Lúcia Miners — A poeta da sua aldeia

Desde que conheci Lúcia Miners e sua poesia, nos festivais e concursos literários pelos quais nos esbarramos desde os anos 1990, a feminilidade espontânea, o lirismo telúrico e a grande capacidade imagética dos seus versos, por vezes livres, no mais das vezes rimados, despertaram o desejo de me aprofundar na obra daquela senhora meio excêntrica, com cara de avó hippie saída de já hojinha de Woodstock. Há coisa de dois anos, cheguei a entrar em contato com ela, para combinarmos meu franqueamento aos seus poemas. Ela acabou não os mandando, eu não os cobrei e, como cantou o Chico, eis que chegou a roda viva e carregou nosso destino pra lá.

Assim que soube da sua morte, no último dia 8, em que completou exatos 78 anos, no Monsenhor Severino, onde ela morava por opção, passei a correr atrás de pessoas que pudessem ter ficado com parte da sua obra, aquela que sobrevive e sempre importa mais que o autor. Acabei chegando ao também poeta Antônio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi, que tinha organizado e dirigido, em cima dos poemas de Lúcia, um Café Literário, nos tempos em que estes ainda existiam para quebrar a pasmaceira cultural desta cidade. E foi a mesma cidade, ora esvaziada de cultura e desde sempre cortada pelo Paraíba do Sul (o “Paraíba, meu sul” ou “Paraíba de mim” de Lúcia), cujos reflexos em água castanha vi correr no curso da alma dessa poeta de olhos azuis, a partir dos seus 21 trabalhos que me foram enviados pelo Kapi.

Sem nunca ter conversado com Lúcia sobre suas influências, algumas surgiram cristalinas, a partir da leitura da obra, aos olhos de um poeta chegado às paráfrases como eu. Não é, pois, o português Fernando Pessoa (1888/1935), seja o ortônimo do “Cancioneiro”, seja o heterônimo Alberto Caeiro de “O guardador de rebanhos”, que imprime o “sino” e o “rio” da sua aldeia como referências também à aldeia-planície de Lúcia? Se não vejamos…

De Pessoa-Pessoa:

Ó sino da minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro da minha alma”

De Lúcia, em “Paraíba de mim (1)”, em versos ao ritmo dolosamente monocórdio das badaladas que repicam o nome do rio, pontuado ao final pelo gênero numa linda afirmação de mulher:

“E tocar seu nome como um sino,

Para quando você vier.

Pra quando você vier,

Vou guardar o tempo,

Vou dançar no tempo,

Vou prender o tempo

Como uma flor

Em meus cabelos”

Também dela, a analogia pessoana a esse “sino da aldeia” ecoa nos dois últimos versos de “Soneto dos muitos campos”, concluído com referência explícita e passarinheira ao “Cancioneiro”:

“E alvissareiro, canta o sino-catedral,

Canção que ensina aos pardais, cancioneiro.”

Do sino novamente afluído ao “rio da aldeia”, em “Paraíba, meu sul (2)”, Lúcia emerge como mãe d’água seu destino e sua crença:

“Paraíba, você é

Deste deserto meu poço,

Te encontrar é minha fé”

Em “Paraíba de mim (23)”, a paixão-mulher de pernas desavexadamente abertas ao rio-macho é mais uma vez assumida pela poeta:

“Luas se suicidam

Em suas águas

Minguantes, cheias

Paraíbas.

Há um rio em minha vida.

Há um rio

Que corre de mim

Para mim.

Cachorro!”

Aqui, a simulação da zanga da mulher do malandro Paraíba, despida do lirismo, talvez seja também uma referência ao Capibaribe do pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920/99), desvelada logo ao começo do seu “O cão sem plumas”:

“A cidade é passada pelo rio

como uma rua

é passada por um cachorro”

Mas a possibilidade de Cabral em Lúcia, deságua novamente como certeza aldeã em Pessoa, agora como Caeiro:

“Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”

