Das lágrimas, versos ao campeão

Ocinei Trindade
Ocinei Trindade

Quando Muhammad Ali morreu, na noite de 3 de junho, alguma coisa em mim se quebrou. Talvez porque Ali fosse a maior referência ainda viva do meu pai sobre mim. Não por outro motivo, escrevi sobre ele (aqui), no artigo do domingo seguinte. E depois aqui, na terça sequente, para anunciar a exibição e debate do documentário “Quando éramos reis”, de Leon Gast, sobre a disputa de título entre Ali e George Foreman, em Kinshasa, capital do Zaire, hoje República Demorática do Congo, pulsando no coração da África e no Cineclube Goitacá.

Após o filme, na última quarta (aqui), em meio ao debate, confesso que o mais comovente, para mim, foi perceber o poeta e jornalista Ocinei Trindade em meio às lágrimas, pelo que acabara de assistir. Longe de um entusiasta, como eu, do mundo das lutas, o pranto alheio (e comum) confirmou aquilo que o comediante judeu Billy Crystal disse (para quem entende inglês, aqui) no belo discurso funerário sobre o mitológico campeão de boxe, seu “big brother” muçulmano: “Ele tinha a capacidade de extrair, sempre, o melhor de todos nós”.

Lembro que, no correr do debate, Ocinei comentou que o título do filme era equivocado: “Com B. B. King, James Brown, George Foreman e Muhammad Ali, o nome desse filme não deveria ser ‘Quando éramos reis’, mas ‘Quando éramos deuses’”. Como entre os antigos gregos que criaram o pugilato e uma tal Civilização Ocidental, aqueles deuses descidos em 1974, na África que pariu o homem, eram mais divinos, justamente por humanos.

Nos versos escritos hoje (aqui) pelo poeta, a intersecção que há entre homens e deuses:

 

 

 

 

Quando Muhammad Ali me fez chorar

 

Não era só um filme, era uma vida.

Não era uma despedida, era um encontro.

Não era só uma luta, era missão.

Não era só uns milhões de dólares, era tudo.

Não era só um espetáculo, eram ossos e músculos.

 

Havia sangue e suor escorrendo pelo meu corpo.

Existe ainda alguém desafiando deuses e heróis?

Senti um aperto no peito, desses que corrói.

Destruir gigantes no Olimpo não é fácil.

Imagina só o Titã que sabe na alma onde dói.

 

Toda a beleza que sua realeza invoca.

Não sei bem o que provoca aqui dentro.

Só sei que estou dentro de um ringue de lutas.

É uma estranheza assim meio filha da puta

que não quer me parir, não quer sair, nem partir.

 

Desconfio que Muhammad Ali é um puro pretexto.

Serve para me levar aos lugares sombrios onde nunca vou.

Ajuda-me a imaginar o rei ou o homem que eu sempre sou:

Vencido, desiludido, impedido, sentido.

Amargurado, angustiado, atribulado, atrelado ao show.

 

Quando o outro importa mais que eu, onde me ponho?

Um mundo cercado de mediocridade e casebres medonhos.

Não sei bem onde se esconderam aqueles antigos e alegres sonhos.

É uma multidão a repetir palavras, frases e sons enfadonhos

Um homem tristonho e vazio não merece muito além de rima feia.

 

Chicoteia a minha pele que não para de ressecar e murchar.

Será que a velhice não passa de uma outra combatida ilusão?

Percebo mais perto a morte rondando o jardim sem flores.

Pressinto, decerto, a vida mais ávida por idiotices e dissabores.

É a melancolia, sim, instalada entre o umbigo e a garganta.

 

Não sei se adianta muito eu chorar ou lágrimas disfarçar.

Só sei que ali diante de Ali, eu me senti ainda mais diminuído.

Fui engolido por todos os fanáticos estúpidos maometanos.

Fui devorado por todos os cristãos imbecis e profanos.

Fui esmagado por judeus intolerantes, gananciosos e insanos.

 

Antes de estar ali com Ali, encontrei Jesus no templo.

Não muito tempo ali permaneci, mas sei que o vi e ele a mim.

Estava disfarçado em mortalha e capuz escondido atrás da palavra.

Pediu para que eu orasse e não me comportasse como hipócritas exibidos.

Obedeci, mas depois, talvez, percebi que não o atendi tão bem assim, remido.

 

Eu menti para os meus seguidores e seus fingidores.

Omiti a verdade de mim mesmo provavelmente,  receio.

Clamei ao Tempo uma pausa, uma outra ilusão, mas ela não veio.

Talvez precisasse de uma mão sem luvas para me esbofetear.

O soco de Ali para me nocautear além do Oceano e eu afogar certeiro.

 

Creio que todo aquele gozo foi deveras insuficiente para toda a gente.

Deveria eu ter sido bem mais pecador e, quem sabe, ainda mais indecente.

Poderia me desnudar inteiro, sóbrio ou ébrio, pelas ruas de Kinshasa.

Não fiz tudo, nem tudo chorei, nem toquei Maomé, nem Jesus, nem Ali.

