídas, e olha que o prometido eram 10 mil casas. Em terceiro lugar,  junto a esse belo projeto “Morar Feliz” poderia estar agregado o programa semelhante do governo federal, “Minha Casa, Minha Vida”, em mais 10 mil casas que estamos proibidos de receber para nossa população mais carente, por não haver interesse sério de legalização de nosso município junto ao programa federal, por motivos políticos pessoais do prefeito de fato, que também quer ser presidente da República.

 

Folha — Acredita que a prefeita Rosinha conseguirá cumprir sua promessa de entregar as 10 mil casas populares prometidas? Se não, qual o motivo e o número de habitações que julga ainda ser possível entregar antes de 2013?

Clodomir — Humanamente impossível, por causa do tempo útil de mais ou menos oito meses, pois teremos chuvas e outras causas de atraso, e, financeiramente, impossível também, já que está havendo dificuldade de pagar em dia a metade do prometido. Acredito que se eles conseguirem restabelecer a confiança das empresas envolvidas talvez terminem a metade do prometido.

 

Folha — Para quem não é do meio, a impressão é que esse descontrole em relação às obras públicas teria se iniciado com a queda da ponte Gal. Dutra, em janeiro de 2007, ainda no governo Mocaiber. Concorda? Por quê?

Clodomir — De jeito nenhum. Este governo teve e tem todas as melhores condições necessárias para bem governar, só que a falta da verdadeira intenção continua prevalecendo, o que não é nenhuma novidade nos últimos 27 anos.

 

Folha — São apenas esses questionamentos? Se não, quais outros? Algum não relativo apenas a obras?

Clodomir — São tantos que nem um ano de folhas de jornal daria para resumir 27 anos de desmandos e o principal é que ambos continuam tentando transformar mentiras em verdades, o que conseguiram por quase trinta anos, mas os fatos não deixam mais dúvidas. A farsa acabou, o império está ruindo, a credibilidade já terminou.

 

Folha — Você confessa que o melhor programa de governo para Campos já está pronto: o que elegeu Rosinha em 2008. Quais, então, as dificuldades para cumpri-lo?

Clodomir — Não tenho dúvida da qualidade do programa inteligentemente elaborado, mas a falta de seriedade com os objetivos e obviamente a forma de executá-los destrói toda a bela aparência, como por exemplo a duplicação do trecho da estrada estadual do Jockey Club a Goytacazes. Pergunto: Por que não foi feito em oito anos de seus mandatos no governo do estado? Por que não está sendo feito pelo atual governo estadual, poupando os cofres municipais para outros projetos mais urgentes? A resposta é óbvia: Garotinho também quer ser novamente governador. Por que estaá sendo feita por quase o triplo do preço por km de estrada asfaltada com toda a infra-estrutura? E não culpem a construtora contratada, pois quem faz planilha orçamentária e edital de licitação são os governos, sejam municipal, estadual ou federal. Enfim, não existe dificuldade, existem falta de seriedade e muitos interesses políticos pessoais, pois este é o governo que comete os desmandos e depois tenta desfazê-los, cancelando licitações e contratações irregulares e reduzindo acordos já firmados, para tapar rombos com desculpa de preocupação com o futuro.

 

Folha — Ao assumir publicamente que você tem a pretensão de concorrer à Prefeitura pelo PV, o presidente municipal da legenda, Andral Tavares Filho, disse, no entanto, que a pré-candidatura dele está mantida. Como e quando se dará essa definição?

Clodomir — Não há, nem nunca haverá nenhuma disputa entre mim e o Dr. Andral Tavares. Somos amigos, com interesse comum em fazer alguma coisa para o bem da nossa cidade. Seja quem for o escolhido pelo partido, estaremos unidos com os mesmos objetivos políticos para Campos, que é implantar em nossa Prefeitura a “gestão empresarial pública”, que significa a união de todos os segmentos empresariais com todos os trabalhadores, do simples botequim à mais complexa siderúrgica, fazendo com que tudo o que for produzido em nosso município seja revertido e aplicado 100% em nosso município. Acabando com todo e qualquer desvio, seja por interesse político ou material pessoal.

 

Folha — Você é conhecido por seu temperamento forte e parece estar disposto a bater na campanha de 2012. Está preparado também para apanhar, dos mais variados lados e sem perder a linha, capacidade exigida a qualquer um que ingresse na vida pública?

