Artigo do domingo — Verdades impessoais

Quase um quarto de século atrás, meu pai me ensinou que a primeira pessoa deve ser evitada a todo custo num artigo jornalístico. Aceita sua ressalva ao longo de todos esses anos, ora assumo, no entanto, seu descumprimento, por não ter outra maneira de fazer um preâmbulo necessário por motivo pessoal: muito antes de se eleger vereador, ou mesmo ingressar na política, Paulo Hirano era médico e amigo do meu pai. E isso, sendo o filho que imagino ser e tendo um pai como tive, vale mais do que ser amigo meu.

Não foi por motivo pessoal, entretanto, que escrevi na edição impressa da coluna “Ponto Final” do último dia 14 de março, em nota intitulada “Atitude de líder”: “Se ser líder de um governo é tranquilizar a população quando, emblematicamente, o secretário de Governo pratica terrorismo psicológico contra esta mesma população, o vereador Paulo Hirano (PR) provou ontem estar à altura da função, ao relativizar a lista de cortes anunciada no dia anterior por Suledil Bernardino (PR), na qual nem mesmo serviços essenciais como Saúde, coleta de lixo e iluminação pública foram poupados do cataclismo anunciado, caso o Supremo Tribunal Federal (STF) confirme a nova lei dos royalties aprovada pelo Congresso Nacional”.

No dia anterior, ao blog “Opiniões”, Hirano garantira que a lista feita e divulgada em e-mail por Suledil, gerando apreensão na população e protestos da oposição, não seria aplicada aos serviços essenciais: “Nessas áreas, como saúde e passagem a R$ 1,00, que já faz parte da vida do campista, seriam mais poupadas do que outras. Tenho certeza que a prefeita Rosinha terá essa sensibilidade, tanto que, no caso na licitação para construção de 4.500 novas casas populares, ela já mandou segurar”.

Todavia, mais do que a distensão da expectativa de caos gerada pela lista, Hirano também se fez merecedor dos elogios na coluna de opinião da Folha por ter tido a coragem de admitir que o susto dos royalties, quer se perca-os ou não, deveria ser utilizado pelo governo que lidera na Câmara para cortar gastos supérfluos: “quando se toma um susto desses, você deve repensar a questão dos gastos, replanejar, refletir, redimensionar”.

Após a liminar no STF à Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) impetrada pelo governador Sérgio Cabral (PMDB), em 19 de março, favorável aos estados e municípios produtores de petróleo, a sabedoria das palavras de Hirano seriam endossadas pelo próprio Suledil, em matéria de duas páginas que mereceu a manchete dominical da Folha no dia 31 de março. Nela, o secretário de Governo de Rosinha deu giro de 180º no próprio discurso, ao asseverar: “Sáude, coleta de lixo e iluminação públicas não serão afetadas, mesmo que o Supremo não siga em plenário a decisão da ministra Carmem Lúcia, que já concedeu liminar pela constitucionalidade dos nossos direitos”.

Até que o STF definisse em plenário a questão dos royalties, Suledil garantiu que as ações do governo Rosinha que aguardariam engavetadas seriam as obras. Entre elas, ele especificou, como Hirano, a construção da segunda etapa do “Morar Feliz”. Emblematicamente, no dia seguinte à matéria da Folha, no 1º de abril, dia da mentira, as palavras de austeridade de Hirano e Suledil seriam publicamente desmentidas pela prática do governo que representam, a partir da publicação em Diário Oficial (DO) da contratação empreiteira Odebretch para construir  4.574 casas do “Morar Feliz”, no valor de R$ 476.519.379,31. Indagado, dois dias depois, sobre a desmoralização do dito pelo feito, Suledil alegou impotente: “Foi a inércia da burocracia, que andou independente da nossa vontade”.

