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Crítica de cinema — A magia de Cinderela

Cinematógrafo

 

Cinderela

 

Mateusinho 4Cinderela — Com certo orgulho, o sociólogo alemão Max Weber disse que o Ocidente desencantou o mundo. Com melancolia, o intelectual romeno Mircea Eliade mostrou em toda a sua obra que passamos do sagrado para o profano, e a civilização ocidental teve grande responsabilidade nessa passagem. Embora o cinema ocidental tenha tentado criar um mundo encantado onde a pessoa que assiste ao filme possa se refugiar da realidade dura por algumas horas, a tendência foi também dessacralizar o mundo nos filmes.

Até os contos encantados foram bombardeados e atualizados para a vida atual. As séries “Shrek” e “Monstros S.A.” se incumbiram disso com os contos de fadas e as histórias sobrenaturais. Numa das animações de “Shrek”, as figuras desencantadas protestam contra a desconstrução por que passaram, desejando retornar à fantasia anterior.

Embora forjados num mundo sacralizado, os contos de fada não eram nada idealizados e sonhadores na sua origem popular e anônima. Havia neles crueldade e sangue. “João e Maria” são abandonados pelo pai e pela madrasta na floresta para morrerem. Em “Cinderela”, as invejosas irmãs postiças cortem os dedos do pé para que ele entre no sapatinho de cristal, algo que a apresentadora Andressa Urach gostaria de fazer, como ela mesma declarou numa entrevista, para ter pés menores e mais femininos.

No caso dos  contos de fada, Charles Perrault e outros autores se incumbiram de suavizá-los e torná-los palatáveis para as crianças. Assim, temos a versão mágica de “Cinderela”  dos dias atuais. A versão de Walt Disney é mágica.  Eu acrescentaria que a marca de Disney nas histórias com alguma vertente adulta acabam se impondo como versões originais. O universo  de personagens divididos como “Pinocchio”, de Carlo Collodi, ou de “Peter Pan”, de J.M. Barrie parecem tornar-se definitivamente voltados para a infância, com sua lógica dualista de bem e de mal. Mesmo assim, as crianças gostam muito de passagens aterradoras, como “Uma noite no Monte Calvo”, integrante de “Fantasia”, de 1940.

Especialista em Shakespeare, Kenneth Branagh já enveredou com competência no mundo adolescente ao dirigir “Thor”. Agora, mergulha no mundo infantil com “Cinderela”, sempre criando ambientes shakespearianos. Num filme voltado para crianças, ele constrói uma corte ao estilo de Shakespeare, com brancos e negros vivendo em condições de igualdade. No teatro de Shakespeare, não apenas brancos europeus têm lugar como coadjuvantes e protagonistas.

Em “Cinderela”, um negro ocupa uma posição importante de militar. Na festa para a escolha da princesa que se casará com o príncipe, aparece uma candidata negra. Como no conto de Perrault, todas, ricas e pobres do reino, devem ser convidadas para a festa e devem provar o sapatinho mágico. O crítico Gustavo Oviedo, aqui nesta Folha da Manhã, mostrou condignamente que Branagh retoma o clima feérico de “Cinderela” como fez Disney em 1950. No final das contas, vivendo atualmente com crianças, noto muito bem que elas gostam da fantasia, do mágico, das princesas e dos príncipes, das madrastas más, das bruxas e das fadas madrinhas. A mente delas se encanta com a polaridade bem e mal. “Shrek” e “Monstros S.A.” agradam mais aos adultos por serem demolidores e irônicos.

O clima encantado que Branagh criou para “Cinderela” se aproxima da animação de 1950. Só não reproduz a passagem antológica em que Cinderela, lavando o chão, levanta bolhas de sabão em que sua imagem é refletida incontáveis vezes e todas elas cantam em coro. De fato, na versão de 2015, Cate Blanchett é a âncora do filme, mas não se demora tanto em cena para ser cogitada como oscarizável em 2016.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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