Opiniões

Denúncias de pedofilia e extorsão em Campos podem virar CPI na Alerj

Entre as denúncias de pedofilia e extorsão envolvendo o caso conhecido como “Meninas de Guarus”, a partir de uma rede de prostituição de menores trazida a público pela Folha desde 7 junho de 2009 (aqui), o deputado estadual Roberto Henriques (PDB) que chegar à verdade, nem que para isso tenha que solicitar a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Isso foi o que o jornalista da Folha Mário Sérgio apurou na manhã de hoje, durante coletiva convocada pelo deputado, no seu escritório em Campos, assim como noticiou aqui o blogueiro Cláudio Andrade.

Por enquanto, o que existe de fato é a previsão de uma audiência pública da Alerj, em Campos, para tratar do caso, à qual seriam convocados o delegado, o inspetor e o promotor que investigaram o caso. Para que ela aconteça, possivelmente ainda este mês, Henriques ficou de encaminhar ofício à Alerj nos próximos sete dias. Da mesma maneira, quanto às audiências para investigar as atuações da empresa de transportes 1001 e da concessionária do fornecimento de energia elétrica Ampla, que serão realizadas na própria Alerj, o deputado disse que encaminhará os respectivos ofícios até o próximo dia 16.

RH lembrou hoje o caso “Meninas de Guarus” (foto de Helen se Souza - Folha da Manhã)
RH lembrou hoje o caso “Meninas de Guarus” (foto de Helen se Souza - Folha da Manhã)

Abaixo, no sentido de relembrar e ajudar a esclarecer o caso mais polêmico entre os três que merecerão a atenção da Alerj, o blog resgata entrevista publicada aqui, em 1º de junho de 2010, com o promotor Leandro Manhães, a quem coube investigar as denúncias, quando a então vereadora Odisséia Carvalho (PT) tentou e não conseguiu instalar na Câmara de Campos a CPI que Roberto Henriques agora aventa abrir na Alerj…

Leandro Manhães (foto de Ricardo Avelino - Folha da Manhã)
Leandro Manhães (foto de Ricardo Avelino - Folha da Manhã)

No último dia 13, este blog divulgou (aqui) informação de uma fonte, dando conta de que uma operação policial do Rio, para prender suspeitos de envolvimento com uma rede de prostituição de menores em Campos, aconteceria ainda no mês de maio. Pois entramos hoje em junho e a operação não se confirmou. Antes disso, no último dia 19, o blog enviou 10 perguntas sobre o caso ao promotor de Campos encarregado de investigá-lo, Leandro Manhães. Este, por sua vez, enviou suas respostas no dia 28, última sexta-feira. Como toda a atenção da mídia local estava então, focada ao caso da condenação pelo TRE de Garotinho, Rosinha, Arnaldo e Mocaiber, no dia anterior, o blog optou por segurar a publicação da entrevista até o início desta semana.

Sobre a operação policial prevista para Campos, Leandro disse que nada pode falar. A economia nas respostas foi a tônica, quebrada ao fazer as devidas distinções entre prostituição de menores e pedofilia, ignorada pela maioria dos veículos que passaram a divulgar o caso depois que a Folha o revelou com exclusividade (aqui), desde 7 de junho de 2009. Garantindo a isenção política em seu trabalho, o promotor se disse favorável à abertura da CPI da Pedofilia, idealizada pela vereadora Odisséia Carvalho (PT), a quem disse que ainda vai receber para tratar do caso. Como a petista já havia assegurado (aqui), ele também garantiu que o vazamento e utilização de informações para tentativas de intimidação e extorsão de supostos envolvidos também faz parte da sua investigação.

Blog – Neste blog, no último dia 13, foi anunciada uma operação policial, vinda do Rio, que seria deflagrada mês passado e teria como alvo supostos envolvidos com a prostituição de menores em Campos, entre eles um político e pessoas conhecidas da sociedade. Até que ponto isso não foi apenas outra especulação sobre o caso?

Leandro Manhães – Não posso adiantar nada sobre o assunto.

Blog – Nos comentários à nota sobre a operação (aqui), fica clara a condenação prévia de todos os supostos envolvidos. Alguns comentaristas defenderam até a aplicação pena capital, que não está prevista na lei brasileira, mas evidencia em seu desejo uma espécie de morte social de todos os acusados, independente da condenação num tribunal. Isso aumenta sua responsabilidade? Por isso tanta precaução?

Leandro – A responsabilidade de um promotor de Justiça é sempre grande, notadamente em casos rumorosos. A precaução se dá para que não haja manipulação de informações sigilosas obtidas nas investigações nem se frustre a punição dos eventuais culpados.

Blog – Falando ao mesmo blog, em 30 de novembro do ano passado, você chegou a fixar em 19 de dezembro o limite para a entrega da acusação, adiantando que via elementos, então, para propô-la. Por que não cumpriu o prazo, alongado-o até o presente momento? Ainda enxerga os mesmos elementos? Em caso afirmativo, seria capaz de projetar outro prazo?

Leandro – Toda investigação começa de um jeito e, não raro, termina de outro. A complexidade do caso exigiu nova estratégia de investigação. Não há prazo definido.

