Opiniões

No país de Luís Inácio Adams, nunca há nada que não possa piorar

Apertem os cintos

 

 

Jornalista e escritor Elio Gaspari
Jornalista e escritor Elio Gaspari

Por Elio Gaspari

 

Fritura

A doutora Dilma encarregou o ministro Joaquim Levy de negociar com a agência Moody’s para que a nota de crédito da Petrobras não fosse rebaixada. Ele tentou durante o Carnaval, quando esteve em Nova York, e novamente na segunda-feira passada. Deu água.

Negociações como essa são comuns. Às vezes dão certo, às vezes fracassam. Valem pelo segredo em que são mantidas, seja qual for o desfecho. Se Levy fosse bem-sucedido, o sigilo evitaria que a Moody’s parecesse ter sido pressionada.

Rebaixada a Petrobras, o governo (mas não a Fazenda) revelou a gestão malsucedida.

Pode ter sido pura incompetência, ou um lance de fritura de Levy.

 

Perigo

Se fossem poucos os problemas do comissariado, apareceu um novo. A possibilidade de que surjam novos fatos documentados sobre as petrorroubalheiras, vindos dos Estados Unidos, onde pelo menos duas agências investigam a Petrobras.

Se isso acontecer, é certo que renascerá a tese dos “inimigos externos”. Será falsa; o governo americano zela pela saúde de seu mercado de ações, onde papéis da empresa são negociadas na Bolsa.

Funcionários da Securities and Exchange Commission já estiveram no Brasil.

Em Pindorama, essa função é da Comissão de Valores Mobiliários, com quem diretores da Petrobras fizeram pelo menos sete acordos. Como diria o comissário Luís Inácio Adams, essa é um “especificidade” do Brasil.

 

Sugestão

A CPI da Petrobras poderia funcionar em Curitiba.

Lá ela ficaria mais perto das duas pontas da questão: do juiz Sergio Moro e da carceragem.

 

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com

 

De lei antiterror ao Petrolão, Dilma e Lula unem MST e Marcelo Odebrecht sob sua proteção

CLAUDIO HUMBERTO

 

 

EUA: Dilma impediu uma lei antiterror no Brasil

Embaixador americano em Brasília Clifford Sobel endereçou em 2008 mensagem secreta ao Departamento de Estado dos EUA, “vazado” pelo site WikiLeaks, criticando a lentidão do governo brasileiro na aprovação da lei antiterrorismo. O governo alegava haver risco de enquadrar o Movimento dos Sem-Terra (MST) como grupo terrorista. Sobel não tinha dúvida: Dilma Rousseff foi quem sepultou o projeto.

 

Compromisso

Adotar legislação antiterror foi compromisso assumido pelo Brasil e uma centena de países, a partir do terrível 11 de setembro de 2001.

 

Para inglês ver

No e-mail, especialistas em antiterrorismo dizem que o trabalho do Planalto foi “cortina de fumaça” para fingir que levava o assunto a sério.

 

Só na prática

Sobel citou fonte do governo brasileiro para quem um ataque ao País é “tão improvável” que “o governo é incapaz de dar atenção ao assunto”.

 

Escalada

O ex-embaixador americano conclui: os esforços dos EUA para colocar a lei de volta na agenda do Brasil será um caminho “ladeira acima”.

 

Odebrecht virou desdobramento da Lava Jato

O depoimento do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que confessou ter recebido da Odebrecht ao menos R$ 59,8 milhões em propina, motivou apuração especial da força-tarefa da Lava Jato contra a empreiteira baiana. E os resultados estariam na iminência de aparecer, segundo se acredita no Congresso, com devassa e prisão dos principais executivos, incluindo seu presidente, Marcelo Odebrecht.

 

Azeitado

Segundo Paulo Roberto Costa, a propina rendeu a Odebrecht, em consórcio com a OAS, um contrato de R$1,5 bilhão, em Abreu e Lima.

 

Caixa cheio

A Odebrecht foi a empreiteira que mais faturou na era Lula-Dilma: cerca de 53% dos R$ 71 bilhões gastos nos governos petistas.

 

Lá vem bomba

A eventual prisão de Marcelo Odebrecht preocupa Dilma, que antes o detestava e depois se ligou a ele. É o empreiteiro mais ligado a Lula.