Ainda pior, o desperdício de dinheiro público continuaria a dar o ar da graça de maneira flagrante, como no caso da demolição dos recém-construídos e ainda inacabados quiosques da av. Carmem Carneiro, no dia 22 de abril, que a Prefeitura sequer se dignou a informar quanto custaram ao bolso do contribuinte. Isso sem falar no Campos Folia,entre 26 e 28 de abril, carnaval fora de época e oportunidade, com os cachês milionários pagos a escolas de samba do Rio de Janeiro também não revelados, na tentativa carnavalesca de se conferir algum lapso de vida útil ao maior supérfluo dos royalties em Campos: o Centro de Eventos Populares Osório Peixoto (Cepop), construído ao custo de quase R$ 100 milhões.

Vestida de longo e plumas rosas, sobre as críticas à inoportunidade da folia com dinheiro público, enquanto o STF ainda não definiu a questão dos royalties, a prefeita Rosinha se limitou a dizer no Cepop: “Não me interesso pela opinião do inimigo”. Tirada a máscara, tendo o desperdício erguido como fundo, revelou a face da intolerância, a considerar qualquer crítica lógica como ofensa pessoal, que de cima para baixo dá o tom do governo de Campos, exercido sobre ela e todos do seu grupo pelo marido, o deputado federal Anthony Matheus, o Garotinho (PR), notoriamente conhecido por nunca abandonar a fantasia — como fez ontem, mais uma vez, no programa da rádio Diário, ao creditar à Folha as informações de dissidência passadas e assumidas por seus próprios vereadores, na briga de foice interna em meio à farra dos cargos municipais terceirizados, bancada pelo dinheiro público e livre de fiscalização dos Ministérios Públicos locais.

Por vias tortas, o político de 53 anos, já avô, batizado com nome inglês, mas que se alcunha “Garotinho”, remete ao dilema de “Tabacaria”, nos versos de Fernando Pessoa pela pena de Álvaro de Campos: “Quando quis tirar a máscara,/ Estava pegada à cara./ Quando a tirei e me vi ao espelho,/ Já tinha envelhecido”.

O problema maior é quando quem antes foi sincero e bem intencionado, na aparente incapacidade de influenciar quem o comanda, toma deste a máscara de empréstimo, após ser desmentido simplesmente porque falou a verdade. Infelizmente, tudo indica ter sido o caso de Hirano, ao publicar e endossar na última sexta (03/04), em seu site, uma declaração da secretária de Educação Joilza Rangel, dando conta que o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) “decidiu pelo arquivamento do processo de aquisição de livros por parte da Prefeitura de Campos à Editora Expoente, seja pela modalidade de licitação por pregão ou por inexibilidade”.

Como o blog “Opiniões” e a Folha demonstraram claramente, com documentos disponíveis a qualquer cidadão, no site do TCE, ainda há dois processos abertos sobre a polêmica relação da Expoente com o governo Rosinha: o 204.744-9/12, relativo à inexibilidade de licitação na compra de material didático de 2011, no valor de R$ 7.983.963,90; e 209.232-3/13, que trata da aquisição de compra análoga feita em 2012, no valor de R$ 9.931.603,06, igualmente sem licitação. Sobre estes fatos, aqueles contra os quais não há argumentos, sobrevêm três curiosidades…

A primeira, é que como revelou a matéria da InterTV, veiculada na última quinta (02/05), Campos é o único município fluminense a pagar por um material diferente daquele ofertado gratuitamente pelo ministério da Educação. Se coincidências não há, terá sido outro o motivo para que Campos também tivesse a pior educação fundamental na avaliação do Instituto de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb)?

A segunda curiosidade, é que os dois processos ainda em aberto no TCE são relativos exatamente às duas compras sobre as quais o vereador Marcão (PT) fez pedidos de informação na Câmara, respectivamente em 19 e 26 de março. Com ambos negados pelo “rolo compressor” de Rosinha, o petista os refez conjuntamente diretamente à Prefeitura, usando a lei federal 12.527, que garante a qualquer cidadão o acesso à informação pública. Com o prazo legal de 30 dias vencido na última sexta (03/04), caso as informações continuem sonegadas, o vereador promete ingressar no Tribunal de Jutiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) com pedido de mandado de segurança para obtê-las.

