Fabio Bottrel — A Extinção da Juventude

 

Sugestão para escutar enquanto lê: ArvoPärt – SpiegelImSpiegel e Für Alina.

 

 

 

 

Descartes - glândula pineal
Descartes – glândula pineal

 

 

— Corre, Luís!

Gritou Júnior para seu amigo enquanto brincavam na Praça do Liceu. Num sol escaldante, o peito ofegante, Luís corria e se imaginava um atleta de futebol, afastando as pernas como se driblasse as pedrinhas brancas sobre a terra. Com a bola na mão, olhou para trás e viu o pequeno cachorro de Júnior correr com os olhos vidrados em seu brinquedo enquanto a baba caia sobre o chão, Luís pegava impulso para jogar bem alto o brinquedo a seu amigo e ver o cachorro correr novamente abanando o rabinho em busca da bola. Era costume a praça ficar deserta no domingo à tarde, bela, solitária, ficava só para os dois e o cachorro para ser preenchida com suas passadas batentes.

Quando Júnior jogou a bola bem alto devolvendo a Luís, percebeu apenas o som oco do objeto caindo no chão. Ao lado, Luís colocara a mão nas pernas, abaixara a cabeça, suava feito um porco e apesar de ter estranhado o próprio corpo não foi tempo suficiente para analisar o que estava acontecendo de tão esquisito enquanto sentia as batidas do coração no ouvido, tutumtutumtutum… logo o silêncio tomou seu corpo e o derrubou de costas no chão, com os olhos apáticos para o horizonte, a bochecha sobre as pedras… estava morto.

Há dois quarteirões dali um adolescente de 16 anos caiu enquanto caminhava pela calçada.Também morto.

Crianças e adolescentes até 16 anos começaram a morrer em toda a cidade de Campos dos Goytacazes, aproximadamente 50 mil pessoas faleceram no mesmo dia, sem mais nem menos.

Antes de correr por socorro, ainda tentando reanimar seu amigo, Júnior escutou gritos por todos os lados, correria, desespero, eram as mães, pais e avós dos que também acabaram de morrer. Todas as ambulâncias foram para a rua, o caos se instalou, sirenes de todos os sons, fardas de todas as cores, gritos de todos os timbres, em pouco tempo os hospitais sucumbiram às filas hiperbólicas com os corpos sobre os colos dos que gritavam com a força da morte, com as lágrimas à sorte, forte. As mães deram o último beijo nos corpos frios dos filhos, os pais abraçaram a pele sem poesia, em pouco tempo Campos dos Goytacazes tornou-se uma pilha de crianças mortas.

Os jornais locais logo noticiaram incrédulos com o olhar vazio de quem não entende o mal que lhe assola, com a voz embargada, o que aconteceu à essa terra goitacá matar todas as crianças que pisam em seu solo mafuá? O plantão da emissora em rede nacional entrou no ar, não era a terra goitacá, era terra brasileira que resolveu se vingar e retirar os filhos de seus predadores. Muitas crianças e todos os adolescentes próximos aos 16 anos caíram nesse dia, sem mesmo saber, o ar poluído a respirar era o último suspiro. Logo a notícia correu o mundo e se encontrou com outras, não resolvera se vingar somente a terra brasileira, em todo o mundo as manchetes noticiaram: nossos adolescentes foram extintos.

 

***

 

Em pouco tempo foi constatado, as crianças estavam morrendo de doenças típicas de idosos e os cientistas se assustaram, não conseguiam entender o porquê dessa disfunção do organismo tão abrupta a ponto de envelhecer os órgãos tão rápidos quando o corpo ainda é jovem. O mundo inteiro estava empenhado em descobrir tal fato. As igrejas tentaram explicar, mas os que atribuíam o fato a Deus começaram a questionar, haviam seguido fielmente os rituaisàs missas, os cultos ou recitais; comido as hóstias, tomado os chás, entregado seus cartões a pastores-deputados ou comprado os sabonetes abençoados. E mesmo assim Deus lhe tomou os filhos, essa não pode ser uma boa divindade, no mínimo foi mimada demais.

