Artigo do domingo — Nos versos do campeão

 

“Muhammad Ali chocou o mundo. E o mundo é melhor por causa disso. Nós somos melhores por isso”.

(Barack Obama)

 

 

Ali: “Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca, que prefere viver no mundo como ele está, em vez de usar o poder que tem para mudá-lo, melhorá-lo. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe”.
Ali: “Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca, que prefere viver no mundo como ele está, em vez de usar o poder que tem para mudá-lo, melhorá-lo. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe”.

 

 

Na sexta, o editor de esportes da Folha, Antunis Clayton, me disse que Muhammad Ali havia sido internado em Phoenix, no Arizona, onde residia, por conta de problemas respiratórios. No sábado, acordei tarde com o registro de várias ligações do meu filho, Ícaro, perdidas no celular. Retornei a ele para saber que a perda era pessoal: ainda na noite anterior, Muhammad Ali havia morrido, aos 74 anos.

Ex-campeão olímpico (meio pesado, em Roma-1960) e profissional (peso pesado em 1964, 74 e 78) de boxe, era considerado o maior pugilista de todos os tempos. Com seu jeito todo próprio de lutar, sua onipotência técnica só seria depois reeditada dentro do boxe pelo campeão peso médio Sugar Ray Leonard e, no MMA, pelo campeão brasileiro Anderson Silva. Mas Ali teve um cartel respeitável também como ativista político. Lutou pelos direitos civis dos negros e minorias nos conturbados anos 1960/70 — sobretudo depois que teve seu cinturão roubado pelo governo dos EUA e quase acabar preso. Recusou-se a lutar na Guerra do Vietnã (1955/75).

Na dimensão trágica dada à palavra pelos antigos gregos, que também inventaram o pugilato, Ali foi um herói. Apesar da geração distinta, foi também o meu, legado por outro, meu pai. Desde criança, ele me contava, com o entusiasmo de devoto de tempo presente, cada gesto ousado das suas muitas lutas, dentro e fora dos ringues. Bonito, inteligente, articulado, audaz, divertido, defensor do seu povo, amante de lindas mulheres, viril e feminino, Ali foi o maior lutador de todos os tempos. E, nesta condição, derrotou o maior poder de todos os tempos — seu próprio país — quando se recusou a lutar.

Vários de seus combates têm lugar cativo na antologia do boxe. A vitória por nocaute técnico sobre Cleveland Williams (aqui), em 14 de novembro de 1966, considerada tecnicamente como a mais perfeita da história, porque não errou ou levou um soco sequer em seus três assaltos de duração. A vitória por pontos na luta seguinte, em 6 de fevereiro de 1967, contra Ernie Terrell (aqui), a quem surrou da maneira mais cruel, com dolo de ferir sem derrubar, enquanto perguntava “Wat’s my name?” (“Qual é meu nome?”), depois que o adversário o chamou de Cassius Clay, seu nome cristão de batismo, trocado por Muhammad Ali na conversão ao islamismo. A derrota (aqui) para Ken Norton, em 31 de março de 1973, por decisão médica, considerada fenômeno de resistência, por ter lutado 12 assaltos mesmo após ter o maxilar quebrado no primeiro.

E o que dizer das três lutas titânicas contra o também campeão Joe Frazier (em 1971, 74 e 75, aqui, aqui e aqui), seu maior adversário (relembre aqui), nas quais Ali perdeu a primeira e venceu as duas outras, numa trilogia violentíssima da qual ambos levariam consequências neurológicas para o resto das suas vidas? Como o Parkinson contra o qual Muhammad lutou por três décadas e que acabou por derrotá-lo na noite de sexta.

Mas se Ali tivesse que ser lembrado por uma única luta, talvez seja “The rumble in the jungle” (“A luta na selva”), realizada (aqui) em 30 de outubro de 1974. O título promocional fazia referência ao local da peleja, em Kinshasa, capital do então Zaire, atual República Democrática do Congo. Magistralmente registrado no documentário “Quando éramos reis”, de Leon Gast, o evento foi emblemático: primeiro título mundial peso pesado de boxe, esporte majoritariamente dominado por atletas negros, a ser disputado no coração da África, em plena selva equatorial.

Já aos 32 anos, Ali não era o campeão, mas desafiante do dono do cinturão de 25, sete anos mais novo. Não fosse apenas isso, George Foreman, dono do direto de direita mais devastador da história do boxe, havia antes massacrado Joe Frazier, a quem nocauteou cinco vezes ao lhe roubar o título, e Ken Norton. E Frazier e Norton haviam derrotado Ali, muito embora este tivesse vencido a ambos nas revanches.

Pelo retrospecto, a verdade é que ninguém, nem mesmo entre os segundos de Ali, achava que ele tivesse chance contra Foreman. Muitos temiam inclusive que, pelo seu destemor, ele acabasse morto no ringue pelo jovem e hercúleo campeão. Julgava-se que sua única alternativa seria tentar dançar em torno do adversário, sua arte (aqui), evitando o combate franco.

Soado o gongo inicial, Ali surpreendeu a todos e partiu para dentro do “monstro”. Na franqueza de uma briga de rua, se valeu da sua técnica exuberante para acertar 12 diretos de direita na cara do campeão. Uma dúzia exata e certeira do soco mais forte que um pugilista destro é capaz de desferir. E Foreman só virou o rosto após cada um deles, como se nada tivesse acontecido.

