Opiniões

Carol Poesia — Ficou noiva sem saber por que

Anna Paquin e Holly Hunter no filme “O piano” (1993), dirigido por Jane Campion (foto: reprodução)
Anna Paquin e Holly Hunter no filme “O piano” (1993), dirigido por Jane Campion (foto: reprodução)

 

 

Viveu uma única paixão, durante a faculdade, avassaladora e curta. Acabou junto à universidade.

Voltou para a cidade natal. Gostou de quem gostou dela e noivou.

Ela não precisava se preocupar com muita coisa, o futuro já estava pronto, junto ao pacote “noivo”. Seria esposa, mãe e professora. Estava tudo certo. Tudo mais do que certo. Até que ela notou que estava certo demais. Os amigos, a família, a igreja, todo mundo apoiava o relacionamento. Na certa, fora um grande alívio tê-la visto renunciar as loucuras da vida universitária. Se duvidar, até Deus concordava.

Deus. O fantasma do qual ela nunca abrira mão. Levava no pensamento pra onde fosse e como fosse, até mesmo quando bêbada, ou em transe, ou plenamente lúcida. Ela também não podia queixar-se de abandono, foi, mais do que ninguém, protegida “pelo além” enquanto praticava as maiores sandices durantes os quatro anos. Era Deus. Por certo, ele tinha uma preferência por ela, e ela por ele.

Estava tudo perfeito. Não parecia real. E ficou dias a fio pensando na realidade.

Prova do vestido. Vertigem. Desmaio. Falou bobagens — disse que era de plástico, que não era Barbie, que era hipócrita, muito hipócrita, que queria ser cantora, que era Maysa, Edith Piaf, Elis Regina, que era lésbica. As amigas, mãe e lojista olharam-se enquanto a abanavam… Ficou um silêncio de repente… Ninguém entendeu nada, mas depois da palavra “lésbica” finalmente pararam de dizer “calma querida” e tudo ficou calmo. Ficou tudo tão calmo que deve ter passado um anjo na hora, foi quando ela recobrou os sentidos.

Na casa dos pais, deparou-se com o noivo. Ele era perfeito — amigo, compreensivo e cauteloso. Farta de tanta perfeição, tentou achar defeitos nele, fez insinuações, perguntas sobre o passado e sobre o futuro, foi irritante. Tentou colocar ciúmes. Bebeu demais.

No dia seguinte não se viram.

Só na semana seguinte, quando a semana do casamento:

— Agora você já sabe que não sou tão santinha assim.

— Por quê? Porque você bebeu demais?

— É.

— Boba! Por que você não me contou que bebia?

— Antes da faculdade eu não bebia. Quando voltei pra casa não queria mais beber.

— E tomou um porre?

— É…

— Boba…

— É…

— Então você tem muitos segredos?

— Alguns. E você tem?

— Alguns.

— Não vai me contar?

— Só depois do casamento.

— Ah é? Por quê?

— Porque se não você não casa.

(risos)

— É tão grave assim?

— Pior do que tomar um porre nas vésperas do casamento.

— Nossa! Que medo! O que seria pior que isso?

— Muita coisa. Você não gostaria de saber.

— Tipo o quê?

— Tipo… do que você tem medo?

— De ficar sozinha.

— É mesmo? Tão bonita como você… ficar sozinha como?

— Não ficar sozinha no sentido de sem ninguém comigo, mas me sentir sozinha.

— Hum… entendi.

— Você se sente sozinha comigo?

Pela primeira durante todo o namoro tiveram a chance para serem sinceros. Não foram.

— Não.

— Ufa! Que alívio.

— E você? O que sente quando está comigo?

— Me sinto compreendido.

— Como assim?

— Compreendido mesmo, no sentido de entendido.

— Por que você sente isso?

— Porque você me enxerga como eu gostaria de ser.

— Perfeito.

— Isso mesmo.

— Mas às vezes eu gostaria que você não fosse tão bom, para eu me sentir menos culpada.

Foram embora abraçados, como dois amigos que não se viam há muito tempo. Ela sentia uma paz impagável, uma paz que não conhecia e que nunca desejara.

Dias depois essa paz desapareceu, era o dia do casamento. Estava nervosa, ansiosa, querendo que tudo passasse bem depressa. Pensava no ex-namorado, aquela paixão da faculdade, nunca se imaginou cansando de verdade com ele, e de fato, estava a casar-se com outro. Pensava naquela relação da época estudantil — tão intensa, tão sem futuro, tão pólvora e coração. Repetia para si mesma “nunca daria certo”, “era paixão, não era amor”, “não tinha a tranqüilidade e a paz que tenho agora”, “iria acabar independente da faculdade”, “não tinha futuro”.

Tudo pronto. Faltavam três horas para o “grande momento”. Estava em casa, maquiada, penteada e vestida. Tentava se distrair com a televisão. Ouvir música. Estava sozinha, a família no salão de beleza e o pai no salão de festas conferindo a chegada das bebidas e dos garçons.

A espera a agoniava… Quando, de repente, ouviu seu nome na voz do noivo, que chamava do lado de fora. O que seria?

Em poucos minutos, ele confessaria que estava inseguro, confessaria que embora a admirasse muito não estava certo de que a faria feliz. Ele declararia que desistira do casamento. Mesmo vestida de noiva, não hesitou em abrir a porta. E antes que ele pudesse dizer uma palavra sequer, ela chorou copiosamente, ao vê-lo. Abraçaram-se, beijaram-se, sentiram-se. E em silêncio, despediram-se. Perceberam-se cúmplices, afinal.