Voltei sozinho e tocado por eles para a casa onde moram palavras cheias de si.

 

Campos, 17.06.2016

 

Guilherme Carvalhal — A Cabeça Falante

Carvalhal 16-06-16

 

 

Quando anunciaram a mais fantástica invenção desde a lâmpada elétrica, o público da quermesse se dispôs à frente daquele homem de cartola e vestimenta mística. Entre eles havia uma mesa coberta e cobrou 10 reais de cada um para apresentar algo capaz de mexer com a fé do mais fiel dos homens. Amealhou as notas e descobriu a mesa, revelando uma cabeça humana que se mexia e falava.

Todos riram daquela peça, evidenciando que por baixo da toalha se escondia alguém cuja cabeça apontava para fora pela parte superior através de um buraco. Todos fizeram perguntas e interagiram, muitos se sentindo tapeados por um truque barato e  reclamando seu dinheiro de volta. Diante da sensação geral de ludibrio, o homem da cartola arrancou a toalha que cobria a parte de baixo, entre as pernas da mesa, e ali se viu o vazio. Não havia ninguém escondido e a cabeça falava por si só, sem estar presa a corpo algum. O pânico tomou conta da maioria, que saiu correndo em desespero querendo se distanciar dessa bruxaria. O homem da cartola, previamente ciente do pânico a acometê-los, gargalhava, a parte do seu espetáculo em que encenava o feiticeiro a espantar os tolos com seus poderes aprendidos nos círculos herméticos de Karnak.

Posteriormente à debandada, sobraram alguns ainda reticentes com a paranormalidade daquela cabeça. Palpitavam tratar-se de tecnologia moderna, questões de transistores, chips ou nanotecnologia, apta a produzir uma inteligência artificial que movia uma cabeça inorgânica articulada. O homem da cartola então os desafiou:

— Descrentes, somente a erudição antiga da pedra filosofal e da cabala é capaz de um fenômeno desses. Não há nada de tecnologia aqui, apenas elementos alquímicos muito além de seu conhecimento. Se duvidam, coloco-os à prova: quaisquer dúvidas que tiveram, basta fazê-la, pois a cabeça falante consultará de Dagon a Tutatis para responder e provar a extensão de sua sabedoria.

Ninguém, à exceção de um, ousou dar um passo em frente, alarmados e reticentes quanto às profecias que a cabeça poderia revelar. Gideão se posicionou temerário à dianteira, intentando mostrar sua superioridade em relação aos demais:

— Diga-me então, cabeça — perguntou incrédulo e com voz empostada de deboche — minha esposa está de caso com outro homem? — e virou-se confiante aos espectadores.

— Sim — disse a cabeça para espanto geral — Ela encontra-se sorrateiramente com Aderval em rápidas aventuras amorosos quando o senhor sai para caçar. Estão há oito meses nessa, desde uma noite em que a deixou sozinha e ele passou pela sua janela e foi convidado a entrar.

O olhar de pasmo no rosto de Gideão transparecia a sucedânea de conjecturas traçadas em seu pensamento. Lembrou-se de momentos suspeitos flagrados entre a esposa e Aderval, como trocas de sorriso mais íntimas do que mera amizade ou umas visitas inesperadas dele, frutos da vontade de se aproximar de sua senhora. Então, absorveu o relato daquela misteriosa cabeça, que jamais havia tido contato algum com as pessoas dessa cidade e jamais saberia mencionar as relações existentes entre seus moradores, e tornou aquilo algo tateável, a prova de um crime entregue em um envelope, perdendo o aspecto galhofeiro e embarcando em uma jornada interna.

Enquanto muitos se seguravam para rir da pilhéria e do adultério exposto publicamente, ele pôs-se em correria para casa. O homem da cartola desafiou mais algum dos restantes, porém todos deram para trás aturdidos com a possibilidade de alguma verdade escondida vir à tona.

Poucos instantes depois, quatro estalos de tiros originados da lateral da igreja chegaram aos ouvidos. O povo correu para perto e lá encontrou Aderval e sua suposta amante caídos ao chão mortalmente baleados por Gideão, este com seu revólver na mão e ar de perdido, meio aliviado, meio arrependido.

A turba então se voltou furiosa contra o homem da cartola. Culpando-o pela tragédia e pelas mentiras propagadas só para gerar o caos entre aquela boa gente, partiram para cima dele e o apanharam entre seus gritos de aflição; surraram-no e deixaram-no ferido ao chão:

— Espere — disse um dos homens ao terminarem de linchá-lo — Temos que nos livrar dessa cabeça dos demônios.

Todos rodearam a mesa e assistiram à expressão assustada da cabeça. Seu rosto todo se fechou com o semblante de uma pessoa encarando o destino fatídico, vivenciando seus últimos momentos quando a morte se expressa abertamente:

— Não, por favor, eu não fiz nada — ela implorava — Eu apenas respondi a uma pergunta. Não fui eu quem matou o casal. Por favor, tenham compaixão de mim. Sou inocente. Eu não fiz nada.