Desencantados com Deus as igrejas foram perdendo cada vez mais fieis enquanto as crianças ainda vivas estavam morrendo na faixa dos 16 anos, nenhuma completara 17 até então, geralmente chegavam aos 15 tão debilitadas como idosos de bengalas com cataratas e artrites, o corpo já se despedindo ao chegar. Com missas e cultos vazios, as igrejas e templos celestiais na Terra sem os dízimos e indultos foram os primeiros a falir. Tentaram criar novas interpretações de testamentos e explicações para as mortes em massa, mas não teve jeito, a humanidade havia desiludido com esse sujeito, lá no além nem mesmo se preocupara em vir dar uma satisfação.

As grandes construções de ouro, de pratas e de sangue-cruzadas começaram a ruir com o eco do silêncio de padres, pastores, ministros e bispos passados. Logo tiveram que se empenhar em outras atividades, com dificuldades, pois não eram mais bem-quistos, com as crianças morrendo dia após dia, pensaram se Deus não era o Diabo disfarçado.Desse fato a humanidade concluiu, havia uma Deusa na infância, chamaram de Crisânda, na Terra estava bravo com as crianças e assim explicaram a extinção dos adolescentes, Crisânda não dava o luxo da adolescência a quem não tinha a decência.

Júnior havia se tornado uma criança anciã, aos fins dos 16 anos era raro, o máximo a que chegavam. Sua casa ficava perto da praça e o frio soprava pela janela, assobiava pela fresta, que parecia a morte cantando nos seus ouvidos tão crus de vida. Estava deitado, com o edredom bem grosso sobre o corpo cheio de órgãos debilitados que o faziam sentir tanto frio parecendo o pelo ser gelo. Com o olhar estático para o teto, Júnior esperava a sua hora e sussurrava caso a Morte fosse uma senhora:

— Moça, por favor, que não seja tão dolorosa, não tive nem tempo de ser bom ou ruim e meu corpo já não cabe mais em mim, já que alguém me quer fora daqui, que eu vá num simples fechar de olhos.

O quarto estava um pouco escuro e Júnior pensou ter escutado alguma coisa, quando seu pai abriu a porta lhe trazendo chocolate quente e permitindo mais alguns feixes de luz se porem ao lado de sua cama, viu o menino conversando com o vazio e estranhou.

— Com quem está falando, filho?

— Papai, acho que estou conversando com alguém do além.

Com o ar correndo pela boca estática, descendo a garganta até chegar aos pulmões vibrantes com o acelerar das batidas do coração, a xícara de chocolate caiu das mãos e o pai correu como corre o vislumbre. Haviam se convertido para a religião Crisândica e uma profecia rondava de que Crisânda viria à Terra para falar com a criança anciã e se apresentar à humanidade. Júnior era a criança mais velha da cidade, tinha pouco tempo de vida, pois nenhuma chegaria aos 17 anos, como de costume.

Mesmo na cama, em pouco tempo Júniorfoi levado a um enorme templo cópia do Parthenon onde seria erguida a primeira igreja Crisândica. Mesmo com toda a discussão sobre o local, pois antes havia sido usado por pessoas que não mereciam a letra da primeira palavra a ser proferida naquele templo, não poderia um lugar sagrado ser construído onde pisaram pés dos piores bandidos. Mesmo assim, fora decidido, benzeram todo o local para afastar os vestígios dessa gente que aliena, logo depois toda a parafernália e equipe estavam no local para prolongar a vida do adolescente até o último dia dos seus 16 anos. Uma enorme gama de escritores se pôs ao seu lado com folhas de papel sagrado de um livro a ser feito pelas mãos de crianças anciãs. Escutaram a vida de Júnior e transcreveram, mas não tinham tempo, logo queriam escutar de Crisânda suas diretrizes, mas Júnior não sabia, pensou ter escutado algo, mas não entendia. Os escritores faziam perguntas, mas Júnior não sabia, pensou ter escutado algo, mas não entendia. E os escritores escreviam por si próprio as respostas das próprias perguntas. Os líderes do templo crisândico faziam perguntas, mas Júnior não sabia, pensou ter escutado algo, mas não entendia. E os líderes responderam a si próprio as próprias perguntas enquanto os escritores escreviam as respostas dos líderes. Os fiéis pediram a benção de Crisânda a seus filhos, mas Júnior não sabia, pensou ter escutado algo, mas não entendia. E os seguidores abençoaram aos próprios filhos dizendo tê-los curados no dia seguinte enquanto os escritores escreviam os milagres crisândicos.

