Paula Vigneron — Um a menos

Atafona, agosto de 2014 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, agosto de 2014 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Era tarde. A casa estava escura e fria. A pouca iluminação provinha dos raios que cortavam o céu. A noite estava só começando. André se sentou à direita da mesa cuja decoração permanecia intacta. Dois pratos, quatro talheres e um par de copos idênticos. A cor vermelha brilhava quando o homem mexia vagarosamente a cabeça para olhar ao redor. Os sons da tempestade pareciam mais sombrios e perigosos quando ausências tomavam conta das paredes da velha casa marfim.

Caminhou pelos corredores em busca de algo que não sabia classificar. Ouvia passos atrás de si, e o barulho suave lhe trazia paz. À medida que andava, os pés invisíveis tocavam o chão pelo qual passava o homem. Seus lábios se esticavam lentamente em um sorriso. Os dentes brancos e alinhados tornavam-no bonito. Os cabelos pretos, hoje rareados, e os olhos azuis eram os únicos traços que mantinha do menino que fora. Todos os movimentos-sons-passos-ambientes pareciam devagar. Corriam de acordo com um relógio que era manualmente alterado: para cada um minuto a mais, dois a menos. A subjetividade do tempo atazanava André em sua procura pelo indizível.

Correu e sentiu seu corpo puxado para trás. Um passo a mais, dois a menos. Torturava-o não saber a origem da morosidade dos minutos, dos segundos, da vida. Exasperou-se rapidamente, mas seus movimentos não obedeceram aos comandos do cérebro. Olhou para trás a tempo de ver os pés invisíveis dando dois passos a menos, nenhum a mais. As batidas do coração misturadas aos trovões ensurdercedores lhe atingiam tal qual uma corrente elétrica. Estremecidos pés, mãos, cabeça, o homem voltou à sala.

A mesa continuava intacta. Dois pratos, quatro talheres, um par de copos idênticos. Pareciam mais virados para a direita. Antes, não os havia notado dessa maneira. Observou o espaço em que estava. Com pés no chão, a curiosidade o empurrava para o quarto. Deu um passo a mais, dois a menos. Amenos, os cantos silenciosos da casa continuavam observando o homem solitário. A menos que, ali, fossem mantidos resquícios de passado.

Um sopro invadiu a sala. Um sorriso assustador brotou no rosto de André. Viu-se menino correndo pela casa enquanto brincava com sua irmã. A menina, anos mais nova, demonstrava pavor nos olhos enquanto era perseguida pelo adolescente. A brincadeira era unilateral. Ele sabia. Pegou-a pela barriga, levou-a para um quarto, onde permaneceu por minutos. Palavras indecifráveis preencheram o ambiente. Finalizada a correria, André saiu do aposento e tomou outros rumos para novas brincadeiras.

Novamente, um clarão cortou o céu negro. Uma sensação de prazer se apoderou do homem, que foi até a janela. Sobreposta pela agonia, a paz se transformou em fúria. André rodou no centro da sala, em passos largos, até se acalmar. Era o que costumava fazer quando a tensão pesava-lhe os ombros. Um cheiro típico de noites silenciosas invadiu o ambiente escuro. Novamente em círculos, a ânsia instintiva voltava a dominá-lo.

Do quarto, pequenos ruídos eram ouvidos. Baixos, quase imperceptíveis, transpareciam a tensão que pairava sobre André. Ele correu até o quarto. Sentia seus pés serem puxados. Um passo para frente, dois para trás. Combatendo as mãos invisíveis que o puxavam, pôs-se a correr mais uma vez. Dois passos para frente, um para trás. Dois minutos para trás, um para frente. A contagem do tempo estava definitivamente anacrônica.

Libertou-se das mãos, pensamentos, sentimentos, ilusões que o prendiam e abriu a porta do quarto. Respirações dominaram o ambiente. Em poucos minutos, sussurros foram ouvidos. Palavras inaudíveis. Barulhos indecifráveis. Rasgos. Corpos se batendo. Angústia. Pela porta entreaberta, um trêmulo André apareceu. O sorriso vitorioso no rosto. Dali, não sairiam mais ruídos.

“Um a menos”, disse em voz alta. Regozijou-se enquanto retirava dois pratos, quatro talheres e um par de copos idênticos que decoravam a mesa. Passos para frente, nenhum para trás. “Um a menos”.

 

 

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Nino Bellieny

    Ritmo, coesão, suspense. MuitoBom!

  2. Savio

    Que texto!!! Nestas horas eu me lembro dos meus tempos de locutor de rádio, onde gostava de ler crônicas e poesias, sempre “ilustradas” com alguma música que tivesse algo a ver com o tema.

    __Quem trabalhou em Rádio ou em Jornal, é como uma espécie de “vício”, ou melhor, de uma “contaminação”. O ‘gosto’ fica na memória da gente, passa a fazer parte do “DNA”.

    Se eu tivesse fazendo os meus programas, com certeza iria ler esta crônica e “ilustrá-la” com alguma música de “suspense”, talvez algo do Henry Mancini, ou Ennio Morricone, ou ainda, Michael Hoppe e Yo Yo Ma, quem sabe, com “The Poet”.

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