Jeremias se aproximou com seu martelo de demolição. Levantou-ou com toda sua força após a aglomeração liberar espaço. Nesse instante, a expressão da cabeça pedindo clemência chegou ao ápice e muitos esconderam o rosto não querendo presenciar esse espetáculo. Seus pedidos continuaram e caso houvesse lágrimas em seus olhos, ela choraria. O golpe fluiu rápido, explodindo a cabeça e espalhando pedaços de crânio e cérebro sobre as pessoas em volta. Atônitos, todos voltaram para casa com as mãos sujas de sangue e a lembrança daquele uivo horrorizado emitido pela cabeça em seus segundos finais.

 

“Quando éramos reis”, nesta quarta, no Cineclube Goitacá

Ali x Foreman

 

 

Num ano de perdas, algumas irreparáveis, o que nos resta é manter vivo o legado. Neste sentido, nessa quarta (15/06), na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da rua Conselheiro Otaviano com avenida 13 de Maio, o Cineclube Goitacá vai exibir e debater o filme “Quando éramos reis”, de Leon Gast. Oscar de melhor documentário em 1997, narra em detalhes um evento de 23 anos antes. “The rumble in the jungle” (“A luta na selva”), foi o título promocional dado à disputa do título profissional peso pesado de boxe, na África, entre o jovem campeão George Foreman e seu desafiante, Muhammad Ali, considerado antes e depois o maior pugilista de todos os tempos — morto (aqui), aos 74 anos, na noite do último dia 3 de junho.

Caetano Veloso admitiu não gostar de boxe, mas escreveu “virá impávido que nem Muhammad Ali”, na música “Um índio”. E “Quando éramos reis” é uma oportunidade documental única para constatar o encontro da cultura black em sua explosão nos EUA dos anos 1970, sendo levada de avião ao coração da África, às margens do legendário rio Congo, em Kinshasa, capital do então Zaire, hoje República Democrática do Congo. Emblematicamente, era a primeira vez que dois campeões negros de boxe, esporte majoritariamente dominado por atletas negros, decidiriam o cinturão de todos os pesos na África.

Ao velho continente que pariu a espécie humana, voltavam como reis os descendentes daqueles que séculos antes saíram acorrentados como escravos. Neste sentido pascal de retorno, foram promovidos shows com estrelas negras da black music dos EUA, como o mestre do blues B. B. King (aqui) e o rei do soul James Brown. No estádio de futebol de Kinshasa, onde seria realizada a luta, os músicos negros estadunidenses se apresentaram para dezenas de milhares de africanos, dançando e cantando juntos como a mesma tribo.

Mesmo de pele mais clara do que Foreman, Ali era adorado pelos africanos muito antes de lá disputar um título de boxe. Na África e no planeta, sua fama já havia conquistado fãs, sobretudo nos países do terceiro mundo, não só pela técnica exuberante do pugilista, mas por conta da sua luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, da sua conversão ao islamismo, quando trocou o nome de Cassius Clay para Muhammad Ali, e da sua recusa em lutar na Guerra do Vietnã (1955/75), quando teve seu título de campeão revogado pelo governo dos EUA, quase acabou preso e foi impedido de boxear por três anos e meio. Roubaram aquele que seria o período áureo da carreira de qualquer atleta.

Foi dessa empatia com o povo africano que Ali se valeu, extraindo do coro “Ali, buma ye! Ali, buma ye!” (“Ali, mata ele!”) a força para fazer o impossível, chocando mesmo jornalistas experientes como Norman Mailer e George Plimpton, que dão seus depoimentos no documentário, assim como o cineasta e ativista do movimento negro Spike Lee. Como este diz em determinado momento do filme, independente do tempo em que se viva, é muito difícil se ter a oportunidade de poder conviver com heróis de verdade.

É que quando Ali lutava, dentro ou fora dos ringues, todos éramos reis.

 

Confira nos vídeos abaixo a música de Caetano e o trailer do filme de Leon Gast:

 

 

 

 

Carol Poesia — Sobre a falta

Michael Keaton desafiando o limite entre a vida e a arte, num palco da Broadway, no filme “Birdamn ou (A inesperada virtude da ignorância), de Alejandro González Iñárritu
Michael Keaton no limite entre a vida e a arte, num palco da Broadway, em “Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância), de Alejandro González Iñárritu

 

 

O psicólogo disse que eu não posso parar de escrever. Ele disse que eu tenho que separar duas horas por dia pra fazer o que eu gosto. Disse que tenho que praticar alguma atividade física para produzir boas substâncias pro corpo. Disse que quatro horas de estudo por dia são suficientes. Que eu preciso me alimentar melhor. Ter horários. Dormir oito horas por noite. Enfim, na primeira consulta ele já quis me transformar em uma pessoa normal. Saudável. Que quer viver. E não foi para isso mesmo que eu o procurei? Para que me ajude a voltar a querer viver? O remédio tem me deixado meio lerda, talvez este texto não fique bom; mas isso não tem nada a ver com o psicólogo. Ele disse pra eu não me preocupar, devo apenas escrever, sem me preocupar. Eu gosto dele, ele fala de um jeito que acalma.

