Opiniões

Artigo do domingo — Narciso não dialoga com a rua que não é espelho

“Narciso”, óleo sobre tela de Caravaggio (1571/1610), está na Galleria Nazionale d’Arte, em Roma
“Narciso”, óleo sobre tela de Caravaggio (1571/1610), está na Galleria Nazionale d’Arte, em Roma

Em 1988, mesmo um jovem de 16 anos, como este articulista hoje quarentão, naquele mundo sem computadores pessoais, internet ou celulares, num país saído de 21 anos de ditadura militar (1964/85), não pôde deixar de acompanhar e se empolgar com as possibilidades abertas na campanha de prefeito pelo movimento “Muda Campos”, encabeçado pelo então jovem Anthony Matheus, o Garotinho, numa cidade cansada da polarização entre os ex-prefeitos Zezé Barbosa (cuja sucessão era disputada) e Rockfeller de Lima.

Na disputa em turno único, posto que as regras da Constituição aprovada no mesmo ano não valeriam naquela eleição, a certeza da vitória nasceu da manifestação das ruas, com a adesão popular à “Passeata das Rosas”, que seguiu do Mercado Municipal à praça São Salvador, na última semana antes do pleito, então realizado em 15 novembro.

Um quarto de século depois, ontem a edição da Folha abriu em sua manchete de capa: “Em Macaé, prefeito ouve a voz das ruas e se abre ao debate”. A referência (aqui) foi à atitude do chefe do executivo macaense, Dr. Aluizio (PV), ao sair do seu gabinete para dialogar democraticamente com os manifestantes que, como em todo o país, resolveram sair às ruas para cobrar a plenitude dos direitos que entendem sonegados por seus representantes políticos. Ao admitir que sua trajetória política foi construída em cima da mesma insatisfação que levou o povo macaense às ruas, Aluizio disse aos manifestantes:

— Nós somos fruto dessa voz da população e queremos construir um caminho novo, através do diálogo com a sociedade. Por isso, estou ao lado do movimento e o governo vai cumprir seu papel.

Apontado (aqui) em entrevista exclusiva concedida à Folha pelo senador e pré-candidato a governador Lindbergh Farias (PT), publicada no último dia 2, como uma liderança na qual aposta pessoalmente, não só em Macaé e na região, mas em âmbito estadual, Aluizio, no entanto, não foi exceção.
Na reação à voz das ruas expressa nas manifestações também dos municípios vizinhos, em São João da Barra, a empresa de ônibus Campostur, reduziu o valor da tarifa; em Cabo Frio, o prefeito Alair Corrêa (PP) anunciou que vai convocar um plebiscito para que os munícipes participem das decisões de governo; em São Francisco de Itabapoana, a Câmara prometeu colocar na pauta as questões levantadas nas ruas; enquanto em Itaocara, o prefeito Gelsimar Gonzaga (Psol), que já tinha submetido seu próprio secretariado à escolha direta da população, comemorou os protestos em todo o país, adotando uma das suas principais reivindicações, a redução dos gastos públicos, para cancelar a Exposição Agropecuária neste ano, naquele município.

E em Campos? Bem, em relação aos “Cabruncos Livres”, nome dolosamente sonegado por Anthony Matheus, o Garotinho, e por todo o seu grupo político e seus braços midiáticos, após quatro estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Campos terem criado, no dia 14, um mural do movimento no facebook (https://www.facebook.com/MovimentoCabruncosLivres), seguido a uma reunião pública no dia 16, a primeira passeata, no dia 17, levou cerca de três mil pessoas às ruas de Campos, número que dobrou na segunda, realizada no dia 20.

Após Anthony Matheus, o Garotinho, ter tentado se infiltrar no movimento, ao mesmo tempo em que, como de hábito, denunciava seus opositores políticos pelo pecado por ele cometido, seu grupo estimulou a replicação dos “Cabruncos”, com o grupo “Anonymous Campos”, que mesmo sob proteção da Guarda Municipal, sonegada nas duas primeiras manifestações, só conseguiu reunir cerca de 30 pessoas na última sexta-feira, dia 28, na praça São Salvador.

Bem verdade que, um dia antes, a manifestação convocada pelos sindicatos, contando com apoio físico dos partidos de esquerda e aparentemente apenas virtual dos “Cabruncos Livres”, também só conseguiu levar apenas 200 pessoas à praça central da cidade. Todavia, na tarde de ontem, outra reunião pública foi realizada pelos “Cabruncos”, sempre no Jardim São Benedito, na qual ficou definida uma outra manifestação do movimento, a ser realizada na próxima quarta-feira, dia 3, com concentração a partir das 16h, na praça São Salvador, da qual segue em passeata às 18h, com roteiro mantido em segredo, até para evitar novas tentativas de sabotagem.

Até que o novo ato se realize, não há como saber se manterá seu nível de apoio popular, se continuará a crescer ou, como parece ocorrer em todo país, começará a sofrer efeitos de desmobilização. Uma coisa, no entanto, é certa: com sua pauta de orçamento participativo, ficha limpa para todos os cargos comissionados, eleição direta parta diretores das escolas municipais, fim do voto secreto na Câmara de Vereadores, paridade do aumento dos edis ao dos demais servidores do município e isenção da taxa de iluminação pública, a não ser que se banque a brincadeira com dinheiro público, como foi o caso da pintura dos postes na campanha da última eleição de prefeito, condenada pela Justiça Eleitoral, não se verá nenhum(a) rosa nas manifestações populares das ruas de Campos.

Ao contrário de Alozio, Gelsimar Gonzaga, Alair Corrêa e outros prefeitos da região, numa inversão melancólica da realidade de 1988, quando conquistaram pela primeira vez as rédeas do poder na cidade, Anthony Matheus, o Garotinho, e Rosinha não dialogam mais com as vozes das ruas por um motivo muito simples: eles não se veem mais refletidos nelas!

E, como bem lembrou (aqui) o jornalista Ricardo André Vasconcelos, um dos tantos que participaram e acreditaram naquele “Muda Campos” de 25 anos atrás, mas tiveram a fé corroída pelas práticas no poder de lá para cá, sempre vale a paráfrase a Caetano: “É que Narciso acha feio o que não é espelho”.

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

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