Opiniões

Artigo do domingo — Jacarandás e anjos

Ruínas de Atafona, manhã de 02/01/15
Ruínas de Atafona, manhã de 02/01/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Não lido bem com morte. Já a encarei de frente duas vezes, consegui controlar o pavor diante à possibilidade real de deixar de existir, e creio não ter me saído mal. Afinal, como aconselhou Marco Aurélio (121/180 d.C.), imperador e filósofo de Roma: “A morte sorri para todos. Tudo que um homem pode fazer é sorrir de volta”. Mas, até pela chance de já ter cumprido essa bravata latina, e sobrevivido, me acovardo diante à morte alheia pela impossibilidade de encará-la e bater de volta, impotente para brigar por meu semelhante pela justiça das chances de vida que tive, por gente que talvez as merecesse mais.

Myrthes Cardoso Barbosa foi a mulher mais especial que conheci. Assumida toda a parcialidade que um neto pode ter por sua avó, e o que isso pode querer dizer para um filho de Diva Abreu, a lucidez e a longevidade da mãe do meu pai me faziam imaginá-la como uma cruza de gente com árvore: Homo sapiens com jacarandá.

Se uma pessoa com lembrança viva da II Guerra Mundial (1939/45) é de cara projetada anciã pela contemporaneidade, o que dizer de quem trouxe até 2014 suas memórias vivas da I Guerra Mundial (1914/18)? Pois Myrthes, nascida em 1907 no prédio da Lira de Apolo — campista mais da gema, impossível —, contava como se fosse ontem de quando era uma criança e descia as escadas que separavam sua residência, no piso superior, do concorrido boticário do seu pai, no térreo, curiosa com aqueles homens reunidos, seus tons graves e cenhos franzidos, em torno do jornal recém-chegado da capital com as notícias mais recentes dos campos de batalha da Europa, nos tempos em que Adolf Hitler (1889/1945) ainda era um desconhecido cabo do exército alemão.

As consequências da I Guerra mudariam direta e radicalmente a vida de Myrthes, pois nascida da insalubridade das trincheiras européias e espalhada pelo mundo com o retorno dos soldados às suas pátrias, a gripe espanhola mataria a sua mãe, Capitulina, uma intelectual que fazia tradução de revistas francesas ao português. Órfã ainda adolescente, minha avó teve que largar a escola para se converter em mãe dos dois irmãos menores, meus tios-avós Sanoca e Joãozinho, todos falecidos só após os 90 anos. Francisco, pai dos três, além de competente boticário, num tempo em que a função equivalia às do médico e do laboratório reunidas, era também músico autodidata. Orgulhava-se, não sem motivo, de tocar todos os instrumentos de sopro da Lira de Apolo.

Myrthes teve uma paixão na vida: Domingos Barbosa, o “Capitão”. Alto, louro, de olhos azuis e porte atlético, tinha o corpo moldado pelos sacos de farinha que cresceu carregando nas costas, para ajudar o pai padeiro, um lusitano de dois metros de altura e origens celta e judia, da província do Minho, chamado Dionísio, que gostava de misturar feijão na sopa, contava histórias aos netos de quando fugiu de lobos em Portugal e vivia a ecoar a moderação: “Calma que o Brasil é nosso!”.

Myrthes certa vez me confessou que vendo da janela meu avô, rapagão forte de beleza ariana, sem camisa e suado a carregar nas costas a matéria prima do pão, destinou-se: “Esse homem vai ser meu!”. Teve que esperar mais do que o costume da época, casando-se só aos 25 anos, depois que ele foi a Minas, onde ela passava férias, só para pedir sua mão. Tiveram cinco filhos: Dionísio (em homenagem ao avô), Aluysio, Ana Maria, Heloísa e Luiz Edmundo.

O mais trabalhoso foi meu pai. Adolescente rebelde, acabaria expulso do Liceu, após ter desacatado ostensivamente uma professora. Myrthes não teve dúvida ao interná-lo em Pádua. Aluysio protestou num típico dramalhão juvenil: “Se a senhora me internar em Pádua, eu me jogo do trem e morro esmagado nos trilhos”. Ao que sua mãe respondeu com firmeza: “Não tem problema. A gente enterra. Mas você vai morrer estudando”.

Se Aluysio morreria bem depois de ter completado seus estudos e se tornado um dos grandes nomes do jornalismo de Campos e do Estado do Rio, o mesmo sucesso na criação se repetiu sem coincidências com os demais filhos. Dionísio, com a Caiana Discos e depois Vídeo, foi referência por décadas no comércio goitacá. Ana Maria, como professora de Português, lecionou com brilhantismo até se aposentar no Abel, principal colégio de Niterói. Heloísa, cujo sucesso acadêmico lhe valeu ainda jovem uma cobiçada bolsa de estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris, leciona até hoje na UFRJ. E Luiz Edmundo, caçula temporão, é há muitos anos um dos advogados tributaristas mais conceituados do Rio de Janeiro. Nada mal para a fornada da mulher de um padeiro!

