Artigo do domingo — NÓS pelo BEM de quem?

Nós contra eles

 

Seja por nacionalidade, etnia, política, religião, ideologia, orientação sexual, ou mesmo futebol, não há nada mais perigoso na vida coletiva do que o “Nós contra Eles”. Quem, diabos, determina quem são o “Nós”? Quais interesses humanos segregam do outro lado o “Eles”?

Tão certo quanto todos se imaginam o “Nós”, jamais o “Eles”, é o fato da primeira pessoa do plural se pretender sempre conjugada em defesa do “Bem”, oposta ao “Mal” que só espreita na coletividade sorrateira da terceira pessoa, pela inexistência de uma trigésima quinta.

Primeiro a deixar registro de uma crença fundamentada nos conceitos de bem (Ahura Mazda) e mal (Angra Mayniu) foi o profeta persa Zaratustra, que teria vivido no séc. VI a.C., segundo a tradição. Não por outro motivo, quando propôs a superação do bem e do mal, para que do homem se fizesse o super-homem, ser adequado às novas prerrogativas morais da civilização industrial do séc. XIX, o filósofo alemão W. F. Nietzsche (1844/1900) o fez em seu “Assim falou Zaratustra”, a partir da releitura da figura histórica.

Como a filosofia de Nietzsche, com endosso da sua irmã, acabou sendo usada para tentar justificar pela ciência o nazismo (corruptela de nacional-socialismo) na Alemanha, num saldo final de mais de 60 milhões de mortos na II Guerra Mundial (1939/45), o grande problema talvez não esteja nos conceitos, mas em quem os utiliza — e para justificar quais ações. Como traziam inscrito nas fivelas dos seus cintos os soldados da SS alemã que executaram seis milhões de seres humanos em campos de extermínio pela Europa: “Gott mit uns” (“Deus conosco”).

Enquanto, graças a Deus, não atingimos o mesmo nível de hipocrisia, é quase certo que se pensaram como “Nós” e do “Bem” as mais de 60 mil pessoas que em coro xingaram a presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa, durante o Brasil 3×1 Croácia, nas arquibancadas do Itaquerão (relembre aqui). Na dúvida, certo inteiro é que o mesmo coro de xingamento a Dilma não foi entoado ali pela primeira vez, tendo sido criado e repetido desde as manifestações de rua em junho de 2013, com farto registro em áudio e vídeo na democracia irrefreável das redes sociais (confira aqui).

Mas e daí? Contra os “Eles” em coro do “Mal”, provavelmente também se viram como “Nós” pelo “Bem” muitos dos que ecoaram o discurso de Lula. Apesar da falta de coragem para acompanhar Dilma no Itaquerão com que ele “presenteou” seu time do coração, o ex-presidente depois quis posar de cavaleiro em defesa da donzela, atribuindo os xingamentos a uma suposta “elite branca” (recorde aqui).

Menos mal que tanto Lula, quanto quem se prestou a fazer-lhe claque, tenham sido rapidamente expostos ao ridículo pelo ministro Gilberto Carvalho (veja aqui). Mesmo falando diante de blogueiros chapa branca e militantes do PT, ele testemunhou menos de uma semana após o ocorrido: “no Itaquerão não tinha só elite branca, não. Não fui para o jogo, mas estive ao lado [do Itaquerão], numa escola (…) fui e voltei de metrô. Não tinha só elite no metrô. Tinha muito moleque gritando palavrão dentro do metrô que não tinha nada a ver com elite branca”.

Certamente, quem se dá o trabalho de ler as pesquisas além dos seus números totalizados, percebe que o percentual de eleitores de Dilma, à parte sua tendência generalizada de queda (relembre aqui e aqui), diminui na exata proporção em que aumenta o nível socioeconômico e de escolaridade das regiões e dos entrevistados. Mas seja na maioria dos métodos assistenciais (ou assistencialistas?) de um governo popular (ou populista?), não é diferente do que Lula também fez no Brasil. Tampouco, para usar um exemplo local, do que a prefeita Rosinha faz em Campos, ou do que o deputado federal Garotinho pretende voltar a fazer no Estado do Rio.

E neste sentido, não deixa de ser antropologicamente irônico observar quem se pensa “Nós” em nome do “Bem”, ao se opor aos Garotinho em Campos e no Estado, sem atentar ao limite lógico ultrapassado ao defender um governo federal que opera em diapasão moral, político e persecutório muito parecido. É o oxímoro cada vez mais anacrônico de se julgar Garotinho e Rosinha como o “Eles” do “Mal”, pelos mesmos supostos motivos que se busca enxergar Lula e Dilma como o “Nós” pelo “Bem”.

A elaboração pública de listas negras, por exemplo, reunindo jornalistas e opinadores de diferentes matizes ideológicos, que tenham em comum a “petulância” de criticar um governo de qualquer esfera, é fascismo aqui, é fascismo no Rio, é fascismo em Brasília, é fascismo em nossa casa, no estádio ou na rua. N’ELE reside todo o MAL que deveria ser combatido por qualquer “Nós” com pretensão de “Bem” e sem a dúvida das aspas.

Enquanto isso, a Seleção Brasileira joga de novo amanhã, contra a pior Camarões de todas as Copas, investigada pela suspeita de manipulação de resultado manifesta previamente pela própria Fifa (leia aqui). Sem precisar disso ou de simulações de pênalti, dá para Neymar e cia. (haverá companhia?) ganharem o jogo e a moral necessária para encarar a fase eliminatória e daí embalar.

Dá também para chegar à final do Maracanã, como podem fazê-lo quatro ou cinco outras seleções. Mas nesta reedição presente e paisana da “pátria de chuteiras” militar de 1970, a única coisa que não dá, mesmo em quem nem era nascido, é deixar de sentir saudade do futebol de Pelé, Gérson, Tostão, Jairzinho, Rivelino, Clodoaldo e Carlos Alberto Torres. Mas é só disso!

De resto, mais do que as estultices regurgitadas num coro de arquibancada ou nas bravatas de um ex-presidente sem noção do prefixo, o que deveria ecoar é a advertência do pensador Samuel Johnson (1709/84), cuja Inglaterra já foi até desclassificada:“O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. Neste Brasil em ano de Copa e eleições, oxalá ele não seja o primeiro. Pelo BEM de todos NÓS!

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

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Este post tem 3 comentários

  1. marcos moreira

    ‘RESUMO DA OPERA,NOS SOMOS NOSSOS INTERESSES,QUE NÃO INCLUI ELES,QUE TEM INTERESSES CONTRARIOS.

  2. sandra santos

    O pior é que ninguém do “MAL”
    de acha do “MAL”,ele se acha do “BEM” .
    Fato esse muito subjetivo.O que pode ser do MAL pra mim, pode não ser pra outrem.

  3. Marcelo Amoy

    Excelentes palavras, Aluysio! Grande abraço!

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