Carol Poesia — Sobre serpentes

 

Ilustração de Aldemir Martins para o poema “O navio negreiro”, de Castro Alves (1847/71), com sua “serpente em doudas espirais”
Ilustração de Aldemir Martins para o poema “O navio negreiro”, de Castro Alves (1847/71), com sua “serpente em doudas espirais”

 

 

 

 

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.

(Adélia Prado)

 

Depois de mais de quinze horas seguidas de sono, amanheço sem propósito. Antes de qualquer pensamento, a misteriosa sensação de vazio ocupa cérebro e corpo. Aquela inércia. Cadê a força? Estava demorando… Fazia tempo que não acontecia aquela vocação para a inutilidade.

Arrastando-me, levo-me até o banheiro. Olhos tão inchados que quase não posso ver, mas mesmo sem ver sei que preciso lavar esse banheiro. Também preciso lavar roupa. Também preciso preparar aula. Também preciso ir ao banco. Também preciso escovar os dentes, comer, escovar os dentes. Começo pelos dentes. Olho no espelho: vamos lá! Vamos racionalizar esse vazio, levar para o consciente. Você já passou por isso antes! É o quê? Que cara é essa? Por que isso? Pra que isso? Tem motivo pra essa fraqueza toda? Motivo pra levantar você tem – banheiro, roupa, banco, aula…

Por que há dias em que a concretude da vida não basta?

Isso é a vida, garota! Isso basta! Tem que bastar! É a vida! Conforme-se! Nem todo dia tem poesia! Faça! Nem todo dia tem algo além das aulas, roupas, comida e banco.

Não tem?

Não tem!

Mas tem que ter!

Mas não tem!

Mas tem que ter!

Mas não tem, criança mimada! É um fato!

Eu não suporto tanta praticidade…

Começo a pensar (pela milésima vez) em me mudar para o Sana. Abro um pequeno bistrô. Eu posso fazer isso. Fico em contato com a natureza todos os dias. Eu posso fazer isso. Deixar tudo pra trás, esse cotidiano materialista opressor e viver no mato. Uma horta. Agricultura. Pouca gente. Sanfona. Leitura. Escrita. Eu posso fazer isso. Eu posso fazer isso? Pensar nisso me dá esperança, paz e vontade de chorar.

Tenho certeza de que posso sim fazer isso. Mas desconfio de que mesmo assim, embevecida pelo o ar mais puro e pelo silêncio mais raro, afastada das notícias de corrupção, guerra e maus tratos, assim, como sempre sonhei, como a própria Eva, acordarei, vez ou outra, sem disposição pra viver.

É a maldita serpente!

É a maldita serpente!

(“Serpente” é o apelido do Tédio, mas só os religiosos sabem disso. Corramos dela como “o diabo foge da cruz”! Ela é a ponte para a “danação eterna”!)

Aliás, desconfio que por causa do tédio, por puro tédio, Adão e Eva “comeram aquela maça”. Enfim… Banho? Banho.

No banho penso nessa vontade louca de deixar a cidade. Tenho esse desejo desde os dezessete anos, desde o pré-vestibular, desde que me senti pressionada pela primeira vez. Insisto na ilusão de que no mato só tem o bem. Herança árcade? Síndrome “Jardim do Éden”? Sangue indígena? Influência de Rousseau – “O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”? Ou só ilusão mesmo?

Não sei… Nunca saí de vez do ambiente urbano. Mas quando no mato sinto uma paz infinita, uma inspiração absurda e uma vontade de ser do bem. As mágoas se dissipam, o perdão preenche fácil fácil, uma sensação de “ser mãe de tudo”. Lembro-me de Clarice Lispector, em “Perdoando Deus”.

Penso “ah como seria bom viver no mato”… Afinal, a vida não vivida é sempre melhor do que a que se vive. Claro! Na vida não vivida não há os problemas da viva real, mas haveria outros problemas, que não levamos em consideração na nossa imaginação. Que graça teria um sonho cheio de realidade?

Acabo o banho molenga da água boa e morna. Parece que nem acordei. Vou à cozinha de roupão, faço um café, café de coador! Sinto o aroma da água fervendo passando no pó  forte. Um prazer tão antigo e tão simples. Esses momentos são eternos. Começo a achar que a vida não é tão vazia assim, só por poder tomar um banho quente e sentir logo cedo o cheiro de café fresco.

A caneca encosta na boca e aquele vaporzinho praticamente faz uma sauna no centro do meu rosto. É tão bom… Antes do primeiro gole, sinto novamente o cheiro. E bebo. O prazer está completo. Sim, a vida vale à pena. Esqueço-me do vazio, do banheiro, dos dentes, das contas, das roupas, dos afazeres que estão por vir. Durante dez minutos, sorvo devagar, gole por gole, sentada no sofá, de roupão, o café quente.