No dorso de Júnior dormiam as dores do tempo, injusto, ainda não era tempo. Quando o tom da sua cor foi dor, o roxo dos seus lábios contornando o falecido bege apático, evaporou-se o calor, em seu peito havia um livro sagrado escrito pela voz de Crisânda, seria o novo testamento a ser seguido por todos. Milhares de fiéis no entorno do gigantesco templo acompanharam o último suspiro da criança anciã trazedora da voz além-vida. Seu corpo sacralizado fora carregado pelas mãos mais límpidas no meio do templo onde havia um buraco com uma tumba de ouro, onde ficaria seu corpo a ser enterrado em meio aos cânticos transcendentais ecoando pela enorme construção.

Com o livro oficializam a religião e Crisânda passa a ser a Deusa com mais adeptos entre as divindades atuais. Orações e rituais foram criados, mas nenhuma criança viveu para completar os 17 anos.

 

***

 

Em pouco tempo os negócios funerários se tornaram os mais lucrativos do mundo, viam suas receitas crescerem exponencialmente e um lugar no cemitério era negociado a preços absurdos. Devido a assustadora demanda podiam cobrar preços altos que não correspondiam ao serviço prestado, explorando cada vez mais as famílias das crianças mortas. Com a escassez de espaço em cemitérios e os preços intragáveis, que só poucas famílias poderiam pagar por um enterro decente, foi rapidamente criado uma medida paliativa permitindo enterrarem seus entes queridos em local próprio além da cremação ter substituído a principal forma de embalsamento. Logo o mercado estava lotado de novas funerárias para aproveitarem a onda de morte das crianças e gente muito pobre em pouco tempo tornou-se rica, percebendo que a dor do outro era diretamente proporcional ao seu lucro, quanto maior a dor e remorso, maior a necessidade de recompensar o falecido com caixões caros e apetrechos extravagantes, tentando diluir na morte a mediocridade que fora na vida.

Ao longo do tempo cientistas do mundo inteiro trabalharam em conjunto, unindo conhecimentos e estruturas necessárias em prol de um bem comum, conseguiram identificar uma relação do organismo com forças cósmicas lunares. Com um movimento abrupto feito pela lua, deslocando-se da sua órbita natural, desequilibrou a força eletromagnética na Terra a ponto de reativar a glândula pineal no corpo humano em indivíduos de até 16 anos, quando ela ainda não envelheceu tempo suficiente para ser inócua. René Descartes afirmou há quase 400 anos a alma se encontrar com o corpo através da glândula pineal, calcificada no corpo humano quando na infância, mas ainda tida como a antena de um mundo transcendental para os médiuns, cujo o alcance é proporcional aos cristais de apatita nela contidos. Fora comprovado que a reativação abrupta dessa glândula num corpo milenarmente desacostumado com essa tarefa causou um desequilíbrio corporal ao nível celular, resultando numa intensa má-formação mitocondrial acelerando todas as atividades do corpo fadando este à falência em pouco tempo, não mais que 16 anos, quando a glândula já não responderia mais devido à sua estrutura danificada pelo próprio corpo como invólucro despreparado.

Mesmo com a descoberta dos cientistas os religiosos continuaram a crença em Crisânda, sem relevar a pesquisa e comprovação por parte da ciência. Mudaram suas orações, agora pediam para Crisânda consertar a má-formação no corpo das crianças. O mundo estava se tornando velho, os jovens de outrora se tornaram idosos e as crianças morriam quando adolescentes, não havia mais jovens. Na sociedade, um gigante abismo crescia cada vez mais na lacuna onde antes era a juventude.