O mundo é feio demais pra mim ou eu que sou frágil demais para suportá-lo? Muita gente vai dizer que isso é falta de sexo… Pode ser… Mas o que veio antes — a falta de sexo ou a falta de vontade de fazer sexo? Isso parece um pouco com aquela questão do ovo e da galinha… Eu fico pensando… Se fosse esse o problema não seria fácil de resolver? Não, né? Enfim… não vou ser besta de discutir com Freud. O fato é que ando sem forças e estou farta disso. Não tenho nenhuma justificativa pessoal plausível — minha família é ótima (“ótima”?), nunca passei necessidades (de nenhuma ordem?), não fui espancada pelo pai (seria traumatizante), nem estuprada pelo padrasto (eu nem tenho padrasto!). Sequer tenho pais separados. E sim — eu transo! Não é nada disso. Trata-se de uma falta permanente, que me acompanha desde… Desde que me lembro… E não me lembro muito bem quando.

Alguém me disse que a falta nos move, acho que é até o nome de uma peça — A falta que nos move —, ou seria um livro? Um filme? Eu não lembro (inferno!). Deve ser o remédio que eu ando tomando. Enfim, se isso for verdade, é muito cansativo e aos 26 anos eu desisto. Não tenho mais força. Não consigo me movimentar. Ponto. Se a falta realmente nos move então que ela me mova sem eu precisar fazer nada, que ela me carregue nos braços pra um lugar bem bonito enquanto eu durmo. Eu sei. Eu sei. É pedir demais. Afinal eu tenho duas pernas, dois braços, todos os sentidos… Por isso sou uma ingrata e Deus deve estar decepcionado comigo. Concordo. E daí? Saber disso não me dá força nenhuma, só culpa e remorso. Você entende? Eu nem sequer quero viver essa vida, que dirá me preocupar com alguma outra. Olha, só de pensar me dá vontade de morrer.

O psicólogo me disse “tanta coisa ainda vai acontecer com vc”. Ele deve ter razão, mas por que eu não sinto que o que vai acontecer seja bom? O que eu sinto, é que tudo de bom que poderia me acontecer já aconteceu — a primeira vez que eu subi no palco, aquele frio na barriga segundos antes de sair da coxia. A estreia. O público riu de mim, riu da minha performance… E era pra rir mesmo, daquela vez era. Eu era tão novinha… Que recompensa imediata, que prazer! O prazer da primeira vez. Talvez por isso o teatro seja tão fascinante! Porque no palco parece que é sempre primeira vez, é vivo, até o de sempre quando repetido muda de hora em hora, de vez em vez. Talvez seja isso — falta de palco, falta de primeira vez.

Quando eu deixei o Rio, fui ao Teatro Luiz Peixoto. Estava vazio. Meia luz. E aquela energia sinistra que só o teatro tem. Aquele santuário de vida e morte — o palco. Subi. Não usei as escadas. Olhei. Vi as cadeiras lotadas, esperando o espetáculo acontecer. Percorri o palco devagar. Em círculos. Senti o peso dos meus pés. Parei. Olhei. Todos esperavam o acontecimento. Continuei andando. Corri. Corri o mais rápido que eu pude durante quase quarenta minutos. Eu suava muito. Suava demais. E não sentia mais nada além de fadiga. A minha roupa molhada e o chão respingado. Continuei correndo em círculos. Eu queria parar mas continuei, como se tivesse que me penalizar por estar deixando tudo aquilo. Até que fiquei completamente tonta, com os sentidos atordoados, bati na parede e caí. As pessoas riram. Eu não as culpo. Com muito esforço eu tentei me levantar. Escorreguei no meu próprio suor. Riram de novo. Finalmente fiquei de pé e disse tudo que vinha à minha cabeça — sobre a vida, sobre a morte, sobre o sexo e a falta dele, sobre os pais, sobre os filhos, as religiões, as opressões, a homossexualidade, a minha sexualidade, a hipocrisia da sociedade, a sexualidade dos outros. Falei da arte, do sentido da arte, do sentido que não tinha a minha vida sem a arte. Da corrupção, da violência, dos maus tratos, do nosso povo sofrido, do filho que eu não tive, da peça que eu não escrevi, do filme que eu não estreei, do dinheiro que eu nunca tive, da preguiça de acordar, da insônia ao dormir, das mentiras que tive que contar, das verdades que não poupei, das atrocidades do mundo, do sofrimento que causei, dos meus ex-namorados, dos comunistas exilados, da padaria do meu avô. Da ditadura, da minha insignificância, do holocausto, da minha infância, das minhas decepções, da minha solidão. Da falta que nos move. Das coisas bonitas. Das coisas bonitas e tristes. Da inviabilidade de ser artista. Da obrigação de permanecer vivo.

 

Foram 104 minutos cravados.

 

Aplausos.

