Opiniões

Ponto final — No absurdo entre o Planalto e a Planície, adivinha quem é o palhaço?

Ponto final

 

 

Teatro do absurdo

Contrário à razão e à lógica como instrumentos de entendimento das ações humanas, o teatro do absurdo produziu grandes dramaturgos, de várias nacionalidades. O romeno Eugène Ionesco, o irlandês Samuel Beckett, o russo Arthur Adamov, o inglês Harold Pinter, o espanhol Fernando Arrabal, o francês Jean Genet e o estadunidense Edward Albee certamente estão entre eles. Mas talvez nenhum fosse capaz de imaginar o que ocorre hoje em Campos, no reflexo seletivo e surreal do cenário nacional.

 

Humilhação e Petrolão

Egresso do teatro, nos tempos psicodélicos da juventude hippie, o ex-governador, ex-prefeito e ex-deputado Anthony Garotinho (PR) é hoje, a partir do seu blog, um dos principais denunciantes dos escândalos do Petrolão na blogosfera goitacá. Bem verdade que sua produção diária de postagens sobre o assunto é motivada pelo envolvimento do ex-governador fluminense Sérgio Cabral (PMDB) e do atual, Luiz Fernando Pezão (PMDB), que juntos impuseram ao político da Lapa a derrota mais humilhante da carreira deste, barrado do segundo turno da eleição ao Palácio Guanabara, para nele reforçar a perda em cinco das sete zonas eleitorais do seu próprio município (aqui).

 

Reeleitas e reféns

E se há lógica nessa postura revanchista de péssimo perdedor, o absurdo reside no fato de que Garotinho, ao mirar no Petrolão, atinge em cheio o governo Dilma Rousseff (PT). Além de ser teoricamente seu aliado, o político da Lapa não demonstra o menor pudor ao atacar uma administração federal que atravessa sua pior fase, mas por erros muito semelhantes àqueles que fazem da gestão municipal de sua esposa, Rosinha (PR), da qual é secretário de Governo e eminência parda, também encarar seu pior momento. Tanto uma, como a outra, tão reeleitas, quanto reféns.

 

Diferença: Moro e Cunha

No populismo assistencialista dos seus currais eleitorais, nas denúncias de corrupção, na incompetência administrativa, na promiscuidade entre público e privado, no fanatismo acéfalo dos seus defensores bancados pelo contribuinte, na mulher eleita para governar e movida como títere pela figura masculina atrás dos panos, as poucas diferenças parecem ser pró-Rosinha. Para sorte dela, o Ministério Público e Justiça de Campos, independente da esfera, nem sonham com o empenho e a competência da comarca federal de Curitiba (aqui). Ademais, caráter pessoal à parte, a Câmara de Campos não tem nada parecido com um Eduardo Cunha (PMDB), ex-aliado dos Garotinho.

 

Esquerda ou direita do quê?

Saída de cena a razão, o absurdo domina novamente o palco quando constatado que quase nenhum dos críticos mais contumazes do garotismo em Campos demonstram o menor pudor ao ignorar solenemente os sucessivos escândalos do lulopetismo no Brasil. Alguns, por nada além de anacronismo dogmático, mesmo jornalistas profissionais, foram incapazes até de escrever uma mísera linha sobre as manifestações populares de 15 de março (aqui e aqui), inclusive em Campos (aqui), na maior mobilização política da história do Brasil desde as “Diretas Já”, em 1984. No absurdo refletido ao espelho, difícil é saber quem fica à esquerda ou à direita do quê.

 

Hipocrisias

Enquanto os absurdos reais se acumulam do Planalto Central à Planície Goitacá, o que domina a democracia irrefreável das redes sociais é o beijo lésbico de ficção na nova novela das 21h da Globo, “Babilônia”, entre as personagens das veteranas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Evangélico, Garotinho, por exemplo, foi contra o beijo e aproveitou sua saliva, como o poeta Augusto dos Anjos, para cuspir na linha editorial da Globo. Preconceitos à parte, foi menos hipócrita do que quem teve orgasmos com a ousadia na dramaturgia da emissora, enquanto acusa de golpista o seu jornalismo.

 

O palhaço

Enquanto isso, naquilo que realmente interessa, ou deveria, Campos terá depositado hoje em sua conta exatos R$ 25.798.323,57, relativos ao repasse de março dos royalties, como a jornalista Joseli Matias adiantou aqui, em primeira mão, na Folha Online. É uma queda de 29% se comparado com o mês anterior, de fevereiro; e 54,2% a menos do que março do ano passado. Segundo o secretário campista de Petróleo, Marcelo Neves, contando a participação especial do último trimestre de 2014, o município já perdeu em 2015 mais de R$ 140 milhões nos repasses. Após anos de vacas gordas com o preço alto do barril de petróleo, ele só não explicou como ficamos sem caixa. Nesse palco, não há nenhum absurdo, leitor: o palhaço é você!

 

Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr, publicado hoje na capa da Folha
Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr, publicado hoje na capa da Folha

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Este post tem 5 comentários

  1. Até que enfim alguém com coragem para dizer umas verdades nessa cidade de tantos absurdos e covardia. Parabéns pelo texto!!

  2. O palhaço, somos nos povo, que colocamos essa turma no poder !!!

  3. Garotistas, lulistas, anti-garotistas, anti-lulistas, Judiciário e Ministério Público de Campos, evangélicos, gays e lésbicas, hipócritas em geral: Duela a quien duela! Texto corajoso e brilhante!

  4. O texto é muito inteligente, concordo. Mas seria da mesma forma inteligente se (trecho excluído pela moderação) porque desenvolveria o texto com o mesmo talento. Mas discordo sobre a crítica sobre o uso dos royalties. Não precisa ser inteligente para perceber que Campos é a cidade do Brasil onde melhor se aplica esses recursos. Afinal, é a cidade do Brasil onde mais se aplica o maior percentual (25%) do orçamento na saúde e também em investimentos públicos (obras de habitação, infraestrutura e saneamento). (Trecho excluído pela moderação)

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