 

 

Publicado aqui, no Diario do poder

 

Para Dilma e PT, todos os males são externos. Para Levy o problema vem de dentro mesmo

Charge do Chico Caruso, baseada em foto de André Coelho e publicada na capa de O Globo de ontem
Charge do Chico Caruso, baseada em foto de André Coelho e publicada na capa de O Globo de ontem

 

 

Jornalista Mary Zaidan
Jornalista Mary Zaidan

Levy põe PT e a oposição no divã

Por Mary Zaidan

 

Com apenas uma frase — “essa brincadeira da desoneração custa R$ 25 bilhões por ano, não tem criado e nem sequer protegido empregos” —, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conseguiu fazer o que a oposição nem tentou ousar. Lavrou, de forma inconteste, a incompetência de Dilma Rousseff, e enterrou todos os argumentos que ela e o PT insistem em usar para transferir a outros a responsabilidade dos estragos que fizeram.

Levy tem dito verdades. Algo raro, que não costuma ser tolerado pelo governo.

Mas, ao contrário de qualquer outro auxiliar, ele não toma pito por discordar da presidente. Nem mesmo quando a critica publicamente.

Dilma apenas finge que não é com ela e, devidamente instruída pela propaganda palaciana a manter as cores do discurso de campanha, repete a cantilena de que tudo que faz é em nome dos pobres, em favor do emprego e de “mais crescimento”.

Dane-se se a conta de luz vai ficar três vezes mais alta do que era antes da redução da tarifa que ela inventou em 2013. Se a inflação alcançou 1,33% em fevereiro, 7,36% em 12 meses, quase 1% acima do teto da meta, ou se o crescimento da população desocupada foi de 22,5% no mês passado. Que a indústria tem crescimento negativo e a economia estagnou.

Na fala de Dilma e do PT, todos os males são externos — culpa de FHC ou da mídia. Sem tergiversar, para Levy o problema vem de dentro mesmo. Cordial, chama de “derrapadas” ou de alternativas “grosseiras” o que foi feito no mandato anterior.

Vê-se no governo a bipolaridade cultivada pelo petismo. Diante dos percalços que cria para si, o PT ora se deprime, com o mea-culpa de alguns, ora se excita e chama todos para a batalha nas ruas, como fez o ex Lula ao convocar o “exército do Stédile”.

Ainda que doentia, a lógica bipolar tem funcionado para o PT. Talvez porque, acima de qualquer outra coisa, Lula sempre se beneficiou dela.

Agora não há consenso. Aguentar o neoliberal Levy e defender ajustes que privilegiam o equilíbrio das contas, cortam privilégios e benefícios, é preço alto demais para o petismo. Difícil de defender nas centrais sindicais, nas frentes de batalha. E em nome de quê? De Dilma?

O PT sabe que é preciso salvar o mandato depauperado da presidente. A pupila de Lula não pode atrapalhar a campanha de 2018.

O problema é que Levy não tem compromisso com o projeto de poder de Lula. E, ao que tudo indica, não está disposto ao jogo do vale tudo. Muito menos a brincadeiras que coloquem o país em risco.

Na outra ponta, ainda que defenda teses que os tucanos apoiam, Levy assiste ao PSDB, em surtos cegos, negar-lhe apoio.

De uma só vez Levy desnudou Dilma e pôs o PT e a oposição no divã.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

Num momento em que exigiria grandeza, o que se vê é a miséria da política

Na brincadeira de boneco de ventríloquo, João Santana, ex-marqueteiro de Hugo Chávez, e Dilma Rousseff
Na brincadeira de boneco de ventríloquo, João Santana, ex-marqueteiro de Hugo Chávez, e Dilma Rousseff

 

 

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e ex-presidente da República
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e ex-presidente da República

A miséria da política

Por Fernando Henrique Cardoso

 

Otimista por temperamento com os necessários freios que o realismo impõe raramente me deixo abater pelo desalento. Confesso que hoje, no entanto, quase desanimei: que dizer, que recado dar diante (valham-me os clássicos) de tanto horror perante os céus?

Na procura de alento, pensei em escrever sobre situações de outros países. Passei o carnaval em Cuba, país que visitava pela terceira vez: a primeira, na década de 1980, quando era senador. Fui jurado em um prêmio Casa de las Américas.

Voltei à Ilha como presidente da República. Vi menos do povo e dos costumes do que na vez anterior: o circuito oficial é bom para conhecer outras realidades, não as da sociedade. Agora visitei Cuba como cidadão comum, sem seguranças, nem salamaleques oficiais. Fui para descansar e para admirar Havana, antes que o novo momento econômico de relações com os Estado Unidos a modifique muito.

Não fui, portanto, para avaliar a situação política (sequer possível em sete dias) nem para me espantar com o já sabido, de bom e de mau, que lá existe. Não caberia, portanto, regressar e fazer críticas ao que não olhei com maior profundidade.

