Opiniões

Fabio Bottrel — Uma Palavra Escrita com Lágrimas

 

Sugestão para escutar após a leitura: DmitriShostakovich – The Jazz álbum

 

 

 

 

Bottrel 26-11-16

 

 

Quando minhas primeiras palavras derramadas das lágrimas molharam suas mãos era 26 de março desse ano, o líquido que vem da alma se empoçou e compôs o primeiro texto a ser publicado nesse recinto intitulado O Anfitrião Goytacá. Águas de março chovendo na mente previa que a poça se tornaria um rio a ser represado nas páginas desse livro Uma Palavra Escrita com Lágrimas, coletânea de contos e crônicas escritos por mim e postado por Aluysio Abreu Barbosa em seu blog Opiniões, que com toda a minha gratidão me honra esse espaço. De lá para cá, com esse texto, contam 33 escritos fluidos como a correnteza que leva a natureza, também levou nos bits as palavras transitivas no cerne intransitivo. Com a capa pronta para ser apreciada aqui em primeira mão, o livro começou a ser editado por mim mesmo, que me dedico a fazer todo o processo desde a escrita à confecção, iniciando com a diagramação após a capa, a escolha do papel para deitar em sua mão com todo o carinho, a impressão, o corte, a costura e por fim a encadernação. Com toda a dedicação, o título não poderia ser diferente, cada palavra teve a sua dor e a alegria, não raro me emocionava enquanto escrevia, tal como no conto A Filha da Natureza, sobre uma índia goitacá escrito em homenagem ao dia do índio. Emocionante em todas as releituras.

Como a proposta da escrita “bloguesca” é transformar todos os eventos que me marcaram ou a história local em literatura, o livro conta com um rico material todo ambientado em Campos dos Goytacazes, são 33 histórias diferentes que se passaram nessa terra goitacá, às vezes com personagens reais, denúncias metafóricas, e um pé na autoficção quando dilui a fronteira entre o real e o imaginário. Mal terminei essa proposta e já fervilha outra na mente que nascerá não só como livro, se debatendo dentro de mim para que seja posta em prática e ganhe vida o quanto antes.

Relembrando o texto tido como o primeiro passo dessa caminhada, apresento aqui O Anfitrião Goytacá, escrito cheio de esperança de que um dia eu te escrevesse dessa maneira, sobre o livro escrito com as lágrimas desses textos, obrigado.

 

 

O Anfitrião Goytacá

 

— Campos é uma cidade em busca da juventude perdida como uma criança que não teve infância, meu jovem, se tem projetos de vida, veio ao lugar certo. – Disse o homem de pele marcada, virando uma dose de cachaça assim que eu me ajeitei no balcão.

— Não se escuta isso de quem viveu 50 anos tomando o mesmo café, usando o mesmo açúcar, espreitando da janela a cana velha que nessa terra não nasce mais.

Por arrancarem meus olhos com foice enferrujada não enxerguei o futuro, me afundei no passado. Hoje o que me resta é o reflexo no fundo desse copo de cachaça com tabaco, em cada dose as palavras que me faltaram, os sorrisos que desconheci.

Escute bem, meu rapaz, afofei essa terra com cuspe e sangue quente, aqui plantarás sua semente e dela colherás frutos somente se enraizar na sua mente. Sou descendente dos Goytacazes, não me dizimará mãos de capatazes, honre a minha memória e faça dela a glória. Quantos oceanos há de atravessar para encontrar o seu lugar?

— Meu senhor, nasci de um aborto, meu dente é rente, é tilintar pro teu sangue quente, se Campos me deu lugar, aqui, vou ficar. Não se engane, quando a guerra acaba sou o soldado no campo de batalha, defendo a minha pátria nem que seja com navalha. Afaste de mim essa enxada, cheguei até aqui com as palavras colhidas das flores, nelas vou pra onde a minha vista não alcança e levo junto o teu nome pra longe dessa manada.

— Rapaz, tire do seu peito esse ranço, veja na minha pele que a vida não me fez manso, não deixe que ela faça o mesmo com você. O dia já está se deitando pra noite aconchegar, deveria procurar um lugar ou alguém que faça o teu sorriso se abrir.

— Senhor, vejo tuas marcas, bem sabes que a ferida maior está onde não se pode ver. A verdade é que poucos desamados sabem ser altruístas, tempos mortos para o meu coração não se transformam em virtudes, aguçam a pobreza da minha essência. Meu senhor, devolverei teus olhos, facão nenhum cortará a tua gana, nessas palavras está o meu sangue e dele você há de beber. — Terminei a dose de um só gole e bati o copo no balcão, limpei a boca com o dorso da mão.

— Não tenha pressa garoto, seria melhor se não deixássemos esse bar, já sabemos o que nos espera lá fora. Pegue uma cadeira, sente-se, agora temos todas as semanas, nesse mesmo dia, para te contar o que vivi…

Campos dos Goytacazes, 26/03/2016

 

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Este post tem um comentário

  1. Belíssimo!

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