Guilherme Carvalhal — O eleito

 

Carvalhal 26-08-16

 

 

As loas do público diante do palanque da cerimônia de posse. Faixas estampando seu nome e a retumbante vitória no primeiro turno. Soldados armados, uns formando o cordão de isolamento, outros preparados para a salva de tiros. “Nunca nos decepcionará”, eis o lema escolhido pelo público, exposto em faixas, camisas e bandeira.

Os jornais alardearam: o presidente para nos livrar da crise. Uma liderança natural, nascida com o tino do controle, de chamar a responsabilidade para si. Não vacila em momentos de dificuldade, não cede à pressão da oposição. Sabia ouvir e aceitar opiniões diversas, mas tomava as decisões conforme seu senso de correção. Passava longe da demagogia e nunca traía sua palavra.

Para o eleitorado, ele remetia a toda simbologia desejada pela cultura popular. Nasceu na classe média, formou-se na faculdade, falava bem e tinha uma bela família. Passava ao mesmo tempo o ar de modernidade e de humildade. Conversava com qualquer pessoas, de qualquer classe, sem preconceitos. Abraçava pedreiro, vendedor de lanchonete, dona de casa, eletricista, dentista, médico, dono de loja, juiz e sempre dialoga de igual para igual. Demonstrava inteligência e empatia, recebia as palavras de cada um com prazer. O aposentado disse que o ganho era pouco e ele explicava as alternativas para melhorar, o empresário questionava a quantidade de impostos e ele, com coerência, apontava as dificuldades de uma correção para baixo tendo em vista as obrigações fiscais do Governo. Não prometia o impossível, discursava serenamente e isso convencia.

Em suas funções anteriores, ele obteve excelente resultado nas pesquisas de opinião, além de cumprir metas objetivas. Em seus dois mandatos como Governador foi responsável pela melhora do rendimento na educação, pela maior universalização da saúde e pelo fomento ao crédito via parceria público-privada, o que aumentou a produção e reduziu desemprego. Como senador aglutinou propostas de setores diversos da sociedade, de crianças a idosos, homens e mulheres, conquistando sua marca de representante de todas as categorias.

Daí as crescentes expectativas. Diante da inflação e do desemprego galopantes, todos desejavam um bom presidente. Reconheceram nele essa pessoa, um tipo ideal, alguém imbuído de encaminhá-los ao progresso, de assumir a vanguarda dessa marcha. Isso explicou os 70% de votos obtidos e a presença massiva da população, com bandeiras e cornetas querendo assistir quando receber a faixa.

Quando anunciaram sua presença nas caixas de som, o povo todo se empolgou. Gritavam seu nome a plenos pulmões, ávidos pelo início de sua era. Concretizavam um sonho com o tão esperado presidente. O bom presidente. O que jamais os decepcionará. Ele subiu ao palanque vindo de trás, passando pela guarda. Ignorou os muitos partidários, quebrando parte do protocolo. Todos riam e ele manteve seu semblante fechado, destoando do que apresentou durante a campanha.

Foi à frente do palco. Tomou o microfone com suas mãos trêmulas e suadas, o suor nunca visto antes. Encerrou sua participação com uma simples palavra:

— Renuncio.

 

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Este post tem um comentário

  1. Savio

    Ao longo do texto que descreve este imaginário do povo brasileiro, que de algum lugar, sairá um “salvador da pátria”, fui pensando em vários “possíveis”, mas este do texto foi mais honesto do que os da vida real:_Renunciou!

    __Quem sabe, seja uma premonição do autor, de algo possível de acontecer?

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