Os hábitos estavam em mudança, não havia mais infância, amadureciam rápido enquanto se preocupavam com a sobrevivência e tinham de fazer das suas vidas algo que valesse a pena em pouco tempo de existência, ainda cedo já desenvolviam o sentimento de não quererem ser esquecidas após a morte. Logo as crianças passaram a se comportar como adultos, imitavam-nos como uma forma de sobrevivência da própria sociedade mirim. Passaram a substituir bem cedo os pais em suas profissões, pois à medida que foram morrendo não havia mais adultos para as tarefas cotidianas. Ver um adulto se tornou uma raridade, a maior parte da sociedade era composta de crianças que morreriam na adolescência deixando uma prole com igual curta passagem pela Terra. Os ofícios eram passados de pais para filhos e raramente o filho faria outra coisa devido ao curto tempo de vida para aprender uma profissão além da que o pai já detinha e podia ensinar. Portanto o filho do dono da mercearia continuaria a gerenciar a mercearia e assim por diante. Logo todos os estabelecimentos e instituições ficaram sob a tutela das crianças, substituindo o conhecimento passado pelos seus pais e assim por diante. O exército, os bancos, o comércio, escolas, tudo fora reconfigurado e assumido pelas crianças. Não havia mais faculdade devido ao tempo insuficiente para continuar com o arcaico sistema educacional de seus ancestrais. Como também não daria para completar nem mesmo a escola, todo o sistema fora redimensionado e repensado pelas crianças anciãs, que ainda detinham um pouco do conhecimento dos ancestrais e percebera como era um grande erro, tão desgastante e sofrido, muitas vezes com professores estúpidos a serem tomados como exemplos, tornando esse processo ainda mais desprezível. As disciplinas foram remanejadas de acordo com as necessidades maiores da sociedade numa perspectiva a longo prazo, livremente escolhidas por aqueles que tivessem mais afinidade e canalizada para uma determinada necessidade da cidade, como por exemplo a construção de um prédio ou a cura de uma nova doença que não estava nos documentos e livros deixados pelos ancestrais adultos.

As meninas engravidavam com no máximo 14 anos, à essa idade já estavam muito velhas. Como tinham pouco tempo de vida, era raro conseguir criar o filho, geralmente quem criava era um amigo mais novo do casal.

Foi noticiado na tevê quando o último adulto faleceu. Várias câmeras o acompanharam até o último suspiro. Todo o mundo parou para assistir, dentro de um bar as crianças se espantaram como era tão diferente delas, nunca haviam visto um adulto na vida, muito menos um idoso, somente esse pela tevê ou outros em filmes e gravações da humanidade na Era Adulta. Aparentavam tão maiores que eles, a pele era diferente, enrugada e um pouco quadriculada quando a câmera aproximava, também era possível ver alguns pigmentos como pintas que as crianças desconheciam. Laplagne tinha 102 anos e era chileno de raízes indígenas, quando seus olhos se fecharam marcaram o início de uma nova era na humanidade, não havia mais adultos, o mundo estava povoado de crianças.

 

***

 

A vida não é mais efêmera quando se sabe que a morte espera logo à frente, não teriam muito tempo para sorrir se as tristes coisas mundanas lhes perpetuassem os dias num sentimento ingrato. Como o encantamento da criança que descobre as coisas da vida, assim eram os dias, o convívio, a sociedade em busca de sentimentos intensos, algo a valer a breve existência. O próprio estudo sobre ética, moral dentre outros assuntos era dividido por grupos familiares. Como não havia tempo para se inteirar de todos os assuntos, o pai ou mãe estudiosa de um determinado filósofo da Era Adulta, deixava para seu filho o conhecimento e assim a prole em diante continuaria se especializando nesse mesmo filósofo a fim de continuar a pesquisa de seus ancestrais, montando o quebra-cabeça de várias cabeças. Rousseau foi considerado o filósofo mais importante da Era Adulta e a filosofia passou a ser dividida após a sua existência: pré-rousseaus e pós-rousseaus. Em suas colocações sobre as instituições educativas corromperem o homem e tirarem-lhe a liberdade, e sobre o pensamento deque para a criação de um novo homem e de uma nova sociedade seria preciso educar a criança de acordo com a natureza, desenvolvendo progressivamente seus sentidos e a razão com vistas à liberdade e à capacidade de julgar foi tão importante por algo que ele nem poderia imaginar, como nenhum adulto poderia pensar em um mundo só de crianças, mas suas teorias foram de fundamental importância para elas enxergarem a perspectiva da espécie humana e as transformações pelas quais estavam passando.