Tudo cancelado. Foi uma confusão dos diabos. O povo da igreja especulou até não poder mais, as famílias dos noivos não podiam acreditar. Foram histórias e mais histórias inventadas e passadas de convidado a convidado: “Ela deve estar grávida de outro, voltou da faculdade com a cabeça revirada”, “Me parece que ele nunca foi santo, tem um passado muito misterioso”, Ninguém sabe de que igreja ele veio, desceu aqui de paraquedas”, “A família dele é de outra cidade”, “Aposto que foi ela quem desistiu, que vexame”, “Esses jovens de hoje não querem nada com a vida não, olha o dinheirão jogado fora, disseram que só o vestido dela custou quatro mil reais”. Em poucos minutos o casal que era perfeito se tornou suspeito de muitas infrações e pecados. Esse povo de igreja não perdoa…

Dias depois do casamento que não aconteceu, ela viajou para se ver livre do falatório provinciano. E por acaso ou destino, reencontrou seu ex (o da faculdade), sua grande e única paixão:

— Que bom que você veio! Fiquei sem saber o que fazer quando soube que você ia se casar…

— Quem te contou?

— O pessoal da faculdade, um falou pra outro que falou pro outro… Eu vi no face…

— Sei…

— Pensei em impedir…

— Por quê?

— Porque eu acho um absurdo a gente ter deixado tudo morrer junto com a faculdade.

— A faculdade era tudo.

— A gente devia ter ido morar junto, tentar alguma coisa pra continuar perto um do outro… Você não acha? O que você acha? Por que você não se casou?

— Você acha que era amor o que rolava entre a gente?

— Acho. Sempre achei. A gente nunca falou em casamento, mas… Eu pensava que isso ia acontecer com a gente. Eu imaginava isso com você.

— E por que você foi embora?

— Por que você foi embora também?

— Porque não sabia o que fazer depois que a gente se formou.

— Pois é, mas agora eu sei, sei por você e sei por mim.

Eles ficaram juntos por dias, longe de casa, longe da família, longe do trabalho. Até que tiveram que voltar, cada um pra sua casa. Mas voltaram cheios de planos, estratégias para driblar a distância… Transferência de cidade… Viam-se todos os finais de semana e a relação engrenou. Faziam planos, lista de padrinhos, imaginavam os filhos, davam-lhes nomes. A casa estava pronta, os convites também. A família estava contente. Acabou o falatório na igreja. Todo mundo os respeitava por se tratar de uma linda e impressionante história de amor. Afinal, os anos passaram mas o sentimento resistiu e agora iria render frutos. Tudo perfeito! Futura esposa, mãe e professora. Foi quando ela percebeu que estava tudo perfeito demais.

Começou a questionar a própria profissão, a cidade para a qual se mudaria em poucos meses, o que o noivo teria feito no período pós formatura, se encontrara alguma amiga dela, com quem namorou, se teve caso com alguém conhecido… Ela fez um inferno às vésperas do casamento. Mas o noivo, paciente, resistiu e conseguiu acalmá-la. Mantiveram a data.

Chegou o tão esperado dia. Não estava nervosa, mas também não estava feliz. Não se preocupava mais em ser feliz a todo custo… Estava quase na hora. Mas precisava falar com o noivo! Não podia fazer isso sem antes conversar com ele! Queria que ele explicasse porque estava se casando com ela, que ele a desse um motivo, que ele a convencesse:

— Alô?

— Bernardo!

— Miriam?

— É! Sou eu! Preci…

— Não estou te ouvindo direito, a ligação está cortando.

— Preciso que venha aqui em casa!

— Miriam! Como assim? Estou a caminho da igreja.

— Preciso, Bernardo! Preciso muito! É vida ou morte!

— Sua vida e minha morte né? Miriam, se acalma! A gente esperou por isso! Vai dar tudo certo! Temos certeza!

— Preciso que venha aqui! Preciso te ver, falar com você!

— Te espero na igreja.

— Bernardo, eu não vou. Eu não posso ir. Eu não sei o que eu quero da minha vida.

— Mas eu sei. Você quer casar comigo, desde a faculdade.

— Bernardo…

A ligação caiu, ou ele desligou. Não se sabe. O que se sabe é que os sinos tocaram e a noiva não estava lá. Simplesmente não foi. Um inferno pra lá e pra cá. Aquele inferno. Uma tristeza para todos.

Miriam desapareceu.

Bernardo, quando recuperado, refez-se e deixou a raiva pra lá. Sentiu pena de Miriam, julgou-a covarde.

Os parentes mais desocupados deram início a um novo ciclo de fofocas e hipóteses maliciosas.

Miriam, por sua vez, finalmente entendeu que procurar-se é solitário e pela primeira vez na vida se via cheia de coragem para fazê-lo. Foi achar-se.

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Lamentável! O destino de Mirian só demonstra como sua falta de certezas a levou a um espiral de desgraça…será que ela existe?

  2. Sim. Sim… A perfeição Carol Poesia, às vezes nos deixa de, como podemos dizer, “de saco cheio”, não que sejamos perfeitos, apenas achamos que somos, mas não somos, nunca seremos. O que pensamos é que quando as coisas, quando acontecem de forma muito organizada, são perfeitas e nada pode ser pior que a perfeição, que nos impede de errar e só aprendemos mesmo é quando erramos… E ao aprendermos, evoluímos e jamais atingiremos a perfeição, pois a perfeição é chata. mas combinemos entre nós apenas, que Miriam foi, ´r insegura, insatisfeita demais, mas ningu´rm ´r perfeito mesmo! Eu amei o texto!

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