Carol Poesia — Sobre a falta

Michael Keaton desafiando o limite entre a vida e a arte, num palco da Broadway, no filme “Birdamn ou (A inesperada virtude da ignorância), de Alejandro González Iñárritu
Michael Keaton no limite entre a vida e a arte, num palco da Broadway, em “Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância), de Alejandro González Iñárritu

 

 

O psicólogo disse que eu não posso parar de escrever. Ele disse que eu tenho que separar duas horas por dia pra fazer o que eu gosto. Disse que tenho que praticar alguma atividade física para produzir boas substâncias pro corpo. Disse que quatro horas de estudo por dia são suficientes. Que eu preciso me alimentar melhor. Ter horários. Dormir oito horas por noite. Enfim, na primeira consulta ele já quis me transformar em uma pessoa normal. Saudável. Que quer viver. E não foi para isso mesmo que eu o procurei? Para que me ajude a voltar a querer viver? O remédio tem me deixado meio lerda, talvez este texto não fique bom; mas isso não tem nada a ver com o psicólogo. Ele disse pra eu não me preocupar, devo apenas escrever, sem me preocupar. Eu gosto dele, ele fala de um jeito que acalma.

O mundo é feio demais pra mim ou eu que sou frágil demais para suportá-lo? Muita gente vai dizer que isso é falta de sexo… Pode ser… Mas o que veio antes — a falta de sexo ou a falta de vontade de fazer sexo? Isso parece um pouco com aquela questão do ovo e da galinha… Eu fico pensando… Se fosse esse o problema não seria fácil de resolver? Não, né? Enfim… não vou ser besta de discutir com Freud. O fato é que ando sem forças e estou farta disso. Não tenho nenhuma justificativa pessoal plausível — minha família é ótima (“ótima”?), nunca passei necessidades (de nenhuma ordem?), não fui espancada pelo pai (seria traumatizante), nem estuprada pelo padrasto (eu nem tenho padrasto!). Sequer tenho pais separados. E sim — eu transo! Não é nada disso. Trata-se de uma falta permanente, que me acompanha desde… Desde que me lembro… E não me lembro muito bem quando.

Alguém me disse que a falta nos move, acho que é até o nome de uma peça — A falta que nos move —, ou seria um livro? Um filme? Eu não lembro (inferno!). Deve ser o remédio que eu ando tomando. Enfim, se isso for verdade, é muito cansativo e aos 26 anos eu desisto. Não tenho mais força. Não consigo me movimentar. Ponto. Se a falta realmente nos move então que ela me mova sem eu precisar fazer nada, que ela me carregue nos braços pra um lugar bem bonito enquanto eu durmo. Eu sei. Eu sei. É pedir demais. Afinal eu tenho duas pernas, dois braços, todos os sentidos… Por isso sou uma ingrata e Deus deve estar decepcionado comigo. Concordo. E daí? Saber disso não me dá força nenhuma, só culpa e remorso. Você entende? Eu nem sequer quero viver essa vida, que dirá me preocupar com alguma outra. Olha, só de pensar me dá vontade de morrer.

O psicólogo me disse “tanta coisa ainda vai acontecer com vc”. Ele deve ter razão, mas por que eu não sinto que o que vai acontecer seja bom? O que eu sinto, é que tudo de bom que poderia me acontecer já aconteceu — a primeira vez que eu subi no palco, aquele frio na barriga segundos antes de sair da coxia. A estreia. O público riu de mim, riu da minha performance… E era pra rir mesmo, daquela vez era. Eu era tão novinha… Que recompensa imediata, que prazer! O prazer da primeira vez. Talvez por isso o teatro seja tão fascinante! Porque no palco parece que é sempre primeira vez, é vivo, até o de sempre quando repetido muda de hora em hora, de vez em vez. Talvez seja isso — falta de palco, falta de primeira vez.

Quando eu deixei o Rio, fui ao Teatro Luiz Peixoto. Estava vazio. Meia luz. E aquela energia sinistra que só o teatro tem. Aquele santuário de vida e morte — o palco. Subi. Não usei as escadas. Olhei. Vi as cadeiras lotadas, esperando o espetáculo acontecer. Percorri o palco devagar. Em círculos. Senti o peso dos meus pés. Parei. Olhei. Todos esperavam o acontecimento. Continuei andando. Corri. Corri o mais rápido que eu pude durante quase quarenta minutos. Eu suava muito. Suava demais. E não sentia mais nada além de fadiga. A minha roupa molhada e o chão respingado. Continuei correndo em círculos. Eu queria parar mas continuei, como se tivesse que me penalizar por estar deixando tudo aquilo. Até que fiquei completamente tonta, com os sentidos atordoados, bati na parede e caí. As pessoas riram. Eu não as culpo. Com muito esforço eu tentei me levantar. Escorreguei no meu próprio suor. Riram de novo. Finalmente fiquei de pé e disse tudo que vinha à minha cabeça — sobre a vida, sobre a morte, sobre o sexo e a falta dele, sobre os pais, sobre os filhos, as religiões, as opressões, a homossexualidade, a minha sexualidade, a hipocrisia da sociedade, a sexualidade dos outros. Falei da arte, do sentido da arte, do sentido que não tinha a minha vida sem a arte. Da corrupção, da violência, dos maus tratos, do nosso povo sofrido, do filho que eu não tive, da peça que eu não escrevi, do filme que eu não estreei, do dinheiro que eu nunca tive, da preguiça de acordar, da insônia ao dormir, das mentiras que tive que contar, das verdades que não poupei, das atrocidades do mundo, do sofrimento que causei, dos meus ex-namorados, dos comunistas exilados, da padaria do meu avô. Da ditadura, da minha insignificância, do holocausto, da minha infância, das minhas decepções, da minha solidão. Da falta que nos move. Das coisas bonitas. Das coisas bonitas e tristes. Da inviabilidade de ser artista. Da obrigação de permanecer vivo.

 

Foram 104 minutos cravados.

 

Aplausos.

 

Isso foi teatro.

 

Eu sempre fui muito boa em cumprir obrigações.

 

Fui até a coxia, peguei a arma, voltei pro palco e atirei na minha cabeça. O público, que já estava se levantando, ficou paralisado com o barulho e o estrago. Foi lindo. Eu sempre sonhei em morrer no palco. Que ator nunca sonhou? A morte, sem dúvidas, é a melhor cena.

 

Fui embora como se nada tivesse acontecido. E senti na boca, misturado ao sangue, o gosto de primeira vez.  Foi então que pensei: seria brilhante se eu estivesse grávida.

 

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Este post tem 2 comentários

  1. SÉRGIO PROVISANO

    Sim, Carol Poesia, quem nunca sonhou, qual ator nunca sonhou ou sonha em morrer no palco, em cena? Todos sonhamos, pois somos todos atores e o mundinho, ou os mundinhos que vivemos, são nossos palcos próprios… As nossas vidas, traçam os roteiros, as falas de nossas encenações e viver faz falta, viver não é preciso, o que é preciso, é navegar, como disse o Poeta, e Poetas, são fingidores, então somos sim atores… alguns, a maioria, canastrões, mas alguns, os Poetas, não são não, eles, elas, são diferentes, são os bons, os melhores e eu os admiro, eu os invejo, pelo dom divino de transformar uma palavra, uma frase em Poesia. Eu disse, Carol, que tinha compromisso marcado nas terças e estou aqui, embevecido, encantado com o que li e com as próximas terças, que me encantarão, com toda a certeza.

  2. Sandra Machado

    Que texto !!!!Arrepiante ,sinistro ,show.Amei

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