 

Isso foi teatro.

 

Eu sempre fui muito boa em cumprir obrigações.

 

Fui até a coxia, peguei a arma, voltei pro palco e atirei na minha cabeça. O público, que já estava se levantando, ficou paralisado com o barulho e o estrago. Foi lindo. Eu sempre sonhei em morrer no palco. Que ator nunca sonhou? A morte, sem dúvidas, é a melhor cena.

 

Fui embora como se nada tivesse acontecido. E senti na boca, misturado ao sangue, o gosto de primeira vez.  Foi então que pensei: seria brilhante se eu estivesse grávida.

 

Versos contra o horror

Sobreviventes, parentes e amigos na manhã seguinte à tragédia parida na relação incestuosa entre homofobia e terrorismo (foto: reprodução)
Sobreviventes, parentes e amigos na manhã seguinte à tragédia parida na relação incestuosa entre homofobia e terrorismo (foto: reprodução)

 

 

Na madrugada de sexta para sábado, uma pessoa que respeito e admiro profundamente, me falou do medo de ser mulher. A conversa veio a reboque do estupro recente do IFF, repetido coletivamente no Rio e no Piauí, além, lógico, da condenação de 14 pessoas pelo caso “Meninas de Guarus”.

Como homem, nunca havia pensado nessa perspectiva, que não me saiu da cabeça pelo final de semana. Com boa parte deste passado no plantão da Folha, o massacre na boate gay Pulse, em Orlando, na madrugada de sábado para domingo, me fez ampliar ainda mais a reflexão, a partir dessa união incestuosa entre homofobia e terrorismo.

Após o trabalho, mesmo cansado e com sono, não consegui dormir na madrugada de domingo para hoje, com o frio infiltrado pela proteção inúltil das meias. Enquanto pensava, sozinho no quarto, ouvi gritarem lá fora os gatos em cópula. Desisti de dormir para seguir-lhes o exemplo, me dedicando às preliminares com uma amante há muito negligenciada.

Ao “horror” de Joseph Conrad (1857/1924) encarnado por Marlon Brando (1924/2004) no “Apocalypse Now” da ficção e dos 50 mortos a tiros da minha realidade presente, busquei catarse na poesia. E junto dela vi o sol nascer e inundar o mundo lentamente de luz.

 

 

 

 

o horror

 

o frio mudo entre as meias

finas do dia dos namorados

grita lá fora no coito dos gatos

 

meus pés já não tocam o calor

das vidas calçadas por garras

sangrando a noite de orlando

 

à caça do coito dos gatos

corpos de homens gelados

e cento de pés sem função

 

campos, 13/06/16

 

Escritora Carol Poesia no “Opiniões”, terça sim, terça não

Bem verdade que com a Paula Vigneron (aqui), este “Opiniões” já tinha garantido, em alto nível, sua voz feminina no time de escritores-colaboradores do blog — ao lado do Fabio Bottrel (aqui), do Guilherme Carvalhal (aqui) e do Ocinei Trindade (aqui). Mas, convenhamos, é pouco. Não por outro motivo, quem se integra ao time a partir de amanhã (14), escrevendo sempre quinzenalmente, é a escritora, atriz, cantora e professora da língua de Luís de Camões que fez da arte deste seu próprio nome: Carol Poesia.

Já havia externado aqui que “Geni e o Zepelim” é minha música preferida de Chico Buarque. E confesso que, após tê-la ouvido na iterpretação visceral da Carol, num sarau do Sinasefe, passei a considerar sua versão como referência da canção. Abaixo, na prosa de uma das tantas mulheres do Chico, o que aquela chamada Poesia pretende trazer a você, leitor, terça sim, terça não:

 

Carol nos tempos das duas chupetas (foto: arquivo pessoal)
Carol nos tempos das duas chupetas (foto: arquivo pessoal)

 

Minha memória não é boa, mas tenho pais atenciosos que se lembram bem de peculiaridades da infância. Segundo Josué e Ângela, eu costumava ficar calada no berço, com pernas cruzadas, barriga pra cima, olhando pro teto com duas chupetas na boca. Dizem que isso os intrigava — “o que será que ela está pensando?”.

Eu não sei se eu estava pensando, mas desconfio que a poesia já estava rondando… E me convidando para uma abstração tão “inútil” quanto preciosa aos tempos robóticos e materialistas da atualidade. Isso não me garantiu felicidade, e por mais contraditório que possa parecer, garantiu-me realidade; pois o afastar-se do real só é possível aos que o experimentaram de forma consciente.

Olhar pro teto já seria início desse afastamento? Não sei… Não posso saber. Mas arrisco dizer que mais de uma chupeta na boca deve amenizar o vazio de uma atitude tão solitária. Não sei… Talvez eu esteja “romanceando” meu início para que ele soe mais bonito.

O fato é que escrever é solitário. E não existiria melhor forma de reencontro comigo mesma do que um convite à escrita, quinzenalmente, em meio a textos de tantos que admiro. Agradeço ao jornalista Aluysio Abreu pelo convite e espero contribuir para manter o excelente nível que tem caracterizado este espaço. Obrigada!