Certo de que, na briga, não teria chance, aquele intervalo entre o primeiro e segundo assaltos é a única vez na carreira de Ali que se pôde ver o medo estampado em sua face. Temor pior do que o de quem apanhou: a paúra de quem bateu com tudo que tinha e viu que não fazia qualquer diferença. Depois, quem temeu disse ter olhado o objeto do seu medo, no canto oposto do ringue, e mentalizado:

— Você é mais jovem do que eu, maior, mais forte, mais rápido. Mas você está disposto a quebrar costelas, seios da face, dentes, maxilar? Está disposto a morrer aqui, dentro deste ringue? Porque eu estou! E, se não estiver, você vai perder!

Após ter refeito sua convicção em si, o desafiante se virou para os 100 mil africanos que torciam declaradamente por ele e regeu o coro: “Ali, buma ye! Ali, buma ye!” (“Ali, mata ele!”).

Se tinha espantado a todos ao partir para o combate franco no primeiro assalto, Ali voltou a surpreender do segundo ao quinto, quando foi para as cordas, fechou-se na guarda e aceitou passivamente ser o saco de pancadas para o pugilista mais forte que já existiu. Isso, enquanto provocava o tempo inteiro, no combate psicológico que sempre impunha aos adversários:

— Ei, George, me disseram que você batia forte! Assim você me decepciona! Você não quebra nem amendoim assim, George! Cadê sua força, garoto?

Qualquer um que já tenha lutado, sabe que bater cansa muito mais do que apanhar. Tanto mais na umidade do clima de uma selva equatorial. Confiante no seu encaixe — no jargão do pugilismo, a capacidade de absorver golpes —, Ali foi minando as reservas do gigante, esvaído em golpes fortíssimos, como faz o mar com as construções humanas em Atafona. A partir do quinto round, o desafiante voltou também a agredir, até que numa sequência certeira de golpes no oitavo, um Foreman exausto e cambaleante desabou em câmara lenta, como um prédio.

Feito o impossível, diante do mundo que deixou mais uma vez atônito, Ali subiu nas cordas e ergueu os dois punhos à multidão reunida onde a espécie humana nasceu. E, naquele exato segundo de epifania coletiva entre o campeão e seu povo, como numa cena bíblica do Velho Testamento, desabaram as monções africanas.

Ali era disléxico. Por isso, fez uso da rima e da métrica, como um precursor dos rappers, para se tornar um grande aforista. Seu lema era: “float like a butterfly sting like a bee” (“voar como borboleta e picar como abelha”).

Certa vez, na universidade de Harvard, quando passou a viver de palestras, após ter sido impedido de boxear por três anos e meio por conta da recusa em lutar na Guerra do Vietnã, os estudantes lhe pediram em coro:“Give us a poem!” (“Dê-nos um poema”).

Após pensar um segundo, o campeão disse: “Me, we” (“Eu, nós”).

Com a humanidade a reboque, difícil pensar numa vida tão bem resumida em verso. E, como meu pai me ensinou, eu o amei por isso.

 

 

“virá impávido que nem muhammad ali

virá que eu vi”

(caetano veloso)

 

 

paixão a palo seco

 

o punho esquerdo vivo, arauto ativo

da direita dissimulada em guarda baixa,

guardada ao avessar da face que o encara

pendularmente, lado a lado, pela cartilha,

não para frente e trás, como seria

recuar nos trilhos do trem que avança,

só não alcança quando lá está ali,

feminino nos gestos de um felino.

 

a delicadeza florescida em oposição,

por oposto o soco ao giro da ponta do pé,

na lona plantado à picada da abelha,

mas de raiz aérea, de vôo de borboleta

— belo ao reinventar o mundo que abalou,

ao derrubar homens e se arrogar rei,

negou ser soldado de matar alguém,

para afirmar sua raça: homens também;

eu, nós, nos versos do campeão.

 

campos, 22/03/07

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Savio

    Bela homenagem e retrospectiva de um lutador, na essência da expressão.

  2. SÉRGIO PROVISANO

    Eu me encanto, eu me senti ali dentro do ringue, meu caro Aluysio, sorvi cada frase com prazer, mais cedo eu te dediquei um texto de minha lavra, não tão preciso e infalível como esse que li, e para torná-lo palatável, até o ilustrei, asim, como um balanço disfarçador do golpe final que Ali, o Impávido, dava em seus oponentes e reproduzo aqui, me perdoe a ousadia: “FLUTUAR COMO UMA BORBOLETA E PICAR COMO UMA ABELHA…

    Ou “ser leve como uma pomba e prudente como uma serpente” disse Jesus Cristo entre uma de suas parábolas… aí, esse ser vivente acidental, se perguntou, teria Cristo praticado a nobre arte do Boxe?

    Seria ele, Cassius Marcellus Clay, o Muhammad Ali, um Avatar, que veio ao nosso plano, combater bons combates? Iconoclastias e heresias à parte, ouso dizer que sim, Ali, O Impávido, como bem disse o Poeta, também circulou por esse mundão de Deus, por Gaia, meu querido Aluysio, dando lições, bailando, flutuando nos ringues, ressignificando o sentido do que é lutar…

    Dentro e fora dos ringues, ele fez a diferença de toda uma geração, dando um novo sentido à palavra combate, ele encantou e encanta a todos que se propõem a lutar, por amor, às causas perdidas…

    Hoje não é um dia que se possa dizer que é um dia de festa, o Campeão sofreu o nocaute final da vida, mas em outro plano continuará flutuando como uma borboleta e picando como uma abelha.

    Vida longa ao Rei!”

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