Crítica de cinema — Me engana (bem) que eu gosto

De olhos bem abertos

 

 

golpe duplo

 

 

Mateusinho 2Golpe duplo — O estelionato é, certamente, o mais nobre e simpático de todos os crimes. Ele se configura quando o bandido consegue, mediante ardilosas mentiras e artimanhas, que a vítima lhe entregue voluntariamente o que aquele pretende obter, sem nenhum tipo de violência. O trapaceiro, portanto, deve ser inteligente, bom de conversa, um tanto sedutor e, claro, cafajeste. Um personagem sempre  irresistível, seja na política quanto no cinema.

“Golpe duplo” (“Focus”), dos diretores John Requa e Glenn Ficarra, tenta ser um filme sobre trapaceiros. Will Smith interpreta um sujeito que comanda uma numerosa organização criminosa dedicada a cometer fraudes em escala industrial. A bela Margot Robbie (“O lobo the Wall Street”) faz o papel da iniciante que entra no grupo e que, fatalmente, se apaixonará pelo seu chefe.

O filme é dividido em duas partes bem definidas. A primeira acontece em Nova Orleans e é a mais interessante, pois temos ali a oportunidade de assistir vários golpes e embustes — de díspar originalidade, diga-se. No segundo segmento, contudo, há dois componentes que podem atrair o espectador: Buenos Aires e Rodrigo Santoro. O brasileiro faz o papel do dono de uma escuderia de carros de corrida, e vai lhe propor a Smith um trabalho visando prejudicar seus concorrentes. Mas, dada sua inexpressiva atuação, o interesse  que Santoro gera é bastante fugaz. Baseia-se na surpresa de encontrar alguém próximo num lugar inusitado, e vale tanto quanto a impressão que nos provocaria esbarrar com um campista em Disney World.

Como disse, a segunda metade do filme se passa na capital argentina. E que brasileiro desgosta de Buenos Aires? Há de se dizer que os diretores foram bastante condescendentes com a cidade. Ela aparece como o clichê que os turistas adoram: uma Paris de América do Sul. Ou seja, uma cidade bonita, elegante e charmosa. Sem pobreza, favelas, nem conflitos sociais. Mas, como sabemos que os artistas são soberanos nas suas escolhas estéticas, não há recriminação nestas linhas.

Os filmes de trapaceiros costumam respeitar certos parâmetros. Geralmente há um mestre e um discípulo, um grande plano e uma reviravolta final, onde alguns trapaceiros acabam trapaceados. Mas o que faz a diferença num grande filme de embuste, como são “O golpe de mestre”, de George Roy Hill, ou a saga “11(12,13) Homens e um Segredo”, de S. Soderbergh, ou, por que não, “Nove Rainhas”, de Fabián Bielinsky, é a capacidade de ludibriar o espectador para que ele não tenha a menor idéia acerca de qual personagem está enganando quem, e fazer isso de uma forma plausível. O roteiro, logo, tem que funcionar tanto quanto o golpe do filme.

Os diretores de “Golpe duplo” bem que tentam se apropriar das premissas do gênero. Mas o resultado é fraco, assim como as armações que os personagens realizam, que ora são simples batidas de carteira bem coreografadas, ora são esquemas super elaborados que parecem forçados demais. Entenda-se: nada contra os planos mirabolantes, desde que acreditemos neles. Pois nos filmes, sabemos, o que importa não é o possível, mas o verossímil.

Assim, o terceiro longa da dupla Requa e Ficarra, realizadores das bem melhores “O golpista do ano” e “Amor a toda prova”, resulta numa obra que poderá atrair o espectador pelos seus componentes (o carisma de Will Smith; a beleza de Margot Robbie; a estética ‘cool’; Santoro e Buenos Aires) mas que, no conjunto, não conformam aquele plano genial capaz de iludir o espectador, que não é outra coisa que o grande cinema.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Este post tem um comentário

  1. Emar

    Sem dúvidas, Nove Rainhas é melhor

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