Por falar em fatos:

Nasci em 1985, na cidade de Campos dos Goytacazes, morei boa parte em Niterói e estudei Letras na Universidade Federal de Ouro Preto, seguido de mestrado em Literatura na Universidade Federal Fluminense. Experimentei teatro, música e, desde sempre, poesia. Escrevi meu primeiro livrinho à mão aos 8 anos, chamava-se “A caneta” (rs) e vendi para minha tia Adelina, irmã mais velha e alfabetizadora do meu pai.

Tive poemas publicados nas coletâneas Mulheres em prosa e verso (Hoje Edições) e 8° Concurso de Poesias da Universidade Federal de São João Del-Rei; artigos nos jornais Aldrava (Mariana – MG), Mídia Participativa (Mariana – MG), Folha da Manhã (Campos dos Goytacazes – RJ) e revista Icarahy (Niterói – RJ). O texto dramático “Inquérito Poético” também veio a público, através dos festivais – Niterói em Cena (texto finalista em 2011), Festival de Esquetes de Cabo Frio (premiado Melhor Texto em 2011), Festival de Esquetes Elbe de Holanda (premiado Melhor Texto em 2011) e Festival Curta Teatro (premiado Melhor Texto em 2014, no Teatro de Bolso – Campos).

Como atriz nas peças Mulheres de Vermelho (SESC de Niterói, 2011), Entre deusas e bofetões, entre parangolés e patrões (Candido Mendes Campos, 2015) e na leitura dramática Gota D´água (SESI Campos, 2014). Como cantora nos shows Geleia Geral (2014), Noite Severina (2015), O fino da bossa (2016) e Som do Vale (2016).

Professora de Português na Universidade Candido Mendes Campos e leitora no projeto Para ler as meninas (2016).

Fã incondicional de Elis Regina e Ney Matogrosso; amor platônico por Leminski; e sensações ainda não nomeadas por Almodóvar. Faço reverência a um bom prato de feijão com arroz e deixo pra outra vida qualquer carne vermelha. Portadora de neuroses. Evito (quando posso) aquilo que me aprisiona. Acredito na arte. Acredito na arte como veículo de humanização, autoconhecimento e liberdade.

 

Artigo do domingo — O estupro praticado por milhões em rede

Ocinei 07-06-16

 

 

Por Ocinei Trindade(*)

 

Dói sofrer abuso sexual. Em tempos de Internet então, nem se fala, pois há dor da exposição pública também. Há quem não sinta nada, nem se importe com o que os outros pensam e sentem, neste caso alguma vítima. Se você é ou já foi vítima dessa violência (des)humana, conhece bem esta dor.  Se alguém teve a sorte de não ser (ainda) estuprado, torturado, agredido,constrangido, humilhado e ridicularizado por um ou mais agressores, pelo menos já ouviu falar de alguma história envolvendo pessoas que são submetidas a esta situação de escárnio e vergonha. São mulheres, meninas, adolescentes, jovens e idosas. Mas também há homens, meninos, jovens e adultos que também passam pela agressão de ter o corpo abusado, esfregado, socado, machucado por alguém que tem prazer e satisfação em fazer reféns, por conta de suas perversões e perversidades sexuais.

Em pleno século XXI, os instintos básicos descontrolados por parte de alguns indivíduos revelam o quão bestial ainda somos. Há quem sofra, mas há muitos que se comprazem, se deliciam com o sofrimento alheio. Queremos detalhes, queremos imagens, queremos fotos, queremos vídeos, queremos testemunhos de quem estupra, de quem é estuprado, de quem investiga denúncias desse crime, queremos todas as novidades possíveis para nos satisfazer. Deixamos de evoluir com saudades das cavernas? A libido ainda é o maior combustível para as relações humanas serem movidas e justificadas? O corpo invadido e tomado sem consentimento é um atentado desolador, devastador, é crime.  E crime previsto em leis, mas até que ponto elas funcionam? O estupro é ainda uma das práticas mais comuns, nem sempre veladas por parte da sociedade ou de diferentes culturas e nacionalidades. O estupro tem sido ora fetiche, ora coisa banal na Internet, pois muitas pessoas têm compartilhado de um jeito ou de outro o drama de alguma vítima de violência sexual nas redes, sem se importar ou refletir verdadeiramente sobre o grave problema que é de questão social.