A terceira curiosidade é que, também em seu site, em 19 de abril, Hirano chegou a ameaçar Marcão de representação por quebra de decoro parlamentar, acaso este insistisse em “versões que não correspondem à verdade” nas relações entre a Expoente e a Prefeitura de Campos. Caso haja, na sessão da próxima terça, o debate sobre o caso, tão temido e evitado pelo presidente da Câmara, Edson Batista (PTB), será que a mentira, quando alegada sobre a versão de Marcão, terá o mesmo valor da inverdade, quando comprovada, publicada por Hirano?

Ou, questões pessoais à parte, mas talvez nem tanto, Karl Marx estava mesmo certo: “Ninguém luta contra a liberdade; no máximo luta-se contra a liberdade dos outros”?

Publicado hoje (05/05) na edição impressa da Folha.

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Este post tem 6 comentários

  1. maria

    Muito bom o artigo .Audacioso.Corajoso.Inspiradíssimo.Parabens.

  2. JOSE GERALDO

    A sua análise dos fatos é precisa e corretíssima. A postura desse Jornal tem sido a de mais absoluta imparcialidade e dando todas as oportunidades ao direito de resposta.

    Usado pelos ora mencionados, foram desditos pelos fatos de 1o. de abril.

    O seu texto exprimiu com clareza todos os fatos e a sua postura imparcial. Jogar nas costas de outros aquilo que deveria ser assumido pelo que tem a responsabilidade de falar pelo Desgoverno de que é lider, é, no mínimo, desfaçatez.

    Querer dar golpe institucional, ameaçando de responsabilizar com prática de quebra de decoro a um seu colega, por dizer a verdade, é também fazer ditadura do Poder da maioria.

    Os fatos e documentos já apresentados até agora são farta munição para que o Ministério Público Federal e estadual exerçam seus papeis, responsabilizando criminalmente e civilmente os gestores, nas suas esferas competentes.

    Se quiserem mais documentos, é só requisitar lá na PMCG e no TCE.

    O Dr. Paulo Hirano, bom cidadão que se presume ser, deveria tomar mais cuidados nas suas falas públicas, com devidas autorizações daqueles por quem fala, para continuar a merecer o respeito do povo e de quem o elegeu.

    O que se pode aceitar, é que faça-se a defesa do indefensável, da imoralidade, daquilo que está contrário aos fatos e às provas documentais, falseando a verdade apenas em defesa do Desgoverno do qual é líder, ameaçando quem age dentro dos princípios de sua função pública, como é o caso do vereador Marcão.

    Isso é abominável.

  3. JOSE GERALDO

    corrigindo o último parágrafo: O que NÃO se pode …

  4. Adelia

    EXCELENTE! !!!!! PARABÉNS !!!

  5. Júlia

    Adorei!!!!!!!
    Parabéns!!!!!!!!!!!!!!!!!

  6. Savio

    O texto é exemplar em coerência e retrata com elegância jornalística todo o contexto do tema tratado, meus parabéns.
    O comentário do Sr. José Geraldo, acaba por “complementar” as idéias apresentadas pelos jornalistas. No entanto, faço o meu comentário pessoal, mais exatamente na hoje figura pública do Dr. Paulo Hirano.
    Creio me sentir à vontade por fazê-lo, porque quando da ocasião das eleições do primeiro mandato da Prefeita, ele ligou para a minha casa e conversou comigo pedindo “apoio” à citada candidata.
    Conhecendo-o por haver sido meu médico, e também por ter sido um excelente Diretor da Universidade Estácio de Sá, causa-me total espanto vê-lo assumir atitudes antes impensáveis daquilo que julgávamos ser o seu caráter!
    Há momentos em que fico questionando e não encontro respostas, de como homens reconhecidos como competentes profissionais sérios, quando debandam para o lado da Política deixam-se contaminar a tal ponto que chegamos ao ponto de não mais reconhecê-los!
    Isto é lastimável, principalmente quando a palavra “Política” assume ares negativos e anda longe de sua nobre e original etmologia.

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