Os únicos contatos mais formais que tive foram com Roberto Retamar (poeta e diretor da referida Casa de las Américas), com o jornalista Ciro Bianchi e com o conhecido romancista Leonardo Padura.

Seu livro “El Hombre que amaba los perros”, sobre a perseguição a Trotski em seu exílio da União Soviética, é uma admirável novela histórica. Rigorosa nos detalhes, aguda nas críticas, pode ser lida como um livro policial, especialidade do autor, que, no caso, reconstitui as desventuras do líder revolucionário e o monstruoso assassinato feito a mando de Stálin.

Jantei com os três cubanos e suas companheiras. Por que ressalto o fato, de resto trivial? Porque, embora ocupando posições distintas no espectro político da Ilha, mantiveram uma conversa cordial sobre os temas políticos e sociais que iam surgindo.

A diversidade de posições políticas não tornava o diálogo impossível. Eles próprios não se classificavam, suponho, em termos de “nós” e “eles”, os bons e os maus.

Por outra parte, ainda que o cotidiano dos cubanos seja de restrições econômicas que limitam as possibilidades de bem-estar, em todos os populares com quem conversei, senti esperanças de que no futuro estariam melhores: o fim eventual do embargo, o fluxo de turistas, a liberdade maior de ir e vir, as remessas aumentadas de dinheiro dos cubanos da diáspora, tudo isso criou um horizonte mais desanuviado.

É certo que nem em todos os contatos mais recentes que tive com pessoas de nossa região senti o mesmo ânimo. Antes de viajar, recebi a ligação telefônica da mãe de Leopoldo Lopes, oposicionista venezuelano que cumpriu um ano de cadeia no dia 18 de fevereiro.

Ponderada e firme, a senhora me pediu que os brasileiros façamos algo para evitar a continuidade do arbítrio. Ainda mantém esperanças de que, ademais dos protestos no Congresso e na mídia, alguém do governo entenda nosso papel histórico e grite pela liberdade e pela democracia.

Esta semana foi a vez de Enrique Capriles me telefonar para pedir solidariedade diante de novos atos de arbítrio e truculência em seu país: o prefeito Antonio Ledezma, eleito ao governo do Distrito Metropolitano de Caracas pelo voto popular, havia sido preso dias antes em pleno exercício de suas funções.

Não bastasse, em seguida houve a invasão de vários diretórios de um partido oposicionista. Note-se, como me disse Capriles, que Ledezma não é um político exaltado, que faz propostas tresloucadas: ele, como muitos, deseja apenas manter viva a chama democrática e mudar pela pressão popular, não pelas armas, o nefasto governo de Nicolás Maduro. Esperamos todos que o desrespeito aos direitos humanos provoque reações de repúdio ao que acontece na Venezuela.

Até mesmo os colombianos, depois de meio século de luta armada, vão construindo veredas para a pacificação. As Farc e o governo vêm há meses, lenta, penosa mas esperançadamente abrindo frestas por onde possa passar um futuro melhor.

Amanhã, segunda-feira, 2 de março, o presidente Santos e outras personalidades, entre as quais Felipe González, estarão reunidos em Madri num encontro promovido por “El País” ( ao qual não comparecerei por motivos de força maior) para reafirmar a fé na paz colombiana.

Enquanto isso, nós que estamos longe de sofrer as restrições econômicas que maltratam o povo cubano ou os arbítrios de poder que machucam os venezuelanos, eles também submetidos à escassez de muitos produtos e serviços, nos afogamos em copo d’água.

Por que isso, diante de uma situação infinitamente menos complexa? Por que Lula, em lugar de se erguer ao patamar que a história requer, insiste em esbravejar, como fez ao final de fevereiro, dizendo que colocará nas ruas as hostes do MST (pior, ele falou nos “exércitos”…) para defender o que ninguém ataca, a democracia e — incrível — para salvar a Petrobras de uma privatização que tucano algum deseja?

Por que a presidente Dilma deu-se ao ridículo de fazer declarações atribuindo a mim a culpa do petrolão? Não sabem ambos que quem está arruinando a Petrobras (espero que passageiramente) é o PT que, no afã de manter o poder, criou tubulações entre os cofres da estatal e sua tesouraria?

Será que a lógica do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e de seu partido? Não percebem que a situação nacional requer novos consensos, que não significam adesão ao governo, mas viabilidade para o Brasil não perder suas oportunidades históricas?