Clodomir — Sou de temperamento forte em defesa do que é certo e do que é justo, não vou entrar na política para agredir ou ofender quem quer que seja, sem motivos ou por leviandade. Quero discutir novas formas de fazer política, principalmente para nossa cidade de Campos e nossa região, tão privilegiada por Deus e tão mal usada pelos homens que se desvirtuaram do caminho certo e honesto. Coloco meu nome, Clodomir Inácio Siqueira Crespo, cpf 472.249.167-49, cic 06090596-5 e o nome de nossa empresa DAC CONSTRUÇOES E PAVIMENTAÇÕES LTDA, CJPJ n. 04258559/0001-77, para serem checados na Polícia Federal, Ministério Público Federal e Estadual, Justiça Federal e Estadual, ou qualquer outro órgão, se tenho ou temos qualquer processo de natureza desonesta ou de improbidade. Não fui, não sou e nem pretendo ser nenhum homem isento de crítica. Tenho defeitos e qualidades que considero normais, os quais coloco à avaliação de toda a população de Campos. Já tive e tenho momentos de dificuldades financeiras, principalmente por ter acreditado em administrações públicas desonestas e sem compromisso com a verdade e a probidade, me causando sérios prejuízos financeiros, que me fizeram abandonar a participação de serviços públicos quer sejam federais, estaduais e municipais, desde 31 de maio de 2007. Tenho mais de 35 anos de trabalho e nunca fui processado por qualquer tipo de falcatrua.

 

Folha — Na postagem do blog Opiniões que anunciou sua pré-candidatura, um comentarista sugeriu aqui que lhe fosse perguntado o que sua mulher fornecia ao governo Mocaiber. A referência parece ser a empresa Nutrinut Refeições, da sua companheira, Valéria Mendes. Pode responder ao leitor?

Clodomir — Sou divorciado há mais ou menos 10 anos e tenho um relacionamento respeitoso de homem e mulher com a Sra. Valéria Mendes, a quem conheço como uma empresária com mais de 20 anos no ramo de alimentação, que já prestou serviços a todos os governos municipais, desde o segundo mandato de Garotinho, até o do Dr. Alexandre Mocaiber, assim como a dezenas de empresas privadas de grande e médio porte em diversas regiões do estado do Rio Janeiro e Espírito Santo, já que ela é uma profissional qualificada e competente. Portanto, apesar de não ter nenhuma interferência na vida profissional de Dona Valéria Mendes, tenho por ela imenso amor e respeito, sentimentos de homem que não dizem respeito a ninguém, mesmo passando a ter uma atividade pública.

 

Folha — Até onde o projeto da sua candidatura nasce do inconformismo com a maneira como as obras públicas municipais estão sendo conduzidas, e até que ponto isso é fruto de simples ressentimento de quem ficou de fora? E, caso eleito, sua DAC Construções continuaria fora?

Clodomir — Não tenho nenhum ressentimento em estar de fora, até porque se aceitasse as regras do jogo sujo, estaria dentro, por minha capacidade profissional. Minha decisão aos quase 54 anos é simplesmente por não querer morrer omisso politicamente como fui por todos estes anos, assim como a grande maioria dos homens de bem de nossa cidade. Contudo como bem disse Martin Luther King, no slogan escolhido pelo Partido Verde: “Pior do que o grito dos desonestos, pior do que o grito dos corruptos, pior do que o grito dos canalhas e pior do que o grito dos sem caráter, é o silêncio dos bons”. E sem nenhuma dúvida nossa empresa jamais participaria de nenhum projeto público municipal, até porque meu filho Dac Crespo, que é o dono e administrador da DAC Construções, tem sua vida já direcionada a diversos projetos privados, que são mais do que suficiente para sustentá-lo e à sua família.

 

Folha — Você ressalta não disputar mais licitações públicas, dizendo ter se recusado a praticar as irregularidades que constatou no governo Mocaiber. Mas não era a mesma coisa quando você também participava, uma vez que a promiscuidade entre empreiteiras e o poder público está longe de ser novidade, pelos menos desde 1993, quando explodiu o escândalo nacional dos Anões do Orçamento, com envolvimento direto da mesma Odebrecht que ganhou a licitação de R$ 357 milhões para a construção de 5.100 casas, como a Folha antecipou meses antes dos envelopes serem abertos?

