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Crítica de cinema — Maldades divertidas

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Minions

 

 

Mateusinho 5MINIONS — Desastrados, quase organizados e adeptos a uma linguagem nativa desconhecida (que, depois, se alterna entre um inglês mal falado e uma mistura de português e espanhol): assim são Kevin, Stuart e Bob, personagens principais da animação norte-americana “Minions” e seres unicelulares que habitam o planeta Terra, fazendo parte dele desde antes do nascimento do ser humano. A primeira aparição deles aconteceu no longa-metragem “Meu malvado favorito”, quando serviam o vilão Gru. Neste mês, os minions chegaram ao cinema com um roteiro que conta exclusivamente a saga da espécie em busca de um mestre perverso a quem possa servir. Dirigido por Pierre Coffin e Kyle Balda, o filme conta com as vozes de Sandra Bullock, Jon Hamm, Michael Keaton, Allisson Janney, Steve Coogan, Jennifer Saunders e George Jeffreys.

“Minions” apresenta a história dos seres amarelos desde tempos primórdios, durante a Era Mesozóica, marcada pela existência dos dinossauros. Já nessa época, eles procuravam um ser, de qualquer espécie, excessivamente cruel para que pudessem seguir. Após a extinção dos animais e o surgimento do ser humano, os minions conheceram novas realidades e continuaram em busca da figura idealizada, passando por homens primatas, vampiros e um pequeno homem cuja aparência faz alusão ao francês Napoleão Bonaparte, até chegarem a uma exposição de vilões na Nova York dos anos 60. Durante o filme, parte da missão do pequeno grupo é fazer com que os representantes escolhidos não morram.

Após fracassarem em diversos momentos, a tribo minion se une para dar origem à sua própria civilização, sem que precisem da ajuda de outras espécies. No entanto, ao terminarem a obra, os seres se sentem vazios pela falta de mestres malvados. Kevin, então, apresenta um plano aos parceiros: sair da caverna e lutar no mundo externo para encontrar o vilão de que tanto necessitam para darem continuidade aos seus objetivos. Para isso, ele escolhe dois amigos, Stuart e Bob. O trio desembarca em Nova York, no ano de 1968.

Apesar de direcionado ao público infantil, o filme une aspectos históricos e mitológicos à ficção, enriquecendo o roteiro. A segunda visão de Kevin, Stuart e Bob – após observarem a Estátua da Liberdade – é uma manifestação de hippies por paz e amor. O ano de 68 é um dos mais ricos da história recente, sendo caracterização por diversos movimentos, incluindo no Brasil, pela liberdade em momentos de ditaduras em vários países – incluindo o Brasil no qual o ano é marcado pelo recrudescimento regime militar com a instauração do AI-5. Na época, os Estados Unidos viviam a era do Flower Power. Em outras breves cenas, os minions se deparam com os americanos vestidos com roupas características da moda hippie.

Em sua busca por ídolos maléficos, o trio conhece Scarlet Overkill, tida como a vilã mais terrível dos EUA. Ela propõe um desafio durante a exposição de vilões. O vencedor seria um escolhido para servi-la. Kevin, Stuart e Bob concorrem e vencem, tornando-se parceiros da mulher, que almeja destronar a rainha da Inglaterra. Para cumprir a missão, ela conta com os minions, que aceitam o desafio. Após transtornos, Bob é coroado o novo rei britânico. A decisão acontece após o minion retirar uma espada de uma rocha, tal qual o rei Arthur em sua lenda.

Reforçando o aspecto reflexivo e crítico, durante o reinado de Bob, os minions aparecem em uma sequência que faz referência à visita de humanos à lua. De forma leve e rápida, é insinuada que a chegada do homem ao satélite terrestre, em 1969, foi uma farsa montada feita pelos norte-americanos. Na cena, a tribo passa em frente à câmera no momento da gravação, atrapalhando a filmagem, e o diretor grita “corta!”. Também sutilmente, “Minions” faz alusão a outras histórias fictícias, como a fábula “Os três porquinhos” – enquanto Scarlet os ameaça para que não fracassem na missão – e “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Caroll, quando a vilã, ao concluir que os seres amarelos querem lhe sabotar, exige que eles sejam mortos, em alusão à Rainha de Copas, de Caroll, que ordena a todos que a desagradam: “Cortem-lhe as cabeças!”

“Minions” é uma animação que deve ser assistida não somente por crianças, mas também por adultos. O filme une comicidade delicada e bem feita, ingenuidade – necessária para a sobrevivência nos dias de hoje – e é, também, embora de forma superficial, um ponto de partida para o conhecimento de fatos reais e narrativas fictícias, que dão origem a todo o universo e aos traços humanos.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

 

 

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