Anderson e Ali — De canhota, do pedestal dos deuses à lona dos mortais

Desde a madrugada de sábado para domingo, muita coisa já foi dita e escrita sobre a derrota do brasileiro Anderson “Spider” Silva, por conta do nocaute imposto pelo jovem estadunidense Chris Weidman, que lhe roubou o cinturão de campeão dos pesos-médios do Ultimate Fighting Championship (UFC), em Las Vegas, no segundo assalto de uma luta programada para cinco. Para variar, os idiotas sempre em numeroso plantão no Brasil, já lançaram levianamente seus boatos de que Anderson teria entregado a luta. São os mesmos imbecis para quem a Seleção Brasileira entregou a Copa de 1998 para a França de Zidane, o brasileiro Júnior Cigano entregou o cinturão dos pesados do UFC para o estadunidense Cain Velasquez, a presidente Dilma comprou a Espanha de Iniesta para entregar ao Brasil de Neymar a Copa das Confederações, a imprensa que ousa criticar a corrupção e a incompetência do PT é golpista, e os opinadores da mídia que seguem pela mesma linha, enxergando e apontando o óbvio ululante da preocupante realidade nacional, o fazem por terem sido comprados pela Central de Inteligência Americana (CIA).

É correto, no entanto afirmar que, após sete anos e 16 lutas invicto no UFC, recorde insuperável na divisão mais importante das Artes-Marciais Mistas (MMA), Anderson perdeu a luta do último sábado, mais do que o promissor lutador Weidman a ganhou, mesmo que este também esteja invicto no UFC e talvez seja o único na categoria dos médios, além do brasileiro Vitor Belfort, com capacidade física e técnica para endurecer uma luta contra o nosso Spider. A bem da verdade, desde a vitória deste contra o ex-campeão dos meio-pesados Forrest Griffin, em 2009, numa das suas mais brilhantes apresentações; passando depois, em 2010, pelo brasileiro Damien Maia, sua luta mais criticada, e pelo estadunidense Chael Sonnen, num combate em que perdia todos os cinco assaltos, até encaixar um triângulo (golpe de jiu-jítsu) salvador nos momentos finais; pelo japonês Yushin Okami, numa revanche em 2011; e novamente por Sonnen e pelo também estadunidense Stephan Bonnar, outro meio-pesado, nas suas duas boas lutas de 2012; Anderson já vinha demonstrando a mesma arrogância dentro do octógono, baixando a guarda completamente em vários momentos do combate, que o conduziria à sua primeira derrota no UFC, frente a Weidman.

Daquela peleja memorável contra Griffin, em 9 de agosto de 2009, até o nocaute igualmente memorável sofrido em 6 de julho último, quase quatro anos depois, a única luta em que o agora ex-campeão atuou com sobriedade, respeitando o adversário, sem dar sopa ao azar, foi justamente contra Belfort, em 2011, a quem nocauteou com um chute no queixo, ao melhor estilo “Karatê Kid”, num daqueles golpes que se tenta talvez 10 vezes numa carreira de lutador profissional, para se encaixar apenas um, durante toda a vida. Mas ele manteve sua guarda o tempo inteira atenta, por respeitar, com boas razões, a velocidade e a força dos punhos do ex-campeão Belfort. Contra Weidman, que tem uma envergadura (leia-se alcance de golpe com as mãos) tão boa quanto à sua própria, Anderson achou que poderia brincar. Deu no que deu!

Para quem é capaz de enxergar o mundo das lutas, como tudo mais na vida, além daquilo chapado no presente ou no umbigo passado do seu próprio tempo de existência, inegável também que a guarda baixa, quando os golpes do adversário são fintados unicamente com base na superioridade da técnica, dos reflexos e da resposta motora, é uma característica que Anderson herdou de outro fora de série, talvez o maior lutador da história do boxe (uma das principais “pernas” do MMA, ao lado do muay thay, do wrestling e do jiu-jítsu): Muhammad Ali, pugilista campeão de todos os pesos nada menos que três vezes, entre as décadas de 60 e 70 do século passado. E, como Ali, a guarda baixa junto com as provocações verbais durante a luta, faziam parte de uma estratégia pensada, para colocar o adversário num combate psicológico, tirando-o, portanto, do combate real do ringue.

Como homem, não há como se comparar Anderson com Ali — este, um herói na acepção mais plena da palavra, na luta pelos direitos civis que incendiou os EUA no pós-II Guerra Mundial (1939/45), mas desembocaria pacificamente, algumas décadas depois, na eleição de um tal Barack Obama à Casa Branca. Já como lutador, uma distinção pode ser feita no fato de que o combate psicológico sempre proposto pelo legendário campeão de boxe, visava capturar o adversário, não a si, como parece ter acontecido no sábado com o brasileiro considerado o maior lutador de MMA de todos os tempos.

