Guilherme Carvalhal — Faits Divers

Carvalhal 02-06-16

 

 

Diante da coleção de recortes de jornais da vovó Margarida, Lucinha perguntou que que era aquilo e levou um tapa na mão do pai para que soltasse. Não, não deixaria as caduquices da velha afetarem a filha — influência do bicho ruim, explicou-lhe o pastor. Bom pai que era, não permitiria à sua pequena amaldiçoar-se pela coletânea de almas aprisionadas pelas palavras.

Bem, pelo menos assim ele interpretou. Captava naquelas descrições de homicídios, suicídios, acidentes e demais fatalidades histórias não concluídas de personagens não plenamente emigrados, permanecendo em um espaço fronteiriço entre vida ou morte. E sua mãe, com aquelas pastas pretas de folhas plásticas, impedia os fantasmas de alcançarem seu descanso — ou danação — eterno. Sua vontade era de tacar fogo, mas sabia como a mãe o condenaria, e sabia também que conjuração materna tinha poder do outro lado.

Ninguém entendia ao certo porquê Margarida começou a se interessar com afinco pelas notícias fatais nos jornais. Um dia a flagraram com a tesoura a destacar a notícia de uma mulher que tacou chumbinho na comida do marido ao descobrir sua infidelidade conjugal (anotada a caneta hidrocor com o número 1), e desse dia em diante compareceu religiosamente às bancas logo ao amanhecer para comprar uns quatro exemplares distintos, sem querer deixar escapar nenhum fato. Não lia quase nada dos jornais, apenas as notícias policiais e o obituário. O restante servia para embrulhar comida antes de guardar no congelador.

Os volumes se acumulavam e alguns curiosos pegavam para revirar, algo a orgulhar a senhora à semelhança de exibir medalha por algum feito. Ela recontava muitas das histórias existentes ali, criando uma epopeia pessoal a partir da reconstituição das muitas tragédias arquivadas. Narrava histórias de amor terminadas em morte (as preferidas), latrocínios (as piores por deixar a vida à mercê dos bens materiais), suicídios (os mais reflexivos, por querer entender o que leva alguém a esse ato de desespero), entre outras fatalidades. Uns levavam aquilo com graça diante de uma aposentada ocupando o tempo ocioso, outros entendiam como a construção de um museu mórbido e preferiam se distanciar. Ela apenas dava um passo atrás quando perguntada sobre o porquê dessa atividade; se esquivava e mudava de assunto rapidamente.

Pouco após aquele contato, Lucinha caiu com forte febre. Silvano se enfureceu e deixou de lado quais restrição e, à despeito das vontades maternas, catou aquela papelada toda, levou ao quintal e tacou fogo em tudo. A senhora veio desesperada chorando como se tivessem imolado um filho a fogueira. Ao tentar pegar água para reduzir o estrago, o filho tomou o balde da sua mão enquanto chamava o nome de Deus expulsando demônios.

Ela correu e se ajoelhou, queimando-se nas brasas. Chorava em desalento, chamando as pessoas inscritas em todas aquelas histórias. Saíam nomes e lamentos, Manoela, cuidado com o trânsito na Via Dutra, Sebastião, não beba dessa água, pois tem veneno, Lívia, sua operação de cálculo renal vai desencadear em graves complicações, e se debatia no chão desolada.

Silvano então se compadeceu e solidarizou. Arrependeu-se imediatamente, porém não havia tempo de voltar atrás. Admirou-a caída, suja de terra e cinzas, e apenas assim compreendeu que, em toda sua solidão na face da terra, ela acabou por encontrar apenas a morte por companhia.

 

Nova barragem no Paraíba — Soffiati vai acionar MPF

O historiador ambiental Aristides Soffiati vai  notificar o Ministério Público Federal (MPF) de Campos, para pedir informações sobre a construção de uma barragem no Rio Paraíba do Sul, visando a irrigação da Baixada Campista. A assessoria do vereador Mauro Silva (PSDB), líder do governo Rosinha Garotinho (PR) e pré-candidato à sucessão da prefeita, informou (aqui) que esse seria um dos pontos do mapa de desenvolvimento (2016/25) lançado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), na última segunda-feira (30).