Blog – Inegável que pelas notícias do suposto envolvimento de ex-integrantes do governo Rosinha, além de um ou mais vereadores, o interesse político também tem pautado a cobrança pela resolução do caso, bem como a veemência com que tem sido feita. Como isolar a investigação desse ingrediente político?

Leandro – Toda investigação deve ser técnica e uma eventual acusação deve ser feita com base em provas. Ouvir dizer nunca é suficiente para uma condenação. Na investigação não há espaço para política.

Blog – No caso da escola de base de São Paulo, em 1994, quando seus proprietários foram acusados de pedofilia e depois inocentados, grande parte da mídia que divulgou o caso foi condenada a pagar indenizações milionárias. Acredita que os veículos de mídia locais estão cientes desse risco?

Leandro – Todo meio de comunicação deve ter um departamento jurídico para orientá-los. Quem causa dano a outrem pode sofrer um processo para reparação.

Blog – Um dos fatores que condena a essa morte social é a repulsa à ideia do sexo com crianças. É o caso da rede de prostituição de menores em Campos que você investiga? Se o sexo consentido com menores entre 14 e 17 anos, já com vida sexual ativa, pode parecer socialmente menos condenável, existe diferença aos olhos da lei? Qual? Afinal, o que configura juridicamente a pedofilia?

Leandro – A rede de prostituição existente no Brasil e não só em Campos tem uma vertente que envolve crianças e adolescentes. Para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), criança é aquela que possui até 12 anos incompletos e, adolescente, o que tem entre 12 e 18 anos de idade. Pelo artigo 244-A do ECA, é crime submeter criança ou adolescente à prostituição ou à exploração sexual. Este é o crime daquele que agencia menores para que um 3º tenha relação com ela. O art. 244-B do ECA também rotula de criminosa a conduta de corromper ou facilitar a corrupção de menor de 18 anos para a prática de infração penal. Este artigo também pune aquele coopta o menor que não está na prostituição, levando-o a tal. Já o artigo 217-A do Código Penal pune aquele que tem conjunção carnal ou pratica outro ato libidinoso com menor de 14 anos. Este é o crime do “consumidor” do serviço prestado pelo agenciador. A Jurisprudência flexibiliza um pouco este último dispositivo, analisando caso a caso se o menor tinha aspecto de um adulto, dentre outros. Em verdade, a pedofilia é conceituada como a atração de um adulto por crianças, genericamente consideradas. Na esfera penal, o termo pedofilia é adotado para todo dispositivo que trata de relação sexual ou ato libidinoso entre um adulto e uma criança.

Blog – Até que ponto a sexualização precoce nas roupas, danças, músicas, na programação de TV, pode também influenciar na geração de casos como o que você agora investiga? Vê alguma maneira para se equilibrar essa aparente contradição de uma sociedade que sexualiza cada vez mais cedo seus adolescentes e suas crianças, ao mesmo tempo em que cobra a preservação da sua inocência?

Leandro – Certamente que o ato de estímulo precoce da sensualidade faz com que as crianças achem o sexo uma coisa aparentemente normal para a idade delas, o que é um equívoco. O tempo do sexo e da exposição do corpo chegará no momento próprio, compatível com o amadurecimento da criança. A sociedade em geral busca o prazer a qualquer custo. É assim no estímulo ao consumismo desenfreado, às drogas lícitas ou não e também ao sexo. Em geral, não se pensa nas consequências de tais condutas e é aí que vêm os sofrimentos.

Blog – A vereadora Odisséia Carvalho (PT) deixou um ofício, no Ministério Público, dia 18 (aqui), para dar ciência do que foi debatido e acordado na audiência pública da Câmara no dia anterior, para tratar da exploração infantil, bem como para agendar uma reunião com você, para saber em que pé andam as investigações. Recebeu o ofício? Agendou a reunião?

Leandro – Em razão da mudança para nova sede do Ministério Público, alguns compromissos tiveram que ser reagendados. Recebi o ofício e será designada uma data para receber a nobre Vereadora.

Blog – Qual sua opinião sobre uma possível abertura de CPI da Pedofilia na Câmara de Campos? Sentiria-se pressionado por uma investigação além da sua? Em que a CPI poderia ajudar nas investigações do Ministério Público? Até que ponto seus inevitáveis componentes políticos poderiam atrapalhar?

Leandro – Todos que têm atribuição investigativa devem investigar e buscar soluções para uma sociedade melhor. Não teria reflexos sobre minha atribuição de investigar, já que cada órgão investigativo tem um enfoque diferente. Só iria somar. Não atrapalharia em nada.

Blog – Além dos crimes que teriam sido cometidos na rede de prostituição de menores em Campos, um aspecto consequente e igualmente criminoso vai também merecer investigação da CPI, segundo garantiu Odisséia: a manipulação de informações para tentativas de intimidação e extorsão. Encontrou indícios de que isso tenha ocorrido em algum momento? Isso também faz parte da sua investigação?

Leandro – Sim.

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Este post tem 2 comentários

  1. É simples a resposta o Sr.PROMOTOR deve estar com receio, ela já deve estar sabendo que tem gente graúda nessa parada, se fosse um grupo de pobres nessa parada ele já tinha expedido o mandado de prisão ou vcs acham isso impossível ????

  2. Certo Marcelo .Tem peixe grande na rede.Crimes contra crianças devem ser solucionados,nao podem ficar impunes.

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