As crianças pós Era Adulta tinham de aprender a sobreviver rápido e sem a mãe, pois quando atingiam a fase do discernimento de mundo à sua volta, a mãe já havia falecido. As circunstâncias oriundas desse fato criaram uma alteração genética ao longo do tempo, o ser-humano já nascia com algumas funções pré-programadas para sua própria sobrevivência, como os animais, e ao longo da vida perderam a angústia da escolha sobre determinadas ações necessárias para sobreviver, pois se tornaram irracionais, agindo por instinto puramente, tal como respirar. Rousseau foi importante para determinar o que viria a se tornar a espécie humana diante dessas alterações por destrinchare analisar os detalhes calcificados nos animais ao nascer próprios à sobrevivência, eles já nasciam sabendo e o ser-humano estava se animalizando, coisa impensável até então. Na Era Adulta, ao acabar de nascer um bebê, caso ficasse longe da mãe ou da sociedade, era provável que em menos de duas horas estivesse morto. Mas ele teria tempo suficiente para aprender tudo sobre sua sobrevivência bem como as idiossincrasias da sociedade para uma melhor adaptação, coisa inexistente no mundo contemporâneo: o tempo.

Criaram novas maneiras de medir a vida, até os 6 anos de idade era a infância, dos 7 aos 13 anos, fase mais produtiva da criança, correspondia à fase adulta, com suas atribuições sociais mais rígidas; e dos 14 aos 16 anos equivalia ao idoso, onde já debilitados, o que lhes restavam era o repouso. Como essas mudanças são inerentes às atividades sociais ou coletivas, é de se imaginar o tamanho da mudança na sociedade. Logo no final da Era Adulta as crianças tiveram posse dos armamentos pesados dos adultos, assumiram os batalhões de exércitos e polícias, que logo depois seriam descartados pela falta de utilidade. No início houve um grande medo do caos se instaurar no mundo devido aos sentimentos explosivos ainda presente na genética daquelas crianças que conviviam com os adultos e agora estavam em posse das armas. Mas quando houve a primeira morte em Campos dos Goytacazes oriunda de um tiro dado numa briga, o atirador ficou tão assustado não só com o barulho da arma, mas por ter matado a outra criança, que nunca mais houve tiro, além de outras crianças aparecerem de imediato para punir o atirador. Reuniram todas as armas encontradas e esconderam num enorme galpão afastado da cidade, trancadas de todos os modos, e três famílias ficaram responsáveis por cuidar que elas nunca chegassem às mãos de nenhuma criança. Somente essas três famílias sabiam onde encontrá-las e o segredo foi passando de prole em prole.

Ainda não tinham desenvolvido todo o ódio acumulado dos adultos e o mundo passou a ser um lugar mais tranquilo com algumas raras exceções de crianças influenciadas por alguns exemplos deixados pelos ancestrais da Era Adulta. Como a vida era breve, logo faleciam, e o mundo povoado por crianças criadas por outras crianças exauria cada vez mais os sentimentos e exemplos ruins, já injustificáveis no mundo contemporâneo de acordo com a busca pela igualdade social e a negação do sistema dos adultos que necessitava de uma sociedade desestruturada para haver aqueles a se sujeitarem a ser explorado, conflito fonte de todos os sentimentos negativos. No mundo contemporâneo esses sentimentos não faziam nem mesmo sentido. Essa mudança do sistema econômico se deu aos poucos, as crianças não conseguiam deixar umas às outras em dificuldade, muito menos na rua, sem nada. Não era justo enquanto algumas dormiam em casas confortáveis, incomodava àquelas que tinham consciência dessa injustiça. Em pouco tempo não havia mais moradores de rua. Com a tendência a compartilhar, o sistema deixou de ser capitalista, e ficou perceptível que explorar o próximo era um sentimento adulto, inculcado nas cabeça das crianças da Era Adulta.

