Opiniões

Poema do domingo — Mallarmé passa por aqui, daqui a pouco, no FDP!

Artur Gomes durante a apresentação de “Pontal”, no verão de 2010, no bar de Neivaldo, que dois anos depois seria levado por Iemanjá (foto de Leonardo Berenger)
Artur Gomes durante a apresentação de “Pontal”, no verão de 2010, no bar de Neivaldo, que dois anos depois seria levado por Iemanjá (foto de Leonardo Berenger)

 

Impossível ler e escrever poesia em Campos sem conhecer o Artur Gomes. Entre todos nós, versejadores desta planície parida e fatiada pelo Paraíba do Sul, o “Gato Véio”, como o chama o também poeta Fernando Leite, é aquele que mais vive de e para a poesia, levando a sua, e a nossa a reboque, para todos os rincões do Brasil, figura carimbada de festivais e saraus do Norte ao Sul deste país continente. Particularmente, a parceria com Artur está impressa em brasa na carne da minha gênese enquanto poeta, pois foi ele o intérprete dos meus versos, num hoje distante FestCampos de Poesia de 1992, ano em que multidões saíram às ruas brasileiras para pedir impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, hoje senador da República investigado pela Lava-Jato e aliado político do governo Dilma Rousseff. Mudaram os tempos?

No anfiteatro do Parque Alberto Sampaio — acredite, aquele lugar já serviu de palco à poesia — acabei tirando primeiro e segundo lugares, respectivamente, com “Calvário” e “Caçula”, poemas que não guardo, por frutos de uma fase inicial com a qual rompi a ferro e, literalmente, fogo, na violência de todas as revoluções. Mas tenho até hoje a certeza de que o sucesso inesperado para um jovem de apenas 19 anos, concorrendo em meio a feras já consagradas da poesia goitacá, se deveu muito à capacidade dramática do Artur, que acabaria, na minha visão e na de muita gente, vítima de flagrante injustiça ao não levar o prêmio de melhor intérprete, numa provável atitude “politicamente correta” do júri.

Tempo depois, no verão de 2010, eu e Artur retomaríamos a parceria, quando o diretor de teatro e também poeta Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi (1955/2015), concebeu o espetáculo “Pontal”. Reunindo 17 poemas meus, dois dele, dois do Artur e um da Adriana Medeiros, que tinham Atafona como tema ou pano de fundo, Kapi os transformou com brilhantismo cênico em causos contados entre pescadores. A peça seria encenada no próprio Pontal, junto à boca da foz do Paraíba, na antiga casa de barco da família Aquino, onde o folclórico Neivaldo Paes Soares (1957/2015) morava e mantinha seu bar, levado pelo mar dois anos depois.

“Pontal”, no Pontal, acabou se revelando um sucesso inesperado de público, além de ter sido, provavelmente, o último grande momento de um lugar mágico, repleto de histórias de realismo fantástico para Gabriel García Márquez (1927/2014) nenhum botar defeito. Além de coautor, Artur foi fundamental à manutenção da peça, depois que um dos seus três atores iniciais resolveu abandoná-la no meio da temporada, sem maiores satisfações, num papel assumido bravamente, de última hora, por quem, mesmo Gato Véio, conferiu muito mais vigor à interpretação.

Pois hoje, daqui a pouco, no quintal da minha infância e adolescência, mais conhecido antes e depois como pracinha do Liceu, o Festival Doces Palavras (FDP!) será encerrado, em outra dessas estranhas coincidências, com a encenação de “Pontal”, às 21h, no palco “Bar Doce Bar” (no coreto menor da praça), seguido no mesmo local, às 22h, da apresentação “SagaraNAgens Fulinaímicas”, do Artur Gomes. Com a direção de Kapi assumida pelo ator Yve Carvalho, a peça traz no elenco, além dele, o Sidney Navarro e o Saullo de Oliveira. Por sua vez, o espetáculo de Artur é homônimo ao livro, 13º do autor, reunindo poemas por ele escritos nos últimos 20 anos, numa edição artesanal feita pelo jornalista e também poeta Winston Churchill Rangel, que terá apenas 10 exemplares vendidos no local.

Com a imagem da capa capturada pelo fotógrafo Dudu Linhares, batizada “Barqueiro do Paraíba”, o livro traz o prefácio do consagrado poeta Tanussi Cardoso, cuja própria obra poética já foi traduzida em castelhano, francês, italiano e russo. E é de Tanussi aquele que talvez seja a melhor definição da poesia do Artur:

 

“SagaraNAgens Fulinaímicas nos apresenta uma peça de tom quase operístico e, paradoxalmente, para um só personagem: o Amor. E o desenho poético dessa montagem pressupõe uma grande carga lírica, alegórica e, tantas vezes, dramática, ao retratar o som universal da Paixão, perseguindo a imagem ideal dos limites do desejo. Seus versos são movidos por esse sentimento dionisíaco, e por tudo que é excesso, por tudo que é muito, como na música de Caetano(…)

Dono de uma sonoridade vocabular repleta de aliterações e assonâncias, que remetem à intensa oralidade e à pulsão musical, refletindo no leitor o desejo de ler os poemas em voz alta, o poeta brinca com as palavras, cria neologismos, utiliza-se de colagens originais, e soma ao seu vasto arsenal de recursos, o uso das antíteses, dos paradoxos, das metonímias, das metáforas, dos pleonasmos e, principalmente, das hipérboles, através de poemas de impactante beleza. Esse jogo vocabular, que a tudo harmoniza, transforma a dinâmica do verso, dá agilidade, tensão e ritmo envolventes a uma poesia elétrica e eletrizante. Um bloco de tesão carnavalizante e tropical — atrás de Artur Gomes só não vai quem não o leu”.