Em relação a Ali, numa analogia pertinente ao momento presente de Anderson, o mesmo pecado do primeiro foi cometido sequer antes do segundo ter nascido, numa noite fria de 8 de março de 1971, no Madison Square Garden, em Nova York. Voltando de um período de três anos de inatividade, no qual lutou contra o Exército e o Poder Executivo dos EUA, que queriam impor-lhe uma convocação militar para servir na impopular Guerra do Vietnã (1959/75), mas na qual derrotaria seus mais poderosos adversários, no ringue da Suprema Corte do seu país, Ali voltou nos braços do povo para enfrentar quem, com a mesma justiça, se fizera campeão mundial peso-pesado de boxe em sua ausência forçada: Joe Frazier (1944/2011), então jovem, promissor e invicto como Weidman.

Também invicto, inebriado pela vitória moral da sua causa e pela popularidade mundial através dela alcançada, além de fiel fervoroso do islamismo, crença pela qual mudou seu nome cristão de Cassius Marcellus Clay para Muhammad Ali, ele passou os 15 rounds com sua direita sempre baixa, soltando seus golpes retos, de alcance mais longo, enquanto repetia incessantemente para Frazier: “Caia, idiota! Caia! Não sabe que Deus quer que eu seja o campeão? Deus quer que você caia!” Ao que Frazier respondeu, no último assalto de um combate equilibrado, com um cruzado de esquerda, seu golpe mais letal, muito parecido com aquele que Weidman desferiu para nocautear Anderson. Como no boxe, diferente do MMA, as regras não permitem se bater no adversário caído, Frazier aproveitou a chance, no entanto, para complementar com o verbo a contundência da sua canhota: “Pois Deus hoje caiu de bunda!”

Embora também como homem, além do lutador, Ali estivesse muito próximo ao Divino, ele não era Deus. Ainda assim, derrotaria Frazier nas duas lutas que ambos fariam depois, a última delas em Manila, capital das Filipinas, naquela que é considerada uma das mais violentas da história do boxe. Além disso, reconquistaria o cinturão de campeão duas vezes, contra George Foreman, em Kinshasa, capital do Zaire, em 1974, na luta que marcou seu auge, e diante de Leon Spinks, mesmo já em decadência, na Nova Orleans de 1978.

A lenda Anderson Silva pode ter sofrido uma queda, pode até tê-la buscado inconscientemente como homem, mas mesmo aos 38 anos o lutador ainda possui as ferramentas para derrotar Weidman, desde que resolva lutar sério, na revanche já anunciada por Dana White, big boss do UFC, reconquistar o cinturão dos médios, e depois fazer as tão desejadas super-lutas, tanto com o campeão da categoria abaixo, nos meio-médios, o cerebral canadense George Saint-Pierre, ou o detentor do título da categoria acima, nos meio-pesados, o temível estadunidense Jon Jones. Ganhando ou perdendo esses combates ainda supostos, nada impede que faça outra super-luta, aquela que confessa pessoalmente mais desejar, com regras ainda a serem definidas, contra seu ídolo pessoal no boxe, o estadunidense Roy Jones Junior, outro herdeiro legítimo da técnica refinada de Ali e único na história a conquistar o cinturão dos médios e dos pesados entre os profissionais da nobre arte.

Até lá, como um cruzado de esquerda de Frazier ensinou ao maior pugilista de todos os tempos, que a canhota do agora campeão Weidman faça o maior na história do MMA descer do salto, por meio do dolorido aprendizado de uma velha, batida, mas preciosa lição: cautela, canja de galinha (e guarda alta) nunca fizeram mal a ninguém.

Abaixo, os vídeos das quedas, do pedestal dos deuses à lona dos mortais, sofridos por Ali e por Anderson…

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Este post tem um comentário

  1. Maria

    Uma multidão incrédula e anestesiada viu a derrota de Anderson Silva.Foi doloroso,muito doloroso ver o nocaute inesperado por nós,uma pequena multidão aglomerada em frente a uma TV ,na pecuária.Percebia-se no rosto do Anderson no intervalo do 1° / 2° round o olhar incrédulo,perdido dele,infelizmente escolheu o caminho errado e deu no que deu.Mas tem volta ,que te sirva de lição ,como diz meu pai:”Aos trancos se fazem os homens”.
    Adorei a comparação Ali com Anderson PERFEITA

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