Crítica de cinema — Obsessão previsível

Bagdá Café

 

O garoto da casa ao lado

 

Mateusinho 2O garoto da casa ao lado — Desde “Psicose” (1960), dirigido pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock e estrelado por Anthony Perkins, um dos assuntos frequentemente abordados no cinema é a trajetória de psicopatas, cuja maior representação continua a ser Norman Bates. “Bates Motel” (2013), criada por Antonio Cipriano e baseada na obra de Hitchcock, “O silêncio dos inocentes” escrito por Thomas Harris e publicado em 1988, e dirigido por Jonathan Demme e lançado em 1992 – e “Paranoia” (2007), de D.J. Caruso, são algumas peças de ficção que se tornaram conhecidas pelas narrativas que apresentam relações doentias entre os protagonistas e as pessoas que os cercam.

Apesar do não ineditismo quanto ao enredo, o filme “O garoto da casa ao lado” oferece ao espectador mais uma oportunidade de apreciar o suspense característico que cerca os roteiros sobre psicopatas. Dirigido por Rob Cohen, o longa-metragem conta a história de Claire Peterson (Jeniffer Lopez), uma professora de Literatura Clássica que está separada do marido, Garrett (John Cobertt), e vive com o filho Kevin (Ian Nelson).

Em uma tarde, a mulher conhece o solícito, gentil e educado Noah Sandborn (Ryan Guzman). Sobrinho-neto de um homem impossibilitado de andar, o rapaz demonstra carinho e extremo cuidado com o idoso e com Kevin, comovendo Claire, que passa a olhá-lo com interesse. Tais características são prenúncios da verdadeira personalidade do jovem, que se mostra agressivo e pela protagonista após os dois se envolverem sexualmente em uma noite — cena marcada pelo erotismo apelativo.

Exatamente como esperado nos longas-metragens do gênero, o filme se desenrola a partir das ações doentias e obsessivas de Noah, que começa a perseguir Claire e a família. Apesar de ser alertada por Vicky Lansing (Kristin Chenoweth), vice-diretora da escola onde trabalha, a professora não percebeu o jeito doentio do novo vizinho. Ele se torna uma referência para Kevin e destrói o relacionamento do garoto com o pai.

O roteiro, de Barbara Curry, não apresenta novidades. É possível que o público, nos primeiros minutos do filme, trace o destino dos personagens principais sem grandes dificuldades. O suspense existente na história é possibilitado não pelo enredo, mas pelo trabalho de fotografia. As cenas, especialmente durante o clímax da narrativa, são escuras e, com o auxílio da trilha sonora em certos momentos, tornam o ambiente denso e angustiante. Os enquadramentos escolhidos para a gravação também favorecem a tensão, principalmente quando há opção pelo plano detalhe e primeiro plano, valorizando expressões e gestos dos atores.

As opções estéticas, no entanto, não escondem os buracos existentes no filme. Um aspecto mal explicado em “O garoto da casa ao lado” é o Sr. Sandborn, tio-avô de Noah. Adoentado, o personagem aparece nas primeiras cenas — impossibilitado de andar — e nas últimas — caminhando normalmente. Todo o percurso feito pelo idoso é apenas comentado em poucos diálogos. Com isso, ele é apresentando como figurante, que poderia ser descartado a qualquer momento, e não como o ponto-chave para o aparecimento do sobrinho-neto psicopata. Além disso, o desfecho da história é extremamente desinteressante e permanece aquém das possibilidades de inovações do enredo, que, após atingir o ápice, com cenas de ação e tensão –típicas do gênero –, deságua em um fim medíocre e insosso, deixando, no espectador, a sensação de frustração.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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