Castigada nos últimos anos pela catarata que a deixou capaz de enxergar apenas vultos, no lugar de se entregar, aquela senhora nascida antes da I Guerra usou da audição e da fala como armas para se manter à vanguarda do tempo presente. Diariamente, ouvia em TV e rádio os noticiários nacionais, internacionais e locais. Morando fora de Campos desde 1973, primeiro em Volta Redonda, depois em Niterói, acompanhava a cidade natal pelas leituras que sua filha Ana Maria e sua acompanhante, a inestimável Célia, faziam do jornal fundado por seu filho. Adorava conversar; sobretudo e sobre tudo: do último jogo do seu Fluminense à Guerra da Síria, da presidência de Obama nos EUA ao mais recente escândalo político do Brasil.

Getulista de carteirinha, Myrthes sempre dizia sobre o “Pai dos Pobres” ao meu ouvido desconfiado: “Foi o maior dos brasileiros, meu filho!”. Chegaria também a ser uma entusiasta lulista, mas teve uma enorme decepção com a corrupção do PT trazida a furo a partir do Mensalão e, mais recentemente, pelo Petrolão, se tornando crítica ferrenha daqueles que há 12 anos saqueiam nosso país.

Aos 107 anos, Myrthes adorava viver. E teve uma das vidas mais plenas que conheci. A única coisa que, não ela, mas eu sempre lamentei, é não ter podido completar sua educação formal. Tenho certeza que a academia perdeu uma grande mente, dedicada pela necessidade ao cotidiano de dona de casa, primeiro ao pai e aos irmãos pequenos, depois ao marido e aos filhos, ajudando ainda na criação de três dos 17 netos: Chico, Paula e Zé Guilherme Barbosa Leite, filhos de Heloísa.

Lúcida até o fim, quando sentiu que seu sofrimento seria em vão, e que até os jacarandás um dia se vão, teve a coragem e a dignidade de pedir para morrer, sendo atendida por seu Deus católico e kardecista algumas horas depois. Respirou pela última vez no início da manhã do dia 27, teve seu corpo cremado em Niterói e suas cinzas, como foi seu desejo expresso, serão jogadas no rio Paraíba do Sul, em frente à praça São Salvador onde nasceu e de onde seu coração, em 107 anos, jamais saiu.

Dolosamente sem TV, jornal, rádio e internet, ou sem sair muito de casa, dediquei a passagem de ano para curtir pela minha avó o luto que as necessidades da Folha não me permitiram após a morte de meu pai, seu filho mais parecido com ela. Até ligar à minha mãe, para desejar-lhe feliz ano novo, nos primeiros minutos de 2015, não sabia da tragédia ocorrida dois dias antes, na mesma Atafona na qual me encontrava e onde morrera a pequena Laura Mayerhoffer Peralva, de apenas um ano e meio.

Ainda com a cara ardendo por essa bofetada da vida, acabei de falar com minha mãe e liguei em ato contínuo para Cristina Lima, amiga querida e avó de Laura. Primeira a tomar a neta nos braços após sua morte, ela teve a generosidade de comungar comigo um pouco do que foi a vida de uma criança afetuosa, de pele morena, cabelos e olhos negros, franciscana com os animais e curiosa do mundo que, como as palavras, só começava a descobrir.

Conheci-a pelos olhos da sua avó, do mesmo modo que a minha enxergava sem ver. Como nascem os anjos e jacarandás, ela me tocou.

 

Publicado hoje na Folha

 

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Este post tem 9 comentários

  1. Que testemunho bonito de convivência. Tenho minha Myrthes também, por isso me comovi.
    Para um ano novinho que surge, foram gratificantes o sentimento em palavras.

  2. Brilhantes palavras, não só para descrever a dor das perdas, mas para nos fazer entender que independente do quanto se vive, anjos e jacarandás, sempre farão parte das nossas histórias. Amei sua veracidade. Que Deus as tenha. Abraços.

  3. Brilhante.

  4. Texto primoroso.

  5. PARABÉS! BELO TEXTO, LINDA VIDA ! MEUS SETIMENTOS A VOCÊ E A CRISTINA LIMA,NÃO SABIA!

  6. Emocionante declaraçao de amor.Entao, feliz 2015.

  7. Caros Marcio, Nara, Sandra, Gildo, Luiz Fernando e Elizabeth,

    Do coração do meu coração, no furto ao príncipe da Dinamarca: mt obrigado!

    Abçs!

    Aluysio

  8. Merecedor

  9. Que linda e emocionante história. Me fez lembrar minha bisavó, polonesa judia,que veio para o Brasil e vivenciou muito do que você descreve. Todos temos lindas e tristes histórias de pessoas que mesmo distantes pelo tempo ainda nos ensina e nos mostra o rumo certo.

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