Clodomir — Participei de algumas obras públicas no governo estadual nas gestões de Garotinho e Rosinha, e nunca tive por parte de nenhum dos dois qualquer tipo de chamamento para qualquer negociação escusa. Como em todos governos, existe um percentual de processos honestos, tanto que quase quebrei no final de 2006 e início de 2007, por não ter recebido serviços executados em três obras terminadas e duas inacabadas pelos governos de ambos. Trabalhei por 11 meses para o governo Mocaiber, onde executei três obras, todas entregues até 31/05/2007, obras essas que foram elogiadas pela fiscalização feita pelo então prefeito interino Roberto Henriques. Nunca fiz obras ou serviços para governos municipais de Garotinho, Arnaldo Vianna ou Sérgio Mendes. O pouco que executei de obras públicas, fiz com responsabilidade e tomei grandes prejuízos, exatamente como acontece com toda empresa honesta. Quanto à parceria Garotinho/Odebrecht só ele pode responder sobre seus reais motivos para fazer esta covardia com o empresariado de nossa região.

 

Folha — Acredita sinceramente que alguém egresso de uma categoria tão estigmatizada como a dos empreiteiros, que nunca foi testado nas urnas, tem alguma chance real de se eleger prefeito, diante do franco favoritismo de Rosinha?

Clodomir — Não sou nem nunca fui pertencente a nenhuma categoria específica. Quem me conhece e até quem não me conhece pessoalmente sabe que sou trabalhador e pertenço a uma família de trabalhadores, comerciantes em diversas atividades como agropecuária, comércio de carnes, obras e prestação de serviços privados. Acredito que toda Campos está ávida de um novo procedimento político, limpo e honesto. E isso não é utopia, é perfeitamente viável em um município independente financeiramente como o nosso. Basta governar sem desviar, e a “gestão empresarial pública” viabiliza todo esse processo. Eles também sabem disto, só não se interessam por fazer o que deve ser feito. Não acredito em nenhum favoritismo de políticos que renegam seu próprio nome e que mesmo gastando fortunas em lugar onde já tiveram 90% dos votos da população, elegeram-se com apenas 1/3 do eleitorado e assim mesmo porque não havia à disposição da população nenhuma opção decente e viável, seja por candidatos de pouca expressão política, seja por candidatos dilapidados moralmente. Quando a população de nossa Campos, em todos os recantos, souber detalhadamente tudo que está por trás de cada projeto em execução e em cada contratação que está sendo praticada em nossa Prefeitura, vamos ver onde estará o favoritismo.

 

Folha — Por que o leitor não deve desconfiar que sua postulação, caso se confirme, não seria uma candidatura de apoio para atacar Rosinha, como o hoje deputado federal Paulo Feijó claramente fez em 2008, auxiliando a eleição da prefeita ao chamar para si o confronto direto com Arnaldo Vianna?

Clodomir — Não tenho e nunca tive nenhum compromisso com essa oposição que esta aí para tomar o poder e continuar os mesmos desmandos. Escolhi o Partido Verde por encontrar nele pessoas com o propósito de honestidade. Junto a outros partidos independentes e com os mesmos princípios faremos a verdadeira revolução política local, que começa com a participação e conscientização dos homens e mulheres de bem, que não concordam com a forma cruel e desgastada com que somos governados por políticos que pensam que Campos dos Goytacazes é sua propriedade particular, à disposição de sustentar seus projetos políticos psicopatas, só satisfazendo seus interesses pessoais em detrimento de toda a população. Portanto, não sou político profissional. Sou um homem de bem e maduro que quer fazer política para o bem de todos. Por favor, não me compare a nenhum desses políticos.

João Peixoto enquadra Gil Vianna: “Ele pode sair, mas o mandato fica”

 

Na conversa de ontem com o blogueiro, o deputado estadual e presidente regional do PSDC, João Peixoto, bem ao seu jeito, deu uma enquadrada dura no vereador Gil Vianna (presidente do PSDC em Campos). Indagado pelo voto contrário com que correligionário ajudou a negar todos os pedidos de informação sobre o governo Rosinha feitos pela bancada de oposição, Peixoto disse:

—   Nisso aí, a gente está dando corda. Mas quando o partido tiver candidato, que fechar uma chapa (à disputa majoritária de 2012), ele não vai poder ficar nessa. Se quiser sair do PSDC, não vou proibir ninguém de sair, mas o mandato fica. Meu mandato não é meu, é do partido. E o dele também.