O Brasil e o mundo acompanham pelos noticiários e pelas mídias digitais nas últimas semanas a denúncia sobre a adolescente exposta nas redes sociais que afirmou ter sido violentada por 33 homens em uma favela carioca. Pois é, a Índia também é aqui, além do Haiti. e miséria é miséria em qualquer canto. A maioria de nós já julgou e condenou os envolvidos de algum modo. Alguns especulam que o sexo foi consentido pela garota, outros falam que ela era isso, aquilo e muito além nos termos mais depreciativos e machistas possíveis. É impressionante como muitas mulheres são tratadas com desrespeito quando o assunto é sexo ou prazer sexual. Se elas forem ou não forem recatadas, comportadas, religiosas, legalmente casadas com homens, contidas, o juízo de valor varia para mais ou para menos. Isto depende ainda do tribunal particular de cada acusador e juiz que posta rápida e confortavelmente em seu celular ou computador sentença para punir os outros. O inferno são os outros? Segundo Sartre, a humanidade está condenada a ser livre. Não é a primeira vez que uma notícia sobre estupro feminino ganha as manchetes dos jornais no Brasil e no mundo. Quando acontece, fazem muito barulho, protestam, dizem que vão combater, mas depois da eufórica novidade, o pior é que cai no esquecimento até um novo caso ser revelado e comover as massas. Alguém pode até dizer “que saco, outra história de estupro de mulher” ou “nossa, esses casos de pedofilia já nem dão mais ibope, prefiro ver novelas”. Já ouvi também: “o Brasil e o mundo carecem de orações”. Sim, até concordo, mas acho que estão faltando mais ações, pois a vida tem valido nada.

Vivemos em uma sociedade altamente machista e preconceituosa, mas não devemos esquecer que esse sentimento e essa cultura predominantemente masculinista envolvem também a opinião feminina como formadora. Percebo que muitas mulheres tendem a criticar e a condenar outras mulheres se estas não se enquadrarem em determinados padrões ou conceitos, dando aos homens certos privilégios e concessões. A filha costuma ser mais tolida que o filho, e este ainda conquista muito mais liberdade dentro das famílias que conheço. Tem certas coisas que para “homem pode,”, mas “mulher não pode, não fica bem”. Uma dessas coisas envolvem o sexo. Se muito praticado por eles, é status, prestígio e admiração devido a performances de macho poderoso e viril. Homem tem quer ter pegada, garantem. Entretanto, se elas têm uma vida sexual muito ativa e livre, ser chamada de piranha, safada, puta ou galinha em comentários fechados ou abertos (não esqueçamos a coisa explícita chamada Internet) é fácil, fácil. Já os gays e lésbicas podem ser associados a algum tipo de libertinagem e devassidão pelas mentes mais encaixotadas e preconceituosas. Aliás, preconceito é o que não falta em nossa sociedade online e off line. Tem de todo tipo, gênero, tamanho e cor, além de escrito, filmado, postado e publicado por aí. Preconceito e intolerância andam minando cada vez mais as relações humanas.

Não devemos esquecer que somos criados e educados por mulheres e homens (embora estes ainda não tenham assumido em boa parte, funções com a devida competência no papel de pai educador). Muitas famílias brasileiras são matriarcais e nossas escolas são constituídas em maioria por professoras. Fico curioso para saber como foram educados os 33 homens acusados de estuprar coletivamente a jovem, quais valores e conceitos aprenderam sobre respeito ao próximo, sobre os limites e gestos necessários quando se convive com a mulher, com o velho e com a criança. Culpar as mulheres que os criaram e os educaram é um risco tremendo. Todavia, não seria de todo mal refletirmos como as famílias brasileiras têm se comportado quanto ao cuidado e orientação que dão para seus filhos, independentemente de classe social, escolaridade, etnia ou credo. Sabemos que o Estado tem inúmeras falhas e está praticamente falido; a igreja se esforça, mas não consegue atender as demandas; a escola é outra instituição ameaçada e a saúde pública nem se fala; as polícias e os tribunais de justiça estão sucateados ou sobrecarregados; os parlamentos estão abarrotados de políticos inaptos que fazem leis que pouco servem ou que não servem para nada. Para as famílias sobrará a barbárie? Procura-se um salvador desesperadamente, mas convenhamos, se não nos salvarmos a nós mesmos, dificilmente alguém o fará.

O caso do estupro coletivo nos conduz direta ou indiretamente à posição de juiz ou algoz. Tendemos a condenar tudo e todos de acordo com nossos ânimos mais exaltados e feridos, e nem sempre corretos. Ter uma filha, irmã, mãe ou esposa estuprada é agressivo demais, porém são elas que sabem exatamente o que isto significa. Ser violentado sexualmente, sendo homem ou mulher, criança ou adulto é desafiador, uma ferida exposta difícil de cicatrizar sem marcas. Penso que os criminosos agressores maculam uma das coisas mais belas e prazerosas que é o ato sexual pleno, feito e praticado em comum acordo por aqueles que se amam, se desejam e se permitem. Para o cantor Erasmo Carlos, o sexo é uma das mais sublimes manifestações e materializações de Deus. Há muitos tabus quanto ao corpo, à nudez e à sexualidade. Os dogmas e as tradições religiosas orientam o máximo de cuidados e regras na conduta sexual de homens e mulheres. O que para muitos tem natureza pecaminosa, já para outros é só prazer e diversão, celebração hedonista. Se os textos sagrados oferecem uma vasta lista de condutas e práticas de “boas maneiras”, nossa legislação deixa brechas em muitas ocasiões sobre como tratar do assunto, julgar e condenar os responsáveis por violência sexual. Qual a pena ideal para quem cometer esse tipo de crime? Pena máxima ou a morte sumária? Quem no Brasil obedece às leis?