Quando Rafael nasceu, 300 anos após o último adulto – desse modo ficou a contagem da história, se fosse contar após Jesus, seria 2.316. Rafael almejava ser um desses homens que morrem e o mundo começa uma nova história após sua morte, mas as chances eram muito pequenas, a vida era cada vez mais curta, e todos passavam os anos corridos, afobados, almejando dar um pouco de sentido a sua existência. Não havia tempo para se especializar em algo a ponto de ser um grande destaque a mudar o mundo.

11 anos depois do seu nascimento, Rafael viu o mundo parar, todos os jornais noticiavam, tevês, impressos e digitais, um rapaz na Argentina havia vivido além dos 16 anos e completara 17 anos com a saúde impecável. Nas matérias da imprensa, uma fagulha de esperança de que a vida não fosse tão pequena voltou a acender.

 

***

 

Quando o rapaz chegou à juventude com uma saúde aparentando durar muito tempo todo o mundo o acompanhava, queriam saber o segredo da vida duradoura. O Jovem acostumou-se às regalias que lhe eram atribuídas, mas não era tão diferente dos outros de vida breve, pois o mundo estava socialmente equilibrado e estruturado agora, as empresas tornaram-se cooperativas onde cada trabalhador recebia o que lhe era devido, a renda era distribuída, acabou a mais-valia e ninguém era obrigado a viver uma vida inócua e sem sentido, a existência era breve, mas em sua maior parte, feliz. Mas se o único jovem do mundo carecido de pensamento crítico, ficará na Terra talvez o tempo de quase 8 vidas dos que morriam cedo, quisesse ter uma vida com mais benefícios o sistema não poderia ser tão estruturado assim. Observando o fanatismo ao seu entorno por uma vida longa, resolveu tirar proveito disso. Criatividade não faltou para usar dos esperançosos como seus servos e multiplicar seu patrimônio para viver como o único rei do mundo: começou a vender sabonetes os quais dizia ter usado para o banho e o óleo de sua pele ali impregnado era uma possibilidade de vida longa àqueles que se esfregarem com ele. Vendeu até mesmo a saliva, de tudo fazia. Fundou uma religião, Longa Hermito, em pouco tempo se proliferou pelo mundo com todos os seus indultos e esperanças falsas da sapiência de como a vida seria, até mesmo após a morte. Dizia falar com Crisânda pessoalmente e afirmava, a Longa Hermito é a igreja mais perto dela, as crianças que não a seguissem iriam para um lugar pior que o inferno. Os fieis deviam se confessar com os ministros da Longa Hermito, que mantinham um contato mais estreito com Crisânda e imbuídos da força da absolvição perante o sacrifício dos confessados – ao doarem-se para trabalhos pesados ou financeiramente – o curavam dos males do mundo.

Em pouco tempo a religião do mau-caráter era a mais seguida e as vantagens que ele tirava daqueles ao seu entorno não se limitaram a financeiras, mas também sexuais. E algumas crianças anciãs almejam ter um filho do jovem de vida longa, almejando perpetuar sua prole, mas de nada adiantou, todos os filhos de Hermito morreram cedo, sem nem mesmo saber quem era o pai.

Rafael chegou aos meados dos 16 anos com uma saúde impecável e todos abismaram, saúde de adolescente, de gente que não pensava em envelhecer. Enquanto haviam os fanáticos por saúde se esperançando numa salada com linhaça na prolongação dos dias, Rafael não tinha hábitos saudáveis, na verdade, péssimos hábitos, a ponto de comer bacon com refrigerante no café da manhã. Concluíram perenemente não haver tempo para o corpo se deteriorar com hábitos que não sejam saudáveis, e aqueles se martirizando em dietas estavam deixando de aproveitar o pouco tempo a que lhes eram predispostos na Terra. Deduziram que a resposta para esse feito só poderia ser divina ou uma força ainda desconhecida, tão poderosa a ponto de mexer em suas genéticas num piscar de olhos.