 

É na vertigem desse ritmo egresso dos palcos, como já disse aqui da poesia de Castro Alves (1847/71), nosso maior romântico e baiano como Caetano, que convido você, leitor, a ir pessoalmente daqui a pouco, no FDP!. Como pequena prova do que será na pracinha do Liceu, segue abaixo o poema de Artur que mais me impactou, cujos versos volta e meia me pego repetindo na mente ou em voz alta, presentes tanto na peça “Pontal”, quanto no novo livro do poeta. Enquanto a primeira voltará ao palco com Yve, Sidney e Saullo em 31 de outubro, às 21h, no teatro do Sesi, Artur levará “SagaraNagens” para dar um passeio pela gaúcha Bento Gonçalves, durante o XXIII Congresso Brasileiro de Poesia, entre 5 e 10 de outubro, antes de voltar à planície goitacá, para ser apresentada no Sesc em 13 de novembro.

Ao fim e ao cabo, no eco de ambas ao trompete “todo blues” de Miles Davis (1926/91), as crianças serão sempre testemunhas: “Mallarmé passou por aqui”.

 

 

 

 

 

pontal.foto.grafia

 

Aqui,

redes em pânico pescam esqueletos no mar

esquadras — descobrimento espinhas de peixe convento

cabrálias esperas relento escamas secas no prato

e um cheiro podre no AR

 

caranguejos explodem mangues em pólvora

Ovo de Colombo quebrado

areia branca inferno livre

Rimbaud — África virgem

carne na cruz dos escombros

trapos balançam varais

telhados bóiam nas ondas

tijolos afundando náufragos

 

último suspiro da bomba na boca incerta da barra

esgoto fétido do mundo grafando lentes na marra

imagens daqui saqueadas Jerusalém pagã visitada

Atafona.Pontal.Grussaí

 

as crianças são testemunhas:

Jesus Cristo não passou por aqui

 

Miles Davis fisgou na agulha

Oscar no foco de palha

cobra de vidro sangue na fagulha

carne de peixe maracangalha

que mar eu bebo na telha

que a minha língua não tralha?

penúltima dose de pólvora

palmeira subindo a maralha

punhal trincheira na trilha

cortando o pano a navalha

fatal daqui Pernambuco

Atafona.Pontal.Grussaí

 

as crianças são testemunhas:

Mallarmé passou por aqui.

 

bebo teu fato em fogo

punhal na ova do bar

palhoças ao sol fevereiro

aluga-se teu brejo no mar

o preço nem Deus nem sabre

sementes de bagre no porto

a porca no sujo quintal

plástico de lixo nos mangues

que mar eu bebo afinal?

 

 

SagaraNagens Fulinaímicas

 

 

 

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Este post tem 6 comentários

  1. Maravilha Aluysio, todo esse momento é pura emoção. Pontal, Jardim do Liceu. FDP, e a reunião de poemas que vinha criando desde 1995, que não tinham ido para o papel em um livro. E um livro que só existe pela parceira com um outro grande amigo Winston Churchil Rangel, parceria que começa lá pelos idos de 1997. E um outro fato que não deixa de me tocar profundamente, é que há 30 anos passados,1985, que lancei o livro Suor & Cio, no Bar Doce Bar,com show da banda Avyadores do Brazyl.
    Então meu caro irmão de letras, é muita história reunida em um só momento. Tenho certeza que se Pontal e SagaraNAgens Fulinaímicas, não foram programados para acontecerem no mesmo espaço, no mesmo dia, e nessa sequência, foi o grande acaso do destino, mesmo não acreditando em casos. E para completar, abro a performance com o poema Um Rio, do nosso querido e saudoso Antonio Roberto Góis Cavalcantri (Kapi). beijos no coração.

  2. Um dos grandes poemas de meu caro Artur.

  3. Artur,

    Como poeta, de vc, Kapi e Prata Tavares, antes de irmão, eu sou discípulo. Parabéns pela inesquecível apresentação de ontem!

    Bj fraterno, do coração do meu coração, como o príncipe da Dinamarca!

    Aluysio

  4. Das Mouras,

    Assino embaixo, meu camarada em armas.

    Abç e grato pela chance do endosso!

    Aluysio

  5. Artur é um avatar! Um orixá! Ave, axé! É uma aparição lá das bandas do Xexé. Traz no alforje os poetas clássicos e não os lê, devora-os, autofágico, pra depois, ruminar a poesia e moldá-la com o a argila da baixada da égua. Território de lobisomens, descoberto pelos argonautas Zé Cândido e Osório Peixoto.
    Aluysio lhe faz justiça com perfil tecido em letras brilhantes e o traz para a vitrine, querido Gato Véio. Nem Paulo Cesar Pereio seduz a palavra como tu.
    Ave!

  6. Caro Fernando,

    Como nas de Adriano, assino embaixo tb das suas palavras sobre Artur. E agradeço pela generosidade daquelas para comigo.

    Abç e grato pela participação!

    Aluysio

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