Betinho: “Quisera São João da Barra ter uma prefeita como Rosinha”

Duas vezes prefeito de São João da Barra, Betinho Dauaire (a caminho do PR) quer voltar a sê-lo em 2012. Para tanto, aliou-se ao seu ex-opositor, hoje deputado federal, Anthony Garotinho (PR). Para ele, o limite ao ex-governador será imposto naturalmente por sua escola política: seu pai, o ex-deputado Alberto Dauaire. Ao rastrear o passado daquele que hoje parece seu principal opositor, o vereador e secretário Neco (PMDB), Betinho tece várias críticas, pretéritas e presentes. Quanto aos demais, não crê na candidatura de Alexandre Rosa, vê Aluizio como o adversário mais bem preparado, louva a coragem de Gersinho e cobra a presença de Ari Pessanha entre as opções governistas. Quem quer que seja seu adversário em 2012, só não tem dúvida ao comparar os mandatos presentes das duas prefeitas nos municípios vizinhos: “Quisera São João da Barra ter uma prefeita como Rosinha”.
 
 

 

Folha da Manhã — Pré-candidato governista à Prefeitura, Neco disse aqui, em entrevista à Folha, que você fez um péssimo governo em São João da Barra. Como sua discordância parece óbvia, a pergunta é: baseado em quê?

Betinho Dauaire — Primeiro, se o meu governo fosse péssimo, por que o vereador Neco votava a favor das mensagens que eu mandava junto com os vereadores governistas? Neco ficou quatro anos me apoiando na Câmara, fazendo parte da bancada governista junto com os vereadores Gersinho e Arildo. Só se ele era um governista travestido de oposição. E caso eu tivesse feito um governo ruim ele seria cúmplice e responsável tanto quanto eu.Tenho fatos para mostrar que a avaliação dele está maldosamente errada. Encerrei meu governo com mais de 80% de aprovação popular, noticiado em manchete pela Folha da Manhã na época. Recebi um reconhecimento internacional na área da educação e no combate à miséria, com a chancela das Nações Unidas, e reduzi a taxa de mortalidade infantil, que tinha índices de países africanos, trazendo essa taxa para níveis de países da Europa. Com pouca arrecadação, promovi uma administração com alto grau de investimento, medido por estudos sócio-econômicos realizados por entidades oficiais, tornei o município oficialmente turístico pela Embratur, recuperei a educação, a saúde e reconquistei o respeito à administração pública municipal, além de outras ações ligadas ao meio ambiente e promoção social, dentre ourras áreas. Trago em meu currículo a criação de programas de transferência de renda, a bolsa universitária com transporte, cursos técnicos e muito mais. Tudo isso com pouco dinheiro.

 
 
Folha — Para sustentar sua afirmação, Neco lembrou que no colégio eleitoral do Açu, na eleição de 2008, ele teve mais votos que você. Ainda que seja só em um distrito, não é uma analogia reveladora, sobretudo porque ele concorreu a vereador e você a prefeito?

Betinho — O vereador Neco, nem somando todos os mandatos que teve, chegou à metade da votação que já tive no município. A votação de Neco no quinto distrito teve o preço de acabar com a paz do agricultor, do produtor, de pessoas de todas as idades, até os senhores na maioria com mais de 80 anos de idade. Após as eleições, Neco colocou em votação, exatamente na noite de 31 de dezembro de 2008, a lei reveillon, que deu condições para o governo do Estado desapropriar e pegar as terras de seus amigos, eleitores, enfim, moradores de toda a área. Os votos de Neco custaram muito caro. Pessoas surtaram, ficaram doentes, perderam suas atividades econômicas, sem terem sido preparadas para isso. Ele deveria se envergonhar de não ter avisado à população o mal que ia sofrer. Seria mais correto.

 

Folha — Criticar Neco pela falta de formação universitária, tática que já vem sendo usada, além de discriminação por algo não exigido em lei, não é também anacrônico no país que Lula governou por oito anos, com índices inéditos de popularidade? A bem da verdade, líder do seu grupo, Garotinho também não possui o terceiro grau. Se, mesmo assim, um acabou presidente e o outro governador, por que isso atrapalharia Neco a ser prefeito?

