Opiniões

Safo — De mulher para mulher

Dentro do caráter democrático desta Folha Letras, onde todas as opções sexuais são não apenas respeitadas, mas também alvo de admiração sempre que capazes de conduzir à verdadeira arte, hoje os versos da poeta grega Safo (séc. VII a.C.) são usados para ilustrar “As três graças” (na ilustração abaixo), pintado em 1639, num dos últimos trabalhos do maior de todos os barrocos, o flamengo Peter Paul Rubens (1577/1640), hoje em exposição permanente no Museu do Prado, em Madri.

Safo nasceu e viveu na ilha grega de Lesbos. Além de ter cantado o amor por outras mulheres em grande parte da sua poética, a  escritora fundou uma escola para moças em Mitilene, capital de Lesbos, onde lecionava poesia, dança e música para alunas que chamava “hetairai” (“amigas” em grego), tendo se apaixonado por todas, em especial a jovem Atis, sua favorita, cujo amor posterior por um rapaz seria lamentado em versos pela mestra.

Ainda que a própria Safo tenha se casado com um homem, o rico comerciante Andros, que morreu não muito depois, deixando-a rica herança e uma filha, Cleis, foi a partir de Safo de Lesbos que o homossexualismo feminino passou a ser designado por safismo, ou lesbianismo. Independente do tema, o valor da obra de Safo foi reconhecido ainda na Antiguidade Clássica, quando sua autora foi considerada pelos gregos do seu tempo e pósteros como um dos nove maiores poetas líricos produzidos por aquela civilização — sendo homens todos os oito restantes.

Se para os gregos, o épico Homero (séc. VIII a.C.) era simplesmente “O Poeta”, Safo passou a ser chamada por seus conterrâneos apenas como “A Poeta”. De fato, não foi por outro motivo que o filósofo ateniense Platão (428 a.C./348 a.C.) chegou a defender com veemência a divinização da poeta de Lesbos: “Há quem afirme serem nove musas. Que erro!/ Pois não vêem que Safo de Lesbos é a décima?”

Independente às questões de fundo teológico, quando a Europa passou a ser dominada pelos conceitos morais judaico-cristãos, o homoerotismo da poética de Safo passou a ser encarado como ameaça. Ainda que nela cantasse também seu amor por homens, a obra da poeta de Lesbos sofreu expurgos religiosos, sendo queimada em praça pública primeiro pelo padre Gregório de Nanzianzo (329/89), natural da Capadócia (hoje, na Turquia), e depois pelo papa italiano Gregório VII (1020/85), tal como Hitler depois promoveria, no séc. XX, com diversos outros autores, na Alemanha nazista.

Diferente do Führer germânico, os dois Gregórios acabariam depois canonizados pela Igreja Católica. E, graças à santidade misógina de ambos, só foi possível que chegassem até nós fragmentos da obra de Safo, incluindo um dos seus poucos poemas inteiros, reproduzido nesta página na tradução sempre competente do Décio Pignatari (1927)…

As três graças, de Peter Paul Rubens (1639)
As três graças, de Peter Paul Rubens (1639)

A uma mulher amada


Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!

Quem goza o prazer de te escutar,

quem vê, às vezes, teu doce sorriso.

Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia

por minha carne, ó suave bem querida,

e no transporte doce que a minha alma enleia

eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.

Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;

E pálida e perdida e febril e sem ar,

Um frêmito me abala… eu quase morro… eu tremo.

Representação da poeta grega Safo
Representação da poeta grega Safo


Publicado na edição de hoje da Folha Letras, na contracapa da Folha Dois, na Folha da Manhã.

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Este post tem um comentário

  1. Poema Genial!Lindo !Maravilhoso!Só uma mente muito sensível poderia elaborar tão ternas palavras.
    Parabens Aluysio mais uma vez por este deleite.
    Não é à toa que te acho o mais importante jornalista de Campos.Passas de um assunto político para um histórico,para um literário,com uma facilidade incrível;tremenda cultura,sagacidade e sensibilidade.
    Me orgulho de ser tua leitora assídua.

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