Opiniões

Cinema de verdade e livre

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A obra e a vida igualmente ricas de uma cantora de samba, o conflito entre palestinos e judeus na for-ma de animação, a história de um homem de cultura que viveu para servir à aristocracia, um resumo do século XX sob as lentes de leitura marxistas do historiador Eric Hobsbawn. Na sequência à mostra Cinema  Verdade, estas são as histórias que desfilarão suas verdades e enganos na tela do Cineclube Goitacá, com a exibição e debate dos documentários “Elza”, de Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan; “Valsa com Bashir”, de Ari Folman; “Santiago”, de João Moreira Salles; e “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, de Marcelo Masagão. Os filmes foram escolhidos por aqueles que os apresentarão e mediarão suas discussões. Na próxima quarta, dia 9, será a vez do produtor cultural Antonio Luiz Baldan comandar o Cineclube. No dia 16 a guarda será passada ao jornalista e cineasta Alexandro Florentino.  Após o intervalo da Semana Santa, o também cineasta Carlos Alberto Bisogno assumirá a linha de frente no dia 30. Já em maio, dia 7. na primeira quarta-feira do mês, será a vez do professor Paulo César Moura. Abaixo o que cada um deles espera desse encontro para ver e discutir cinema, onde a entrada e participação de quem quiser chegar é sempre livre.

 

TunicoAntonio Luiz Baldan – Quem aprecia música já cansou de ver frustradas as expectativas nas cinebiografias de grandes astros, em ficção realista ou documentário, pela opção de diretores, produtores e roteiristas por “uma grande história de vida”, eufemismo para explorar o lado mais dramático desses cantores, deixando a música como acessório alegórico. “Elza”, de Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan, diretor campista, inverte a situação, colocando o dom artístico da cantora em primeiro plano, com leves pinceladas sobre as muitas histórias e dificuldades pessoais, como a fome e as inúmeras operações plásticas. Não se trata de uma biografia de Elza, mas uma tentativa de decifrar o dom “que aprimorou na própria vida”, como observa Paulinho da Viola. O objeto de estudo em Elza é a voz dela, com depoimentos consistentes e encontros musicais com Caetano Veloso, José Miguel Wisnik, Hermano Vianna, João de Aquino, Maria Bethânia, Ricardo Cravo Albin e Paulinho, que também canta com ela.

 

AlexandroAlexandro Florentino – Sempre é bom poder ter onde conversar sobre cinema. E com a perspectiva de que conversar e pensar cinema também é fazê-lo, a expectativa de poder apresentar um filme no Cineclube Goitacá é a melhor possível. Os cineclubes cumprem um papel fundamental, que vai além da pura e simples exibição de filmes, pois proporcionam pensar cinema, arte e culturas coletivamente, e isto é muito importante, sobretudo em tempos de domínio de filmes hollywoodianos nas salas de cinema ou a contemplação solitária de filmes em computadores. E “Valsa com Bashir” pode levantar algumas questões conceituais interessantes a respeito da natureza do documentário, tratando-o enquanto “tratamento criativo da realidade”, em oposição ao conceito de “representação da realidade”, uma vez que o filme é um documentário feito em animação, além de tratar de uma temática complexa e interessante, que abarca a questão dos conflitos entre israelenses e palestinos.

 

 

BisognoCarlos Alberto Bisogno – Acho interessante a oportunidade de em grupo me prestar a refletir sobre a produção fílmica brasileira a partir dos diversos pontos de vista. Entendo que minha participação deve trilhar mais pelos caminhos do entendimento do processo cinematográfico que perpassam o entendimento técnico do cinema: roteiro, direção, fotografia, montagem, som, etc. O documentário mistura fantasia e realidade para contar a história do mordomo Santiago Badariotti Merlo, que dedicou sua vida a servir à aristocracia, apesar de ser viajado, poliglota e dono de uma cultura extraordinária, mesmo vindo de origem humilde. As imagens foram rodadas em 1992, mas permaneceram intocadas por mais de 13 anos. Em 2005, o diretor voltou a elas para descobrir a história que iria contar. Criou-se então um documentário sobre o documentário não acabado, que teve como resultado um marco na história do cinema brasileiro não ficcional.

 

PC MouraPaulo César Moura – Após a morte do meu pai, descobri de verdade que nada é para sempre. Foi assim que tive, pela primeira vez, a comprovação de que somos seres históricos. Estou dizendo isto para falar do filme “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, letreiro encontrado em um cemitério, na cidade de Paraibuna, no interior de São Paulo. Este filme fala das ilusões do homem do século XX; desse homem que viveu a tragédia de duas guerras mundiais, além de revoluções, golpes, ditaduras, nacionalismos e movimentos sociais. Época esta em que, parte dela, eu e meu pai estivemos juntos. O filme de Marcelo Masagão retrata tanto os personagens que entraram para história, como homens comuns que em seu cotidiano também fizeram a história desse século. Por meio da montagem das imagens do século XX e da música composta por Win Mertnes, o filme fala dos contrastes entre um mundo que se envolve com a banalização da violência, o desenvolvimento tecnológico e a loucura pós-moderna.

 

 

O homem de Aran
Pela lente do mestre Robert Flaherty sobre famílias de pescadores dos gigantescos tubarões Basking, na ilha irlandesa de Aran, o Cineclube fechará a mostra Cinema Verdade em 11 de junho

 

 

Documentários clássicos para fase final da mostra

 

Aberta em 12 de março, com o jornalista e cineasta Vitor Menezes, que apresentou seu documentário “Forró em Cambaíba”, a mostra Cinema Verdade do Cineclube Goitacá teve sequência com “Um passaporte húngaro”, de Sandra Kogut, apresentado em 19/03 pelo teatrólogo Antonio Roberto Kapi; “O mistério do samba”, de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, escolhido pelo professor Marcelo Sampaio; e “A opinião pública”, de Arnaldo Jabor, mediado pela jornalista Talita Barros. Após a sequência das próximas quatro sessões anunciada na matéria acima, a mostra seguirá com a produtora cultural Luciana Portinho apresentando “Só dez por cento é mentira”, de Pedro Cesar sobre o poeta brasileiro Manoel de Barros, no dia 14 de maio; o professor Gustavo Soffiati trazendo “O triunfo da vontade”, de Leni Riefenstahl, filme de propaganda nazista, em 21/05; o jornalista Aluysio Abreu Barbosa, em 28/05, levando “É tudo verdade”, que Orson Welles filmou no Brasil; o professor Aristides Soffiati selecionando “Um homem com uma câmera”, de Dziga Vertov, pai do conceito que batiza a mostra, no dia 4 de junho; cabendo ao psicanalista e ator Luiz Fernando Sardinha fechar a mostra em 11/06, com “O homem de Aran”, de Robert Flaherty, outro fundador do cinema documentário. Somente nesta última sessão será escolhido junto ao público presente o tema da próxima mostra.

 

  Publicado na edição de hoje da Folha.

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