Betinho — Também concordo, mas isso é uma tática de alguns militantes dos outros candidatos a prefeito que estão do lado da prefeita. Além do próprio Neco ajudar, votando as coisas de forma errada, como aconteceu na eleição da mesa diretora, quando ele votou no vereador Franquis Areas, que nem candidato era. A prefeita errou em antecipar o calendário eleitoral, errou em trazer para o governo pré-candidatos. A prefeita errou em inventar pesquisa e autorizar reuniões eleitorais em pleno ano administrativo. São eles, os governistas, que devem se entender. Eu não tenho nada com isso, mas também não vou dizer que falta de estudo seja um mérito ou um incentivo para ser prefeito. Eu acho que a pessoa que queira governar São João da Barra tem que ter um mínimo de preparo e vocação para o Executivo. Acontece que o vereador licenciado e secretário de Assistência Social não tem nem uma coisa nem outra. Vamos a um exemplo básico: qual a política habitacional que foi desenvolvida por Neco? Nem 10 casas populares foram entregues em todo esse tempo. O programa de transferência de renda, criado por mim, está recheado de denúncias. Se ele não consegue administrar uma secretaria de Assistência e Promoção Social, como deseja administrar um município na era do Porto? Sabe, é a mesma coisa que colocar um motorista que não sabe dirigir, nem carteira tem, para guiar um ônibus cheio de pessoas; vai ser um desastre.

 

Folha — Outra tática de descrédito que já surge bem ensaiada contra Neco, é afirmar que seu governo seria tutorado pela prefeita Carla Machado. Na entrevista à Folha, ele mesmo admitiu que ela seria bem vinda a participar da sua administração. Em todo caso, você não correria o mesmo risco com Garotinho, a exemplo do que ele faz com Rosinha, em Campos? Qual seria o limite exato de Garotinho num novo governo Betinho Dauaire?

Betinho — Não existe esse risco, porque são histórias diferentes. Fui duas vezes prefeito, alcancei a primeira suplência de deputado estadual, vim de uma escola chamada Alberto Dauaire. Enquanto Neco sempre foi submisso politicamente. A prova disso é que a prefeita prometeu votar nele para presidente em 1999 e votou nela mesma. A prefeita se elegeu na época às custas de furar uma palavra empenhada com seu melhor amigo. Depois disso tudo, ele aceitou a situação. Então não precisa falar mais nada. Quanto à prefeita de Campos, Rosinha, ela governa com simplicidade, discrição e competência. Quisera São João da Barra ter uma prefeita como Rosinha.

 

Folha — E quanto à tática que qualquer candidato governista fatalmente usará, adiantada pelo próprio Neco: o passado de oposição aberta entre você e o ex-governador? Como pretende reagir a isso e como pensa que o eleitor reagirá?

Betinho — Apoiei Sérgio Cabral em duas eleições, de senador e governador, e ele veio com toda força contra mim na eleição seguinte. Sou obrigado a ficar parado esperando outro ataque? Tive a coragem de dizer não a um governador de mandato nas eleições de 2010. Garotinho é uma nova amizade que nasceu em uma aliança política que fizemos em 2009. Garotinho tem sido um grande amigo. Ele é um deputado atuante, não dito por mim, mas pela mídia nacional. Eu e Garotinho fomos adversários e nos unimos quando ele não tinha mandato e nem eu. Nos juntamos combatendo o bom combate. Hoje ele é o deputado federal mais votado do Estado do Rio e eu desponto com o primeiro lugar nas pesquisas para prefeito. Neco e Carla eram amigos de Garotinho e Rosinha quando eles eram governadores. Aí foi fácil ser amigo. Vergonha vai ser eles explicarem porque só são amigos de pessoas que estão no poder. Eu já não terei essa dificuldade.

 

Folha — Aparente causa principal da ruptura entre Garotinho e Carla, como manter numa administração sua a boa relação que o município hoje goza com o governo estadual de Sérgio Cabral? Valeria a pena abrir mão dela se for a vontade de Garotinho?

Betinho — Como tenho liderado as pesquisas e se desenha uma grande possibilidade de vitória, posso garantir que não tenho essa preocupação, até porque não acredito em retaliação. Mas se houver, vamos responder à altura. Acontece que hoje temos dois deputados federais para buscar recursos e, além do mais, a vitória de Garotinho para governador é dada como certa. Não existe político de maior densidade eleitoral no estado do que Garotinho. Além do mais, a prefeita de São João da Barra poderia continuar fiel a Garotinho e se impor diante do governador Cabral, como eu me impus nos meus dois mandatos em governos de oposição. A prefeita esqueceu que gratidão não prescreve.

 

Folha — Ex-prefeito e seu antigo opositor, mas hoje reunido no mesmo grupo político, o presidente do Cidac, Ranulfo Vidigal, disse aqui que os dois maiores eleitores sanjoanenses são Carla e Garotinho. Concorda? Por quê?

