Opiniões

Artigo do domingo — Da arte da guerra

Queda de Berlim em  2 de maio de 1945
Queda de Berlim em 2 de maio de 1945

 

O avanço na reta final de Marina Silva (PSB) e Luiz Fernando Pezão (PMDB), como indicam todas as pesquisas mais recentes, fará da primeira presidente da República e manterá o segundo governador do Rio? A pergunta pode ser substituída por outra: líderes nas pesquisas desde o início da campanha eleitoral, a presidente Dilma Rousseff (PT) e o ex-governador Anthony Garotinho (PR) conseguirão resistir ao assalto ameaçador de quem quer tomar o lugar da primeira e de quem não planeja ceder a cadeira ao segundo?

Na política ou na guerra, tática é o que se usa para vencer uma batalha, uma disputa pontual como um debate ou uma pesquisa, ao passo que as guerras (como as eleições) são vencidas pela estratégia. Na guerra, raras vezes se viu tática tão revolucionária quanto a blitzkrieg (guerra relâmpago) criada pela Alemanha na II Guerra Mundial (1939/45), baseada nos deslocamentos rápidos de blindados, com apoio de infantaria, artilharia e aviação, em ações coordenadas.

Para quem assistiu a Mike Tyson lutar no seu auge, ou viu o Flamengo de Zico jogar, é mais ou menos aquilo. Quando o adversário pensa ainda estar em fase de estudos iniciais, já foi nocauteado por uma sessão fulminante de golpes.

Quem só conhece a II Guerra pelos filmes de Hollywood, não tem dúvida: foi o esforço dos Aliados, liderado pelos EUA, a partir do Dia D (em 6 de junho de 1944), que libertou a Europa do jugo da Alemanha nazista. Quem conhece de fato o que foi o maior conflito armado da humanidade, com saldo final de mais de 60 milhões de mortos, sabe que a protagonista real da derrota alemã foi a ex-União Soviética. Quem conhece matemática, que faça as contas: enquanto os russos encararam 172 divisões alemães, todos os demais Aliados juntos (incluídos EUA e Brasil) só deram conta de 42 divisões do exército germânico, mais de quatro vezes menos.

Mas se a tal da blitzkrieg era assim tão à frente do seu tempo, a ponto de ter sido modelo tático aos EUA em suas invasões ao Iraque em 1991 e 2003, como a Alemanha pôde ser derrotada na II Guerra? Simples: homem de gênio militar, conhecedor das virtudes do inimigo, tanto quanto das limitações do seu exército, o marechal russo Gueorgui Zhukov (1896/1974) apenas simulou resistência à invasão alemã, permitindo a penetração inimiga em seu próprio território, muito mais vasto, com mais recursos humanos e materiais do que o agressor. Este, depois de levado ao seu limite logístico, teve o avanço cortado em sua base, transformando invasor em sitiado.

Foi assim que, em dezembro de 1942, a partir da reviravolta na Batalha de Stalingrado (atual Volvogrado, no sul da Rússia), Zhukov comandou sua contra-ofensiva. Dali, ele só parou ao finalmente tomar Berlim, em maio de 1945, definindo a geopolítica do mundo até a queda do famoso muro na capital alemã, em novembro de 1989, que a mesma União Soviética ergueria para depois cair com ele.

Antes disso, porém, os russos só venceram os alemães na II Guerra porque, em bom português, tinham mais garrafas para vender. Leia-se: terra, gente e recursos materiais. Taticamente, Zhukov podia bancar suas perdas humanas e materiais desproporcionalmente maiores a cada batalha contra a temível blitzkrieg, afiançado na certeza estratégica de que, na hora de repor, tinha muito mais de onde tirar para vencer a guerra.

Apenas pelo número de placas que Garotinho ostenta em todos os rincões do território fluminense, em quantidade amplamente superior à soma de todos os demais candidatos a governador do Rio, ninguém pode supor que lhe faltem recursos materiais. Afinal, lá se vão 26 anos da campanha do “tostão contra o milhão”, que em 1988 levaria o então jovem político da Lapa a conquistar primeira vez a Prefeitura de Campos.

