Opiniões

Crítica de cinema — Dragão devorador de atores

Caixa de luzes

 

O sétimo filho

 

Mateusinho 2O sétimo filho — No universo quase ilimitado da computação gráfica, a partir de meados dos anos 1990, com as inovações revolucionárias da Pixar Studios, praticamente não há fantasia humana que o cinema não possa conceber. Com o sucesso de público e crítica da trilogia inicial de “O senhor dos anéis” (2001, 2002 e 2003), que no conjunto faturou quase três bilhões de dólares de bilheteria, além de receber 30 indicações ao Oscar, arrebatando 17 estatuetas douradas, o tradicional gênero aventura de capa e espada foi reinventado, polvilhado por todo tipo de criaturas fantásticas.

O problema é que nem sempre se tem uma material rico como o do escritor britânico J. R. R. Tolkien (autor da trilogia homônima na qual os filmes se baseiam) para se trabalhar, tampouco a competência do diretor, roteirista e produtor neozelandês Peter Jackson para adaptar com sucesso as fantasias da literatura ao cinema. Frutos deste dilema, filmes descartáveis como “Caça às bruxas” (2011, de Dominic Sena), “João e Maria: Caçadores de bruxas” (2013, de Tommy Wirkola) e mesmo “Jack: O caçador de gigantes” (2013), do talentoso diretor estadunidense Bryan Singer, têm sido empilhados na prateleira dos blockbusters de 15 dias, incapazes de imprimir qualquer memória duradoura no espectador, aturdido em meio a tantos efeitos especiais.

É o mesmo caso de “O sétimo filho”, que estreou esta semana nos cinemas de Campos. Nele, Jeff Bridges vive Master Gregory, o último cavaleiro da ordem dos Falcões, composta apenas por sétimos filhos de sétimos filhos, especializada na caça de bruxas e criaturas sobrenaturais. Apesar dos elementos de cristianismo, o mundo em que vivem é fantasioso, misturando chineses e seus típicos chapéus num cotidiano que remete à Europa medieval.

Anos atrás, Gregory prendeu a poderosa feiticeira Mother Malkin (Julianne Moore) numa solitária escavada no meio da rocha de uma montanha. Com a chegada da lua vermelha, ela se fortalece e se liberta, incorporando no corpo de uma menina. Na nova batalha com a bruxa, o cavaleiro perde seu devotado aprendiz Bill Bradley (Kit Harington, o Jon Snow da brilhante série de TV “Game of thrones”). Para substituí-lo, Gregory compra o passe do camponês Tom Ward (Ben Barnes), outro sétimo filho de um sétimo filho, acometido por visões que não entende ou consegue controlar.

Dividido por sua paixão pela jovem bruxa Alice (Alicia Vikander) e a lealdade ao seu novo mestre caçador de bruxas, assim como por sua verdadeira origem, descoberta no decorrer do filme, Tom vai perdendo aos poucos sua pureza, assim como aconteceu no passado com os próprios Master Gregory e Mother Malkin, fazendo de ambos o que se tornaram. Talvez, se fosse buscado algum significado mais profundo, o filme pudesse revelar o caráter misógino e machista de homens caçando mulheres que tanto a eles se impõem, quanto os seduzem.

Mas se “O sétimo filho” merece algo de maior profundidade é o lamento pela maneira como os efeitos especiais em 3D conseguem roubar quase completamente o espaço que poderia ser dividido com grandes atores. Oscar de melhor ator por “Coração louco” (2010, de Scott Cooper), Jeff Bridges consegue ter seu momento, quando Gregory, diante do túmulo da esposa, revela ao jovem aprendiz como e porque se tornou um homem velho, amargo e solitário. Já a Julianne Moore, Oscar de melhor atriz este ano por “Para sempre Alice” (de Wash Westmoreland e do recém-falecido Richard Glatzer, também em cartaz nos cinemas da planície, cuja excelente crítica da Paula Vigneron você pode conferir aqui), é permitida uma única nesga da intérprete que de fato é, em sua expressão física após o fratricídio, já perto do final do filme.

Mas a melhor definição dessa predominância acéfala da computação gráfica sobre a interpretação, fica por conta do ator beniense Dilmon Hounsou. Depois de impressionar meio mundo por sua intensidade dramática em “Amistad” (1997, de Steven Spielberg) e de ser indicado ao Oscar de coadjuvante por “Terra dos sonhos” (2002, de Jim Sheridan), o africano não tem rigorosamente nenhuma chance de mostrar seu talento na pele de Radu, chefe dos assassinos aliado de Malkin. É que, toda vez que ele poderia fazê-lo, no lugar do grande ator, vê-se apenas as três dimensões de um dragão.

O filme hollywoodiano do diretor russo Sergey Brodrov é feito para vender pipoca e ponto. Mas para quem gosta de cinema, sobretudo da arte da interpretação, talvez fosse o caso de cuspir fogo.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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