Betinho — Continuo discordando do Ranulfo Vidigal. Garotinho não é o maior eleitor só em São João da Barra, mas em todas as cidades do Estado do Rio de Janeiro. Para ter 700 mil votos tem que ter prestígio. E quanto a Carla Machado, a indicação é natural. Eu vou colaborando humildemente com o meu nome. Em cinco eleições que disputei, fui o mais votado em quatro. Ranulfo ficou um pouco chateado com a experiência política que teve ao governar meu município e acabou transferindo seu domicilio eleitoral de São João da Barra. Tenho certeza que se ele resolver votar em São João da Barra novamente votará em mim, porque ele sabe que Garotinho quer me ver prefeito.

 

Folha — Uma raposa felpuda da política sanjoanense revelou aqui que Neco, além de Carla, é o candidato governista também da sua preferência, por ser, em tese, o mais fácil de ser enfrentado no debate direto. Procede a visão, uma vez que você mesmo declarou aqui que a prefeita já definiu Neco como candidato?

Betinho — Não escolho adversários. Se escolhesse, não seria candidato em 2008 com uma pessoa que exercia o cargo de prefeita e utilizava-se do instituto da reeleição.Tanto é que ganhei de Carla na minha reeleição e ela ganhou de mim na reeleição dela. Respeito qualquer adversário e não tenho preferência. Quero sim debater projetos importantes no processo eleitoral. Não dá para continuar pensando pequeno. Quero trazer meus conhecimentos para o debate, quero debater com candidatos inteligentes e não com bonecos.

 

Folha — E qual a sua visão sobre os outros dois pré-candidatos anunciados por Carla: Aluizio Siqueira e Alexandre Rosa? Você já apostou que o segundo é carta fora do baralho, por não unir o grupo governista, assim como apontou Aluizio como um plano B, ou para compor a chapa como vice. Continua pensando assim? Baseado em quê?

Betinho — Alexandre Shop deixou a história passar à sua frente e não viu, preferindo o caminho mais curto. Não teve decisão quando era necessário e quando resolveu tomar decisão, tomou errado. Não é confiável para a militância. Tudo de ruim que vier a acontecer politicamente para a prefeita na Justiça, na campanha eleitoral, nos jornais, foi criado no tempo em que ele era o presidente da Câmara. Alexandre não poderia passar uma borracha em sua história, se rendendo às seduções do poder. Hoje ele não tem a confiança de nenhum dos dois lados, mas pode se sujeitar a virar um vice de Neco. Shop foi fraco e só virou pré candidato para a prefeita ganhar maioria na Câmara. Já Aluizio foi alçado ao posto de pré-candidato para rachar a votação de Alexandre nas pesquisas e favorecer Neco. Ele é o mais preparado dos três para o debate, mas vai se decepcionar quando souber que o escolhido não será ele.

 

Folha — Ainda sobre Alexandre Rosa, você disse que a única chance dele de concorrer à Prefeitura, seria sair numa candidatura independente. Presidente da Câmara, Gersinho declarou aqui que ele mesmo pode fazer isso. Embora ainda não tenha se pronunciado, não está descartada a possibilidade de Ari Pessanha também tentar esse caminho. Como analisa cada uma dessas possibilidades e, de maneira geral, como uma ou mais outras candidaturas fortes poderiam afetar o aparente equilíbrio entre os candidatos de Carla e Garotinho?

Betinho — Eu disse, mas o vereador Alexandre não tem coragem de lançar uma candidatura independente. Vai acabar aceitando uma vaga de vice ou tentar a reeleição. Para ser candidato sem apoio governista tem que ter coragem. Já Gersinho tem essa coragem e tem demonstrado isso. Ari Pessanha foi o grande injustiçado do atual governo no sonho de ser prefeito. Nem na pesquisa Carla colocou seu nome. Se Carla colocasse o nome de Ari Pessanha na pesquisa governista, Ari ganhava dos três candidatos de Carla juntos.

 

Folha — Inegável que qualquer pré-candidato a prefeito de São João da Barra tenha que pensar, e muito, sobre o Porto do Açu. Já procurou ou foi procurado por Eike Batista ou algum representante dele? Como ampliar ao máximo os benefícios econômicos do mega-investimento e como reduzir ao mínimo seus impactos sociais?

