Opiniões

Crítica de cinema — Entre drama e comédia

Bagdá Café

 

 

Entre abelhas

 

Mateusinho 3Entre abelhas — “Até que ponto a gente sabe que existe?” Em seu cotidiano, o ser humano parece condenado ao esquecimento e a diferentes espécies de invisibilidade, que o levam a permanecer em total ou parcial isolamento, seja por opção ou não. Geradas pelas ausências física e emocional e suas consequências, a invisibilidade e as consequências são o ponto central do filme “Entre abelhas”, dirigido e roteirizado (em parceria com o ator Fábio Porchat) por Ian SBF – responsável, também, pelos vídeos do canal Porta dos Fundos.

Apesar de classificado, também, como comédia e de contar com parte do elenco que atua nos vídeos produzidos pela produtora Porta dos Fundos, o longa-metragem segue, em grande parte da história, distante do tradicional viés cômico da dupla de roteiristas e atores. Em cena, Fábio Porchat interpreta Bruno, um homem que não aceita o pedido de separação de Regina, vivida por Giovanna Lancellotti. A dificuldade para lidar com a nova fase de sua vida faz com o protagonista perca a capacidade de enxergar as pessoas que estão a sua volta.

Em busca de explicações, Bruno procura médicos, que não conseguem definir o mal que acomete o homem. As primeiras pessoas que deixam de ser notadas por ele são desconhecidas. No decorrer da história, aliado ao desinteresse pelo mundo que o cerca – após a decepção pelo fim do casamento –, começam os desaparecimentos dos amigos e companheiros de trabalho. Com o auxílio da mãe, dona Ângela (Irene Ravache), e de Nildo, personagem de Luis Lobianco, Bruno tenta encontrar meios para normalizar sua vida e relações sociais.

Em “Entre abelhas”, o público se depara com Porchat em um papel, que, embora passe por breves situações de humor, possui maior tendência ao drama. Bruno desvincula, timidamente, o ator dos demais personagens a que dá vida nas produções do grupo que atua em Porta dos Fundos. Em poucas sequências, é possível reconhecer o humorista, cuja carga, no desempenho do papel, é mais voltada ao aspecto trágico e dramático do que às brincadeiras e piadas sempre presentes nos roteiros destinados ao canal da web.

Ao contrário do que é esperado pelo público – devido ao elenco, encabeçado por Porchat, que conta, também, Marcos Veras e Letícia Lima –, a comicidade do filme brasileiro é concentrada em breves e rápidos momentos, como na aparição de Luis Lobianco, que também faz parte da produtora Porta dos Fundos, e nas cenas em que o protagonista vivencia a angústia e o pavor – apresentados com leve humor – do sumiço de rostos e corpos pelas ruas e bares, sendo estas a contraparte do filme “Mulher invisível”, dirigido por Claudio Torres e lançado em 2009, no qual Pedro (Selton Mello) passa por situações bizarras e hilárias por ser o único a enxergar Amanda (Luana Piovani).

Distanciando-se do aspecto cômico, que está longe de ser o principal do roteiro, “Entre abelhas” mostra circunstâncias que, embora desenvolvidas superficialmente, tendem a levar quem assiste a refletir sobre diversos temas, como invisibilidade, separações e dificuldades para lidar com novas fases da vida. Em seu final de semana de estreia nacional, o filme foi visto por 171.700 pessoas. O número, aquém da expectativa de seu diretor e roteirista, reflete o encontro do público com um filme brasileiro, que, diferentemente da maior parte dos longas-metragens de comédia produzidos no país, opta por mostrar situações de tensões e conflitos internos ao invés de prender os espectadores com gargalhadas e humor exagerado e artificial.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Este post tem um comentário

  1. Embora seja recomendado para maiores de 14 anos o filme tem milhares de PALAVRÕES, típico de filmes brasileiro. É realmente lamentável.

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