Há várias outras possibilidades de influência na obra de Lúcia. O pantaneiro Manoel de Barros, com suas contiguidades verbais e seu surrealismo colhido do pé, direto da natureza, é outra certeza. Talvez o enfant terrible Arthur Rimbaud (1854/91) de “L’Éternité”(“Achada, é verdade?/ Quem? A Eternidade./ É o mar que se evade/ Com o sol à tarde”) tenha servido de base para a campista brincar de pular carniça sobre o francês, ao final do seu poema quase lisérgico “Terra, fogo, água e ar”:

“Bolas de cor e de luz, com os olhos, sigo,

Como sigo o mar e suas marolas”

De qualquer maneira, se não o fizeram em suas vidas, o poeta menino e a senhora poeta, “tão antiga quanto um jarro Ming”, bem que podem estar a fazê-lo agora…

Despudorada a dar de ombros à opinião alheia, como Rimbaud, Lúcia assumiu em seu “Sorry, baby!”:

“Eu não sou boa

E nem mesmo sou decente…

Minh’alma é bandalha e à toa…”

Já em outro poema, “Para o Dr. Eduardo Salícios”, ela sutilmente faz da previsão fatalista uma deixa à contradita, a molde de um dos seus principais instrumentos poéticos, a ironia:

“Foi ontem,

Quando eu morri

Pela última vez, que percebi:

Não valeu a pena

Ter vivido,

Acho…”

Pois basta ler sua obra, para se ter certeza oposta ao “achado” pela autora, respondida por dois dos versos mais conhecidos de Pessoa, a encabeçar a segunda estrofe do seu “Mar Português”, integrando o livro “Mensagem”, único que publicou em vida, um ano antes da sua morte:

“Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena”

Bem verdade que, em relação a Lúcia, alguns dos seus poemas talvez demandassem maior lapidação. Todavia, nada que apequene o gigantismo da sua alma de poeta, expressa em sua sensibilidade à flor da pele, em seu inquestionável talento imagético e, maior virtude da vate campista, em sua universalidade tribal, melhor resumida pela célebre sentença atribuída ao prosista russo Leon Tolstói (1828/1910): “Quer ser universal, cante a sua aldeia”.

Assim, como Lúcia conclui seu “Meu bueno cantar, me bueno encantar (2)”, entre o rio Paraíba, o sino da Catedral, a Praça São Salvador e seus pardais, uma obra excede a vida ao ecoar “A nota em oboé de uma esperança”.

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Este post tem 6 comentários

  1. Angela

    Aluysio, tudo bom? Circula boato nas rodas de conversa de Campos que Luiz Augusto e Jefferson, do IFF, estão rompidos. O motivo seria que o segundo estaria “se metendo” demais na administração do novo reitor. É verdade isso?

  2. Aluysio

    Cara Angela,

    Sua pergunta não tem nada a ver com o post e, sinceramente, não sei respondê-la…

    Abraço!

    Aluysio

  3. João Carlos

    Desculpe,o título é esse mesmo?

  4. Marcus

    Prezados editores,
    vi de perto essa excelente poeta, e sinto que perdemos outra vez, outra voz nessa cidade. Me comovo sempre quando leio “Paraíba de mim”, e quando lembro da voz calma que recitava… Lúcia. Lúcia, luz. É um desconforto -do tipo de banco de ônibus de periferia-,que nossos conterrâneos não sabem da importância de nossos poetas…Sim , pois apesar de Lúcia ter se aconchegado em nossa cidade, vinda de outras terras, sentia-se pertencente a “esse país”, como ela dizia. E seu amor pelo nosso município, extravasava o Paraíba, e ias pelas ruas como em seu livro “Itinerário Campista”. Ainda estou fazendo amor com um rio.

    Marcus.

    P.S.:Estrelas são vistas ao longe e, quando notamos, estão mortas.

  5. Frânio Abreu

    Tive o prazer de ler dois poemas de Lúcia em festivais de poesia e, por conta deles, também tive o prazer de ouvi-la recitar tantos outros, ainda em sua casa, no IPS, em meio a cães, gatos, aves e papéis, muitos papéis, verdadeiros documentos literários. Acho que ainda tenho alguns poemas de Lúcia guardados e posso repassá-los, caso vc queira.
    Abraços
    Frânio

  6. Aluysio

    Caro Frânio,

    Quero, sim. Pode, por favor, enviá-los ao meu e-mail: [email protected]

    Abraço!

    Aluysio

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