Opiniões

Editorial — Doentes crucificados diariamente nos corredores do HFM e HGG

Em flagrantes todos colhidos no dia de ontem, os leitos vazios da Santa Casa na base da cruz, pela falta de repasse das verbas federais do SUS, que abre os braços crucificados nos leitos amontoados nos corredores do Hospital Ferreira Machado, com a cabeça em Leire Daiana, morta na num corredor do Hospital Geral de Guarus (fotos de Thaís Tostes, Tércio Teixeira e Rodrigo Silveira - Folha da Manhã)
Em flagrantes de ontem, os leitos vazios da Santa Casa na base da cruz, pela falta de repasse das verbas federais do SUS, que abre os braços crucificados nos leitos amontoados nos corredores do Hospital Ferreira Machado, com a cabeça em Leire Daiana, morta aos 33 anos num corredor do Hospital Geral de Guarus (fotos de Thaís Tostes, Tércio Teixeira e Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Leire Daiana somos nós!

 

Na entrevista (aqui) que rendeu a manchete da Folha do último domingo (18), o médico Cláudio Leonardo de Morais, entre tantas outras graves denúncias sobre o quadro falimentar da Saúde Pública de Campos, disse logo em sua primeira resposta: “Bom, vejo com muita preocupação, porque estamos falando de vidas humanas em risco, devido à desassistência. Presenciar a lotação dos corredores do HGG e Ferreira assusta a quem num momento de desespero depende deles e imagina que passarão por tudo isso também. O dinheiro da Saúde é o mais importante recurso público que conhecemos, seguido da Educação. E não pagar pela Saúde como se deve, mata, mesmo, diariamente”.

Pois numa trágica coincidência, a denúncia feita por um cardiologista, perseguido no governo Rosinha Garotinho (PR) desde que rompeu o silêncio cúmplice, foi confirmada antes da publicação da entrevista e numa morte por infarto: Leire Daiana Fonseca, de apenas 33 anos. Na última sexta (16), ela chegou ao HGG já apresentando sintomas de infarto, foi medicada, mas ficou sem monitoração, jogada numa das macas nas quais os doentes se amontoam nos corredores do hospital. Na manhã do sábado seguinte, a família foi informada do seu óbito. Feita pelo WhatsApp da Folha, a denúncia não partiu de nenhum parente da vítima, mas de um funcionário revoltado do próprio hospital, cuja identidade foi preservada para evitar retaliações como as sofridas pelo médico.

Enquanto isso, a Santa Casa de Misericórdia de Campos, maior hospital da rede conveniada do município, tem 82 pacientes internados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas poderia atender o dobro, se recebesse o que o governo federal repassa ao municipal, mas não chega à sua conta, prática que o empresário e médico Herbert Sidney Neves, diretor do maior hospital privado de Campos, o Dr. Beda, já denunciou publicamente como retenção ilegal das verbas federais do SUS. Buscado ontem pela reportagem da Folha para se pronunciar sobre o assunto, o Ministério Público Federal (MPF), por meio da sua assessoria, optou pelo silêncio.

Alvo de vistorias recentes do MPF nas unidades de saúde do município, até agora sem efeito prático além dos flashes da imprensa, a Prefeitura finalmente pagou no final de semana R$ 3 milhões à Santa Casa, dinheiro que sua junta interventora informou ser referente à parte dos serviços prestados desde agosto. Todavia, permanece em atraso uma dívida de R$ 7,5 milhões, impedindo que os outros 80 leitos ociosos do hospital sejam ocupados por quem é amontoado diariamente, destituído de dignidade humana, no HGG e HFM. Entre eles Leire Daina, morta com a idade de Cristo, crucificada em agonia numa maca de corredor diante da passividade de todos nós.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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