Opiniões

Vitor Menezes — Comissão da Verdade, uma oportunidade

Não tenho opinião sobre as denúncias do ex-delegado do Dops, Cláudio Guerra. Na apresentação do seu relato, no documentário “Forró em Cambabía”, dirigido pelo jornalista Vitor Menezes, na abertura das atividades do Cineclube Goitacá neste ano de 2014, em 12 de março, vi e apontei no debate, após a exibição, incoerências e inverdades no depoimento do denunciante. Não sou, nem pretendo ser, politicamente correto como o Vitor e a maioria dos formadores de opinião deste nosso tempo. Todavia, nas chaminés, no martelo e na foice, no fascio, na suástica, no crescente muçulmano, na cruz cristã, no ateísmo pretenso da razão, ou em qualquer outro signo que pretenda impor o todo à parte, concordo com o autor da ressalva: “do quanto pode ser perigosa qualquer visão política que despreze a vida”

 

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Jornalista e diretor do documentário “Forró em Cambaíba”, Vitor Menezes
Jornalista e diretor do documentário “Forró em Cambaíba”, Vitor Menezes

A verdade também para Campos

Por Vitor Menezes

 

A iminente formação de uma Comissão da Verdade em Campos dos Goytacazes, para apurar denúncias sobre crimes de Estado durante o Regime Militar pós-1964, será um grande teste de solidez das nossas instituições. Se, nacionalmente, remexer estas memórias provoca ainda hoje reações contundentes e episódios mal explicados – como a morte recente de um dos militares depoentes da Comissão da Verdade –, nas cidades médias e pequenas, onde as relações familiares e de outros laços de afinidade e interesses ameaçam a todo instante a impessoalidade da aplicação da Lei, o desafio é ainda maior.

Foi por acaso que esbarrei em um dos temas que deverão ser objeto de investigação desta possível comissão local: aquele que envolve as denúncias do ex-delegado do DOPs (Departamento de Ordem Política e Social), Cláudio Guerra, sobre a antiga usina Cambaíba, publicadas pelo livro “Memórias de uma Guerra Suja”, de Rogério Medeiros e Marcelo Netto.

Esta história é parte de um projeto de documentário que inicialmente, antes de saber o destino de uma ocupação de terras que acompanharíamos, tinha como objetivo apenas registrar como é uma atuação do MST (Movimento dos Sem Terra). Mas quis o destino que o local escolhido pelo movimento fosse justamente Cambaíba, e então a questão relatada por Guerra, acerca da suposta utilização dos fornos da usina para queimar cadáveres de militantes políticos durante a Ditadura – o livro registra dez, mas Guerra chega a falar em 12 –, se tornou inevitável. Surgiu então o “Forró em Cambaíba”.

Uma das experiências mais fortes deste trabalho foi a entrevista com o ex-delegado – o mesmo Claudio Guerra que agora é um dos acusados no Caso Rio Centro, em processo judicial aberto a partir de denúncia do Ministério Público. Na narrativa, procurei expor os dois lados da história, à maneira clássica do jornalismo, com a denúncia e com a versão de uma representante da família acusada, Cecília Ribeiro Gomes, que negou com veemência a possibilidade de tal fato ter ocorrido.

Mas, se ainda não é possível afirmar com total segurança quem está dizendo a verdade, a convicção que em mim ficou é semelhante àquela defendida pelo promotor Eduardo Santos, também no documentário: que ao menos se apure.

O Brasil – e também Campos dos Goytacazes, naturalmente – precisa fazer de vez o seu ritual de passagem da Ditadura para a Democracia, como fizeram alguns países vizinhos. Somente um desprezo profundo pela verdade histórica e uma indiferença em relação a crimes humanitários poderia justificar a negativa em encarar de vez o tema e trazê-lo, quaisquer que sejam as suas consequências, à luz.

No fundo, torço para que algum dia se chegue à conclusão de que os fatos denunciados pelo ex-delegado Guerra não são verídicos. Campos, última cidade a abolir a escravidão, não merecia mais esta chaga em sua história. Mas, se for o contrário, é preciso que o município se reconheça em toda a sua crueza, se desculpe formalmente às famílias dos desaparecidos e preserve as ruínas de Cambaíba como um memorial. Suas altas chaminés passariam a ser a lembrança constante do quanto pode ser perigosa qualquer visão política que despreze a vida.

 

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