O sol entrando delicado pela janela e a orquídea azul olhando pra mim, tão viva que parece um avatar (brinco!). Quanta beleza… Sim, está confirmado! A vida vale à pena. Nem pareço estar dentro de um apartamento. Pareço estar no campo, com aromas e sabores. O divino impera! Mas as serpentes estão ao redor. Por algum motivo lembro-me de Augusto dos Anjos – “Andam a espreitar meus olhos para roê-los e há de deixar-me apenas os cabelos, na frialdade inorgânica da terra”. Calafrio.

Um dia tudo acaba. E tem dia que acaba antes de acabar.

De repente a lembrança de tudo o que tenho que fazer (a tal concretude) me toma por trás, pesa na nuca, passa pelos seios da face (os mesmos que há pouco estavam relaxados com o vapor quente), passa seco pela garganta e para no peito, que começa a acelerar. Estou de volta à cidade. De fato, no apartamento de cinquenta e dois metros quadrados. A orquídea já não parece tão viçosa, o sol imperativo exige cortinas, o café está frio e amargo. Estou rígida e gélida no sofá. Por onde começar? Tenho que fazer ligações, lavar o banheiro, arrumar a cozinha, fazer o almoço, preparar aula, corrigir prova, ginástica, ensaio, trabalho…

O tédio que virou encantamento agora é pura ansiedade. Não sei por onde começo. Ligo o computador, pego o celular. Me atualizo. A vida hoje parece que se resume a uma busca constante por atualização. O deleite das sensações ocupa pouquíssimo espaço do dia, isso, para mim, é deveras opressor. Em poucos minutos fico a par das atualidades – olimpíadas, bienal, fora Temer, Cunha, Biel (Quem é Biel?), guerras e conflitos… Um vídeo, em particular, está sendo muito compartilhado… Assisto ao vídeo. Um menino de três anos, vítima de um ataque na Síria. A imagem da criança sendo retirada dos escombros, toda suja de sangue e poeira, somada a fala da jornalista entrecortada por sua própria emoção, me levam para um  lugar mais sombrio. Nem café, nem orquídea, nem apartamento, nem Sana. Um lugar onde não há sentido para afazeres, não há sentidos para sensações – sem olfato, paladar, visão, audição ou tato. Respiração paralisada. Tudo suspenso. Um não-instante.

No vídeo, ele é colocado numa ambulância: não reage, não chora, passa a mão na cabeça, percebe o próprio sangue e limpa a mão na cadeira, como quem não sabe o que aconteceu. Na publicação a legenda – “O mundo sempre foi esse lugar triste? Que dor.”.

Nem tédio, nem encantamento, nem ansiedade. Tudo parece pequeno. Eu pareço pequena. Sou pequena. Perco imediatamente o potencial para “mãe de tudo”. Viro filha, quero colo, infantilizada pela tristeza. Conheço essa tristeza. É a tristeza dos sem sentidos. Perdem-se cheiros, gostos e belezas. Esquece-se o que havia de fazer. É tudo pequeno. Perde-se o sentido. Quando sobra espaço para questões, pergunta-se (e nisso há força) – “O mundo sempre foi esse lugar triste?”. Quando não há força – “Que dor.”.

Lavo o banheiro com a imagem do menino na minha cabeça. Uma criança. Do banheiro para a cozinha. Uma criança. Corrijo as provas mecanicamente. E preparo uma aula sobre os conflitos na Síria.

Enfim, a maratona do meu dia se inicia. Não há vencedores. Corro, mecanicamente, para aonde? Corro para quê? Não sei… não sei se eu sobreviveria à dor sem correr. Deixo pra lá a pacacidade do Sana… Não tenho coragem de parar, as serpentes estão por aí… Gostam do mato… E dizem que elas convencem.

 

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Este post tem 2 comentários

  1. SÉRGIO PROVISANO

    A gente, Carol Poesia, corre, diariamente, maratonas… A vida é uma maratona constante e não há nada de olímpico nisso, não há medalhas de ouro, só tédio.

    Também nos assola a solidão do ser, e temos que sempre nos atualizar, responder aos e-mails, atualizar status e coisa e tal… É sempre a mesma coisa sempre, mas o que varia é o café, no meu caso, o capucinno, que eu mesmo preparo o pó, um pó alquímico e compartilho com amigos… Transformo essa espécie de congraçamento, num encontro de ideias e amizade, ideias como as que encontrei e absorvi ao ler teu texto que me levou a pensar que a vida, por mais que queiramos imaginar que é variável, não é, ela tem que ser, diariamente, cotidianamente, ser feita um upgrade e assim seguiremos vivendo… amei saber que serpente é tédio.

  2. Carol Poesia

    Sérgio, eu fiquei realmente muito emocionada com o seu comentário! Obrigada pela atenção e pela troca! Que prazer!

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