Mas será que novamente candidato a governador (perdeu para Marcello Alencar, em 1994, e ganhou duas vezes, consigo, em 98, e com Rosinha, em 2002), Garotinho terá os mesmos recursos para se opor ao avanço de Pezão que a presidente Dilma para tentar conter a onda de Marina? Diferente da certeza dos números entre quem se enfrentou na II Guerra, aqueles apontados pelas atuais pesquisas brasileiras e fluminenses não dão nenhuma certeza.

Se no Ibope Garotinho ainda lidera a corrida (com 27%) contra Pezão (19%), ele empataria no segundo turno não só com o atual governador (ambos com 35%), como com o senador Marcelo Crivella (do PRB, com 34% cada). E as contas são ainda mais apertadas pelo Datafolha, no qual Garotinho já aparece empatado tecnicamente com Pezão (28% contra 23%), mas perderia no segundo turno não só para este (36% a 45%), como também para Crivella (33% a 45%).

Dilma, por sua vez, está empatada tecnicamente com Marina no primeiro turno: 37% a 33% no Ibope e 35% a 34% no Datafolha. Mas a presidente também perderia o segundo turno para a ex-ministra de Lula: 37% a 46% pelo Ibope e 41% a 48% no Datafolha. Todavia, diferente de Garotinho em relação a Crivella no Rio, as pesquisas não apontam em Aécio Neves (PSDB) um terceiro colocado tão perigoso num hipotético segundo turno presidencial, no qual Dilma venceria o tucano por 47% a 34%, no Ibope, e de 49% a 38%, no Datafolha. Ademais, diferente de Pezão, que registrou uma impressionante arrancada de 7% no Datafolha, Marina parece já ter alcançado seu teto de intenções de voto no primeiro turno.

Ao comentar as últimas pesquisas, Garotinho não está errado ao ecoar outro campista, o ex-craque Didi, bicampeão mundial pela Seleção Brasileira em 1958, na Suécia, e 1962, no Chile, que cunhou a frase: “Treino é treino, jogo é jogo”.

No jogo jogado, não há certeza se Dilma e Garotinho terão garrafas para vender daqui até outubro e novembro, na tentativa de encontrar uma estratégia de resistência ou reversão dos avanços de Marina e Pezão. No entanto, das disputas ainda mais acirradas dos campos de batalha da II Guerra, talvez seja pertinente lembrar que a tática do ataque incisivo ao adversário — empregada por Garotinho desde sempre e por Dilma no desespero — foi a de quem só colecionou vitórias para perder no fim.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

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Este post tem 6 comentários

  1. seria bom demais tirar a máscara e a arrogância desses dois.

    a antipatia constante e o sorrio de já ganhou, não condiz com a realidade dos desgovernos que praticam.

  2. No governo Dilma PT, temos mais um escandalo de desvio de muitos milhões, um outro mega mensalão, praticado pela tribo dela.

    No governo Garotinho teremos um retrocesso, ele quer colocar transporte alternativo para a solução do caos no Rio.
    Como em Campos, já temos uma Garotinho governando mal, apesar dos milhões recebidos e gastos de forma errada e desviada, não podemo esperar nada melhor.

    Enquanto o mundo gira, e outras capitais u municipios inovam e evoluem de acordo com o mundo e ano q

  3. aqui, vivemos enfadados ao cheiro de mofo e naftalina por falta de visão governista.

  4. Dilma e Garotinho são farinha do mesmo saco. Assim como foram antes deles Hitler e Stálin. Nossa vantagem é que a queda dos dois primeiros, como cairiam Berlim e depois seu muro, está cada vez mais próxima no Brasil e no estado do Rio. Faltam só dois meses…

  5. Bom ler análises tão lúcidas do nosso presente com a história do mundo. De causar inveja, ainda mais em Campos, essa profundidade de conhecimento sobre a 2ª Grande Guerra. Brilhante artigo. Parabéns.

  6. Muito bom. O tipo de artigo que informa e educa o leitor.

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