Trapézio dos meninos

Madrugada de mudanças, após um domingo de sopro nordeste e sol de inverno, que seria banido na segunda seguinte pelo vento sul, carregador das tormentas na liteira do céu. O dia fora bom com os dois meninos, um seu filho, outro seu afilhado, frutos do mesmo ventre. Algumas mulheres após a mãe de ambos, algo fora dali, mas dentro dele, incomodava a quem se dedicava à paternidade em sangue e por batismo.

Saiu do quarto, onde deixou os meninos, e se encaminhou à sala ao lado. Acendeu o cigarro, buscou caneta e bloco para tentar escrever. Sua prosa, há anos, já era parida e criada em vida integralmente digital. Mas não seus versos, cuja vértebras ainda demandavam o tato da tinta para serem dados à luz. Bem verdade que a poesia, amante de longa data, já não lhe era tão solícita quanto fora um dia. Afinal, como o sexo, era produto também da prática. Mas naquele momento, mesmo dela enferrujado, era a catarse de que dispunha.

Em meio ao barulho do mar e da mudança dos ventos em Atafona, ecoavam dentro de si apenas as batidas do coração. “Menos uma, menos uma”, divagava a ressalva do cineasta Mário Peixoto, gênio de filme mudo e único, “Limite”, em contato revelado com Walter Salles, que depois utilizaria a sentença de morte na vida em um de seus próprios filmes, “Abril despedaçado”. Tentando juntar os cacos daquele início de agosto, mês tradicional de maus augúrios, o cinéfilo e poeta em busca de redenção se lembrou de uma imagem que nunca o abandonara, desde que suas vistas tinham lhe rascunhado na alma.

Poderia ter sido há 10 anos, poderia ser mais. Fato é que abandonava a planície pela BR 101, nos caminhos de serpente entre a Serra do Mar e o Atlântico, rumo às terras de São Sebastião. Guiando o carro ainda na antiga Favela da Linha, antes de Ururaí, percebeu o menino trepado de ponta a cabeça no muro da casa à beira da estrada, só de bermudas, torço nu, sustentando todo seu corpo magro e retinto contra Newton, pelas pernas dobradas à altura do joelho, como trapezista de circo. Braços abertos e tombados pela gravidade, no escambo de prazer com vertigem, ele escancarava no rosto invertido de lado o seu sorriso de marfim.

Por sempre pretender fazer uso da imagem, jamais a esquecera. Enquanto a espinha dos versos era escavada na paleontologia do papel e da caneta, antes de finalmente ganhar projeção de corpo inteiro na computação gráfica do word, ouvia os risos dos meninos brincando no quarto, que acabaram entrando na sala e no poema. E, pelas mãos, finalmente pegaram aquele trapezista há tanto solto em voo no espaço da memória.

Entre a criança do passado e as do presente, o homem encontrou paz para se lançar outra vez do seu próprio trapézio ao futuro. Menino redescoberto em meninos e salvo de si por se saber ainda poeta, ele também sorriu.

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Este post tem 4 comentários

  1. santos

    Alegria compartilhada pela descoberta.

  2. santos

    A vida voltando ao normal.Atafona permite isto.

  3. Savio

    Crônica e poema, lindos!Parabéns!

  4. Flávia D'Angelo

    Simples assim:
    “A mãe falou: meu filho, você vai ser poeta.
    Você vai carregar água na peneira a vida toda.
    Você vai encher os vazios
    com as suas peraltagens,
    e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!”
    Manoel de Barros

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