Todavia, a assessoria da Firjan em Campos esclareceu que a questão específica do barramento não consta do mapa estadual da entidade, fixado sobre questões mais macro. Mas como chegou a ser um dos pontos discutidos em Campos, na reunião prévia ao lançamento mapa estadual, o barramento pode vir a ser contemplado na versão regional. Ainda em fase de elaboração, seu lançamento está previsto para acontecer em julho.

Seja no mapa estadual ou regional da Firjan, a ideia de uma nova barragem no rio Paraíba, próximo à sua foz, é vista com preocupação por Soffiati, sobretudo em possíveis consequências como avanço da salinização e risco à captação d’água em Campos, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana. Diante da falta de informações mais precisas sobre a iniciativa, o ambientalista vai  acionar o MPF de Campos para buscá-las.

Abaixo, a análise de Soffiati sobre a questão, feita a pedido do blog:

 

 

Batizada de “Ilha dos Caras”, em pleno leito do Paraíba, fenômeno foi formado na estiagem do rio entre 2014 e 2015 (foto de Héllen de Souza - Folha da Manhã)
Batizada de “Ilha dos Caras”, em pleno leito do Paraíba, fenômeno ofereceu opção de lazer em meio à preocupante estiagem do rio entre 2014 e 2015 (foto de Héllen de Souza – Folha da Manhã)

 

 

Historiador ambiental Aristides Soffiati (foto: Folha da Manhã)
Historiador ambiental Aristides Soffiati (foto: Folha da Manhã)

Barragem no baixo Paraíba

Por Aristides Sofiiati

 

A bacia do Paraíba do Sul foi e continua sendo muito alterada por desmatamento, erosão, assoreamento e poluição, mas, sobretudo por barragens para formar reservatórios, mover hidrelétricas e transpor água para as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo.

Mais uma barragem, essa no curso final do rio, causa preocupação. Ainda sem que as informações sobre sua construção e finalidades não sejam claras, no mínimo, esse empreendimento exigirá Estudo Prévio de Impacto Ambiental. Precisamos saber em que local pretende-se erguê-la. Qual será o material empregado para a sua construção? Se for pedra, não podemos mais recorrer ao sacrificado Morro do Itaoca, já mal protegido por uma Unidade de Conservação da prefeitura.

Sei, de antemão, que seus defensores dirão que ela não alterará a vazão do rio por apenas acumular água e permitir que ela extravase a fio d’água. É preciso levar em conta que, nos períodos de estiagem, ela deve reduzir a vazão do rio logo abaixo porque parte significativa da água acumulada será desviada para as margens com o fim de irrigação, sobretudo para a margem direita.

Uma redução na oferta d’água doce abaixo da barragem pode ser devastadora para a foz. Segundo estudos efetuados por Claudio Neves e Georgione Costa, o Paraíba perdeu 45% de vazão na foz. Essa redução alterou o estuário do rio, área de água salobra formada pelo encontro da água doce com a água salgada. O manguezal, vegetação típica de estuário na região intertropical, avançou pelo leito do rio. Espécies típicas de estuário ou o acompanharam ou o abandonaram. Além do mais, o avanço da língua salina compromete o abastecimento público de água, o lençol freático e a irrigação, como se pôde averiguar durante a longa estiagem de 2014-15. Uma barragem no trecho final do rio pode agravar os problemas e torna-los crônicos.

Por tais razões, o Ministério Público Federal precisa ser informado dessa intenção antecipadamente, pois, se depender da ANA, do Ceivap, do Inea e do Comitê de Bacia do Baixo Paraíba, a barragem será construída sem a observância dos cuidados necessários. População e poder público de São João da Barra e de São Francisco de Itabapoana também devem exigir explicações. Da minha parte, pretendo informar ao MPF.