Em exatos 5 anos após o primeiro homem se tornar adulto, Rafael completou 17 anos. A notícia correu toda cidade de Campos dos Goytacazes em questão de minutos. Em pouco tempo a casa onde morava o adolescente se inundou de crianças querendo vê-lo, outras crianças-repórteres, jornalistas, curiosas, carros engarrafaram as ruas, que mais aparentava filme da Era Adulta em Hollywood com toda a cidade na rua correndo em meio ao caos no trânsito para ver de tão perto o segundo jovem do mundo a completar 17 anos. Diante do burburinho que se negava a se desfazer em frente à sua casa, Rafael não pôde sair por alguns dias, mas quando a rua se tornou um pouco menos amontoada, não hesitou em dar entrevistas e falar em público sobre sua condição. Realmente não sabia o que tinha acontecido e falava abertamente o desconhecimento sobre a causa. Doou-se para a ciência, esteve solícito a todos os exames e experiências possíveis, que não lhe causassem dor ou risco de vida. Os próprios cientistas de vida breve tinham receio de colocá-lo a vida em risco, não por uma boa-ação, mas porque era o único exemplar da espécie que se permitia doar à ciência. Crianças-cientistas do mundo inteiro foram para Campos dos Goytacazes, como a vida era curta, os que começaram as pesquisas deixavam tudo delineados para a próxima prole assumi-la desde então, famílias-cientistas foram designadas especialmente ao estudo de Rafael.

O jovem goitacá cresceu e Hermito, já na fase adulta, sentia-se cada vez mais incomodado, pois não era de sua igreja, o que desmereceu muito a sua religião e fez perder credibilidade e fieis também; não comprava os seus produtos, o que fez desmerecer seus negócios além da religião; a vida de Rafael estava fadando ao fracasso as falcatruas de Hermito, havia convidado Rafael a se juntar ao negócio, mas este não aceitou.

Nessa mesma cidade no interior do estado do Rio de Janeiro, uma menina chamada Laís tinha 11 anos quando Rafael completou 17. Ela mal sabia que 5 anos depois também completaria 17 anos e o mundo começou a ficar confuso novamente, percebendo um padrão de 5 em 5 anos para que um ser-humano passasse à juventude. Estudando o corpo de Laís, cientistas perceberam um padrão intrigante junto aos astrofísicos especializados no movimento lunar como influência biológica. Num período de 5 anos a lua se movimentava numa órbita desconhecida de modo que as crianças com determinado número de cristais de apatita na glândula pineal à estrutura exata no dia, hora e minuto do movimento lunar, tinham o processo revertido em suas glândulas, permitindo a passagem do tempo em suas vidas.

Com o estudo sobre Laís e Rafael, a humanidade estava se inteirando à perspectiva de a Terra voltar à Era Adulta, tal como era antes, talvez com toda a ganância e sentimentos negativos acumulados pelos adultos ao longo da vida e estragavam o mundo em que viviam. Hermito se enfurecia a cada nova descoberta, dizendo a verdade residir em sua religião para não perder os fiéis. Marcou uma viagem ao Brasil, era a primeira vez que sairia da Argentina, dizendo ser de suma importância para alertar os brasileiros da vida longa a se encontrar em Crisânda, que fala através de si na sua religião. Hospedou-se no Rio de Janeiro, e uma tropa de crianças armadas e de fardas pretas o acompanhou, coisa que só fazia sentido para ele mesmo, pois não havia tempo para acumular tanto ódio nas crianças e ninguém o faria mal. À essa altura, Rafael e Laís haviam passado tanto tempo juntos e curiosos sobre seus corpos com uma afinidade tão intensa, que aparentava alguém os ter feitos um para o outro. O casamento era coisa corriqueira nesse mundo, não havia tempo para se perder com tantos enfeites, a demonstração da união estava dentro dos entes queridos, com amor e carinho e um momento a sós, não existia mais festa para os outros, a festa era deles mesmos e só para eles, sem a necessidade de fingir ser quem não é.