Betinho — Sim, já há algum tempo. A empresa tem apresentado projetos para diminuir os impactos sociais, mas diante do valor do investimento de R$ 1,8 bilhão realizado na construção do Porto do Açu até hoje, impactos positivos executados deveriam aparecer mais fortemente. Com todo respeito ao empreendimento, os programas de compensação precisam atender a demanda dos produtores rurais do quinto distrito e as demandas unilaterais não tem colaborado para isso.Temos que reconstruir a confiança e aproximar mais o empreendedor da sociedade civil e não apenas confundi-lo com órgãos governistas. As estratégias para ajudar os moradores e produtores do quinto distrito não podem ser as mesmas de 10 anos atrás. Elas precisam ser estratégias de âmbito sistêmico, ou seja, estudar todos os vetores que envolvem a produção e criar estratégias que possam fazê-los competitivos com o mercado atual, fortalecendo essa cadeia produtiva. O que adianta colocar máquinas em associações com possíveis identificações partidárias? O cooperativismo é um exemplo de saída. Outra questão que envolve outras regiões do município e será afetada com o desenvolvimento será a grande quantidade de desempregados, inchando os centros mais urbanos do município. A capacitação é importante, mas como capacitar de verdade, se temos um governo que deixa a educação básica chegar em penúltimo lugar no Estado? Se não investir de verdade na educação básica, não chegaremos a lugar nenhum. O governo finge que capacita e o trabalhador finge que foi capacitado. Enquanto isso, dados mostram que existe uma queda da remuneração média do trabalho, que nos últimos levantamentos oficiais é de 7,60% , uma queda de 26,35% em relação ao saldo de empregos em junho de 2010. Temos que aproximar os agentes envolvidos, proposta bem fundamentada pelo Movimento Nossa São João da Barra e seus colaboradores. Quanto a políticas públicas, temos que torná-las eficazes.

 

Folha — Teria agido diferente em relação às desapropriações do 5º distrito? Em quê?

Betinho — Tudo seria diferente desde a notícia até a negociação da terra e aposto que todos sairiam felizes e o quinto não estaria sofrendo como está sofrendo. Primeiro que eu não colocaria uma projeto de lei tão importante no último dia do ano para ser votado. Esse projeto modifica toda a história do quinto distrito, que era uma área rural, de produção familiar, e se tornou uma área industrial. Segundo, eu não esconderia da população esse fato, mesmo sendo ano eleitoral como foi. Terceiro, eu não lavaria minhas mãos como a atual administração lavou. Eu montaria um estafe capacitado, capaz de discutir tecnicamente de igual para igual com os empreendedores. Vestir a camisa do desenvolvimento é vestir a camisa da população e do empreendedor. Só assim desenvolvimento vira qualidade de vida. Fora disso desenvolvimento vira prostituição, injustiça, desigualdades e por aí vai. A prefeita já admitiu na mídia que as coisas começaram erradas. E tudo que começa errado dá um trabalho danado para consertar, quando querem consertar, é claro.

 

Folha — No último dia 22, São João da Barra recebeu R$ 10,8 milhões em royalties, chegando ao total de 168 milhões já recebidos em 2011. Que paralelo faz entre as atuais quantias e as que o município recebeu em suas duas administrações, e quais diferenças enxerga na aplicação dos recursos do petróleo pelo seu governo e o de Carla?

Betinho — Vamos falar em orçamento que engloba os royalties e demais receitas. O governo atual não é melhor do que o meu, é apenas maior. O orçamento do meu primeiro ano de governo era de R$ 11 milhões. O orçamento a ser votado hoje é de R$ 400 milhões. Se juntarmos oito anos de arrecadação do meu governo, eu não alcanço o arrecadado pela atual administração em oito meses. E tudo isso sem a prefeita mexer um dedo. Essa receita é fruto da exploração de petróleo e do Porto do Açu, investimentos que não foram trazidos por ela. Com toda essa diferença de caixa, no meu período, segundo estudos, a economia era mais fortalecida no meu tempo. Nossos graus de investimentos eram elevadissímos, como mostram os estudos sócio-econômicos. A nossa receita corrente era maior do que a despesa de custeio. Realizamos grandes investimentos. O que eu não entendo é que hoje, com todo esse dinheiro, o que temos? Temos várias CPIs denunciando corrupção, que foram encaminhadas ao Ministério Público. O município já posou de campeão em focos do mosquito da dengue no Estado, a educação disputa os últimos lugares, segundo o ministério da Educação, a remuneração no município caiu, o servidor público que tinha o mínimo duas vezes maior que o mínimo nacional, hoje não supera um salário mínimo. Sindicato fechado por falta de repasse, agricultores perdendo suas terras, o Conselho de Agricultores desativado de 2005 até recentemente, pescadores não recebem as melhorias que constam no orçamento,TCE em busca permanente de esclarecimentos, bens bloqueados de administradores, ações populares, a saúde considerada a pior de todos os governos. Tinha necessidade disso com tanto dinheiro? O governo da prefeita de São João da Barra é bem maior do que foi o meu, ele tinha também a obrigação de ter sido bem melhor que o meu. Uma pena que os números oficias mostram que essa administração vai de mal a pior.