Em entrevista à jornalista Renata Ceribelli, a vítima do estupro coletivo disse que se sentiu constrangida e humilhada na delegacia onde prestou depoimento com a presença apenas de policiais homens. A repórter perguntou à jovem o que gostaria de dizer para aquelas pessoas que ali estavam para ouvi-la e não para condená-la, e para a sociedade que a criticou pelo estilo de vida que levava, por ser sido mãe aos 13 anos, por frequentar comunidades ou namorar rapazes suspeitos. A resposta foi: “eu espero que eles tenham uma filha”. O desabafo pode não ser consciente e pleno do ponto de vista de uma adolescente de 16 anos, mas parece ser quase uma sentença de martírio ou morte o fato de se nascer em um corpo feminino, que já estaria condenado por natureza ou destino a sofrer todo o tipo de ameaça. Infelizmente, por não querermos ou não sabermos nos colocar no lugar do outro, o mal que nos causam acabamos desejando o mesmo para os nossos opressores. Só que um erro não pode justificar outro erro.

Tornar público um estupro, denunciar alguém que praticou violência sexual é uma tremenda saga, além de correr mais riscos de retaliações e vinganças por parte dos acusados, de seus familiares e apoiadores. Por incrível que pareça, há quem condene a vítima e defenda quem forçou sexo com alguém. Não consigo achar a menor graça de quem faz piada sobre estupro. As redes sociais que alimentaram o vídeo do estupro coletivo também alimentam memes, gracejos e bromas sobre o caso. Enquanto escrevia este texto, eu mesmo recebi uma mensagem via celular sobre o noticiário falar de estupro no café da manhã e no jantar, além da madrugada na televisão, pois estava enchendo o saco essa notícia velha e requentada. Infelizmente, há quem ache pesado demais o tema e prefira fazer gozações humoradas sobre o assunto. Não rio. Sofro quando isso ocorre na rotina diária e também na ficção.

O dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu Bonitinha, mas ordinária, obra que ganhou três versões no cinema brasileiro. A mais conhecida talvez seja a do filme dirigido por Braz Chediak, em 1981, e estrelado pela atriz Lucélia Santos. A cena do estupro coletivo é considerada uma das mais desconfortáveis e revoltantes de nosso cinema, posso arriscar. Outro filme perturbador sobre o drama de uma mulher estuprada é o francês Irreversível (2002), de Gaspar Noé, protagonizado pela italiana Monica Belucci. Já o americano Um sonho de liberdade (1995), de Frank Darabont, o personagem do ator Tim Robbins sofre estupros frequentes dentro da prisão (aliás, dizem que as prisões recebem estupradores com o mesmo tipo de tratamento, e não considero esta a melhor solução, se é que existe solução). Nestes três exemplos ficcionais há apenas um retrato mínimo do que passam as vítimas da vida real. Curiosamente, há quem se excite com isso e tenha esse tipo de fantasia sexual, bastante alimentada pela indústria pornográfica e disponível facilmente no primeiro click pela Internet. A tara gera dinheiro e audiência. Não quero e nem posso ser moralista, mas não deixo de questionar sobre o comércio dos corpos nas revistas como a Playboy, que traz Luana Piovanni em um “novo conceito” da histórica publicação; a altíssima exploração da nudez feminina no Carnaval do Brasil; o uso do corpo da mulher nas propagandas de cervejas excessivamente sexistas. Tudo isso me faz pensar qual é a mulher que de fato nos interessa e o que as mulheres querem ser de verdade. Cada um deve ser responsável pelo próprio corpo e fazer dele o que bem entender, mas já com o corpo do outro não temos a mesma autoridade ou liberdade.

E pensar que a maioria dos casos de violência sexual não é denunciada às autoridades, pois os crimes costumam ser cometidos em grande parte entre familiares, vizinhos ou pessoas conhecidas das vítimas. O estupro é um mal silencioso e quase sempre encoberto, seja por vergonha, medo, condenação pública, pressão religiosa ou moral, entre outras razões que só mesmo quem passa pela terrível experiência pode afirmar. Talvez pareça egoísta ou covarde de minha parte, mas eu não desejo ter filhas, nem filhos. Ainda acho este mundo um lugar muito perigoso, cruel, perverso e injusto para colocar em risco algo tão precioso e caro que é a vida de uma criança que deveria se tornar o adulto de melhor caráter e com a mais completa formação possíveis. Toda sociedade e todos os governos deveriam ter como prioridade cuidar do maior bem que dispomos: a vida. Mas sem amor, respeito e consideração, fica bem mais difícil. Para mim, o mundo faz cada vez menos sentido quando achamos coisa normal crimes e violências. Triste.

 

(*) Jornalista e poeta

 

Artigo publicado aqui, neste “Opiniões”, em 7 de junho, e republicado hoje (12) na Folha