Opiniões

O helenismo em Heleno

São vários os motivos para se assistir ao filme “Heleno”, de José Henrique Fonseca, filho daquele que é considerado nosso maior prosista vivo: Rubem Fonseca. Serve para quem gosta de futebol e quiser conhecer um pouco mais da sua rica história. Serve para quem, como tantos têm feito, quiser traçar a analogia óbvia entre alguns de nossos atuais craques-problema, como Ronaldinho Gaúcho e Adriano, com seu mais glamoroso precursor. Serve para quem, mesmo sem gostar de futebol, simpatiza com a história dos heróis trágicos, no sentido grego (ou heleno) da palavra, aqueles que só gozam a vida vivendo-a no limite; aqueles, como cantou Adriana Calcanhoto, “que têm fome, que morrem de vontade, que secam de desejo, que ardem”. Serve para quem, como era o caso deste crítico de cinema bissexto, ainda tem alguma dúvida se Rodrigo Santoro é (no mínimo) um bom ator. Serve para quem quiser reconhecer o brilhantismo de um gênio do cinema brasileiro, o diretor de fotografia Walter Carvalho, realçado na adequada película em preto e branco, como foram o coração botafoguense e como se dividiu a vida do ex-atacante Heleno de Freitas (1920/59), gênio da área da mesma linhagem futebolística de Leônidas da Silva, Ademir Menezes, Pagão, Coutinho, Reinaldo, Careca, Romário e Ronaldo Fenômeno. Serve, de resto, a torcedores do Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, ou de clube algum, mas desde que arquibaldos e geraldinos de uma tal de humanidade.

Numa época em que jogador de futebol era encarado como profissão marginal, Heleno inovou também fora dos campos. Filho de um rico fazendeiro de café mineiro, era formado em Direito, frequentador das altas rodas sociais cariocas, membro do Clube dos Cafajestes (que congregava, nos anos 40 e 50, os boêmios jovens e “bem nascidos” do Rio), amante do cinema, da boa música, de carros e motos possantes, das mulheres mais lindas e cobiçadas do seu tempo. Era também narcisista, irascível dentro e fora dos campos, marrento à medula, viciado em éter, marido e pai ausente, violento consigo e com ou outros, um caso clássico e extremado de bipolar, cuja sífilis que se recusou a tratar (“para não ficar frouxo ou brocha” como a personagem diz no filme) agravou até o ponto da loucura, levando-o à morte, no ostracismo de um sanatório em Barbacena, com apenas 39 anos.

Desde a final da Copa de 50, em que fomos derrotados por 2 a 1, pelo Uruguai de Schiaffino, Ghiggia e Obdúlio Varela, em pleno Maracanã, na “nossa maior tragédia nacional, tragédia maior que a de Canudos”, como bem definiu Nelson Rodrigues, rios de tinta já foram gastos na especulação: Se Heleno estivesse em campo, o Brasil teria perdido a Copa? Aguça a curiosidade, sobretudo quando constatado que, jogando por clubes, o único título conquistado pelo maior ídolo do Botafogo pré-Garrincha, como campeão carioca de 1949, foi pelo “Expresso da Vitória” de São Januário, que serviu de base àquela Seleção Brasileira da Copa de 50, cujo maior artilheiro (com oito gols) foi o já citado Ademir Menezes, o “Queixada”, companheiro de ataque de Heleno no Vasco do ano anterior.

O filme mostra o motivo, já que depois de ser barrado no Vasco pelo técnico Flávio Costa, que também dirigiria o Brasil em 50, por se recusar a treinar, quando já começava a pagar o preço físico pela vida boêmia, Heleno colocou um revólver na cabeça do treinador, que depois deu uma surra no jogador. Todavia, o fato é que, em 50, além do entrosamento com Ademir e os ex-companheiros do Vasco, o craque estava ainda no auge, jogando pela milionária liga pirata da Colômbia, na qual mesmo atuando junto de monstros sagrados como o argentino Alfredo Di Stéfano (que depois iria conquistar tudo pelo espanhol Real Madri, sendo comparado pelos europeus a Pelé), a classe e a elegância do seu futebol superior fizeram com que uma estátua em bronze de Heleno fosse erguida na cidade de Barranquila, onde está até hoje, na qual embaixo se lê apenas: “El Jogador” (“O Jogador”).

Todavia, mais do que na Colômbia, onde se atém a mostrar suas proezas na cama com duas prostitutas e sua reação à derrota brasileira na final de 50 (“O Costa se fodeu!), a passagem estrangeira a que o filme dá mais atenção foi pelo Boca Juniors da Argentina, onde, excêntrico, mas sem perder nunca a classe, Heleno treinava de sobretudo no frio de Buenos Aires. Nessa sequência, Rodrigo Santoro evidencia sua entrega física integral ao papel, já que ele próprio se definiu apenas como um “peladeiro esforçado” até fazer o filme, mas após a preparação para ele junto ao ex-atacante Cláudio Adão, o ator mata uma bola cruzada no peito e conclui a gol, com sobretudo e tudo (sic), com a aparente intimidade de um craque.

Entre as cenas no sanatório de Barbacena, e os dias de glória de jogador, nas duas linhas de tempo nas quais a narrativa do filme se divide, talvez seja do ocaso da vida de Heleno a grande cena dramática do filme, quando o tabagista inveterado insiste em oferecer seu cigarro a um colega interno, que acaba dando um tapa na mão do ex-craque e depois chora pelo ato da própria violência, sendo perdoado apenas pelo gesto de quem, num raro momento de lucidez, alcançado só em meio à loucura, finalmente aprendeu o perdão. Em gesto inverso, outra cena que passeia pela retina mesmo horas depois da exibição do filme, é a de Heleno caminhando descalço pelo alto da mureta do Copacabana Palace, tendo como fundo as nuvens do céu em preto e branco, enquanto observa todos seus semelhantes alheios lá embaixo e repete mentalmente, como um mantra de uma religião de si mesmo contra o mundo: “Bando de filhos da puta! Bando de filhos da puta!”.

Entre um oposto e outro, caminha à beira do abismo toda a humanidade tão bem resumida por helenos de outro tempo.

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Este post tem um comentário

  1. Achei o filme de uma beleza quase helênica. Aliás, não cogitava antes de ler esta crítica tal possibilidade, mas é tragihelênico na melhor de sua essência. Concordo com a cotação mínima (máxima) de bom ator para Rodrigo Santoro. Este rapaz é muito competente no que faz, além de helênico em seus traços. A fotografia de Walter Carvalho primorosa, e a trilha sonoroa idem. Recomendo “Heleno” de José Henrique Fonseca para o público mais helênico possível em atenção e sensibilidade.

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