Hermito vai a Campos dos Goytacazes monta um palco gigantesco na Praça São Salvador onde destilará todo o medo do além e do presente, apenas um disfarce para o que viera fazer de verdade, se encontrar com Laís e Rafael. Os dois recusaram o primeiro encontro, mas duramente ameaçados, se veem sem saída, a não ser enfrentar o monstro de frente, espera-se, verbalmente.

— Não podemos deixar que mais adolescentes cheguem à fase adulta. – Disse Hermito, com as pernas cruzadas numa poltrona confortável dentro de uma sala fechada e vazia. Em frente a ele, numa outra poltrona, Rafael e Laís escutam apavorados a proposta de Hermito de matar todos os adolescentes do mundo que ultrapassarem os 17 anos afim de serem os únicos adultos e governarem o mundo.

— Jamais aceitaríamos isso. Além de ser impossível, os cientistas já comprovaram que em pouco tempo o número de crianças a atingir a fase adulta será muito maior a cada movimento da lua. – Disse Laís.

Hermito já tinha pensado em tudo, manteria um exército em cada local do mundo com acesso a um banco de dados prontamente a fiscalizar a idade de cada indivíduo. Rafael e Laís sabiam que talvez não sairiam com vida daquela sala caso não aceitassem as condições do adulto.

Ao perceber a resistência dos dois jovens e a personificação neles da falência de seus planos, Hermito tira do lado de sua calça um revolver de ouro, brilhando como um espelho e aponta no meio da testa de Rafael, seus dedos escorregam para o gatilho, põe uma leve pressão para puxá-lo quando…

 

***

 

Escutou gritos de uma multidão afora a sala, Hermito guarda a arma, o barulho estrondoso do disparo causaria espanto e dúvidas na multidão afora. Gritavam o nome de Rafael e Laís, eram os protegidos da cidade, queriam saber o que se passava dentro daquela sala. Os dois conseguem sair escoltados pela multidão e um olhar ranzinza de Hermito os acompanhara até sair de vista. Não demorou muito para que arrumasse uma maneira discreta de ir atrás dos dois novamente, mas percebendo que era impossível chegar até eles devido ao exército de crianças que os rondavam não hesitou em usar a força, mostraria a sua cara ao mundo, mas mataria aqueles dois e seria o único adulto.

Hermito persuadiu a todos que esse seria o grande momento da Terra, o apocalipse havia chegado e tropas e mais tropas armadas de seus seguidores atravessaram a Argentina rumo a Campos dos Goytacazes. Percebendo a notícia correr, as três famílias responsáveis pelos armamentos escondidos noticiaram a população d’onde estavam as armas e apetrechos para se equiparem. As táticas de guerra não foram esquecidas, haviam famílias responsáveis por continuar essa pesquisa para caso algo improvável como esse ato acontecesse. A sociedade de crianças campistas não estava despreparada, e outras regiões se juntaram à cidade, estudaram a estratégia, se colocaram à postos e defenderam os seus ombro a ombro. Houve guerra, sangue e muitas mortes. No meio da batalha Hermito foi morto quando descobriram seu paradeiro e os seguidores sobreviventes já não vendo mais sentido em guerrear voltaram para o seu lugar.

Enquanto a sociedade se recupera da guerra, o intervalo de nascença entre um e outro que atingirá a fase adulta se torna cada vez mais curto e como previram os cientistas, o número de nascenças concomitantes aumenta.

60 anos depois em Campos dos Goytacazes, Rafael e Laís se tornam os primeiros idosos pós Era Adulta, e o mundo já estava povoado com adultos, mas dessa vez com uma sociedade muito mais justa e sentimentos muito mais nobres aprendidos com as crianças.

 

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