Opiniões

“O tempo só anda de ida” — Um ano de saudade do poeta

Manoel de Barros
Manoel de Barros

 

 

Dia desses, estava conversando sobre o Facebook com o Alexandre Bastos. Após elogiar a peneira atenta que ele faz, para o seu blog, de postagens interessantes em meio ao oceano de irrelevâncias da democracia irrefreável das redes sociais, confidenciei ao jornalista e amigo que raramente leio mural alheio de Facebook, ou confiro o feed de notícias. Por ficar quase sempre circunscrito à minha própria linha do tempo, que utilizo no mais das vezes só para reproduzir as postagens deste blog, Bastos sentenciou, não sem ironia: “Você usa o Facebook como Orkut”.

Até porque nunca tive Orkut, não pude discordar.

O fato é que  em meio ao desfile um tanto nauseante de egos e futilidades, o Facebook tem coisas muito interessantes. Foi o caso da surpresa benfazeja que tive hoje, ao receber notificações automáticas das minhas publicações de 13 de novembro de 2014. Assim, fui lembrado involuntariamente que hoje faz exatamente um ano que morreu o poeta Manoel de Barros (1916/2014), ao reler um texto que postei inicialmente aqui, no Face, e ampliei para publicação aqui, no blog.

Mas, além dos dois textos em prosa sobre o poeta, em seu dia de sua morte, postei também aqui, só no Face, uma foto que tirei no interior da Catedral de Lima, capital do Peru, que havia acabado de visitar, junto a um soneto de Gregório de Matos (1636/95) em forma de oração, numa despedida ao poeta que partia. Neste um ano de saudade de Manoel, que também prezava muito suas lembranças do Peru, tomando chincha, cerveja de milho de origem pré-hispânica, em companhia dos índios quechuas (incas) e aymaras (tiahuanacos), a certeza do seu verso: “o tempo só anda de ida”.

Abaixo, o barroco da foto e do soneto de Gregório, o “Boca do Inferno”:

 

Oratório da Capela de São João Batista, na Catedral de Lima (PE), com o entalhe de Cristo considerado o mais belo das Américas (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Oratório da Capela de São João Batista, na Catedral de Lima, no Peru, com o entalhe de Cristo considerado mais belo das Américas (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Buscando a Cristo

 

A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa cruz sacrossanta descobertos

Que, para receber-me, estais abertos,

E, por não castigar-me, estais cravados.

 

A vós, divinos olhos, eclipsados

De tanto sangue e lágrimas abertos,

Pois, para perdoar-me, estais despertos,

E, por não condenar-me, estais fechados.

 

A vós, pregados pés, por não deixar-me,

A vós, sangue vertido, para ungir-me,

A vós, cabeça baixa, p’ra chamar-me

 

A vós, lado patente, quero unir-me,

A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme.

 

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Este post tem um comentário

  1. __Não conhecia este poema de Gregório de Matos, pelo menos não me lembrava dele, mas, o que me surpreende mesmo, é este “sentimento de saudade” que temos quando a Humanidade perde um poeta do porte de um Manoel de Barros, ou um Saramago, um Drummond, um Vinícius de Moraes!

    __ É como perder um amigo próximo, “alguém nosso”. Ainda que tenhamos acesso aos versos, a sensação de que “aquele poeta” não nos dirá novas palavras, deixa-nos algo do vazio, algo se perde, para sempre!

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