Opiniões

Entre serras e mares, entre Atafonas e Éfesos

Detalhe de Heráclito no quadro “A Escola de Atenas”, do pintor renascentista Rafael
Detalhe de Heráclito no quadro “A Escola de Atenas”, do pintor renascentista Rafael

Acabando de chegar agora há pouco ao jornal, o repórter fotográfico e blogueiro Antonio Cruz, sabendo da minha grande identificação com o Pontal de Atafona, me chamou para mostrar umas fotos que fez, no último final de semana, naquele mágico pedaço de areia que sobrevive entre o Paraíba do Sul e o Atlântico. Uma delas me lembrou a parte final de um poema que escrevi, em maio de 2007, em diálogo franco com a vida e a obra do filósofo grego Heráclito de Éfeso (535 a.C./475 a.C.), cujos fragamentos preservados lia enquanto passava um final de semana com meu filho, Ícaro, em Domingos Martins, na serra capixaba.

Creio que os versos estavam mais frescos na memória porque na última segunda-feira, lendo aqui o blog Acontecimentos, do poeta e filósofo Antonio Cícero, vi postado o mesmo trecho de Heráclito que havia escolhido, quase cinco anos atrás, para vir à frente daquele poema. Em meio a tantas coincidências, aquelas que outro filósofo, o alemão Friederich Nietzsche (1844/1900), dizia não haver, deito aqui esta pobre prosa, de lembranças comungadas entre serras e mares, entre Atafonas e Éfesos, para deixar impressas as pegadas dos versos e da lente…

 

 

“este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida”

(heráclito, d 30)

 

faces do mesmo

 

poderia ter usado a coroa do rei de éfeso,

mas renunciou à honra em favor do irmão.

prestar governo aos surdos, dever funesto,

aqui, agora, jônia européia há cinco séculos;

ou na ásia menor, meio milênio antes de cristo.

 

por iluminar seria, já aos antigos, o obscuro;

nada revelariam suas palavras de sibila,

não fosse a oposição do ouvido surdo,

como, sem tensão na corda, emudece a lira,

e a do arco, por relaxada, inutiliza a flecha.

 

ao alcançar a outra margem, não era

mais o mesmo homem, nem mesmos

eram os rios atravessados, múltiplos

a desaguar no Um que a todos gera.

 

media a largura do seu pé pela do sol

por desconhecer outra grandeza ao passo

do homem entre a luz e a própria sombra.

 

domingos martins, 01/05/07

 

 

Foto de Antonio Cruz
Foto de Antonio Cruz
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Este post tem 2 comentários

  1. Obrigada Senhor por não ser cega!

  2. Enfim uma poesia de autoria própria, num blog de Campos, que não precisa ser publicada com desculpa prévia por ser medíocre. Muito bons, tanto a foto, quanto os versos!! Nada sei sobre a obra ou a vida de Heráclito, mas seu poema me despertou a vontade de passar a conhecer. Essa é a verdadeira função da arte, a que enleva e leva adiante, não pedir desculpas, com pena de si mesmo, pela incapacidade de alcançá-la.

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