Poema do domingo — Com que rapidez a sombria fileira se alonga

Quando escrevi aqui sobre a morte do ex-craque e ex-técnico do Flamengo Carlinhos, o “Violino”, na última segunda-feira (22/06), lembrei que já havia dito num outro artigo de despedida, em réquiens compostos muito além do desejo, que nada dá a sensação do tempo passando por nós como quando ele já não passa na vida de quem nos servia de referência. Quando escrevi sobre Carlinhos, ainda não sabia do desaparecimento do comerciante Neivaldo Paes Soares, o “Bambu”, visto pela última vez na noite do domingo anterior (21), próximo ao Restaurante do Ricardinho, em Atafona, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Penha, quando partiu sozinho  em sua canoa a motor, sem salva-vidas, para tentar cruzar a foz do rio Paraíba do Sul, até sua casa na ilha do Peçanha.

Depois de noticiar o caso aqui, na quinta (25), em primeira mão na blogosfera local, acompanhando diariamente (também aqui e aqui) os infrutíferos trabalhos de busca por Neivaldo, compareci na noite de sexta (26) à encenação da peça “Pontal” no Sesc-Campos. Nela, os atores Yve Carvalho, Sidney Navarro e Saullo de Oliveira interpretam pescadores de Atafona, que transformam em causos contados entre si alguns poemas tendo a praia por tema ou nela ambientados, de minha autoria, do Artur Gomes, da Adriana Medeiros e de Antonio Roberto de Gois Cavalcanti, o Kapi. Com a concepção cênica e a direção do espetáculo também assinadas por Kapi, falecido (aqui) em 2 de abril deste ano, em sua primeira e mais popular montagem no próprio Pontal de Atafona, durante o verão de 2010, usando como palco o bar de Neivaldo, que Iemanjá depois retomaria aos seus domínios, foi inevitável (aqui) a homenagem na sexta aos dois ausentes do Sesc, ao final da peça que sem eles não teria existido.

Pensando em Neivaldo e Kapi, figuras polêmicas e marcantes de cujas intimidades partilhei, e em Carlinhos, com quem meu contato jamais excedeu o do garoto que gritava da arquibancada o nome do ídolo à beira do campo, pensei em quantas referências vivas têm sua chama extinta durante nossa própria vida, cuja duração talvez não tenha medição mais exata do que essa “rapidez com que se multiplicam as velas apagadas”. Também já escrevi aqui que, para mim, o grego (embora nascido no Egito) Konstatinos Kaváfis (1863/1933) é o maior poeta que o Modernismo produziu no planeta, ao lado do português Fernando Pessoa (1888/1935), do russo (nascido georgiano) Vladímir Maiakóvski (1890/1930) e do brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920/1999). Do primeiro, já publiquei aqui o famoso poema “Ítaca”, momentos antes de embarcar em setembro de 2011 numa viagem à Grécia, incluindo à mítica ilha de Odisseu (aqui), ciceroneando meu pai, que morreria em 17 de agosto de 2012, pouco menos de um ano depois (aqui).

Certamente, além de “Ítaca”, poemas como “A cidade” e “Esperando os bárbaros” são mais representativos na poesia com jeito de prosa de Kaváfis, marcada também pela história, a mitologia e o homoerotismo herdados da Grécia Antiga pelo último heleno de Alexandria. Mas pelos muitos motivos ainda exalando sua fumaça atrás de nós, assim como, espero, existam outros tantos acesos e ainda virgens de chama adiante, o poema do mestre grego escolhido pelo blog para este domingo frio, na tradução da brasileira Ísis Borges da Fonseca, é:

 

 

vela apagada 2

 

 

Velas

 

Os dias do futuro erguem-se diante de nós

como uma série de pequenas velas acesas —

pequenas velas douradas, quentes e vivas.

 

Os dias passados ficam atrás,

uma triste fileira de velas apagadas;

as mais próximas ainda exalam fumaça,

velas frias, derretidas e recurvadas.

 

Não quero vê-las; entristece-me seu aspecto,

e entristece-me lembrar seu primeiro clarão.

Adiante contemplo minhas velas acesas.

 

Não quero voltar-me para não ver, apavorado,

com que rapidez a sombria fileira se alonga,

com que rapidez se multiplicam as velas apagadas!

 

Alexandria, 1899

 

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Este post tem 11 comentários

  1. Sandra Machado

    Lindo.

  2. Sandra Machado

    A fileira anda como um jogo de Dominó ,com as peças enfileiradas, vc derruba uma e as outras caem em seguida.

  3. Sérgio Provisano

    Para variar, e não fugir ao meu óbvio, eu adorei e deixo público um aviso: Não ouse me desmarcar. Eu quero sempre ler coisas boas, ainda mais tendo boa poesia arrematando.

  4. Fernando Leite

    Às vezes, voltar ao passado é tatear, no escuro da memória, caminhos já percorridos, como sugere o Poeta. E tão bela imagem me remete aos versos drummondianos, “Itabira ((que foi) é só uma foto na parede. E como dói”.
    Abraços e bom domingo!

  5. Lindo texto, imagens sublimes no poema, ainda não conhecia o autor grego. Fico feliz em morrer menos tolo, em viver menos ignorante. Grato pela publicação e reflexão.

  6. José Luis Vianna da Cruz

    Belo! Sábio!

  7. Aluysio

    Caro Sérgio Provisano,

    Não ousarei, meu amigo!

    Abç e bom domingo!

    Aluysio

  8. Aluysio

    Caro Fernando Leite,

    Só um poeta pode erguer uma ponte entre outros dois. Entre Kaváfis e Drummond, Alexandria e Itabira, cruzemo-la com a intimidade da Barcelos Martins.

    Abç e grato pela chance de troca!

    Aluysio

  9. Aluysio

    Caro Ocinei,

    Repito o que já escrevi na democracia irrefreável das redes sociais: “Vc chegar a Kaváfis era destino, Ocinei, já que sua poesia fescenina tem mt a ver com a dele, como inclusive já comentei em seu blog. Fico feliz por ter feito essa ponte. Grato a vcs pela oportunidade!”

    Abç fraterno!

    Aluysio

  10. Aluysio

    Caro José Luis,

    Sim, meu amigo, como dele disse Nikos Kazantzákis, seu igual no Modernismo grego, depois da única vez em que ambos se encontraram pessoalmente: “Kaváfis é uma das últimas flores de uma civilização”.

    Abç e bom resto de domingo!

    Aluysio

  11. Aluysio

    Cara Sandra,

    Se as velas do poema foram como os dominós da brincadeira das crianças, o que atormenta é saber quem poderá ser a próxima peça.

    Abç e bom descanso dominical!

    Aluysio

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