Confesso que tenho dúvidas se o sentimento nacional, o interesse popular, serão suficientes para dar maior têmpera e grandeza a tais líderes, mesmo diante das circunstâncias potencialmente dramáticas das quais nos aproximamos. Num momento que exigiria grandeza, o que se vê é a miséria da política.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

Crítica de cinema — Fetiche sem tesão

Caixa de luzes

 

 

Cinquenta tons de cinza

 

 

Mateusinho 2Cinquenta tons de cinza — Já virou lugar comum dizer que um filme nunca está à altura do livro. Muito embora haja livros excepcionais que geraram filmes estupendos, como “Os sete pilares da sabedoria”, no qual o oficial britânico T. E. Lawrence narra com impressionante riqueza de detalhes como “tomou ondas de homens nas mãos” ao liderar a Revolta Árabe contra o Império Turco na I Guerra Mundial (1914/18). Político, mas também Nobel de Literatura, Winston Churchill preconizou sobre o extenso livro: “haverá de viver enquanto o inglês for falado em algum recanto do globo”. Adaptado às telas em 1962, pelo mestre inglês David Lean, gerou um dos grandes filmes já feitos: “Lawrence da Arábia”, protagonizado por Peter O’Toole numa das maiores interpretações da história do cinema.

Muito embora o filme, assim como o livro, fale da tortura e abuso sexual a que Lawrence foi submetido quando caiu prisioneiro dos turcos, isso passa longe de ser o ponto principal da sua história. Não li “Cinquenta tons de cinza”, bestseller de E. L. James, outra escritora britânica, que vendeu mais de 100 milhões de exemplares em todo o mundo, mas não creio que mesmo seu crítico mais entusiasmado fosse capaz de tecer sobre a trilogia literária algum elogio à altura do que Churchill fez a “Sete pilares”. Se nesta obra, baseada em fatos reais, a tortura e o abuso sexual são um flagelo da guerra, eles se tornam objeto de desejo em “Cinquenta tons” e seu mergulho ficcional no universo BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo). E se quase não há mulheres no livro ou no filme de Lawrence, são elas o grande segredo do sucesso de vendas do livro de James, adaptado ao cinema hollywoodiano por outra britânica, a diretora Sam Taylor-Johnson.

A história gira em torno de um casal de manjados arquétipos. Christian Grey (Jamie Doman) é jovem, empresário bem sucedido, podre de rico, cool e ostenta a indefectível (e desejada) barriga tanquinho — pouco importa se por malhação, lipo ou ambas. Por sua vez, Anastassia Steele (Dakota Johnson) também é jovem, mas sonhadora, inocente, estudante de literatura e, pasme você, virgem. A descoberta deste detalhe, raro no hedonismo pós-moderno e niilista dos nossos dias, serve para atiçar ainda mais o instinto predatório do Sr. Grey, como o personagem gosta de ser chamado.

Se para qualquer pessoa virgem a primeira relação sexual já é por si só um admirável mundo novo, o que dizer se seu primeiro parceiro se assume praticante do BDSM, cujo desejo sexual está diretamente associado à dominação física e mental extremadas de si ou do outro? E como nesta área qualquer deslize não consensual pode acabar num tribunal, sobretudo se o acusado for rico e famoso, Grey insiste o tempo inteiro para Ana assinar um contrato pré-coito, o que ela protela, enquanto também negocia e de certa maneira se impõe, fazendo ele declinar de algumas opções, digamos, mais pesadas.

Se a trilogia literária conquistou leitores no mundo todo, sua adaptação cinematográfica também colecionou protestos veementes de praticantes do BDSM espalhados pelo planeta, que acusam o livro e, sobretudo, o filme, de deturpar suas práticas sexuais. Quem, independente da variante, conhece o sexo da vida real, poderá notar a ausência de suor nos corpos dos amantes em todas as cenas mais tórridas. Sob o céu quase sempre chuvoso de Seattle, tanta assepsia, como no preservativo politicamente correto sempre usado por Grey, soa artificial, pasteurizado demais, sobretudo na cidade que pariu o som sujo (mas pungente) do rock grunge.

Quando se constata, segundo foi noticiado na mídia mundial, que uma mulher no México chegou a ser presa por atentado ao pudor, enquanto se masturbava num cinema no qual o filme era exibido, dá até vontade de endossar uma dessas generalizações que polvilham as redes sociais: “só pode ser capaz de se masturbar com ‘Cinquenta tons de cinza’ quem nunca soube o que é trepar”.

Para quem conhece um pouquinho mais de sexo e sobretudo de cinema, filmes como “O último tango em Paris” (1972), de Bernardo Bertolucci; “Império dos sentidos” (1976), de Nagisa Oshima; “9 1/2 semanas de amor” (1986), de Adrian Lyne; e “Instinto selvagem” (1992), de Paul Verhoeven, são pedidas muito mais sedutoras.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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