 

Folha — Falando da maneira mais sincera possível, não acha que a oposição na Câmara perdeu a mão contra a prefeita, sobretudo em posições altamente impopulares, como no caso dos shows do último verão e, mais recentemente, da coleta de lixo?

Betinho — Até pode se ter essa sensação, mas sensação nem sempre reflete a realidade. A culpa do que aconteceu foi do governo. O governo não poderia permitir que a empresa deixasse o lixo nas portas das casas das pessoas. Não havia essa necessidade. Humilharam nosso povo e o pior é que tudo ficou por isso mesmo. Deixaram o lixo por causa de uma mensagem que a prefeita queria que fosse aprovada. Deixaram o povo sem água por causa de uma mensagem. Isso foi maldade. Os shows no verão não aconteceram por opção da prefeita, que preferiu priorizar seus recursos. O resto é conversa fiada da turma que se beneficiou com a aprovação da mensagem. Esses mesmos vereadores que ela acusa, ela vive tentando seduzir, da mesma forma que seduziu o ex-presidente. O governo foi o responsável.

Cabral quer João Peixoto candidato em 2012 para deselitizar a oposição

 

O governador Sérgio Cabral (PMDB) convidou o deputado estadual e presidente regional do PSDC, João Peixoto, para se lançar candidato a prefeito de Campos em 2012. A informação foi revelada ao blogueiro pelo próprio deputado, que disse ainda ter sido sondado por outras lideranças estaduais do PMDB (mas não Cabral) para ingressar no partido, convite que declinou: “Não vou sair do PSDC!”.

Apesar das propostas, Peixoto não nega sua preferência pessoal por concluir o mandato na Assembléia Legislativa. Todavia, como se coloca como um “soldado do grupo político”, admite que poderia se lançar tanto a prefeito pelo seu PSDC, como até a vice, numa eventual composição partidária. Aberto também à esta última possibilidade, justificou: “Não tenho vaidades!” . Mas ainda que admita a alternativa, ele restringiu ao campo das especulações a informação de que estaria costurando uma chapa com o ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT), tendo este como cabeça.

Na verdade, sendo candidato a prefeito ou a vice, parece clara a intenção do governador no convite ao deputado egresso do movimento sindical dos taxistas e conhecido por falar, literalmente, a língua do povo: romper com o aparente elitismo das pré-candidaturas até agora apresentadas pela oposição, todas com votação mais concentrada na pedra, nas 98ª, 99ª e parte da 249ª zonas eleitorais. Na 75ª (Baixada), 76ª (Guarus), 100ª (sentido norte da BR 101) e 129ª (BR ao sul), à exceção de Arnaldo, por ter sido prefeito duas vezes, todos os demais nomes têm pouca penetração. 

Levado em consideração que a chapa equilibrada entre periferia e área central foi o que sempre deu a vitória ao grupo de Garotinho — ao próprio, tendo como vices Adilson Sarmet (1988)  e Arnaldo Vianna (96), a Sérgio Mendes com Amaro Gimenes (92), a Arnaldo com Pudim (2000), e a Rosinha com Chicão (2008) —, com execeção não coincidente de quando se pretendeu ignorar o voto das classes média e média alta, com a chapa Pudim/Claudeci derrotada duas vezes consecutivas em 2004 e 2006, a contrapartida popular que Cabral agora busca imprimir para 2012, numa oposição ainda elitizada, tem base na própria lógica eleitoral de Campos.

Rosinha confirma filiação amanhã ao PR — Ave Saulo!

Confirmado aqui, pela própria prefeita Rosinha, em ligação ao jornalista Saulo Pessanha: ela vai mesmo se filiar ao PR no evento que o partido realiza amanhã, a partir das 18h, no Automóvel Clube Fluminense. Contrariando as expectativas relevadas aqui, pelo líder governista na Câmara, vereador Jorge Magal (ainda no PMDB), correta está não só a charge do Zé Renato no post abaixo, como a fonte do experiente Saulão, que havia antecipado aqui, desde terça-feira, a consumação da esperada mundança de legenda da prefeita, eleita em 2008 pelo partido do governador Sérgio Cabral.

E por essas e por outras que o colunista e blogueiro da Folha é referência há mais de 30 anos no jornalismo político desta cidade. Ave Saulo!